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Gelo em chamas

Lâminas de Vidro e Corações de Aço

O dia do programa livre amanheceu com um céu cinzento sobre a arena, mas o clima dentro do ginásio estava em ponto de ebulição. O burburinho nas arquibancadas era ensurdecedor. O mundo da patinação artística estava dividido entre a perfeição técnica e gélida de Julia Cenci e o atletismo explosivo e carismático de Ilia Malinin.

No vestiário feminino, Julia terminava de prender o cabelo em um coque tão firme que puxava levemente a pele de suas têmporas. Ela encarou o espelho. Seus lábios ainda estavam levemente inchados, uma lembrança vívida da noite anterior. Ela passou um batom nude, cobrindo qualquer rastro de vulnerabilidade.

— Foco, Julia — sussurrou para si mesma. — Ele é apenas um ruído de fundo.

Mas o "ruído de fundo" estava parado bem na saída do túnel quando ela se dirigia para o gelo para o aquecimento de seis minutos. Ilia estava com o agasalho da federação americana, os braços cruzados, observando-a com uma intensidade que faria qualquer outra patinadora tropeçar nos próprios pés.

— Você está pálida, Cenci — ele disse quando ela passou, a voz baixa o suficiente para que apenas ela ouvisse. — O esforço de ontem à noite foi demais para a Rainha de Gelo?

Julia parou, ajustando as luvas de lycra. Ela se virou e encarou o azul profundo dos olhos dele.

— Guarde seu fôlego para os seus saltos, Ilia. Você vai precisar dele quando perceber que a sua arrogância não conta pontos no sistema de julgamento.

— Veremos — ele deu um passo à frente, diminuindo a distância, o cheiro de suor e gelo emanando dele. — Eu adoro quando você tenta ser durona depois de ter passado a noite gemendo meu nome. Isso te deixa... interessante.

— Eu não estava gemendo o seu nome — ela mentiu, a voz fria como as lâminas sob seus pés. — Eu estava apenas esperando você terminar para que eu pudesse finalmente dormir.

Ilia soltou uma risada curta, um som carregado de confiança.

— Mentirosa. Mas tudo bem. Use essa raiva. Entre naquele gelo e mostre para eles o que acontece quando alguém finalmente consegue te incendiar.

Julia não respondeu. Ela entrou no rinque, sentindo o frio familiar subir por suas pernas. O aquecimento foi tenso. Toda vez que ela iniciava a preparação para um salto, Ilia parecia cruzar seu caminho, forçando-a a desviar, uma dança de dominação territorial que os juízes observavam com sobrancelhas erguidas.

Quando as apresentações começaram, a tensão atingiu o ápice. Ilia foi o primeiro do último grupo a patinar. Ele foi impecável. Quatro saltos quádruplos, incluindo o seu lendário Quad Axel, aterrissado com uma força que parecia desafiar a gravidade. A arena veio abaixo. Ele saiu do gelo com um sorriso de quem já se sentia o dono do mundo, seus olhos procurando Julia na área de espera.

Ele passou por ela, ofegante, o suor escorrendo pelo pescoço.

— Supera isso — ele desafiou, antes de se sentar no "Kiss and Cry".

Julia entrou no gelo sob um silêncio reverente. A música — um concerto de piano dramático e melancólico — começou a ecoar. Ela patinou como nunca antes. Havia uma nova fluidez em seus movimentos, uma entrega emocional que ela sempre evitara. Cada salto era uma resposta a Ilia. Cada pirueta era um expurgo. Quando ela terminou, a multidão demorou um segundo para respirar antes de explodir em aplausos.

As notas foram anunciadas. Julia Cenci havia vencido por uma fração de pontos. O ouro era dela.

A cerimônia de premiação foi uma tortura de formalidades. No pódio, com a medalha de ouro no pescoço e a de prata no de Ilia, a eletricidade entre eles era palpável. Enquanto as fotos eram tiradas, Ilia se inclinou para o lado, o ombro roçando o dela.

— Parabéns, majestade — ele sussurrou sob o barulho dos flashes. — Mas saiba que eu deixei você ganhar. Eu não queria que você chorasse no banquete de encerramento.

— Você não deixou nada, Malinin — ela respondeu, mantendo o sorriso fixo para as câmeras. — Eu simplesmente sou melhor que você. Aceite a derrota com a pouca dignidade que lhe resta.

— A festa de gala vai ser interessante — ele prometeu, os olhos brilhando com uma promessa perigosa.

Naquela noite, o hotel de luxo em que os atletas estavam hospedados fervia com a celebração do fim do Grand Prix. O álcool circulava livremente entre os competidores que, finalmente, podiam relaxar a dieta rigorosa. Julia estava em um canto, bebendo uma taça de champanhe, tentando manter sua aura de intocável, mas sua mente não parava de viajar para Tallinn, para a sala de equipamentos e para a cama de Ilia.

— Você parece entediada — a voz dele surgiu atrás dela.

Ilia estava impecável em um terno sob medida, a camisa levemente aberta no colarinho. Ele parecia um príncipe rebelde, e ele sabia disso.

— Estou apenas apreciando o silêncio antes de você começar a falar — Julia disse, sem se virar.

— O champanhe está subindo à cabeça, Cenci? Ou é a medalha de ouro que está pesando muito no seu pescoço? — Ele parou ao lado dela, pegando a taça da mão dela e tomando um gole.

— Devolve, Ilia.

— Vem buscar.

Ele começou a caminhar em direção à varanda que dava para os jardins nevados do hotel. Julia, movida por uma mistura de irritação e uma atração que ela odiava admitir, o seguiu. O ar frio da noite bateu em seus rostos, um contraste nítido com o calor da festa lá dentro.

— Você foi bem hoje — ele disse, subitamente sério, olhando para o horizonte. — Eu nunca vi você patinar com tanta... alma.

— Talvez eu tenha tido uma boa motivação — ela admitiu, a voz falhando levemente.

Ilia se virou para ela, prendendo-a contra o parapeito de pedra. A luz da lua refletia no ouro da medalha que ela ainda usava sob o casaco fino.

— Admite, Julia. Você precisa de mim. Você precisa desse caos que eu provoco em você para não se tornar uma máquina.

— E você precisa de mim para ter um padrão de excelência que você nunca alcançará sozinho — ela rebateu, mas sua mão subiu para o peito dele, sentindo o coração dele batendo rápido.

— Eu não aguento mais esse jogo de palavras — Ilia rosnou.

Ele a puxou para um beijo desesperado, um beijo que carregava toda a frustração de ter perdido a competição e todo o desejo de possuí-la novamente. Julia respondeu com a mesma urgência, suas mãos puxando o tecido caro do terno dele.

— No meu quarto — ele ordenou entre beijos. — Agora.

Eles subiram as escadas de serviço para evitar os outros atletas. Assim que entraram na suíte de Ilia, a porta mal se fechou antes que as roupas começassem a voar. Não havia mais a barreira do ódio, apenas uma necessidade crua e absoluta.

Ilia a empurrou contra a porta fechada, suas mãos descendo para levantar o vestido de gala de Julia. Ele não teve paciência para tirá-lo completamente. Ele rasgou a meia-calça dela com uma força que fez Julia soltar um arquejo de surpresa e prazer.

— Você é tão linda quando está rendida — ele sussurrou, sua boca descendo pelo pescoço dela, deixando marcas que ela teria dificuldade em esconder no dia seguinte.

— Eu não estou rendida — ela arfou, as pernas envolvendo a cintura dele, sentindo a ereção dele pressionando contra sua intimidade através da cueca de seda. — Eu estou apenas tomando o que é meu por direito.

Ilia soltou um riso rouco e, com um movimento ágil, livrou-se da própria calça. Ele a penetrou ali mesmo, contra a porta, uma estocada profunda que fez o mundo de Julia girar mais rápido do que em qualquer salto quádruplo. O impacto foi seco, intenso, e ela enterrou o rosto no ombro dele para abafar um grito.

— Sim... exatamente assim — ele murmurou, o ritmo acelerando instantaneamente.

As mãos de Ilia apertavam as coxas dela, mantendo-a no lugar enquanto ele se movia com uma ferocidade atlética. Julia sentia cada músculo dele trabalhando, a força explosiva que o tornava o "Quad God" agora canalizada inteiramente para o prazer dela. Ela sentia a vibração da porta de madeira contra suas costas a cada movimento dele, um ritmo constante que a levava à beira do abismo.

— Olha para mim, Julia! — Ele comandou, a voz carregada de autoridade.

Ela abriu os olhos, encontrando o olhar dele. Não havia deboche ali agora, apenas uma fome insaciável. Ela viu o suor brilhando na testa dele, a expressão de concentração que ele geralmente reservava para os momentos mais difíceis de suas rotinas.

— Você... é... um idiota — ela conseguiu dizer, as palavras saindo entre gemidos.

— E você me ama por isso — ele rebateu, aumentando a profundidade das estocadas.

Ele a levou para a cama, deitando-a de bruços e puxando seus quadris para cima. A posição permitia que ele entrasse ainda mais fundo. Julia enterrou as mãos nos lençóis, os dedos se fechando no tecido enquanto sentia o corpo de Ilia colado ao seu. O calor emanando dele era quase insuportável, mas ela queria mais.

— Mais forte, Ilia — ela pediu, a voz rouca, perdendo toda a pose de Rainha de Gelo.

Ele obedeceu. Cada movimento dele era calculado para levá-la ao limite. Ele conhecia o corpo dela melhor do que ninguém, sabia onde pressionar, onde morder, como fazê-la desmoronar. A tensão cresceu até se tornar uma dor doce, um nó no baixo ventre que implorava para ser desfeito.

Quando o orgasmo veio, foi como uma queda livre. Julia sentiu seus músculos se contraírem violentamente ao redor dele, sua mente ficando branca por alguns segundos. Ilia soltou um rosnado baixo, sua própria liberação vindo logo em seguida, potente e avassaladora.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, apenas o som de suas respirações pesadas preenchendo o quarto luxuoso. Ilia se deitou ao lado dela, passando o braço por cima de sua cintura e puxando-a para perto.

— Você ganhou a medalha de ouro, Cenci — ele disse, a voz voltando ao tom provocador, mas com uma nota de ternura escondida. — Mas eu ganhei a melhor parte da noite.

Julia se virou para ele, o cabelo loiro espalhado pelo travesseiro, os olhos ainda nublados de prazer.

— Você nunca vai parar, não é? Sempre tentando ter a última palavra.

— É o meu charme — ele deu de ombros, um sorriso ladino aparecendo. — E admita, se eu fosse um cavalheiro educado, você estaria entediada até a morte agora.

Julia suspirou, fechando os olhos e encostando a cabeça no peito dele. Ela sentia o cheiro dele, uma mistura de champanhe, suor e o perfume caro.

— Talvez. Mas não se acostume com isso, Malinin. No próximo campeonato, eu vou te vencer de novo. E vou fazer você se ajoelhar no gelo.

— Eu prefiro que você me faça ajoelhar em outros lugares — ele brincou, a mão descendo para acariciar a curva do quadril dela. — Mas prepare-se. Eu não pretendo perder duas vezes seguidas. Nem no gelo, nem aqui.

Julia sorriu, um sorriso real que raramente mostrava ao mundo. Ela sabia que a rivalidade deles era o que os mantinha vivos, o que os impulsionava a serem os melhores. Eles eram como duas lâminas cortando o mesmo gelo: destinados a colidir, destinados a deixar marcas profundas um no outro.

— Veremos, Quad God — ela sussurrou antes de se entregar ao sono, protegida pelo calor do homem que ela jurava odiar, mas que era o único capaz de derreter seu coração de vidro.

Na manhã seguinte, o mundo da patinação veria novamente a Rainha de Gelo e o Garoto de Ouro dos EUA trocando insultos e olhares frios nos corredores. Ninguém suspeitaria que, sob as jaquetas de suas federações, eles carregavam as marcas de uma batalha muito mais intensa. E para Julia, o ouro no pescoço era valioso, mas o fogo que Ilia acendia nela era o que realmente a fazia brilhar.