Gelo ardente
Lâminas de Rancor e o Beijo da Traição
O Japão era para ser o palco da consagração, mas transformou-se no epicentro da ruína. O Grand Prix Final em Osaka não foi apenas uma competição; foi o lugar onde o gelo sob os pés de Julia Cenci finalmente se estilhaçou.
A ameaça de Nikolai Volkov não fora vazia. No dia da patinação livre, fotos de Julia e Ilia saindo de um quarto de hotel em Helsinque circularam anonimamente pelos e-mails da Federação Russa. O escândalo foi abafado para não prejudicar o pódio, mas o preço foi cobrado nos bastidores. Sergei, com seu olhar de aço, deu o ultimato: ou ela cortava qualquer ligação com o americano, ou sua carreira na Rússia terminaria ali, com uma suspensão por comportamento antidesportivo.
— Você é uma vergonha para o nosso clube — sibilou Sergei no vestiário, após Julia conquistar a prata, perdendo o ouro por um erro bobo no último salto. — Aquele garoto não é seu amante, Julia. Ele é a sua destruição. Escolha: o gelo ou o americano.
Julia escolheu o gelo. Não por falta de desejo, mas por medo. Ela era uma brasileira treinada na Rússia; sem o apoio de Moscou, ela não era nada. Naquela mesma noite, em um corredor escuro da arena, ela encontrou Ilia. Ele estava radiante, a medalha de ouro masculina pendurada no pescoço, pronto para levá-la para comemorar.
— Nem mais um passo, Malinin — disse ela, a voz saindo como uma lâmina afiada.
— O que foi agora, Cenci? — Ele sorriu, tentando se aproximar para tocá-la. — O segundo lugar te deixou de mau humor? Eu posso te animar.
— Acabou — ela sentenciou, recuando. — As fotos vazaram. Sergei sabe. Se eu for vista com você de novo, estou fora. Eu não quero mais te ver. Eu não quero mais suas piadas, sua arrogância e, principalmente, não quero mais o seu toque. Você foi apenas um erro que durou tempo demais.
O sorriso de Ilia desapareceu, substituído por uma máscara de frieza que Julia nunca vira.
— Um erro? — perguntou ele, a voz baixa e perigosa. — Então todas as vezes que você gritou meu nome, todas as vezes que implorou para eu não parar... foi tudo encenação?
— Foi apenas sexo, Ilia. E o sexo com você não vale a minha carreira. Suma da minha frente.
Ilia deu um passo à frente, prensando-a contra a parede. O cheiro de suor e gelo dele a atingiu, despertando uma fome que ela tentava esmagar.
— Você está mentindo — ele sussurrou, a mão apertando a cintura dela com força. — Você está com medo. Mas saiba de uma coisa: eu não imploro. Se você quer me tirar da sua vida, considere-se apagada da minha.
Dois anos se passaram.
O ciclo olímpico foi brutal. Julia Cenci mudou. Ela não era mais a "Dama de Gelo"; era a "Rainha de Ferro". Para provar sua lealdade à Rússia e garantir sua vaga nas Olimpíadas de Milão, ela aceitou o que todos esperavam: um namoro público e coreografado com Nikolai Volkov. Eles eram o casal de ouro da patinação russa, capas de revistas, o exemplo de disciplina e elegância.
Ilia Malinin, por outro lado, mergulhou no caos. Ele se tornou ainda mais rebelde, quebrando recordes e corações. Ele assumiu um relacionamento com Chloe Miller, a patinadora americana que Julia tanto detestava. Eles eram explosivos, barulhentos e onipresentes nas redes sociais.
Mas o destino é um juiz cruel. E as Olimpíadas de Inverno finalmente chegaram.
A Vila Olímpica em Milão estava tomada pela tensão. Julia caminhava pelo refeitório ao lado de Nikolai, sua mão entrelaçada na dele. Ela usava o agasalho azul e branco da delegação russa, o rosto impassível.
— Você está tensa, querida — disse Nikolai, beijando a têmpora dela. — É apenas mais uma competição. Nós vamos vencer.
— Eu sei, Nikolai — respondeu ela, mas seus olhos foram atraídos para a entrada.
Ilia entrou acompanhado de Chloe. Ele parecia mais velho, mais robusto, com o cabelo loiro cortado curto. Quando seus olhos encontraram os de Julia, a eletricidade no ar foi tão forte que ela sentiu os pelos do braço se arrepiarem. Ele não desviou o olhar; em vez disso, puxou Chloe para perto e a beijou profundamente, ali mesmo, na frente de todos, enquanto mantinha os olhos fixos em Julia.
— Que exibicionista — comentou Nikolai com desdém.
Julia não disse nada, mas sentiu um gosto amargo na boca. O ódio por Ilia era a única coisa que ainda a fazia sentir-se viva sob a monotonia de sua vida com Nikolai.
Na noite anterior à competição individual feminina, Julia não conseguia dormir. A pressão era sufocante. Ela saiu para caminhar pelos jardins da Vila, buscando o ar frio da noite italiana. Ela acabou na área das lavanderias, um lugar deserto àquela hora.
— Belo anel, Cenci — disse uma voz vinda das sombras.
Ilia estava encostado em uma das máquinas, girando uma garrafa de água na mão. Ele observava a aliança de compromisso que Nikolai lhe dera.
— O que você está fazendo aqui, Ilia? — perguntou ela, o coração disparando.
— O mesmo que você, eu imagino. Tentando não sufocar — ele caminhou até ela, parando no seu espaço pessoal. — Como é a sensação, Julia? Fingir que ama aquele poeta de gelo seco enquanto eu sei exatamente como é o som do seu orgasmo?
— Cale a boca! — Julia tentou passar por ele, mas Ilia a segurou pelo braço, puxando-a para o canto escuro entre as máquinas de lavar industriais.
— Dois anos, Julia — ele rosnou, a voz carregada de uma raiva que escondia um desejo desesperado. — Dois anos vendo você na televisão com ele. Você acha que eu esqueci? Você acha que aquela americana idiota me faz sentir metade do que você me fazia sentir quando me arranhava inteira?
— Você tem a Chloe, Ilia! — ela exclamou, tentando empurrá-lo, mas suas mãos encontraram o peito firme e quente dele. — Deixe-me ir!
— A Chloe é um passatempo. Você é o meu vício — ele a prensou contra a máquina vibrante. — Admita. Você me odeia, mas está morrendo de vontade de saber se eu ainda sou o melhor "erro" da sua vida.
Julia tentou resistir, mas quando a boca de Ilia colidiu com a dela, toda a sua força de vontade evaporou. Foi um beijo violento, cheio de rancor e uma necessidade acumulada por vinte e quatro meses de separação. Ela abriu a boca para ele, sua língua encontrando a dele em uma batalha desesperada.
As mãos de Ilia foram direto para o zíper do agasalho dela.
— Aqui não, Ilia... alguém pode ver — ela arquejou, mesmo enquanto ajudava a tirar a própria jaqueta.
— Que vejam — disse ele, a voz rouca. — Que o mundo inteiro saiba que a Rainha da Rússia ainda pertence ao garoto da Virgínia.
Ele a levantou, as pernas de Julia envolvendo sua cintura. O metal frio da máquina de lavar contrastava com o calor abrasador do corpo de Ilia. Ele livrou-se da calça de moletom com pressa, sua ereção pulsando contra a intimidade de Julia, que já estava ensopada.
— Diga meu nome — ordenou ele, penetrando-a de uma vez, sem preliminares, preenchendo-a de uma forma que Nikolai nunca conseguira.
— Ilia... ah, meu Deus... Ilia! — Julia jogou a cabeça para trás, o som das máquinas funcionando abafando seus gemidos.
O sexo foi bruto, quase punitivo. Ilia a possuía com uma urgência que dizia que ele nunca a perdoaria por tê-lo deixado, mas que nunca deixaria de querê-la. Julia respondia com a mesma moeda, mordendo o ombro dele, puxando seu cabelo, deixando que toda a frustração dos últimos dois anos saísse em forma de prazer puro e pecaminoso.
— Você é minha — ele sussurrou contra o ouvido dela, as estocadas tornando-se mais rápidas, mais profundas. — Nikolai pode ter o seu braço no pódio, mas eu sou o dono de cada centímetro dessa pele.
— Eu te odeio — ela choramingou, sentindo o orgasmo se aproximar como uma onda gigante. — Eu te odeio tanto...
— Ótimo — ele rosnou, atingindo o próprio ápice e derramando-se dentro dela com um rugido abafado. — Use esse ódio amanhã no gelo. Porque eu vou estar lá, assistindo você ganhar o ouro e sabendo que você ainda é a minha cadela russa.
Eles se vestiram em silêncio, a tensão sexual ainda crepitando entre eles, agora misturada com a vergonha e a adrenalina.
— Isso não muda nada — disse Julia, ajeitando o cabelo, a voz trêmula. — Amanhã eu volto para o Nikolai.
— Volte — Ilia sorriu, o brilho provocador de volta aos olhos. — Mas quando ele te beijar no pódio, você vai sentir o meu gosto. E quando ele te tocar à noite, você vai lembrar que foi o meu nome que você gritou hoje.
A competição feminina foi um espetáculo de nervos. Julia patinou como se sua vida dependesse disso. Ela executou cada salto com uma ferocidade que assustou os juízes. Durante sua apresentação, ela olhou para a área dos atletas e viu Ilia. Ele estava sentado ao lado de Chloe, mas seus olhos estavam fixos em Julia, um sorriso de possessão nos lábios.
Julia conquistou o ouro olímpico. Nikolai correu para o gelo para abraçá-la, as câmeras do mundo todo capturando o "beijo da vitória" do casal perfeito. Mas, enquanto Nikolai a segurava, Julia olhou por cima do ombro dele. Ilia estava lá, encostado na mureta, batendo palmas lentamente. Ele levou dois dedos aos lábios e soprou um beijo para ela — um gesto que ninguém mais entendeu, mas que fez Julia sentir como se estivesse nua na frente de todos.
Naquela noite, a festa da vitória foi na Casa da Rússia. Julia estava cercada de burocratas e champanhe, mas sentia-se vazia. Nikolai estava ocupado falando com a imprensa. Ela aproveitou um momento para ir ao banheiro, mas foi interceptada no corredor por Chloe Miller.
A americana parecia furiosa.
— Eu sei o que você fez, sua vadia brasileira — sibilou Chloe, bloqueando o caminho. — Eu vi você saindo da lavanderia ontem à noite. Eu vi as marcas no pescoço do Ilia.
Julia manteve a expressão de ferro.
— Não sei do que você está falando, Chloe.
— Sabe sim! Você acha que é melhor que eu porque tem uma medalha de ouro? O Ilia não te ama, Julia. Você é apenas o desafio dele. Ele me disse que você é fria na cama como é no gelo.
Julia sentiu uma pontada de dúvida, mas logo a afastou. Ela conhecia Ilia. Aquilo era exatamente o tipo de coisa que ele diria para despistar alguém.
— Se eu sou tão ruim assim, por que ele continua voltando para mim por dez anos? — perguntou Julia, aproximando-se de Chloe. — Talvez porque você seja apenas o que ele mostra para o mundo, enquanto eu sou o que ele realmente deseja.
Chloe levantou a mão para dar um tapa em Julia, mas o pulso dela foi segurado no ar. Ilia apareceu, vindo do nada.
— Chega, Chloe — disse ele, a voz fria. — Vá para o hotel. Agora.
— Ilia! Você vai deixar ela falar assim comigo?
— Eu disse para ir embora — ele repetiu, e o tom de autoridade fez a americana recuar, saindo do corredor em prantos.
Ilia olhou para Julia. O silêncio entre eles era carregado de tudo o que não fora dito.
— Ela vai contar para o Nikolai — disse Julia.
— Deixe que conte — Ilia deu um passo à frente, fechando a distância. — Eu cansei de me esconder, Julia. Eu ganhei meu ouro, você ganhou o seu. O que mais nós estamos esperando?
— Nós somos de mundos diferentes, Ilia.
— Não — ele disse, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Nós somos do mesmo mundo. O mundo onde o gelo queima e onde só nós dois sabemos como sobreviver.
Ele a beijou de novo, mas desta vez não havia ódio. Havia uma promessa.
— Venha comigo para os EUA — ele sussurrou. — Deixe o Nikolai, deixe o Sergei. Patine pelo Brasil, patine por você. Mas fique comigo.
Julia olhou para a medalha de ouro em seu peito e depois para o homem à sua frente. Pela primeira vez em sua vida, a Dama de Gelo tomou uma decisão que não era baseada na técnica ou na pontuação.
— Se você fizer uma piada sobre isso, eu te mato, Malinin — disse ela, as lágrimas finalmente começando a cair.
Ilia sorriu, o sorriso mais sincero que ela já vira.
— Eu nunca faria piada com o meu prêmio mais valioso.
Eles saíram da arena juntos, deixando para trás os escândalos, as federações e as expectativas. Naquela noite, em Milão, o mundo da patinação artística mudou para sempre. O casal de ouro da Rússia havia se quebrado, e uma nova dinastia estava começando — uma forjada no fogo, no gelo e em uma paixão que nenhuma regra olímpica poderia conter.
O gelo era frio, mas o futuro deles, finalmente, prometia ser quente. E enquanto caminhavam em direção ao carro de Ilia, Julia soube que, não importa quantos saltos desse na vida, ele sempre estaria lá para ser o seu porto seguro — ou o seu erro mais delicioso.