Gelo em chamas
O Eco de Tallinn e a Fragilidade do Vidro
O frio da arena de Saitama era diferente do calor abafado do quarto de hotel, mas para Julia Cenci, os dois ambientes estavam agora irremediavelmente interligados. Enquanto ela deslizava pelo gelo para o treino de gala, o deslizar das lâminas parecia ecoar o som do zíper de seu agasalho sendo aberto por mãos impacientes horas antes. Ela era a "Rainha de Gelo", a patinadora que a Rússia moldara para ser inquebrável, mas Ilia Malinin havia descoberto a fissura exata em sua armadura.
Ele estava lá, encostado na barreira, observando-a com aquele sorriso de canto que gritava possessividade. Ilia não era apenas o "Quad God" dos Estados Unidos; ele era o fantasma que a assombrava desde os dez anos, o garoto que puxava suas tranças nos acampamentos de verão e que, aos quinze, transformara uma derrota amarga em uma iniciação caótica e inesquecível em Tallinn.
— Você está perdendo o tempo da música, Cenci — gritou Ilia, sua voz cortando o som do piano que ecoava nos alto-falantes. — Ou será que a memória do que fizemos na sala de equipamentos está pesando nas suas pernas?
Julia parou bruscamente, as lâminas levantando uma nuvem de cristais de gelo. Ela patinou até a borda, os olhos faiscando.
— Você não consegue calar a boca nem por um segundo, Malinin? — sibilou ela, aproximando-se o suficiente para sentir o calor que emanava dele mesmo naquele ambiente gélido. — Estamos em uma competição oficial. Tenha um mínimo de decência profissional.
— Decência? — Ilia soltou uma risada anasalada, inclinando-se sobre a barreira para diminuir a distância entre seus rostos. — Nós perdemos a decência em Tallinn, Julia. E a enterramos de vez ontem à noite. Não finja que você se importa com as regras quando estamos sozinhos. Você adora o caos tanto quanto eu.
— Eu odeio você — afirmou ela, embora sua respiração estivesse ficando curta.
— Você adora me odiar — corrigiu ele, estendendo a mão para tocar uma mecha do cabelo loiro dela que escapara do coque perfeito. — Porque eu sou o único que te faz sentir algo além de notas técnicas e protocolos.
Julia recuou, voltando para o centro do rinque. Ela precisava de foco. O programa de gala era sua chance de mostrar ao mundo que o ouro era merecido, mas a presença de Ilia era como uma interferência estática em sua frequência. Ela iniciou uma combinação de passos, mas sua mente traiu sua disciplina.
Ela se lembrou de Tallinn. Quinze anos. A neve caía pesada do lado de fora do hotel na Estônia. Ambos haviam patinado mal, tomados pelo nervosismo da transição para o nível júnior. A festa de gala fora um borrão de ponche batizado e frustração adolescente. Ilia a provocara a noite toda, chamando-a de "robô sem alma", até que ela o empurrara para um corredor vazio, pronta para esbofeteá-lo. O tapa nunca aconteceu; em vez disso, houve um beijo desajeitado, carregado de fúria, que terminou em uma cama de hotel barulhenta. Foi sua primeira vez — uma mistura de dor, descoberta e uma eletricidade que ela nunca mais conseguiu replicar com ninguém.
E ele usara aquilo. Oh, como ele usara. Nos anos seguintes, cada vez que se cruzavam nos corredores da ISU, ele sussurrava comentários sobre como ela ficava linda quando perdia o controle, ou como o gelo nunca seria tão quente quanto a pele dela naquela noite.
O treino terminou e Julia saiu do gelo apressada. Ela queria evitar o confronto, mas Ilia era como um predador que conhecia todas as saídas de sua presa. No túnel que levava aos vestiários, ele a cercou, prendendo-a contra a parede de concreto frio.
— Onde está a pressa, majestade? — perguntou ele, a voz agora baixa, rouca. — O banquete é só daqui a duas horas. Temos tempo.
— Me solta, Ilia. Alguém pode ver.
— Deixa ver — disse ele, a mão subindo pela cintura dela, apertando o tecido fino do collant de treino. — Quero que saibam que a Rainha de Gelo tem um dono. E que esse dono é o cara que você jura que detesta.
— Você é um egocêntrico nojento — disse ela, mas suas mãos, em vez de empurrá-lo, subiram para os ombros dele, agarrando o tecido do agasalho americano.
— E você é uma mentirosa — rebateu ele, selando os lábios nos dela com uma força que a fez gemer.
Não havia delicadeza. Nunca havia. Era uma competição de línguas e dentes, uma luta por dominância. Ilia a levantou com facilidade, as pernas de Julia envolvendo a cintura dele automaticamente. Ele a carregou para dentro de uma sala de massagem vazia, chutando a porta para fechar. O som da tranca batendo foi o sinal para que a última barreira de Julia caísse.
— Eu vou te destruir, Malinin — sussurrou ela contra o pescoço dele, enquanto ele a colocava sobre a mesa de massagem acolchoada.
— Tente, Cenci. Tente.
Ilia não perdeu tempo com preliminares gentis. Ele precisava possuí-la, precisava reafirmar que, apesar de todas as medalhas russas, ela ainda era a garota que se entregara a ele em Tallinn. Ele puxou a lycra do collant dela para o lado, expondo a pele pálida e sensível. Julia arqueou as costas quando sentiu a boca dele em seus seios, a língua quente contrastando com o frio que ainda sentia nos ossos.
— Você é tão... perfeita — murmurou ele, a voz carregada de uma luxúria que ele raramente mostrava ao mundo.
Ele se livrou da própria calça com uma urgência febril. Quando ele entrou nela, um impacto seco e profundo, Julia soltou um grito que foi abafado pela mão dele sobre sua boca.
— Shh... — sussurrou Ilia, os olhos azuis brilhando com uma intensidade maníaca. — Não queremos que os seus juízes ouçam o quão pouco técnica você está sendo agora, não é?
O ritmo era frenético. Ilia se movia com o mesmo atletismo explosivo que usava para seus saltos quádruplos, cada estocada sendo um lembrete do poder que ele exercia sobre ela. Julia sentia que estava perdendo o juízo. Ela era a mulher que controlava cada milímetro de seu corpo no ar, mas ali, sob Ilia, ela era apenas uma massa de nervos e desejo.
— Mais... — pediu ela, as unhas cravando-se nas costas dele, deixando marcas vermelhas que ele ostentaria com orgulho no dia seguinte.
— Diz que você é minha — comandou ele, aumentando a velocidade, o som da pele batendo contra a pele prechendo a sala pequena. — Diz, Julia!
— Eu... eu sou... — ela hesitou, a luta interna entre seu orgulho e seu prazer atingindo o ápice.
— Diz!
— Eu sou sua, seu idiota! — gritou ela, finalmente, enquanto o orgasmo a atingia como uma avalanche, sacudindo cada fibra de seu ser.
Ilia soltou um rosnado animal e seguiu logo atrás, descarregando-se dentro dela com uma força que a deixou sem fôlego. Ele desabou sobre ela, o suor de ambos se misturando, o silêncio retornando à sala como um intruso.
Minutos depois, Ilia se afastou, recompondo-se com uma calma irritante. Ele olhou para Julia, que ainda estava deitada, o cabelo desgrenhado, a imagem viva da rendição.
— Tallinn foi só o começo, Julia — disse ele, vestindo a jaqueta. — Você pode ganhar todas as medalhas de ouro do mundo, mas no final do dia, é aqui que você termina. Comigo.
Julia sentou-se, ajeitando o collant com as mãos trêmulas. Ela recuperou sua máscara de frieza, embora seus lábios estivessem inchados e vermelhos.
— Isso não muda nada na pista, Ilia. Eu ainda vou te vencer.
— Eu sei que vai — ele sorriu, um sorriso que desta vez tinha um toque de algo real, quase admiração. — É por isso que eu gosto tanto de você. Você é a única que consegue me acompanhar.
Ele saiu da sala sem olhar para trás, deixando-a sozinha com o eco de suas palavras. Julia levantou-se e caminhou até o espelho da sala. Ela viu a mulher que o mundo temia e admirava, mas viu também as marcas nos ombros e o brilho nos olhos que só Ilia conseguia provocar.
Duas horas depois, no banquete de gala, Julia estava impecável em um vestido de seda azul-marinho. Ela segurava uma taça de champanhe, conversando educadamente com os oficiais da federação russa. Do outro lado do salão, Ilia estava cercado por admiradores, mas seus olhos nunca deixavam de encontrá-la.
Ele levantou a taça em um brinde silencioso. Julia não retribuiu o gesto publicamente, mas sentiu o calor subir por seu pescoço. Ela sabia que a provocação continuaria. Ele faria piadinhas no dia seguinte, comentaria sobre sua performance com aquele duplo sentido que só eles entendiam, e usaria cada momento de intimidade para tentar desestabilizá-la.
— Você parece distraída, Julia — comentou Etsuko, sua técnica. — Algum problema com o programa de amanhã?
— Nenhum, Etsuko — respondeu Julia, seus olhos encontrando os de Ilia mais uma vez. — Eu só estava pensando em como o gelo pode ser enganoso. Às vezes, você acha que está no controle, mas basta uma lâmina mal posicionada para você cair.
— E você caiu? — perguntou a técnica, arqueando uma sobrancelha.
Julia sorriu, um sorriso gélido que ocultava o incêndio interno.
— Eu nunca caio, Etsuko. Eu apenas escolho onde aterrissar.
Ela se afastou, caminhando em direção à varanda do hotel. O ar fresco da noite japonesa bateu em seu rosto. Ela ouviu passos atrás dela e não precisou se virar para saber quem era.
— O champanhe está horrível, não acha? — perguntou Ilia, parando ao lado dela.
— É passável.
— Você é uma péssima mentirosa, Cenci.
— E você é um péssimo vencedor.
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, observando as luzes da cidade. A rivalidade entre eles era o que os definia, uma corda bamba entre o ódio profissional e uma necessidade física que nenhum dos dois sabia como nomear.
— O que acontece depois desta temporada, Ilia? — perguntou ela, a voz baixa.
— O de sempre — respondeu ele, olhando para ela com uma seriedade rara. — Eu vou tentar te superar, você vai tentar me ignorar, e vamos acabar em algum quarto de hotel em algum lugar do mundo, tentando provar quem é o melhor.
— É uma vida cansativa.
— É a única vida que vale a pena para gente como nós.
Ilia aproximou-se, sua mão roçando a dela no parapeito. Por um momento, a tensão sexual deu lugar a algo que parecia quase companheirismo, uma compreensão mútua de que eram os únicos que entendiam o peso daquelas lâminas nos pés.
— Vejo você no pódio amanhã — disse ele, afastando-se.
— Tente não chorar quando eu estiver no degrau mais alto — provocou ela.
Ilia soltou uma risada alta, que ecoou pela varanda.
— Sonhe com isso, Rainha de Gelo. Sonhe com isso.
Julia observou-o voltar para o salão, o coração batendo com uma força que nenhuma competição jamais conseguira provocar. Ela sabia que Ilia Malinin era seu maior erro, sua provocação constante e sua queda mais perigosa. Mas, enquanto sentia o frio da noite, ela percebeu que não trocaria aquele caos por toda a paz do mundo. Em algum lugar entre as lâminas e as labaredas, ela encontrara o seu equilíbrio. E ele tinha o nome do homem que ela jurara odiar para sempre.