Voltar ao resumo

Gelo ardente

Cinzas e Diamantes no Gelo

A luz da manhã em Helsinque era de um azul pálido e impiedoso, filtrando-se pelas frestas da cortina pesada e iluminando a bagunça de lençóis de seda e roupas de marca espalhadas pelo chão. Julia acordou com a sensação de peso em sua cintura. O braço de Ilia estava jogado sobre ela, possessivo até mesmo no sono profundo. Por um momento, o silêncio do quarto de luxo pareceu um santuário, um vácuo onde as notas dos juízes e as expectativas da Federação Russa não podiam alcançá-la.

Ela se virou lentamente, tentando não acordá-lo, e observou o rosto dele. Sem o sorriso convencido e o olhar provocador, Ilia Malinin parecia quase... humano. O "Deus do Quadruplo Axel" tinha olheiras leves e o cabelo loiro estava um desastre completo. Julia sentiu uma pontada familiar de irritação misturada a algo que ela se recusava a nomear como carinho. Ele era o seu maior problema, a sua distração mais perigosa e, contraditoriamente, a única pessoa no mundo que entendia o que era carregar o peso de um país nas lâminas dos patins.

— Se você continuar me encarando assim, vou começar a cobrar ingresso, Cenci — murmurou Ilia, a voz rouca pelo sono, sem sequer abrir os olhos.

Julia congelou por um segundo antes de bufar e tentar se desvencilhar do abraço dele.

— Você é um narcisista incurável, Malinin. Eu estava apenas pensando em como vou explicar para o Sergei que meu pescoço parece ter sido atacado por um animal selvagem.

Ilia abriu um olho, um brilho de malícia disparando em direção a ela. Ele a puxou de volta para o colchão com uma facilidade irritante, prendendo-a sob seu corpo.

— Um animal selvagem com uma medalha de ouro, por favor. Tenha um pouco de respeito pelo campeão.

— O campeão que quase perdeu nos componentes artísticos para uma "Dama de Gelo" — retrucou ela, colocando as mãos no peito nu dele para manter uma distância mínima. — Saia de cima de mim. O ônibus para o aeroporto sai em duas horas e eu ainda preciso passar no meu quarto para pegar minhas malas e fingir que dormi lá.

Ilia suspirou, mas não se moveu. Ele inclinou a cabeça, roçando o nariz no dela, o tom de voz mudando para algo que beirava a seriedade.

— Tallinn, Montreal, Helsinque... — Ele começou a listar, a voz baixa. — Quantas cidades mais a gente vai precisar para você parar de fingir que isso é só um "erro de julgamento"?

Julia sentiu o coração falhar uma batida. Era a primeira vez que ele baixava a guarda de forma tão direta, sem uma piada para amortecer a queda.

— O mundo da patinação é pequeno demais para nós dois, Ilia. Você sabe disso. Se a Rússia descobrir... se os EUA descobrirem...

— Que se danem as federações — ele interrompeu, os olhos azuis fixos nos dela. — Eu não patino para eles. Eu patino para ser o melhor. E eu quero você ao meu lado enquanto eu faço isso. Não como uma rival que eu vejo de quatro em quatro meses, mas...

— Mas o quê? — desafiou ela, embora sua voz estivesse trêmula. — Você quer uma namorada, Ilia? Você quer alguém para segurar sua mão na zona mista? Isso destruiria a sua imagem de "bad boy" da patinação. E destruiria a minha reputação de frieza absoluta. Nós somos marcas, Ilia. Não somos pessoas.

Ilia soltou um riso amargo e finalmente se afastou, sentando-se na beira da cama com as costas voltadas para ela.

— Às vezes eu esqueço que você foi treinada pelos russos. Eles realmente arrancaram o seu coração e colocaram um pedaço de gelo no lugar, não foi?

Julia sentiu a picada das palavras dele. Ela se levantou, enrolando-se no lençol, e começou a catar suas roupas pelo chão com uma dignidade que não condizia com a situação.

— Eles me ensinaram a sobreviver — disse ela, vestindo o sutiã com as mãos trêmulas. — No meu mundo, se você mostra uma fraqueza, eles te trituram. E você, Ilia, é a minha maior fraqueza.

Ele se virou para ela, a expressão suavizando instantaneamente.

— Então admita.

— Eu acabei de admitir — ela sussurrou, vestindo o vestido esmeralda que agora parecia um lembrete amassado de sua rendição. — Mas isso não muda o fato de que, daqui a duas horas, eu sou a russa e você é o americano. E na Final do Grand Prix, eu vou fazer de tudo para que você fique em segundo lugar.

Ilia levantou-se e caminhou até ela, parando a centímetros de distância. Ele ajeitou a alça do vestido dela, seus dedos demorando-se na pele quente do ombro de Julia.

— Eu não esperaria nada menos de você — disse ele, o sorriso de lado voltando, embora não chegasse aos olhos. — Mas não se esqueça, Cenci... eu gosto de desafios. E o desafio de derreter você por completo é o meu favorito.

Julia não respondeu. Ela calçou os saltos, pegou sua bolsa e caminhou até a porta. Antes de sair, ela olhou por cima do ombro.

— Tente não se meter em problemas até o Japão, Malinin.

— Sem promessas, "Dama de Gelo". Sem promessas.

O trajeto de volta para o seu próprio quarto foi um borrão de corredores vazios e paranoia. Julia conseguiu entrar sem ser vista, jogando-se no chuveiro e deixando a água quente lavar o cheiro de Ilia de sua pele, embora soubesse que a sensação dele permaneceria gravada em sua memória muscular.

No aeroporto, a equipe russa era uma muralha de seriedade. Sergei estava de braços cruzados, observando os atletas com olhos de águia. Nikolai Volkov estava sentado em um canto, lendo um livro de poesias, mas levantou o olhar assim que Julia apareceu.

— Você parece... exausta, Julia — comentou Nikolai, sua voz suave carregando uma nota de suspeita. — Não conseguiu descansar depois da gala?

— A música estava alta demais — mentiu ela, ajustando os óculos escuros para esconder as marcas de cansaço. — Minha cabeça ainda está latejando.

— Entendo. — Nikolai fechou o livro e se levantou, aproximando-se dela. — Sabe, o Sergei comentou que o Malinin também não foi visto no café da manhã. Coincidência curiosa, não acha?

Julia sentiu um calafrio que não tinha nada a ver com o ar-condicionado do aeroporto.

— Eu não acompanho a agenda do americano, Nikolai. E você também não deveria.

— Só estou preocupado com você — disse ele, a mão pousando levemente no braço dela. — Você é o diamante da nossa equipe. Não gostaria de ver você manchada por... influências externas de má qualidade.

Julia estava prestes a dar uma resposta afiada quando o barulho de risadas altas ecoou pelo saguão. A equipe americana estava chegando. No centro deles, Ilia caminhava com uma energia inesgotável, brincando com um dos técnicos. Ele usava fones de ouvido em volta do pescoço e uma jaqueta da equipe que parecia nova demais.

Quando seus olhos encontraram os de Julia, ele não desviou. Ele não piscou, não sorriu. Ele apenas a encarou com uma intensidade predatória que fez Nikolai apertar o braço de Julia de forma quase imperceptível.

— Olhem só — exclamou Ilia, aproximando-se do grupo russo com uma audácia que beirava a insanidade. — A elite de Moscou aguardando o embarque. Como vai o pescoço, Cenci? Ouvi dizer que o ar da Finlândia pode ser bem... agressivo para a pele sensível.

Sergei deu um passo à frente, sua presença imponente silenciando o terminal por um segundo.

— Malinin. Vá para o seu portão.

— Relaxa, coach — Ilia levantou as mãos em sinal de rendição, mas seu olhar nunca deixou Julia. — Só vim desejar boa sorte. O Japão vai ser quente. Espero que a sua patinadora não derreta antes da hora.

— Eu nunca derreto, Ilia — respondeu Julia, a voz saindo mais firme do que ela esperava. — Mas você deveria se preocupar com a sua própria consistência. Ouvi dizer que quanto mais alto se pula, maior é a queda.

Ilia soltou uma risada curta e deu um passo para trás.

— Eu adoro a queda, Julia. É a única parte que faz a gente se sentir vivo.

Ele se virou e seguiu sua equipe, mas não antes de lançar um olhar rápido para a mão de Nikolai ainda no braço de Julia. O brilho de fúria que atravessou os olhos de Ilia foi tão rápido que ela quase pensou ter imaginado, mas o aperto no estômago dela dizia o contrário.

A viagem de volta para Moscou foi longa e silenciosa. Julia passou as dez horas de voo revisando vídeos de suas apresentações, mas sua mente sempre voltava para o toque de Ilia. Ela sabia que o jogo havia mudado. Não era mais apenas sobre uma noite em Tallinn ou provocações nos bastidores. Havia algo mais profundo, uma corrente elétrica que os ligava e que ameaçava destruir tudo o que eles haviam construído.

Semanas depois, no centro de treinamento de Sambo-70, o rigor era absoluto. Julia treinava doze horas por dia. Seus pés estavam cobertos de bolhas, seus músculos gritavam de exaustão, mas Sergei não dava trégua.

— Mais uma vez, Julia! — gritava ele da borda do rinque. — A sequência de passos precisa de mais drama! Você está patinando como se estivesse com medo do gelo!

Julia limpou o suor da testa e voltou para a posição inicial. Ela estava exausta mentalmente. Toda vez que fechava os olhos, via o sorriso de Ilia. Toda vez que sentia o frio do gelo, lembrava-se do calor dele.

— Ela está distraída — comentou Nikolai, que observava o treino da lateral. — Sergei, talvez ela precise de um parceiro para os treinos de expressão. Eu posso ajudar.

Sergei ponderou por um momento, cruzando os braços.

— Talvez você tenha razão, Nikolai. Julia, faça a sequência coreográfica com o Nikolai. Quero ver se você consegue reagir a outro corpo no gelo sem parecer uma boneca de porcelana.

Julia sentiu uma náusea súbita. Patinar com Nikolai era o oposto de patinar com Ilia. Nikolai era técnico, suave, quase etéreo. Mas não havia faísca. Não havia o perigo que a fazia querer saltar mais alto.

Eles começaram a deslizar juntos. Nikolai segurou a mão dela com uma delicadeza que a irritava. Ele a guiava pelo gelo como se ela fosse algo frágil que pudesse quebrar a qualquer momento.

— Você está tensa — sussurrou Nikolai no ouvido dela enquanto faziam um giro sincronizado. — O que aconteceu na Finlândia, Julia? Você voltou diferente.

— Nada aconteceu, Nikolai. Foque no seu eixo.

— Eu vi você saindo do corredor dele — continuou ele, a voz mantendo o tom calmo, mas as palavras cortando como navalhas. — Eu não sou idiota. Eu sei o que ele é. Ele é um americano vulgar que só quer uma medalha e uma história para contar. Você é maior do que isso.

Julia parou bruscamente, as lâminas rangendo no gelo.

— Você não sabe nada sobre ele. E não sabe nada sobre mim.

— Eu sei que você está colocando sua carreira em risco por causa de um garoto que faz piadas sobre o seu esforço — Nikolai se aproximou, sua expressão agora dura. — Se o Sergei descobrir... se o Conselho descobrir... você nunca mais vai ver o gelo de uma competição internacional. Eles vão te banir antes que você possa dizer "quadruplo".

— Isso é uma ameaça? — perguntou ela, os olhos estreitados.

— É um aviso de um amigo. Fique longe dele no Japão. Ou eu mesmo farei questão de que o Sergei saiba onde você passa suas noites de gala.

Nikolai se afastou, deixando Julia sozinha no centro do rinque. O frio de Moscou parecia ter penetrado em seus ossos de uma forma que ela nunca sentira antes. Ela estava encurralada entre dois mundos, dois homens e uma ambição que exigia o sacrifício de sua própria alma.

Naquela noite, ela quebrou uma das regras mais estritas de Sergei. Ela pegou o celular escondido e discou um número que não deveria estar em seus contatos.

A chamada foi atendida no segundo toque.

— Cenci? — A voz de Ilia soou do outro lado, filtrada por milhares de quilômetros e pela diferença de fuso horário. — São três da manhã na Rússia. Aconteceu alguma coisa?

— O Nikolai sabe — disse ela, a voz saindo em um sussurro apressado.

Houve um silêncio do outro lado da linha. Julia podia ouvir a respiração de Ilia, pesada e constante.

— Ele te ameaçou? — A voz dele mudou instantaneamente, perdendo toda a leveza habitual.

— Ele disse que vai contar para o Sergei se eu me aproximar de você no Japão. Ilia... eu não posso perder isso. Eu treinei a minha vida inteira para este ouro.

— Você não vai perder nada — disse Ilia, o tom agora carregado de uma frieza que rivalizava com a dela. — Deixe o Volkov comigo. No Japão, eu vou garantir que ele não tenha tempo de olhar para você, muito menos de falar.

— O que você vai fazer? — perguntou ela, preocupada.

— O que eu faço de melhor, Julia. Vou ganhar. Vou ser tão avassalador que ninguém vai conseguir focar em nada além da minha vitória. E quanto ao Nikolai... ele vai descobrir que mexer com o que é meu tem um preço muito alto.

— Eu não sou sua, Ilia — lembrou ela, embora sem muita convicção.

— No gelo, talvez não — respondeu ele, e Julia podia quase ver o sorriso torto dele através do telefone. — Mas no escuro, Cenci... no escuro você sabe exatamente a quem pertence. Agora durma. Você tem uma final para vencer. E eu tenho um russo para destruir.

Julia desligou o telefone e olhou para o teto do seu quarto espartano. Ela sabia que o Grand Prix Final no Japão seria um massacre. Não seria apenas uma competição de patinação; seria uma guerra de egos, segredos e traições.

Ela fechou os olhos e, pela primeira vez em semanas, não viu o gelo. Viu o fogo. E, enquanto o sono a envolvia, Julia percebeu que não tinha mais medo de se queimar. Ela estava pronta para incendiar o mundo inteiro, desde que Ilia Malinin estivesse lá para ver as cinzas caírem.

A Dama de Gelo estava derretendo, e o que estava surgindo em seu lugar era algo muito mais perigoso: uma mulher que não tinha nada a perder, exceto o homem que ela jurara odiar. E no Japão, sob as luzes ofuscantes da arena, o mundo veria que o diamante mais puro só é formado sob uma pressão insuportável. E a pressão estava apenas começando.