Voltar ao resumo

George e ringo

O Elevador, o Incenso e a Batida Final

Londres estava mergulhada em uma neblina espessa e úmida, o tipo de noite que transformava os postes de luz em borrões amarelados e silenciava até o barulho dos táxis. No interior do hotel onde os Beatles estavam hospedados, o clima era o oposto. A adrenalina do show ainda corria pelas veias de George como uma corrente elétrica, fazendo suas mãos formigarem. Ele caminhava pelo corredor acarpetado, ouvindo o eco distante de John e Paul rindo em algum quarto, provavelmente bebendo uísque e dissecando cada nota errada da noite.

George parou em frente ao elevador de serviço, aquele que ficava nos fundos, longe dos olhos dos funcionários noturnos e dos poucos fãs que ainda montavam guarda na entrada principal. Ele apertou o botão e esperou, o coração batendo em um compasso que não era o de "Don't Bother Me".

A porta se abriu com um rangido metálico e suave. Ringo já estava lá dentro.

Ele estava encostado na parede de madeira polida do elevador, com o paletó pendurado em um dos dedos e a gravata frouxa, pendendo como uma corda de forca elegante. O baterista tinha aquele sorriso torto, o olhar carregado de uma promessa que George conhecia bem.

— Você demorou — disse Ringo, sua voz rouca vibrando no espaço pequeno. — Comecei a achar que você tinha decidido ir meditar com as fronhas de travesseiro.

George entrou e apertou o botão do último andar, mas imediatamente puxou a alavanca de emergência, travando a cabine entre o terceiro e o quarto piso. O solavanco fez Ringo rir, um som curto e satisfeito.

— Meditar é para quando não se tem uma companhia melhor, Ritchie — rebateu George, dando um passo à frente e invadindo o espaço do outro. — E você sabe que eu sou um homem de palavra.

Ringo jogou o paletó no chão do elevador e envolveu a cintura de George, puxando-o para um beijo que cheirava a cigarro e a uma vontade acumulada desde a tarde nos bastidores. Não era um beijo de exploração; era um beijo de reconhecimento. George soltou um som baixo na garganta, suas mãos subindo para o rosto de Ringo, os polegares traçando a linha da mandíbula do baterista.

— O elevador, Geo — ofegou Ringo, afastando-se apenas para morder o lábio inferior de George. — Eu disse que seria uma boa ideia. A gravidade aqui parece... diferente.

— Você é um pervertido geográfico — murmurou George, sorrindo contra os lábios dele. — Estúdios, banheiros, elevadores... Onde mais? No teto do Buckingham Palace?

— Se você me ajudar a subir lá, eu não reclamaria — Ringo riu, suas mãos descendo para os quadris de George e apertando com força. — Mas agora, eu só quero você. Aqui. Sem guitarras, sem fãs, apenas o ritmo.

George não precisou de mais nada. Ele empurrou Ringo contra a parede de madeira, sentindo o tremor leve da cabine suspensa. Suas mãos desceram para a camisa de Ringo, abrindo os botões com uma pressa que contrastava com sua habitual calma. Ringo, por sua vez, era um redemoinho de movimentos, suas mãos tateando as costas de George, puxando a camisa para fora das calças, a pele encontrando a pele em um choque térmico delicioso.

— Alguém pode apertar o botão lá embaixo — sussurrou George, embora não fizesse o menor esforço para parar.

— Deixe que apertem — disse Ringo, a voz agora carregada de uma urgência safada. — Eles vão ouvir o sino tocar, mas a gente não vai a lugar nenhum. Estamos no nosso próprio universo, Geo.

Ringo deslizou para o chão do elevador, puxando George consigo. O espaço era exíguo, forçando-os a se entrelaçarem de forma desajeitada e íntima. George sentia o cheiro do sabão de barbear de Ringo misturado ao suor do palco, uma combinação que o deixava zonzo. Ele beijou o pescoço de Ringo, descendo até a clavícula, deixando marcas que o baterista exibia como troféus silenciosos.

— George... — Ringo arfou, a cabeça jogada para trás contra a madeira. — Você... você é muito melhor que um solo de guitarra.

— E você — George murmurou, a voz vibrando contra o peito de Ringo — é a única batida que eu quero seguir.

As roupas foram descartadas em uma pilha confusa no canto da cabine. No silêncio do poço do elevador, cada respiração, cada gemido abafado, parecia ecoar infinitamente. George era meticuloso, suas mãos explorando Ringo como se estivesse afinando um instrumento precioso, enquanto Ringo era o fogo, a resposta imediata, o riso entre os beijos que desarmava qualquer tensão.

Quando a união finalmente aconteceu, o elevador pareceu balançar levemente em seus cabos de aço. Ringo agarrou os ombros de George, as unhas cravando-se levemente na pele do guitarrista. O prazer era agudo, amplificado pelo risco de serem descobertos a qualquer momento.

— Oh, Deus, Ritchie — George sussurrou, o rosto escondido na curva do pescoço de Ringo.

— Continue, Geo... não para — pediu Ringo, os olhos azuis apertados, o corpo reagindo a cada movimento de George com uma sincronia perfeita.

Eles se moveram juntos naquela jam session particular, uma dança de sombras e reflexos no metal do elevador. O tempo parecia ter parado entre os andares, assim como eles haviam parado o mundo lá fora. Para George, aquele momento era uma forma de oração; para Ringo, era a celebração mais pura da vida.

Quando o ápice chegou, foi um estrondo silencioso, uma onda que os deixou sem fôlego e trêmulos, agarrados um ao outro enquanto a cabine finalmente parava de oscilar.

Alguns minutos se passaram. O único som era o zumbido elétrico do motor do elevador e a respiração pesada de ambos. Ringo, sempre o primeiro a quebrar o silêncio com seu humor característico, deu um tapinha leve no ombro de George.

— Então — começou Ringo, a voz ainda trêmula —, acho que essa foi a nossa melhor "subida" até agora.

George soltou uma risada genuína, encostando a testa na de Ringo.

— Você é impossível, Starkey. Realmente impossível.

— Mas você me ama — provocou Ringo, piscando um olho. — E admite, o elevador tem uma reverberação fantástica.

George revirou os olhos, mas ajudou Ringo a se levantar e a recolher as roupas espalhadas.

— Da próxima vez, vamos tentar algo mais... estável. Como uma cama, talvez?

— Uma cama? — Ringo fez uma careta fingida de tédio enquanto abotoava a camisa. — Que coisa mais comum, Harrison. Onde está o seu espírito de aventura?

— Meu espírito de aventura está tentando garantir que não sejamos demitidos por comportamento indecente em hotéis de luxo — George respondeu, ajeitando o cabelo no espelho da cabine.

Ringo aproximou-se por trás, abraçando George pela cintura e olhando para o reflexo dos dois. Ele beijou a nuca de George, um gesto carregado de um carinho que o sarcasmo nunca conseguia esconder totalmente.

— Eles nunca vão saber, Geo. Para o resto do mundo, somos apenas os quatro garotos de Liverpool. Mas aqui... aqui somos só nós.

George sorriu, virando-se nos braços de Ringo para um último beijo, calmo e profundo.

— Só nós.

George destravou a alavanca de emergência. O elevador deu um pequeno solavanco e voltou a subir suavemente. Quando as portas se abriram no último andar, eles saíram com uma calma estudada, como se tivessem passado os últimos vinte minutos discutindo filosofia ou o novo álbum de Bob Dylan.

No corredor, encontraram John, que saía do próprio quarto para pedir mais gelo. Ele olhou para os dois, notando o cabelo levemente bagunçado de George e o sorriso radiante de Ringo.

— Onde vocês estavam? — perguntou John, arqueando uma sobrancelha. — Parecem que acabaram de ganhar na loteria.

— Estávamos apenas... testando a segurança do hotel, John — respondeu George, sem hesitar, o tom sarcástico perfeitamente afinado.

— É — completou Ringo, passando por John e dando um tapinha em suas costas. — E posso te dizer, o elevador de serviço é extremamente confiável.

John olhou para eles, confuso, enquanto os dois seguiam para seus respectivos quartos. Ringo olhou para trás uma última vez, piscando para George antes de fechar a porta.

George entrou em seu quarto, sentindo o cheiro de Ringo ainda em sua pele. Ele caminhou até a janela, olhando para as luzes de Londres. O misticismo que ele tanto buscava, percebeu, não estava apenas nos livros ou nos incensos, mas naquelas batidas de coração compartilhadas no escuro, na risada de um amigo que se tornou tudo, e na música silenciosa que só os dois sabiam tocar.

Ele se deitou na cama, fechando os olhos, já imaginando qual seria o próximo "palco" que Ringo inventaria. E, no fundo, George sabia que estaria pronto para qualquer bis.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.