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Gelo ardente

O Gelo Derrete Sob o Fogo de Milão

A Vila Olímpica de Milão, à noite, era um labirinto de sombras e luzes de segurança que refletiam no asfalto úmido. O ar cortante da Itália entrava nos pulmões de Julia Cenci como agulhas, mas ela precisava disso. Precisava sentir algo que não fosse o peso sufocante da medalha de ouro que agora descansava em sua mesa de cabeceira e a presença vigilante de Nikolai Volkov.

Ela caminhou até a área das lavanderias industriais, um lugar que cheirava a sabão em pó e metal quente, esperando encontrar a solidão que o dormitório da delegação russa lhe negava. No entanto, assim que a porta automática se fechou atrás dela, o cheiro de ozônio e o calor das secadoras foram substituídos por um aroma cítrico e amadeirado que ela reconheceria em qualquer lugar do mundo.

— Belo anel, Cenci. — A voz de Ilia Malinin surgiu das sombras, carregada de um deboche que, após dois anos de silêncio forçado, soou como um trovão. — Combina com a coleira que o Nikolai colocou em você.

Julia parou, o coração martelando contra as costelas. Ilia estava encostado em uma das máquinas de lavar, brincando com uma garrafa de água. Ele parecia mais largo, mais homem, e o brilho nos olhos azuis era de uma fome que as câmeras nunca conseguiam captar totalmente.

— O que você está fazendo aqui, Ilia? — perguntou ela, tentando manter a voz firme, a "Rainha de Ferro" que o mundo aprendeu a temer. — Chloe deve estar sentindo falta do seu troféu de ouro na cama.

— Chloe é um acessório de marketing, e você sabe disso — disse ele, descolando-se da máquina e caminhando em direção a ela com a graça predatória de um patinador que sabe exatamente onde o gelo é mais fino. — O que eu quero saber é como você consegue. Como consegue olhar para aquele russo medíocre e fingir que ele te faz sentir o que eu faço?

— Nikolai é meu noivo. Ele me deu estabilidade. — Ela recuou, mas suas costas encontraram a superfície fria de uma secadora industrial.

— Ele te deu uma prisão de gelo. — Ilia parou a centímetros dela, o calor que emanava de seu corpo obliterando o frio da noite. — Mas eu vi você hoje no rinque. Você não patinou para os juízes. Você patinou para mim. Cada salto, cada olhar... você estava gritando por mim.

— Você é um convencido, Malinin. — Julia tentou empurrá-lo, mas suas mãos encontraram o peito firme dele, e a memória do toque dele, de Tallinn a Helsinque, inundou seus sentidos.

— Sou — admitiu ele, segurando os pulsos dela e prendendo-os acima de sua cabeça contra o metal da máquina. — E sou o único homem que sabe que essa sua frieza é apenas um disfarce para o incêndio que você esconde por dentro.

Ilia não deu tempo para que ela respondesse. Ele a beijou com uma violência desesperada, um choque de dentes e línguas que carregava dois anos de ressentimento, desejo e obsessão acumulados. Julia gemeu contra a boca dele, sua resistência desmoronando no instante em que sentiu o gosto dele novamente. Ela abriu as pernas, permitindo que ele se encaixasse entre suas coxas, sentindo a rigidez dele através do tecido fino do agasalho olímpico.

— Ilia... aqui não... — ela arquejou, mesmo enquanto suas mãos se soltavam e puxavam o cabelo loiro dele, trazendo-o para mais perto.

— Aqui, agora, em qualquer lugar — rosnou ele contra o pescoço dela, seus dentes cravando-se na pele sensível, logo acima da linha do uniforme. — Eu cansei de esperar, Julia.

Com um movimento impaciente, Ilia puxou o zíper da jaqueta dela, expondo o sutiã esportivo e a pele pálida que ele tanto cobiçara. Seus dedos, ágeis como se estivessem executando uma sequência de passos complexa, desceram para o cós da calça de moletom de Julia, puxando-a para baixo junto com a calcinha de renda.

Julia soltou um suspiro longo quando os dedos de Ilia a encontraram, já úmida e pulsante. Ele a explorou com uma agressividade possessiva, conhecendo cada ponto que a fazia perder o juízo.

— Diga — ordenou ele, a voz rouca, enquanto desfazia o próprio cinto. — Diga que o Nikolai nunca chegou perto de te deixar assim.

— Ele... ele não é você — confessou ela, a cabeça jogada para trás, os olhos revirando de prazer enquanto Ilia a levantava, forçando-a a envolver a cintura dele com as pernas.

Ilia posicionou-se e, com um impulso firme e profundo, ele a penetrou. O impacto fez Julia soltar um grito abafado no ombro dele. Era uma sensação de retorno, de preenchimento completo que ela tentara negar a si mesma durante todo o ciclo olímpico.

— Você é minha — disse ele, começando um ritmo frenético e implacável, cada estocada ecoando contra o metal vibrante da máquina de lavar atrás dela. — Minha rival, minha Rainha, minha...

Julia apertou os ombros dele, as unhas cravando-se na pele de Ilia, deixando marcas que seriam impossíveis de esconder no dia seguinte. O movimento dele era bruto, uma coreografia de puro instinto. Ela sentia cada nervo de seu corpo entrar em combustão, o prazer subindo em ondas que a faziam arquear as costas e buscar a boca dele para silenciar seus próprios gemidos.

— Mais... Ilia, por favor... — ela implorou, o quadril movendo-se em sincronia com o dele, buscando mais profundidade, mais contato.

Ele acelerou, o som da respiração pesada e dos corpos se chocando preenchendo o ambiente estéril da lavanderia. Ilia a virou de costas, prensando o rosto dela contra o vidro circular da secadora, e a possuiu por trás com uma força que a fez morder o lábio até sangrar para não gritar o nome dele para toda a Vila Olímpica ouvir.

— Olhe para o reflexo, Julia — ele comandou, a voz falhando enquanto o ápice se aproximava. — Olhe para quem realmente está te dando o que você precisa.

Ela abriu os olhos e viu, no reflexo turvo, a imagem de dois campeões olímpicos desmoronando em luxúria, a perfeição dos atletas de elite substituída pela verdade crua do desejo. Quando o orgasmo a atingiu, foi como uma queda livre de um salto quadruplo mal calculado — avassalador, violento e absoluto. Julia tremeu nos braços dele, sentindo Ilia atingir o próprio limite logo em seguida, derramando-se dentro dela com um rosnado de triunfo.

Eles ficaram ali por um longo tempo, o único som sendo o das máquinas girando e o de suas respirações ofegantes. Ilia não a soltou imediatamente; ele a manteve perto, beijando suas costas suadas com uma ternura que ele raramente mostrava.

— Você não vai voltar para ele — disse ele, finalmente, enquanto a ajudava a se vestir. Não era uma pergunta, era uma ordem.

— Eu ganhei o ouro, Ilia. Eu fiz o que a Rússia queria. — Julia ajeitou o uniforme, o rosto ainda corado. — Eu não devo mais nada a ninguém.

— Então venha comigo. — Ele segurou o rosto dela, os olhos azuis agora sérios. — Deixe o Nikolai com as medalhas dele e com a Chloe, se ele quiser. Patine pelo Brasil, patine por você. Mas faça isso ao meu lado.

Julia olhou para a porta, onde o mundo de regras e expectativas a esperava, e depois para Ilia, o homem que fora seu inferno e seu paraíso desde os quinze anos.

— Se você me irritar no primeiro treino nos Estados Unidos, Malinin, eu te corto com as minhas lâminas — disse ela, um pequeno sorriso surgindo nos lábios.

Ilia riu, o som mais honesto que ela já ouvira dele.

— Eu não esperaria nada menos da minha Dama de Gelo.

Eles saíram da lavanderia separadamente, mas o segredo que carregavam não era mais uma marca de vergonha. Era o combustível para o que viria a seguir. No gelo, eles eram rivais; na vida, eram um incêndio que ninguém mais seria capaz de apagar. Milão vira a consagração de seus talentos, mas a noite de Milão vira a libertação de suas almas. O gelo havia derretido, e o que restava era apenas o fogo.