Gelo ardente
Fogo sob o Gelo
A noite na Virgínia era úmida e carregada com o som de grilos, um contraste gritante com o silêncio estéril e refrigerado do rinque de patinação. Yulia estava parada diante do espelho do hotel, ajustando as alças de um vestido de seda azul-marinho. Não era preto, como Ilia havia implorado, mas era escuro o suficiente para mantê-la em sua zona de conforto. A seda deslizava sobre sua pele, acentuando as curvas que o uniforme de treino costumava ocultar. Ela parecia uma mulher, não apenas uma atleta.
Quando a buzina de um Mustang ecoou do lado fora, seu coração deu um solavanco que nenhum salto quádruplo jamais provocara.
— Você está atrasada, Karenina! — Ilia gritou da janela do carro, assim que ela cruzou a porta principal.
Ele estava encostado no banco do motorista, vestindo uma camisa de botão branca com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando os antebraços fortes e definidos pela prática constante de saltos. O cabelo estava menos bagunçado que o normal, e o perfume dele — algo que misturava sândalo e uma nota cítrica — invadiu o habitáculo assim que ela entrou.
— E você continua barulhento — rebateu ela, fechando a porta. — Para onde estamos indo?
— Para um lugar onde ninguém vai te pedir para fazer um giro Bielmann — disse ele, engatando a marcha. — E onde a comida não tem gosto de papelão dietético.
O jantar foi em um bistrô escondido no centro da cidade, iluminado por velas e luzes baixas. Durante a refeição, a tensão que costumava ser puramente competitiva começou a sofrer uma mutação. Ilia não parava de falar, mas seus olhos não saíam dos lábios de Yulia. Ele a provocava, contava histórias absurdas sobre suas quedas mais embaraçosas, e Yulia, para sua própria surpresa, viu-se contando sobre o rigor quase militar de sua infância em Moscou.
— Você nunca para, não é? — Ilia perguntou, a voz subitamente baixa, enquanto girava o vinho na taça. — Sempre sob controle. Sempre a Miss Perfect.
— O controle é o que me mantém inteira, Ilia — respondeu ela, sentindo o calor do vinho subir às bochechas. — Se eu perder o controle, eu caio. E eu já caí o suficiente para uma vida inteira.
Ilia esticou a mão sobre a mesa, mas não a tocou. Ele apenas deixou os dedos a centímetros dos dela.
— Às vezes, cair é a única forma de sentir que você está realmente se movendo. Se você nunca perde o equilíbrio, você não está forçando o limite.
O caminho de volta foi silencioso, mas o silêncio não era desconfortável. Era denso, carregado de uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de Yulia se arrepiarem. Quando ele estacionou em frente ao prédio dela, nenhum dos dois se moveu para abrir a porta.
— Você não vai me agradecer pelo melhor hambúrguer gourmet da sua vida? — descontraiu ele, mas sua voz saiu rouca.
Yulia virou-se para ele. A luz do poste de rua entrava pelo para-brisa, esculpindo as feições de Ilia em sombras e luz. Ele parecia menos um menino provocador e mais um homem perigoso.
— Foi... aceitável — disse ela, a voz falhando levemente.
— Aceitável? — Ilia riu, mas não se afastou. Ele se inclinou para frente, invadindo o espaço pessoal dela. — Você é impossível, Karenina.
— E você é insuportável, Malinin.
A distância entre eles encolheu até que a respiração de um se misturasse à do outro. Foi Ilia quem quebrou o último milímetro. O beijo não foi gentil. Foi uma colisão de anos de rivalidade, de frustração acumulada e de uma atração que ambos tentaram sufocar sob camadas de gelo. A boca dele era quente e exigente, e Yulia respondeu com uma urgência que a assustou. Suas mãos, acostumadas a agarrar as lâminas dos patins, agora se enterravam no cabelo loiro de Ilia, puxando-o para mais perto.
Ilia soltou um rosnado baixo contra os lábios dela, suas mãos descendo pela seda do vestido até encontrarem a curva do quadril de Yulia — o quadril que carregava a cicatriz, a marca de sua maior falha. Mas sob o toque dele, a cicatriz não parecia uma fraqueza; parecia um mapa de sobrevivência.
— Minha casa — ele sussurrou entre beijos, a voz carregada de desejo. — Meu pai está viajando para uma conferência. Estamos sozinhos.
Yulia não hesitou.
— Vá.
O apartamento de Ilia era exatamente como ela imaginava: medalhas penduradas em ganchos improvisados, equipamentos esportivos espalhados e uma vista deslumbrante da cidade. Mas ela mal teve tempo de observar. Assim que a porta se fechou, ele a prensou contra a madeira, reiniciando o beijo com uma intensidade renovada.
As mãos de Ilia eram ágeis e fortes. Ele subiu o vestido de seda, as palmas ásperas encontrando a pele macia das coxas de Yulia. Ela soltou um gemido abafado quando ele mordeu levemente o seu pescoço, bem na curva onde a pulsação batia descontrolada.
— Você sempre foi tão fria no gelo — murmurou ele, a voz vibrando contra a pele dela. — Eu sempre quis saber se você queimava por baixo de toda essa disciplina.
— Descubra — desafiou ela, puxando a camisa dele para fora da calça, os dedos ansiosos para sentir os músculos das costas dele.
Eles tropeçaram em direção ao quarto, as roupas sendo descartadas pelo caminho como obstáculos em uma pista de obstáculos. Quando finalmente caíram nos lençóis, a realidade do mundo exterior — as competições, os recordes, as expectativas de seus pais — evaporou.
Ilia pairava sobre ela, os braços sustentando seu peso. Ele a olhou nos olhos, uma intensidade séria que Yulia nunca tinha visto antes.
— Eu não quero apenas ganhar de você, Yulia — disse ele, a voz baixa e possessiva. — Eu quero que você se perca comigo. Só por esta noite.
Ele desceu o corpo, cobrindo-a. O contato pele a pele foi como um choque térmico. Ilia a explorava com uma curiosidade técnica, mas movido por uma paixão bruta. Seus dedos traçaram a cicatriz no quadril dela com uma delicadeza inesperada, antes de subir para provocar os ápices de seus seios.
Yulia sentia-se em chamas. Cada toque dele desmantelava uma parte da "Miss Perfect", deixando apenas a mulher que ansiava por ser sentida. Quando ele entrou nela, o mundo se resumiu a um ritmo frenético e sincronizado, como se estivessem executando o programa mais complexo de suas vidas, mas sem juízes, sem notas e sem medo de cair.
Os movimentos dele eram potentes, impulsionados pela mesma força que o lançava nos quádruplos saltos, mas havia uma conexão ali que transcendia o físico. Yulia arqueava o corpo, as unhas cravadas nos ombros dele, enquanto o prazer subia em ondas avassaladoras. Ela não estava no controle, e pela primeira vez, aquilo era maravilhoso.
— Ilia... — ela suspirou, o nome dele soando como uma prece e um pecado.
Ele acelerou o ritmo, o suor brilhando em sua pele sob a luz fraca que vinha da janela. O clímax veio como uma queda livre de um salto perfeito — a sensação de gravidade zero antes do impacto, o coração na garganta e a explosão de adrenalina que preenchia cada célula.
Eles ficaram deitados no escuro por um longo tempo, as respirações voltando ao normal gradualmente. Ilia puxou o lençol sobre eles e trouxe Yulia para perto, o braço dele servindo de travesseiro para ela.
— Então — disse ele, o tom provocador retornando, embora agora estivesse tingido de ternura. — Acho que isso conta como uma vitória para mim.
Yulia deu uma cotovelada leve nas costelas dele, mas não se afastou.
— Não se gabe, Malinin. Foi apenas um treino de resistência.
Ele riu, beijando o topo da cabeça dela.
— Se isso foi o treino, mal posso esperar pela competição oficial.
Yulia fechou os olhos, sentindo o calor do corpo dele contra o seu. Amanhã, eles estariam de volta ao rinque. Amanhã, ela teria que enfrentar o olhar severo de sua mãe e a técnica implacável de Roman. Amanhã, eles seriam rivais novamente, competindo por cada milímetro de gelo e cada décimo de pontuação.
Mas, ali no escuro, o "Quad God" e a "Lost Girl" tinham encontrado algo que nenhuma medalha de ouro poderia oferecer. Eles tinham encontrado o fogo que existia sob o gelo. E, por enquanto, isso era mais do que suficiente.