Voltar ao resumo

Gelo em chamas

Lâminas de Vidro e Brasas de Obsidiana

O banquete de encerramento do Grand Prix em Osaka deveria ser uma celebração de prestígio, mas para Julia Cenci, era apenas um exercício de paciência. Vestida em um longo de seda preta com uma fenda que subia perigosamente pela coxa, ela segurava sua taça de champanhe com a ponta dos dedos, mantendo a postura ereta que sua técnica russa exigia. O ouro pendia invisível em sua aura, mas o peso real que ela sentia era o olhar de Ilia Malinin queimando suas costas do outro lado do salão.

Ele estava cercado. Patinadoras juniores, jornalistas e até algumas modelos locais orbitavam ao redor do "Quad God" como se ele fosse o próprio sol. Ilia ria, o colarinho da camisa branca aberto, a gravata frouxa, exalando aquela confiança americana barulhenta que Julia desprezava — e que, secretamente, a incendiava.

— Você parece que vai quebrar a taça a qualquer momento, Julia — comentou Mikhail, um patinador de duplas russo que tentava, sem sucesso, flertar com ela há meses. — O gelo foi deixado no rinque, sabia? Aqui você pode relaxar.

Mikhail aproximou-se, a mão pousando de forma possessiva na base das costas de Julia. Ela não se afastou imediatamente, mas seus olhos endureceram.

— Estou perfeitamente relaxada, Mikhail — mentiu ela, a voz fria. — Apenas apreciando o silêncio… ou o que resta dele com o Malinin por perto.

— Ele é um palhaço — Mikhail desdenhou, inclinando-se mais para perto, o hálito cheirando a vinho caro. — Um acrobata de circo que teve sorte com os saltos. Você, Julia, você é arte pura. Deveríamos sair daqui, o que acha? O bar do terraço é muito mais… privado.

Julia abriu a boca para dar uma resposta cortante, mas foi interrompida por uma presença súbita e esmagadora. Ilia apareceu do nada, segurando um copo de uísque puro, os olhos azuis faiscando de uma forma que ela reconheceu imediatamente: era a mesma expressão que ele usava antes de tentar um salto impossível.

— Mikhail, não é? — Ilia interveio, a voz arrastada, mas carregada de veneno. — Eu adoraria continuar ouvindo sua análise técnica sobre o meu "circo", mas receio que a Cenci e eu tenhamos um assunto pendente sobre a pontuação de componentes artísticos.

Mikhail empertigou-se, claramente intimidado pela estatura e pela aura de Ilia.

— Estamos conversando, Malinin. Não seja mal-educado.

— Mal-educado? — Ilia deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal do russo, os olhos fixos na mão de Mikhail que ainda tocava o vestido de Julia. — Você não viu nada ainda. Tira a mão dela. Agora.

O ar entre os três ficou eletrizado. Julia sentiu o estômago revirar. O ciúme de Ilia era uma força bruta, nada parecida com a sua própria frieza calculada.

— Ilia, não faça uma cena — sibilou Julia, embora o calor estivesse subindo por seu pescoço.

— A cena já começou, Julia — Ilia disse, sem desviar os olhos de Mikhail. — E eu não gosto de figurantes tocando no que é meu.

— Eu não sou sua, Ilia! — Julia retrucou, a voz subindo um tom, atraindo olhares curiosos das mesas próximas.

— É o que você diz em público — Ilia sorriu, mas não era um sorriso amigável. — Mikhail, suma daqui antes que eu decida testar se a sua mandíbula é tão resistente quanto o gelo da Sibéria.

Mikhail, percebendo que a situação estava prestes a escalar para uma agressão física que arruinaria sua carreira, murmurou um insulto em russo e se afastou, deixando Julia e Ilia sozinhos em uma bolha de fúria e tensão sexual.

— Você enlouqueceu? — Julia explodiu, deixando a taça de champanhe sobre uma mesa lateral com um baque seco. — Quem você pensa que é para falar com meus colegas assim? Você não tem direito nenhum sobre mim!

— Direito? — Ilia agarrou o pulso dela, puxando-a para um corredor lateral, longe dos flashes e dos juízes. — Eu tenho cada centímetro daquela noite em Tallinn gravado na minha memória, Julia. E tenho as marcas que deixei em você ontem à noite para provar que você não pertence a nenhum desses idiotas que tentam chegar perto de você.

— Aquilo foi sexo, Ilia! — ela exclamou, empurrando-o contra a parede de mármore do corredor deserto. — Sexo de competição! Uma forma de descarregar a adrenalina! Não confunda isso com posse.

— Engraçado — Ilia riu, a voz rouca, prensando o corpo contra o dela, prendendo suas mãos acima da cabeça. — Porque quando ele tocou em você, eu senti vontade de quebrar cada osso da mão dele. E quando você não se afastou de imediato, eu quis te arrastar para o meio do salão e mostrar para todo mundo exatamente por que você é a Rainha de Gelo… e quem é que te faz derreter.

— Você é um egocêntrico possessivo — Julia arfou, a respiração ficando curta enquanto o corpo dele pressionava o seu, a ereção dele evidente contra sua coxa através da seda fina do vestido. — Você só quer me controlar porque não consegue me vencer no gelo de forma consistente.

— Eu já te venci, Julia — ele sussurrou, a boca roçando a orelha dela, o hálito quente enviando arrepios por sua espinha. — Eu te venci aos quinze anos quando você gritou meu nome naquela cama barata. Eu te venço toda vez que você olha para mim com esse ódio que nada mais é do que desejo reprimido.

— Eu te odeio — ela disse, mas suas unhas estavam cravando-se nos ombros dele, puxando-o para mais perto.

— Então me odeie com vontade — Ilia rosnou.

Ele a beijou com uma ferocidade que cortou o lábio dela, um beijo que tinha gosto de uísque, champanhe e uma rivalidade de anos. Julia respondeu com a mesma agressividade, sua língua travando uma batalha com a dele. Não havia ternura, apenas a necessidade crua de domínio.

Ilia desceu as mãos para a fenda do vestido dela, a pele encontrando a seda e depois a pele nua e quente. Ele a levantou, as pernas de Julia envolvendo sua cintura automaticamente, as lâminas invisíveis de sua vontade se partindo sob o toque dele.

— Aqui não… — ela conseguiu dizer entre beijos desesperados.

— Aqui mesmo — ele rebateu, empurrando-a para dentro de uma cabine de limpeza que estava entreaberta no corredor.

O espaço era minúsculo, cheirando a desinfetante e cera, um contraste bizarro com o luxo do banquete lá fora. Ilia a colocou sobre uma prateleira de metal, os produtos de limpeza caindo no chão com estrondo, mas nenhum dos dois se importou.

— Você é minha, Julia — ele repetiu, a voz como um comando enquanto ele rasgava a calcinha de renda dela. — Diz. Diz que você é minha.

— Eu… eu não vou te dar esse gosto — ela gemeu, a cabeça jogada para trás quando ele começou a devorar seu pescoço, deixando marcas que ela teria que esconder com quilos de maquiagem no dia seguinte.

— Você não precisa dizer. Seu corpo faz isso por você.

Ilia libertou-se da calça e a possuiu com uma estocada bruta, preenchendo-a de uma forma que a fez perder o sentido de direção. Julia soltou um grito abafado no ombro dele, as mãos agarrando o cabelo loiro e bagunçado do patinador. O ritmo era frenético, impulsionado pelo ciúme e pela raiva de minutos atrás. Cada movimento de Ilia era uma afirmação de poder, um salto quádruplo de sensações que a levava ao limite.

— Você… é um… animal — ela arfou, as costas batendo contra a parede fria a cada impacto.

— E você adora isso — ele retrucou, os olhos fixos nos dela, buscando a rendição total. — Olha para mim, Julia. Não fecha os olhos. Quero que você veja exatamente quem está te fazendo perder o controle.

Julia obedeceu. Ela viu o suor brilhando na testa de Ilia, a veia saltada em seu pescoço, a expressão de concentração maníaca. Naquele momento, ele não era o queridinho da América ou o rival de pódio. Ele era o homem que a conhecia desde que eram crianças, o único que vira suas lágrimas de derrota e seus sorrisos de triunfo. O único que sabia que, sob a máscara de Rainha de Gelo, batia um coração que só funcionava em temperaturas extremas.

O orgasmo a atingiu como uma queda violenta no gelo, mas sem a dor. Foi uma explosão de cores e espasmos que a deixou sem fôlego, agarrada a Ilia como se ele fosse sua única âncora no mundo. Ele soltou um rosnado gutural, descarregando-se dentro dela com uma força que a fez tremer por longos segundos.

Eles ficaram ali, abraçados na penumbra da cabine de limpeza, o som das respirações pesadas sendo o único ruído. O silêncio que se seguiu não era de paz, mas de uma trégua armada.

— Se você deixar aquele russo chegar perto de você de novo — Ilia começou, a voz voltando ao tom possessivo enquanto ele se afastava para se recompor —, eu não vou apenas fazer uma cena. Eu vou acabar com a carreira dele.

Julia ajeitou o vestido, as mãos ainda trêmulas. Ela recuperou sua máscara de frieza, embora seus lábios estivessem vermelhos e inchados, e seu corpo ainda estivesse em chamas.

— Você não manda em mim, Malinin. O que aconteceu aqui não muda o fato de que, no próximo campeonato, eu vou te deixar comendo poeira.

Ilia sorriu, aquele sorriso de garoto safado que a irritava tanto quanto a atraía. Ele se inclinou e limpou um borrão de batom no canto da boca dela com o polegar.

— Pode tentar, Cenci. Mas lembre-se: você pode ganhar o ouro, mas no final da noite, é sempre para a minha cama que você volta. Mesmo que a cama seja uma prateleira de produtos de limpeza.

Ele abriu a porta da cabine, verificando se o corredor estava vazio.

— Te vejo no aeroporto amanhã. Tente não sentir muita saudade.

Julia esperou que ele saísse antes de se olhar em um pequeno espelho quebrado na parede. Ela viu a Rainha de Gelo, mas viu também os olhos de uma mulher que acabara de ser incendiada. Ela odiava Ilia Malinin com cada fibra de seu ser, mas enquanto caminhava de volta para o salão de festas, ajeitando o cabelo e a postura, ela sabia que a rivalidade deles era a única coisa que a mantinha verdadeiramente viva.

O gelo era sua vida, mas o fogo de Ilia era o seu destino. E ela sabia, com uma clareza assustadora, que nenhum outro homem no mundo jamais seria capaz de derreter sua alma daquela forma.