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Gelo ardente

O Preço da Perfeição e o Sabor do Pecado

O jantar em Montreal deveria ter sido um cessar-fogo, mas na patinação artística, a trégua é apenas o tempo que o gelo leva para endurecer novamente. Duas semanas haviam se passado desde que Julia e Ilia compartilharam aquela noite em um restaurante escondido, longe dos olhos da ISU e dos tablóides. Naquela noite, as defesas baixaram, mas o retorno ao circuito de competições trouxe o inverno de volta com força total.

Julia estava em Moscou, no centro de treinamento de Sergei, quando a notícia estourou. O mundo da patinação era pequeno, e os rumores corriam mais rápido que um Axel triplo. Nikolai Volkov, o prodígio russo e atual campeão europeu, havia sido transferido para o mesmo grupo de treinamento de Julia. Nikolai era o oposto de Ilia: reservado, poético no gelo e dono de uma beleza clássica eslava que fazia as câmeras se apaixonarem.

— Você parece distraída, Julia — comentou Nikolai, deslizando para perto dela durante o treino matinal. — O gelo de Moscou não perdoa quem está com a cabeça na América.

Julia parou sua sequência de passos, respirando com dificuldade. O vapor de sua respiração se dissipava no ar gélido do rinque.

— Minha cabeça está exatamente onde deveria estar, Nikolai. No meu programa.

— Hm, não é o que dizem os jornais — Nikolai sorriu, um sorriso calmo, mas carregado de intenção. Ele estendeu a mão e ajeitou uma mecha de cabelo que fugira do coque de Julia. — Dizem que o "Deus do Quadruplo" anda mandando flores para a Rússia.

Julia recuou um passo, o som das lâminas cortando o gelo ecoando no vazio da arena.

— Ilia é apenas um rival com ego inflado. Nada mais.

— Ótimo — Nikolai se aproximou mais, invadindo seu espaço de uma forma que não era agressiva como a de Ilia, mas sim envolvente. — Porque eu pretendo mostrar a você que a elegância russa ainda supera a audácia americana. Em todos os sentidos.

A tensão entre os dois era palpável, mas era uma tensão diferente. Com Ilia, era fogo e explosão; com Nikolai, era um frio persistente que queimava a pele.

A situação atingiu o ponto de ebulição durante o Troféu Finlândia. Ilia, Nikolai e Julia estavam todos no mesmo hotel. O clima no lobby era pesado o suficiente para ser cortado com uma faca. Quando Ilia viu Nikolai rindo ao lado de Julia perto da mesa de café, seu rosto se transformou em uma máscara de fúria contida.

— Olha só quem decidiu aparecer — Ilia disse, aproximando-se com aquele andar confiante que Julia tanto odiava e desejava. — O poeta do gelo. Veio recitar versos para a Julia ou veio apenas perder o pódio para mim de novo?

Nikolai não se abalou. Ele colocou a mão possessivamente no ombro de Julia.

— Eu vim garantir que ela esteja em boa companhia, Malinin. Coisa que, pelo que ouvi, você não sabe proporcionar.

Ilia soltou uma risada seca, mas seus olhos queimavam. Ele olhou diretamente para Julia, ignorando Nikolai por completo.

— É assim, Cenci? Agora você gosta de quem segura sua mão e lê poesia? Achei que você preferisse algo mais... intenso. Algo que te fizesse perder o fôlego, como em Tallinn.

Julia sentiu o sangue ferver. A menção a Tallinn na frente de Nikolai era um golpe baixo, mesmo para os padrões de Ilia.

— Cala a boca, Ilia — sibilou ela. — Você não é dono de nada.

— Talvez não — disse Ilia, dando um passo à frente, forçando Nikolai a recuar ou encarar uma briga física. — Mas eu fui o primeiro. E nós dois sabemos que, por trás dessa sua pose de santa russa, você ainda quer que eu te coloque contra a parede como fiz no Canadá.

— Chega! — Julia gritou, atraindo olhares de outros patinadores. — Eu cansei de vocês dois. Cansei desse joguinho de quem tem o maior ego.

Ela se virou e saiu pisando fundo, mas não foi para seu quarto. Ela precisava de ar. Precisava de silêncio.

Ela acabou na sala de fisioterapia vazia do hotel, sentada em uma das macas, tentando controlar a trepidação em suas mãos. A porta se abriu com um estrondo pouco depois. Ilia entrou, trancando a fechadura atrás de si.

— Sai daqui, Ilia. Eu não estou brincando.

— Eu também não estou — ele disse, a voz vibrando de uma forma que Julia nunca tinha ouvido. Ele atravessou a sala em três passos largos. — Que porra foi aquela com o Volkov? Você está deixando aquele idiota tocar em você?

— Eu faço o que eu quiser! — Julia se levantou da maca, ficando cara a cara com ele. — Você não tem direito nenhum de sentir ciúmes. Nós não somos nada, lembra? "Um erro de julgamento", foi o que eu disse.

— Um erro que você repetiu no corredor de Montreal! — Ilia rugiu, segurando-a pelos braços. — Você pode mentir para o mundo, Julia, mas não para mim. Eu sinto como seu corpo reage quando eu chego perto. Eu sinto seu coração disparar.

— É ódio, Ilia! É puro ódio!

— Então me odeia — ele sussurrou, prensando-a contra a parede fria, exatamente como ela temia e esperava. — Me odeia até não sobrar mais nada.

O beijo que se seguiu foi violento, uma colisão de anos de rivalidade e desejo reprimido. Julia tentou empurrá-lo, suas mãos batendo no peito firme dele, mas em segundos seus dedos se cravaram no tecido da camiseta de Ilia. Ela o puxou para mais perto, soltando um gemido de frustração e rendição.

Ilia não foi gentil. Ele a levantou, as pernas de Julia envolvendo sua cintura automaticamente. Ele a colocou sobre a mesa de massagem, afastando os equipamentos com um movimento brusco.

— Você é minha, Julia — ele murmurou contra o pescoço dela, deixando marcas que ela teria dificuldade em esconder com a maquiagem no dia seguinte. — Do Brasil, da Rússia, não importa. Você é minha desde os quinze anos.

— Eu não sou de ninguém — ela arquejou, enquanto as mãos de Ilia subiam por baixo de sua blusa, encontrando a pele quente. — Mas hoje... hoje eu quero que você me faça esquecer o nome daquele russo.

O que se seguiu foi uma explosão de necessidade. Não havia a delicadeza que Nikolai oferecia, nem a técnica fria que Sergei exigia no gelo. Havia apenas a pele de Ilia contra a dela, o som da respiração pesada e o ritmo frenético de dois corpos que se conheciam desde a infância e se desejavam como o pecado.

Ilia a possuía com uma urgência que beirava o desespero, como se quisesse marcar cada centímetro dela para que ninguém mais pudesse tocar. Julia, por sua vez, respondia com a mesma intensidade, arranhando as costas dele, puxando seu cabelo, deixando que a "Dama de Gelo" derretesse completamente sob o calor do garoto que ela jurara odiar.

Quando terminou, o silêncio da sala de fisioterapia parecia mais pesado do que antes. Eles se vestiram em um silêncio tenso, a eletricidade ainda estalando no ar.

Ilia ajeitou a gola da camisa, seu rosto recuperando a máscara de confiança, mas seus olhos ainda estavam escuros de desejo.

— Isso não muda a competição de amanhã — disse Julia, tentando recompor sua voz, embora suas pernas ainda estivessem trêmulas.

— É claro que não — Ilia sorriu, aquele sorriso safado e provocativo de volta aos lábios. — Amanhã eu vou ganhar o ouro. E depois, eu vou querer minha recompensa.

Ele caminhou até a porta, mas parou antes de sair.

— E um aviso, Cenci... Se eu vir o Volkov tocando em você de novo, eu vou quebrar a cara dele no meio do gelo, na frente de todos os juízes. Eu não divido meus brinquedos.

Ele saiu, deixando Julia sozinha com o cheiro dele ainda em sua pele e o coração batendo em um ritmo que nenhuma música clássica russa conseguiria acompanhar.

No dia seguinte, a competição foi um campo de batalha. Nikolai patinou com uma perfeição lírica, lançando olhares constantes para Julia enquanto ela esperava sua vez. Quando foi a vez de Ilia, ele executou cinco quádruplos, incluindo o Axel, com uma agressividade que assustou os juízes. Ele não estava apenas patinando; ele estava marcando território.

Julia entrou no gelo por último. Ela sentia o olhar de Nikolai de um lado e o de Ilia do outro. Um oferecia paz e admiração; o outro oferecia caos e uma paixão que a consumia.

Ela começou seu programa longo. No meio da sequência de passos, ela passou perto de onde Ilia estava encostado na mureta. Ele piscou para ela, um gesto imperceptível para o público, mas que fez o sangue de Julia ferver.

Ela executou sua combinação mais difícil, aterrissando com uma força que parecia querer quebrar o gelo. Ao terminar, ela não olhou para os juízes. Ela olhou para a lateral da pista.

Nikolai estava lá, batendo palmas educadamente, com um olhar de dúvida. Ilia estava lá, com um sorriso de possessão absoluta.

No pódio, a tensão era insuportável. Ilia ficou com o ouro masculino, Nikolai com a prata. Julia levou o ouro feminino. Durante a sessão de fotos, Ilia se posicionou estrategicamente ao lado de Julia, sua mão pousando pesadamente na cintura dela, os dedos pressionando a carne através do tecido fino do vestido de competição.

Nikolai percebeu o gesto e seus olhos se estreitaram.

— Você está bem, Julia? — perguntou Nikolai em russo, tentando se aproximar. — Você parece cansada.

Antes que ela pudesse responder, Ilia interveio, falando em inglês com um tom cortante.

— Ela está ótima, Volkov. Só precisa de um descanso que só eu sei proporcionar. Não é, Julia?

Julia olhou de um para o outro. Ela via a promessa de uma vida tranquila com Nikolai, uma carreira estável, o respeito da federação russa. E via o abismo que era Ilia Malinin — o escândalo, a provocação, o sexo que a deixava sem sentidos e a rivalidade que a mantinha viva.

— Eu estou bem, Nikolai — disse Julia, sua voz fria como o gelo que ela pisava. — Mas Ilia tem razão. Eu tenho planos para esta noite.

O rosto de Nikolai escureceu, e ele se afastou sem dizer mais uma palavra.

Ilia inclinou-se para o ouvido de Julia, enquanto os flashes das câmeras disparavam ao redor deles.

— Boa escolha, Cenci. Agora, vamos sair daqui. Eu tenho uma suíte com vista para o lago e zero paciência para esperar.

Julia permitiu que ele a guiasse para fora do pódio. Ela sabia que estava brincando com fogo. Sabia que Nikolai não desistiria fácil e que Sergei ficaria furioso se descobrisse a distração. Mas, enquanto sentia a mão de Ilia em sua pele, ela percebeu que a "Dama de Gelo" nunca quis realmente ser salva. Ela queria ser incendiada.

— Você é um desastre para a minha carreira, Malinin — sussurrou ela enquanto entravam no elevador do hotel.

Ilia a prensou contra o espelho do elevador, as mãos já subindo pelas suas coxas.

— Mas eu sou o melhor desastre que já aconteceu na sua vida. E você sabe disso.

As portas do elevador se fecharam, escondendo-os do mundo, mas a guerra na patinação artística estava apenas começando. Entre o gelo da Rússia e o fogo da América, Julia Cenci estava prestes a descobrir que, no amor e na competição, não existem regras — apenas sobreviventes.