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Gelo ardente

Lâminas Afiadas e Egos Inflados

O sol da manhã na Virgínia atravessava as janelas altas do rinque, criando feixes de luz que dançavam sobre a superfície branca e gélida. Para Yulia, aquela iluminação parecia um holofote indesejado. Após o treino intenso da manhã anterior, seus músculos protestavam com uma rigidez que ela tentava ignorar. Cada fibra de seu corpo lembrava-lhe que ela não era mais a menina de treze anos que podia cair dez vezes e levantar como se fosse feita de borracha.

Ela estava terminando de amarrar os patins no banco de madeira quando uma sombra se projetou sobre ela. Nem precisou levantar a cabeça para saber quem era. O cheiro de energético barato e a aura de autoconfiança excessiva eram marcas registradas.

— Sabe, Karenina, o preto te deixa muito séria — comentou Ilia, encostado no batente da porta do vestiário, já com seus patins calçados e as guardas de plástico nos pés. — Você parece uma viúva russa em um funeral. Relaxa um pouco, estamos na América. Aqui a gente usa cores, a gente sorri.

Yulia deu o último nó, apertando-o com uma força desnecessária, e finalmente levantou o olhar. Seus olhos azuis, gélidos como o Mar Báltico, encontraram os dele.

— Eu não vim aqui para um desfile de moda, Malinin. E, tecnicamente, estou em um funeral. O funeral da sua paz de espírito, já que agora você tem uma competição real no mesmo gelo.

Ilia soltou uma gargalhada, jogando a cabeça para trás.

— Competição? Você? — Ele se aproximou, diminuindo a distância até que ela pudesse ver as pequenas faíscas de deboche em suas pupilas. — Eu sou o "Quad God". Eu faço o que a física diz que é impossível. Você é uma ótima patinadora artística, Yulia, de verdade. Sua linha é linda, seus giros são rápidos... mas o jogo mudou enquanto você estava na fisioterapia. Hoje em dia, se você não gira quatro vezes e meia no ar, você é apenas decoração.

Yulia levantou-se lentamente, ficando na altura dele — ou quase, já que ele tinha ganhado vários centímetros de altura nos últimos anos.

— O gelo é escorregadio para todo mundo, Ilia. Até para deuses.

Ela passou por ele, batendo propositalmente o ombro no dele, e caminhou em direção à pista. Roman já estava lá, conversando com Elena. A tensão entre os dois adultos era palpável. Elena Karenina não confiava em ninguém que não tivesse um sotaque russo carregado e um chicote invisível nas mãos, enquanto Roman tentava manter uma abordagem mais equilibrada, embora rigorosa.

— Hoje vamos focar na resistência — anunciou Roman assim que os dois jovens entraram no gelo. — Quero que façam sequências de passos integradas com saltos triplos. Nada de quádruplos por enquanto, Yulia. Quero ver sua borda. Ilia, pare de tentar se exibir para as meninas da dança e foque no seu eixo.

O treino começou sob um silêncio tenso. Yulia deslizava com a precisão de um relógio suíço. Cada movimento era calculado, cada transição era suave. Ela sentia o olhar de Roman nela, avaliando a integridade de seu quadril. Mas sentia, acima de tudo, a presença constante de Ilia.

Ele era o oposto dela. Se Yulia era o balé clássico, Ilia era o rock progressivo. Ele patinava com uma energia caótica, quase desleixada, até o momento em que se lançava no ar. Ali, a mágica acontecia. Ele parecia flutuar, desafiando a gravidade com uma facilidade que irritava Yulia profundamente.

— Está muito lenta na entrada do Flip! — gritou Elena da mureta, sua voz sobrepondo-se à música ambiente. — Na Rússia, você já teria feito dez repetições perfeitas!

Yulia cerrou os dentes. A pressão de sua mãe era um peso familiar, mas agora, com Ilia por perto, parecia dobrar de tamanho. Ela acelerou, buscando a borda interna, mas sentiu uma hesitação. A memória da dor latejou por um microssegundo. Ela saltou, mas o triplo Flip saiu "sujo", com uma aterrissagem instável.

— O que foi isso? — Ilia deslizou para perto dela, parando com uma frenagem ruidosa que jogou gelo em suas canelas. — Parecia um pato tentando decolar. Quer que eu te ensine como se usa o "toe-pick"?

— Cala a boca, Ilia — sibilou ela, o rosto vermelho de frustração.

— Eu estou falando sério — disse ele, e por um momento o brilho de deboche sumiu, substituído por algo mais afiado. — Você está segurando o peso. Sua mente ainda está lá em 2020, no momento da queda. Se você não confiar no seu corpo, o gelo vai te trair de novo.

— Você não sabe nada sobre o que eu passei — rebateu Yulia, aproximando-se dele. — Você nunca teve que aprender a andar de novo. Você nunca teve o mundo inteiro te chamando de prodígio em um dia e de lixo esquecido no outro.

Ilia deu um passo à frente, invadindo o espaço dela. Ele era mais alto, e a proximidade permitia que ela sentisse o calor que emanava de seu corpo após o esforço físico.

— Você tem razão, eu não sei — sussurrou ele, a voz subitamente rouca. — Mas eu sei como é a pressão de ter que ser perfeito todos os dias porque o seu sobrenome exige isso. Eu sei o que é ter todo mundo esperando que você caia só para dizerem que você não é tão bom quanto dizem.

Eles ficaram ali, parados no centro da pista, dois jovens carregando o peso de nações e expectativas sobre os ombros. Por um momento, a hostilidade pareceu se transformar em algo diferente, uma compreensão mútua que nenhum dos dois queria admitir.

— Chega de conversa! — a voz de Roman cortou o ar. — Vamos fazer um exercício de simulação. Ilia, faça sua sequência de saltos do programa curto. Yulia, você logo em seguida. Quero ver quem tem mais controle.

Ilia sorriu, o ego retornando ao seu lugar de direito instantaneamente.

— Prepare os olhos, Karenina. Você vai ver um mestre em ação.

Ele se afastou e começou sua rotina. Ilia era um espetáculo. Ele executou um quádruplo Lutz com uma facilidade que beirava o insulto. Em seguida, um triplo Axel que parecia ter o dobro da altura necessária. Ele terminou sua sequência com um sorriso de lado, olhando diretamente para ela enquanto deslizava de costas.

— Sua vez, "Miss Perfect".

Yulia respirou fundo. Ela sabia que não podia competir nos quádruplos ainda. Roman a mataria, e seu médico provavelmente teria um ataque cardíaco. Mas ela tinha algo que Ilia ainda não dominava completamente: a arte da apresentação.

Ela começou a patinar. A música que tocava no rinque era um piano melancólico. Yulia se entregou à melodia. Ela não apenas executava passos; ela contava uma história. Cada movimento de braço, cada inclinação de cabeça era uma nota musical. Ela executou uma sequência de passos de nível quatro, com trocas de borda tão rápidas que pareciam impossíveis. Então, preparou o triplo Lutz — seu salto favorito, o mesmo que a derrubara anos atrás.

Ela não pensou na dor. Não pensou na mãe. Pensou apenas no desafio nos olhos de Ilia.

O salto foi perfeito. A altura foi impressionante, mas a aterrissagem... a aterrissagem foi como uma pluma tocando o solo. Ela fluiu imediatamente para um giro pirueta, ganhando velocidade até se tornar um borrão preto no gelo.

Ao terminar, o rinque estava em silêncio por alguns segundos. Até Elena parecia levemente satisfeita, embora não fosse dizer isso em voz alta.

— Técnica russa com um toque de desespero americano — comentou Ilia, deslizando até ela. — Nada mal. Mas você ainda está fugindo do quádruplo.

— Eu não estou fugindo — disse ela, recuperando o fôlego. — Estou sendo inteligente. Algo que você deveria tentar algum dia.

— Inteligência é para quem não tem talento para ser ousado — provocou ele, aproximando-se novamente, desta vez tão perto que Yulia podia ver as pequenas sardas no nariz dele. — Sabe, o que você precisa é de um pouco de... diversão. Você é muito tensa. Aposto que nunca saiu para comer um hambúrguer decente ou para ver as luzes da cidade sem pensar em calorias.

— Eu tenho um plano de treinamento a seguir, Ilia. Diferente de você, eu levo isso a sério.

— Eu levo muito a sério, Karenina. Eu só não deixo que isso me transforme em um robô. — Ele inclinou a cabeça, um brilho travesso nos olhos. — O que acha de uma aposta?

Yulia cruzou os braços, desconfiada.

— Que tipo de aposta?

— Se eu conseguir te fazer rir hoje, você admite que eu sou o melhor patinador deste rinque. E, em troca, eu te levo para jantar. Nada de salada russa ou sopinha de repolho. Comida de verdade.

Yulia soltou um suspiro de desdém, mas sentiu um frio no estômago que não tinha nada a ver com o gelo.

— E se você perder? — perguntou ela.

— Se eu perder... — ele fingiu pensar por um momento — eu limpo as suas lâminas e carrego a sua bolsa de patins por uma semana inteira. Na frente de todo mundo. Inclusive da sua mãe.

Yulia olhou para Elena, que estava ocupada discutindo algo com Roman, e depois voltou para Ilia. A ideia de ver o orgulhoso "Quad God" agindo como seu assistente pessoal era tentadora demais para recusar.

— Preparado para carregar malas, Malinin? Você nunca vai me fazer rir.

— É o que veremos, Karenina. É o que veremos.

O restante do treino foi uma guerra psicológica silenciosa. Ilia tentava todo tipo de palhaçada: imitações baratas dos juízes da ISU, caretas exageradas durante os giros e até tentou patinar de costas enquanto fingia estar lendo um jornal invisível. Yulia mantinha sua expressão de mármore, embora, por dentro, a persistência ridícula dele estivesse começando a quebrar sua resistência.

Ao final da sessão, enquanto eles saíam do gelo e retiravam os patins, o silêncio entre os dois era carregado. Roman se aproximou, parecendo satisfeito.

— Bom trabalho hoje, os dois. A tensão entre vocês está gerando resultados. Continuem assim.

Elena apenas olhou para Yulia e disse:

— Amanhã, quero que o Lutz tenha mais rotação. Você está ficando preguiçosa.

Assim que os adultos se afastaram, Ilia sentou-se ao lado de Yulia no banco. Ele estava suado, o cabelo loiro bagunçado e uma expressão de falsa derrota.

— Tudo bem, eu admito. Você é feita de gelo puro. Nem uma frestinha de riso? Eu quase caí de cara tentando aquela imitação do Brian Orser.

Yulia começou a secar suas lâminas, tentando não olhar para ele.

— Foi patético, Ilia. Realmente patético.

— É, eu sei. — Ele suspirou, parecendo genuinamente desanimado. — Acho que vou ter que me acostumar a carregar sua bolsa rosa choque por aí. As pessoas vão achar que eu mudei de estilo.

Yulia parou o que estava fazendo.

— Minha bolsa não é rosa choque. É bordô.

— Para mim é rosa. E tem glitter invisível de "Miss Perfect".

Yulia olhou para ele, pronta para rebater, mas encontrou Ilia fazendo uma cara de cachorrinho abandonado tão exagerada, com os lábios projetados para fora e os olhos arregalados, que a barreira finalmente cedeu. Uma pequena risada, curta e cristalina, escapou de seus lábios antes que ela pudesse impedir.

Os olhos de Ilia brilharam instantaneamente.

— Peguei você! — gritou ele, levantando-se de um salto. — Você riu! Eu vi! As paredes viram! O gelo viu!

— Não ri! Foi um... um espasmo muscular — mentiu ela, sentindo o rosto queimar.

— Ah, não adianta mentir para o Quad God, Karenina. Um acordo é um acordo. Esteja pronta às oito. E use algo que não seja preto, por favor. Quero ter certeza de que não estou saindo com um espectro.

Ele se afastou, andando de costas e apontando para ela com um sorriso vitorioso que era, simultaneamente, irritante e estranhamente atraente.

Yulia ficou sentada no banco, observando-o ir embora. Ela deveria estar irritada. Deveria estar focada no seu programa longo e na sua técnica de salto. Mas, pela primeira vez em anos, ela não estava pensando na Rússia, na queda ou na cicatriz em seu quadril.

Ela estava pensando no que vestiria para um jantar com o garoto mais insuportável da Virgínia.

— Ele é um idiota — sussurrou ela para si mesma, guardando os patins.

Mas, ao fechar a mochila, percebeu que ainda havia um pequeno sorriso brincando em seus lábios. A "Lost Girl" talvez ainda estivesse perdida, mas o caminho de volta parecia muito menos frio do que ela imaginava. E, se Ilia Malinin era o guia que o destino lhe dera, a viagem certamente não seria tediosa.

Ao sair do rinque, ela passou pela mãe, que a observava com curiosidade.

— Por que você está demorando tanto, Yulia? Temos que revisar os vídeos.

— Vá na frente, mamãe — disse Yulia, sua voz soando mais firme do que o normal. — Eu preciso... resolver umas coisas técnicas.

Elena estreitou os olhos, mas assentiu. Yulia caminhou em direção ao estacionamento, sentindo o ar quente da Virgínia contra o rosto. O gelo era seu mundo, mas talvez, apenas talvez, houvesse vida além da borda da pista. E Ilia, com toda a sua arrogância e saltos impossíveis, era o lembrete vivo de que a perfeição era solitária, mas a competição — e talvez algo mais — era o que realmente a fazia se sentir viva.