George e ringo
O Eco das Cordas e o Calor do Refúgio
O sol da manhã entrava pelas frestas das cortinas pesadas da casa de campo que George havia alugado em Surrey. Era um lugar isolado, longe do frenesi de Londres e das câmeras que pareciam brotar do chão sempre que um deles colocava o pé na calçada. O silêncio da propriedade só era quebrado pelo canto dos pássaros e, ocasionalmente, pelo som de George afinando sua cítara na sala de estar, um som que zumbia pelo ar como um enxame de abelhas metálicas.
Ringo estava na cozinha, tentando, sem muito sucesso, preparar um bule de chá sem fazer barulho suficiente para acordar os vizinhos que não existiam. Ele vestia apenas uma calça de pijama listrada, o peito nu exibindo a pele pálida que raramente via a luz do dia. Ele parou o que estava fazendo quando ouviu a música parar abruptamente na sala ao lado.
— Se você quebrar mais uma xícara, Starkey, vou ter que deduzir do seu cachê da próxima turnê — a voz de George ecoou, tingida com aquele sarcasmo seco que era sua marca registrada.
Ringo apareceu no batente da porta, segurando uma colher como se fosse uma baqueta.
— Pelo menos eu estou tentando ser útil, Harrison. Você está aí sentado há duas horas tentando encontrar o "som do universo". Eu achei o som da fome, e ele é bem mais urgente.
George levantou os olhos do instrumento, um sorriso lento e genuíno iluminando seu rosto. Ele deixou a cítara de lado e esticou os braços, sentindo os ossos estalarem.
— O som da fome, hein? — George levantou-se e caminhou até Ringo, parando a poucos centímetros dele. — E o que exatamente você está com fome agora?
Ringo soltou a colher na mesa lateral e envolveu o pescoço de George com as mãos, puxando-o para perto. O brilho safado em seus olhos azuis estava mais forte do que nunca, alimentado pela privacidade absoluta daquela casa.
— O chá pode esperar — sussurrou Ringo, roçando o nariz no de George. — Eu estava pensando em algo que envolvesse menos água fervente e mais... ação direta.
George riu baixo, a mão descendo para a cintura de Ringo, sentindo o calor da pele dele.
— Você é insaciável. A gente não teve o suficiente no elevador na semana passada?
— George, meu caro Geo — disse Ringo, começando a desabotoar a camisa de linho que George usava —, o elevador foi apenas o aperitivo. Aqui temos espaço, temos tempo e, o melhor de tudo, temos uma mesa de jantar muito sólida.
George arqueou as sobrancelhas, o humor alegre de Ringo sempre o desarmando.
— A mesa? Você quer mesmo fazer isso na mesa onde tomamos café com o Brian ontem?
— Brian não está aqui agora — Ringo rebateu, empurrando a camisa de George pelos ombros. — E eu acho que a madeira vai combinar com o tom da sua pele.
George não ofereceu mais resistência. Ele pegou Ringo no colo, fazendo o baterista soltar uma exclamação de surpresa e alegria, e o sentou na pesada mesa de carvalho no centro da sala de jantar. O contraste do frio da madeira com o calor do corpo de Ringo fez o baterista estremecer, seus dedos se enterrando nos cabelos castanhos de George.
— Você fala demais para um guitarrista tão silencioso — provocou Ringo, puxando George para entre suas pernas.
— E você age como se o mundo fosse acabar amanhã — devolveu George, atacando o pescoço de Ringo com uma mordida leve que logo se transformou em uma sucção lenta.
— E se acabar? — arfou Ringo, a cabeça jogada para trás, os olhos fixos nas vigas de madeira do teto. — Pelo menos eu morro fazendo o meu solo favorito.
George subiu as mãos pelas coxas de Ringo, afastando o tecido fino do pijama. A atmosfera na sala mudou instantaneamente; o sarcasmo e as piadas deram lugar a uma urgência densa, quase palpável. O silêncio da casa de campo agora era preenchido pelo som das respirações entrecortadas e pelo atrito das peles.
— Ritchie... — George murmurou, a voz carregada de um desejo que ele raramente permitia que os outros vissem. — Você me deixa louco.
— Essa é a ideia, Geo — Ringo sorriu, embora o sorriso fosse agora mais uma expressão de prazer puro. — Eu sou o seu ritmo, lembra? E você está um pouco fora do tempo. Deixe-me consertar isso.
Ringo inclinou-se para frente, capturando os lábios de George em um beijo profundo e faminto. Suas mãos desceram para as calças de George, trabalhando com uma agilidade que só anos tocando bateria poderiam proporcionar. George soltou um gemido baixo, a testa encostada na de Ringo, enquanto se perdia na sensação das mãos calejadas do amigo.
O sol continuava a subir, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar, alheias ao fogo que consumia os dois homens no centro da sala. George, geralmente tão contido, revelava-se um amante voraz sob o toque de Ringo. Ele explorava cada curva do corpo do baterista com uma curiosidade quase espiritual, como se estivesse mapeando um novo território sagrado.
— George... agora — pediu Ringo, a voz quebrada, as pernas se enroscando firmemente na cintura do guitarrista.
George se uniu a ele com um movimento fluido, um acorde perfeito que ressoou por todo o ser de Ringo. O baterista soltou um grito abafado contra o ombro de George, suas mãos agarrando as costas do outro com força, as unhas deixando marcas vermelhas que seriam escondidas por camisas sociais nos dias seguintes.
O ritmo que se seguiu não era nada parecido com as baladas que Paul escrevia ou os rocks frenéticos de John. Era algo tribal, cru, uma batida que vinha de algum lugar profundo dentro deles, onde a fama e a pressão da Beatlemania não podiam alcançar. A mesa de carvalho rangia sob o movimento, um metrônomo natural para a paixão deles.
— Você é... incrível — ofegou George, olhando nos olhos de Ringo, vendo a vulnerabilidade e o desejo misturados ali.
— E você... você é meu — respondeu Ringo, puxando George para mais um beijo, as línguas se encontrando em uma dança frenética.
Quando o ápice finalmente os atingiu, foi como um crescendo sinfônico que termina em um silêncio absoluto e vibrante. Eles ficaram ali, colados um ao outro, o suor fazendo suas peles brilharem sob a luz da manhã. George escondeu o rosto no pescoço de Ringo, ouvindo o coração do baterista martelar contra seu peito, um ritmo que ele conhecia melhor do que qualquer música que já tivesse escrito.
Alguns minutos depois, Ringo soltou uma risada baixa, o humor voltando gradualmente.
— Então — começou ele, passando a mão pelos cabelos suados de George —, acho que a mesa passou no teste de resistência.
George levantou a cabeça, um sorriso sarcástico voltando aos lábios.
— Acho que vamos precisar de um polimento novo. E talvez de um café da manhã de verdade, antes que você desmaie de inanição.
— Eu não desmaiaria — Ringo piscou, ajudando George a se recompor. — Eu sou um profissional, Harrison. Consigo aguentar pelo menos mais dois rounds antes do chá.
George revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o carinho. Ele ajudou Ringo a descer da mesa e o puxou para um abraço apertado, um momento de quietude antes que o mundo voltasse a bater à porta.
— Você é um caso perdido, Starkey.
— Mas sou o seu caso perdido — Ringo rebateu, dando um beijo estalado na bochecha de George.
Eles caminharam juntos de volta para a cozinha, o clima de cumplicidade envolvendo-os como um cobertor quente. Enquanto George finalmente colocava o bule de chá no fogo, Ringo sentou-se na cadeira, batucando levemente no tampo da mesa com os dedos.
— Sabe, Geo — disse Ringo, com um olhar pensativo —, aquela cítara ali na sala... ela tem um som bem interessante.
George olhou para ele por cima do ombro, uma sobrancelha arqueada.
— Não. Nem pense nisso, Ringo.
— O quê? Eu só ia dizer que ela ficaria ótima em uma música nova! — Ringo fez uma expressão de inocência fingida que não enganava ninguém. — Mas agora que você mencionou... será que o tapete da sala é confortável?
George soltou uma gargalhada alta, a primeira do dia, e balançou a cabeça.
— Você não tem jeito.
— Não mesmo — concordou Ringo, sorrindo de orelha a orelha. — E é por isso que você me ama.
George não respondeu com palavras. Ele apenas serviu duas xícaras de chá e entregou uma a Ringo, seus dedos se roçando propositalmente. O silêncio da casa de campo voltou a ser preenchido, não por música, mas pela promessa silenciosa de que, não importa onde estivessem — em estúdios, banheiros, elevadores ou mesas de jantar —, o ritmo deles nunca falharia. E para George Harrison, o Beatle que buscava a paz, ele finalmente a encontrara no lugar mais barulhento e alegre possível: nos braços de Ringo Starr.