Gelo em chamas
Labaredas no Gelo: O Preço do Equilíbrio
A luz pálida da manhã de Tóquio filtrava-se pelas cortinas pesadas do hotel, mas Julia já estava de pé, sentada à beira da cama, observando o próprio reflexo no espelho da penteadeira. Seus olhos castanhos, geralmente tão límpidos e gélidos como uma pista recém-preparada, pareciam turvos. Ela traçou com a ponta dos dedos uma marca arroxeada logo acima da clavícula.
— Droga, Ilia... — sussurrou ela, a voz falhando.
A memória da noite anterior — a terceira desde que o Grand Prix começara — era um borrão de sensações intensas e agressivas. O "Quad God" não aceitava nada menos que a rendição total, e Julia, em sua fúria silenciosa, entregava-se apenas para provar que podia suportar qualquer pressão que ele impusesse.
Eles se conheciam desde os dez anos. Ela se lembrava vividamente da primeira vez que o vira em um acampamento de verão em Connecticut. Ele era um garoto magricela, de cabelos bagunçados e uma confiança que beirava a psicopatia. Enquanto Julia passava horas refinando a posição de seus braços em um giro, Ilia passava o tempo tentando saltos que seu corpo ainda não conseguia sustentar, caindo e levantando com um sorriso presunçoso que a irritava profundamente.
— Ei, Cenci! — ele gritara naquela época, deslizando até ela e jogando gelo em suas canelas com uma freada brusca. — Se você ficar mais dura do que já é, vai acabar virando uma estátua de museu. Por que não tenta voar um pouco em vez de apenas deslizar?
Aos quinze anos, em Tallinn, a provocação infantil transformou-se em algo sombrio. Após ambos falharem miseravelmente em seus programas curtos, a frustração mútua os levara a uma garrafa de vodca barata e a um quarto de hotel escuro. Julia perdera a virgindade com o garoto que mais odiava no mundo, e ele, em vez de oferecer qualquer conforto, usara a experiência como a arma definitiva.
"Você grita muito mais do que demonstra na pista, Julia", ele dissera na manhã seguinte, enquanto ela se vestia com as mãos trêmulas. Aquela frase a perseguira por anos, tornando-se o combustível para sua frieza calculista.
Um toque seco na porta do quarto interrompeu seus pensamentos.
— Julia? Cinco minutos para o ônibus da federação — a voz de sua treinadora, Etsuko, ecoou pelo corredor.
Julia vestiu rapidamente sua jaqueta da equipe russa, fechando o zíper até o queixo para esconder as marcas. Ela não era mais uma adolescente assustada; era uma campeã. Mas, ao caminhar pelo corredor, sentiu aquele cheiro inconfundível de sândalo e gelo.
Ilia estava encostado na parede oposta ao elevador, girando a chave do quarto entre os dedos. Ele usava o agasalho dos EUA com uma elegância desleixada que atraía todos os olhares.
— Bom dia, Rainha de Gelo — disse ele, a voz carregada de um deboche preguiçoso. — Dormiu bem ou ainda está sentindo o peso da minha mão na sua cintura?
Julia parou, mantendo a expressão impenetrável que a tornara famosa.
— Eu durmo perfeitamente bem, Ilia. Especialmente depois de garantir que você saiba exatamente onde é o seu lugar: abaixo de mim na tabela de pontos.
Ilia deu um passo à frente, invadindo o espaço dela. Ele era mais alto agora, um atleta de elite cujos ombros largos pareciam ocupar todo o corredor.
— Ontem à noite, você parecia gostar bastante de estar abaixo de mim — sussurrou ele, inclinando-se para que apenas ela ouvisse. — O jeito que você enterrou as unhas nas minhas costas quando eu te prendi contra aquela porta... isso não parecia "calculista", Julia. Parecia desespero.
— Você confunde desejo físico com importância pessoal, Ilia — ela rebateu, embora seu coração desse um solavanco traidor. — Você é apenas um exercício de resistência. Nada mais.
— Um exercício de resistência? — Ilia riu, um som seco e perigoso. — Então por que seus olhos me procuram toda vez que você termina um salto? Você não patina para os juízes, Cenci. Você patina para mim. Porque você sabe que eu sou o único que consegue ver o fogo que você tenta esconder sob esse figurino de seda.
As portas do elevador se abriram. Julia entrou sem olhar para trás, mas sentiu o olhar ardente de Ilia queimando em suas costas até que o metal se fechasse.
O treino oficial de gala naquela tarde foi uma exibição de tensões não resolvidas. Enquanto os outros patinadores praticavam seus números de exibição de forma relaxada, Ilia e Julia pareciam travar uma guerra silenciosa no gelo. Toda vez que ela iniciava uma sequência de passos, ele cruzava seu caminho com um salto quádruplo explosivo, forçando-a a desviar por milímetros.
— Saia do meu caminho, Malinin! — sibilou ela ao passar por ele após um Triple Axel quase arruinado pela proximidade dele.
— O gelo é público, Cenci — ele respondeu, deslizando de costas com uma facilidade irritante. — Ou será que a Rainha está perdendo o equilíbrio só de me ver respirar o mesmo ar?
Ao final do treino, Julia dirigiu-se ao vestiário, mas foi interceptada por Ilia em um dos corredores de serviço, longe das câmeras e dos treinadores. Ele a segurou pelo pulso e a empurrou para dentro de uma sala de armazenamento de equipamentos, chutando a porta para fechar.
— O que você pensa que está fazendo? — exigiu ela, as lâminas dos patins batendo no chão de borracha.
— Terminando a conversa do corredor — disse ele, prensando-a contra uma pilha de colchões de proteção. — Você acha que pode me tratar como um "exercício" e sair ilesa? Você me odeia porque eu sou o único que te faz sentir algo além de técnica pura.
— Eu odeio você porque você é um arrogante que acha que o mundo gira em torno do seu ego! — gritou ela, a máscara de frieza finalmente rachando.
— Então me prove — desafiou ele, suas mãos subindo para o rosto dela, os polegares traçando o contorno de seus lábios inchados. — Me prove que eu não significo nada. Me prove que esse seu corpo não inflama toda vez que eu chego perto.
Ilia não esperou por uma resposta. Ele atacou os lábios dela com uma fome que beirava a violência. Não era um beijo de amor; era uma colisão de anos de rivalidade, ressentimento e uma atração química que nenhum dos dois conseguia controlar. Julia tentou resistir por um segundo, mas suas mãos agiram por conta própria, agarrando o cabelo loiro de Ilia e puxando-o para mais perto.
Ele a levantou, sentando-a sobre uma mesa de madeira rústica usada para ajustar patins. Com um movimento impaciente, Ilia puxou o zíper da jaqueta dela e desceu as alças do seu collant de treino.
— Você é tão perfeita — rosnou ele contra a pele do pescoço dela. — Tão fria por fora, mas tão quente por dentro.
— Cala a boca... — arfou ela, sentindo as mãos dele explorarem seu corpo com uma familiaridade possessiva.
Ilia se livrou das próprias roupas com uma agilidade frenética. Quando ele entrou nela, uma estocada profunda que a fez arquear as costas e soltar um grito abafado no ombro dele, a realidade da arena lá fora desapareceu. Ali, naquele quartinho escuro com cheiro de couro e graxa, não havia medalhas de ouro ou recordes mundiais.
— Olha para mim, Julia — ordenou ele, as mãos prendendo os pulsos dela acima da cabeça.
Julia abriu os olhos, encontrando o azul intenso de Ilia. Não havia deboche agora, apenas uma intensidade crua que a assustava.
— Você é minha — ele sussurrou, aumentando o ritmo, cada movimento sendo uma afirmação de domínio. — No gelo, você pode ser da Rússia, mas aqui... você pertence ao caos.
O movimento era rítmico e frenético, o som da respiração pesada de ambos ecoando nas paredes de concreto. Julia sentia cada músculo de Ilia trabalhando, a força bruta que ele geralmente escondia sob a graça de seus saltos agora voltada inteiramente para o prazer dela. Ela sentia que estava desmoronando, a estrutura rígida de sua vida sendo reduzida a cinzas pelo calor dele.
— Ilia... eu... — ela começou, mas as palavras se perderam em um gemido longo quando ele atingiu um ponto que a fez ver estrelas.
— Diz meu nome — pediu ele, a voz quebrada. — Diz que você me quer tanto quanto odeia.
— Eu te odeio... Ilia... eu te odeio tanto — ela soluçou, mas suas pernas se apertaram ao redor da cintura dele, implorando por mais.
O ápice chegou como uma queda livre, violento e avassalador. Julia sentiu o corpo de Ilia ficar rígido contra o seu enquanto ele se entregava com um rosnado baixo. Eles ficaram ali por longos minutos, as respirações se acalmando, o suor esfriando na pele.
Ilia se afastou devagar, recompondo-se com aquela facilidade irritante que ele possuía. Ele vestiu a calça e olhou para Julia, que ainda tentava recuperar o fôlego, o cabelo loiro bagunçado e os olhos vermelhos.
Ele se inclinou e deu um beijo casto na ponta do nariz dela, o sorriso provocador de volta ao lugar.
— Ótima performance, Cenci. Nota dez em componentes técnicos. Mas cuidado... se você patinar assim amanhã na gala, os juízes vão saber exatamente quem andou te ensinando sobre "expressão artística".
Julia pegou uma toalha próxima e a jogou nele, recuperando sua máscara de frieza, embora seus olhos ainda brilhassem com uma emoção que ela não conseguia nomear.
— Sai daqui, Malinin.
— Até amanhã, majestade — disse ele, abrindo a porta e olhando para trás uma última vez. — Tente não pensar em mim enquanto estiver girando. Seria uma pena você cair por minha causa... de novo.
Ele saiu, assobiando uma melodia qualquer que Julia reconheceu como a música de seu próprio programa longo. Ela encostou a cabeça na parede fria, fechando os olhos. Ela o odiava. Realmente o odiava. Mas, enquanto sentia o rastro dele ainda presente em seu corpo, ela sabia que a verdadeira competição estava apenas começando. No gelo, ela seria a rainha. Mas naquela sala escura, ela tinha descoberto que até o gelo mais duro precisa de um pouco de fogo para não quebrar.
Na noite seguinte, durante a festa de gala de encerramento, a arena estava mergulhada em luzes azuis e púrpuras. Julia patinou seu número de exibição com uma entrega que chocou o público. Não era mais a boneca russa mecânica; havia uma sensualidade, uma dor e um fogo em seus movimentos que ninguém jamais vira.
Ao terminar, sob uma ovação de pé, ela patinou em direção à saída do gelo. Ilia estava lá, esperando para sua própria entrada. Ele a observou com um olhar que misturava orgulho e desejo.
— Você aprendeu rápido — disse ele quando ela passou.
— Eu sempre fui uma excelente aluna — respondeu ela, sem parar. — Só precisava do material de estudo certo.
Ilia sorriu, um sorriso que pela primeira vez não parecia uma provocação, mas um reconhecimento. Ele entrou no gelo sob os gritos da multidão, mas seus olhos, por um breve segundo, permaneceram fixos na silhueta de Julia desaparecendo no túnel.
Eles eram lâminas e labaredas, opostos que se destruíam e se criavam a cada encontro. E enquanto o mundo da patinação artística os via como rivais amargos, apenas eles sabiam que, no fim das contas, o gelo era apenas o palco para o incêndio que ambos carregavam no peito.