Voltar ao resumo

Gelo em chamas

O Crepitar do Gelo Fino

A luz neon de Tóquio piscava do outro lado da janela da suíte, mas Julia não via a cidade. Seus olhos estavam fixos no teto de gesso, sentindo o peso do braço de Ilia jogado sobre sua cintura. O silêncio que se seguiu àquela colisão de corpos era quase tão ensurdecedor quanto o barulho da torcida na arena poucas horas antes.

A medalha de ouro estava jogada displicentemente sobre a mesa de cabeceira, o metal dourado captando o brilho das luzes da rua. Julia sentia-se estranha. No gelo, ela era o controle absoluto; aqui, entre lençóis bagunçados e o cheiro de suor de Ilia, ela sentia que as bordas de sua personalidade calculista estavam começando a se desgastar.

— Você está pensando demais de novo, Cenci. — A voz de Ilia surgiu rouca, vibrando contra o ombro dela. — Consigo ouvir as engrenagens da sua cabeça girando daqui. Está planejando como vai me ignorar no café da manhã?

Julia soltou um suspiro curto, virando o rosto para encará-lo. Ilia tinha o cabelo loiro completamente desgrenhado e uma expressão de satisfação que a irritava profundamente.

— Estou planejando como vou explicar as marcas no meu pescoço para a minha técnica — retrucou ela, a voz ainda levemente instável. — Etsuko é russa da velha guarda, Ilia. Se ela desconfiar que passei a noite com o "inimigo número um" da federação, ela me faz patinar o programa longo dez vezes seguidas sem descanso.

Ilia soltou uma risada baixa e possessiva, puxando-a para mais perto e enterrando o rosto na curva do pescoço dela, justamente onde a pele estava mais avermelhada.

— Deixa ela ver. Deixa todo mundo ver. — Ele mordiscou a pele sensível, fazendo Julia estremecer. — Eu gosto da ideia de que, enquanto eles analisam seus saltos perfeitos, eu sou o único que sabe o som que você faz quando eu te tiro do eixo.

— Você é um egocêntrico patético.

— E você está aqui, no meu quarto, pela terceira vez em dois anos. — Ele se inclinou, ficando por cima dela, os olhos azuis brilhando com aquele desafio eterno. — Admite, Julia. O ódio é só a desculpa que você usa para não admitir que ninguém mais consegue te acompanhar. Nem no gelo, nem aqui.

Julia sentiu o calor subir novamente. Ela queria empurrá-lo, queria dizer que ele era apenas um passatempo físico para aliviar o estresse das competições, mas as palavras morriam em sua garganta sempre que ele a olhava dessa forma. Ilia Malinin não era apenas o "Quad God"; ele era o único caos que ela se permitia viver.

— Tallinn foi um erro de adolescentes bêbados — sussurrou ela, as mãos subindo para o peito definido dele, sentindo os batimentos cardíacos acelerados. — Mas isso aqui... o que estamos fazendo agora, Ilia?

— Estamos ganhando, Julia. — Ele selou os lábios nos dela, um beijo que começou lento e logo se tornou faminto. — Estamos sendo os melhores. E eu não pretendo parar.

Ele desceu as mãos pelas laterais do corpo dela, parando na curva do quadril. Julia arqueou as costas, sentindo a eletricidade percorrer sua espinha. Não havia mais nada de frio nela naquele momento. Ilia a conhecia desde os dez anos, conhecia cada insegurança escondida sob a máscara de gelo, e ele usava esse conhecimento para desarmá-la completamente.

— Você se lembra de quando tínhamos doze anos? — perguntou ele, a voz abafada contra a pele do ventre dela. — No acampamento de verão em Colorado Springs. Eu escondi seus protetores de lâmina e você chorou de raiva.

— Eu não chorei — mentiu ela, sentindo os dedos dele traçarem o contorno de sua coxa. — Eu quase quebrei o seu nariz com um soco.

— Quase. — Ilia riu, subindo novamente para encará-la, a mão agora firme entre as pernas dela, provocando-a com uma pressão deliberada. — Naquela época, eu já sabia que você era diferente. Você patinava como se o gelo devesse algo a você. E eu só queria ver o que aconteceria se eu te fizesse perder o equilíbrio.

— Você conseguiu — admitiu ela em um arfar, quando os dedos dele a encontraram, úmida e pronta. — Você sempre consegue.

Ilia não esperou mais. Ele a puxou para a borda da cama, ficando de joelhos no chão enquanto a mantinha elevada. A luz da lua desenhava os músculos das costas dele, uma visão que Julia sabia que nunca esqueceria. Quando ele a possuiu novamente, foi com uma urgência que parecia querer apagar todos os anos de provocações e insultos.

— Julia... — ele rosnou, o nome dela saindo como uma prece profana.

Ela cravou as unhas nos ombros dele, sentindo a força bruta de Ilia. Era diferente de tudo o que ela vivia em sua rotina disciplinada. Com ele, não havia notas, não havia juízes, não havia a pressão da Rússia sobre seus ombros brasileiros. Havia apenas o impacto, o calor e o ritmo frenético que a fazia perder o sentido de direção.

— Mais... — pediu ela, a voz rouca, a cabeça jogada para trás.

Ilia obedeceu, cada estocada sendo um lembrete de que ele a dominava naquele espaço. Ele a virou de costas, prendendo seus pulsos contra o colchão, e Julia sentiu o peso dele contra si, uma âncora em meio à tempestade de sensações.

— Você é minha, Cenci — sussurrou ele perto do ouvido dela, a respiração quente e pesada. — No gelo, você pode ser de quem quiser. Mas aqui, você é minha.

O clímax veio como uma avalanche, violento e absoluto. Julia gritou contra o travesseiro, sentindo o corpo de Ilia tensionar e relaxar sobre o dela enquanto ele se entregava completamente. Por alguns segundos, o mundo parou de girar. Não havia patinação, não havia rivalidade. Havia apenas o som de dois corações tentando recuperar o ritmo normal.

Minutos depois, Ilia se afastou, sentando-se na beira da cama e passando a mão pelo rosto. Ele parecia exausto, mas o sorriso de lado ainda estava lá quando ele olhou para trás.

— Você vai estar no banquete amanhã? — perguntou ele, recuperando o tom casual.

Julia sentou-se, puxando o lençol para cobrir o peito, a máscara de Rainha de Gelo começando a se reconstruir, embora de forma trêmula.

— Vou. Preciso receber meu troféu oficial. E você, suponho, vai estar ocupado rodeado de fãs e modelos japonesas.

Ilia levantou-se, caminhando até ela e segurando seu queixo com firmeza.

— Deixa de ser ridícula. Você sabe que nenhuma delas chega perto do que você faz comigo.

— É apenas competição, Ilia. Você ama o desafio. — Ela desviou o olhar.

— Talvez tenha começado assim. — Ele deu um beijo rápido e possessivo na testa dela. — Mas agora é algo mais. Só não me peça para dar um nome a isso ainda. Meu ego não permite.

Julia sorriu de forma amarga, mas sentiu um estranho conforto naquelas palavras. Ela se levantou e começou a se vestir, cada peça de roupa sendo como uma camada de armadura que ela colocava de volta.

— Vejo você no gelo, Malinin.

— Tente não cair quando me vir, Cenci. — Ele piscou, voltando a ser o provocador de sempre.

Julia saiu do quarto e caminhou pelos corredores silenciosos do hotel. Suas pernas tremiam levemente e seu coração ainda parecia fora de compasso. Ela sabia que, na manhã seguinte, eles voltariam a ser os rivais amargos que o mundo esperava. Eles trocariam farpas nas coletivas de imprensa e ignorariam um ao outro nos treinos.

Mas, enquanto sentia o calor de Ilia ainda presente em seu corpo, Julia percebeu que a patinação nunca mais seria a mesma. Ela não era mais apenas a Rainha de Gelo. Ela era a mulher que tinha encontrado fogo no lugar mais improvável: nos braços de seu maior inimigo.

Ao entrar em seu próprio quarto, ela guardou a medalha de ouro em sua mala. O metal estava frio, mas sua pele ainda queimava. A temporada estava apenas começando, e Julia sabia que, entre saltos quádruplos e aplausos, a verdadeira batalha acontecia entre quatro paredes, onde as lâminas não cortavam o gelo, mas sim as defesas que ela passara a vida inteira construindo.