Ghost Face
O Labirinto de Vidro
O kimbap tinha um gosto de cinzas na boca de Nari. Cada mastigada era um esforço hercúleo, um ato de obediência forçada que a fazia sentir-se pequena e quebradiça. Ela terminou de comer sob o brilho estéril da lâmpada fluorescente da cozinha, sentindo-se como um animal sendo preparado para o abate. O Sr. Choi apareceu na porta minutos depois, alheio ao terror que acabara de transbordar naquele ambiente.
— Terminou seu lanche, Nari? — perguntou ele, limpando as mãos em um pano de prato encardido. — Você precisa voltar para o salão. O movimento está aumentando.
Nari limpou o rosto apressadamente com a manga do uniforme, tentando esconder os vestígios do choro.
— Sim, senhor. Já estou indo.
Ela caminhou de volta para o salão principal, mas seus pés pareciam feitos de chumbo. Cada cliente que atravessava a porta giratória fazia seu coração saltar. Ela buscava por ele — pela jaqueta de couro, pelos olhos negros, pelo sorriso predatório. Mas Jungkook não estava lá. Pelo menos, não onde ela pudesse vê-lo.
O turno se arrastou. Nari anotava pedidos mecanicamente, derrubou uma bandeja de talheres e pediu desculpas tantas vezes que sua voz ficou rouca. Ela sentia o peso do celular dentro da bolsa, guardado no armário dos funcionários. O desejo de ligá-lo e pedir ajuda lutava contra o terror paralisante de que ele estivesse monitorando cada sinal de rede, cada tentativa de fuga.
Quando o relógio finalmente marcou meia-noite, o Sr. Choi a liberou.
— Vá para casa, menina. Você está péssima. Pegue um táxi, não quero você andando sozinha por aí com essa cara de quem vai desmaiar.
Nari assentiu, mas sabia que um táxi não seria suficiente. Se Jungkook era a sombra que a seguia, um carro de metal não a protegeria. No vestiário, ela pegou sua bolsa. Suas mãos tremiam tanto que ela quase não conseguiu enfiar a chave na fechadura do armário. Ela tirou o celular e, com um suspiro trêmulo, ligou o aparelho.
A tela brilhou, e quase instantaneamente, uma sucessão de notificações inundou a barra de ferramentas.
"Bom trabalho hoje, meu amor."
"Você fica tão fofa quando está distraída. Mas cuidado com as bandejas, não quero que você se corte."
"Estou te esperando lá fora. Não me faça esperar muito."
Nari sentiu uma onda de náusea. Ela não ligou para a polícia. O que ela diria? Que um homem bonito lhe deu comida e mandou mensagens dizendo que a amava? Em Seul, a polícia raramente agia contra perseguidores até que o sangue fosse derramado. E, depois do que ele insinuou sobre o Sr. Park, Nari tinha certeza de que Jungkook não deixaria rastros.
Ela saiu pela porta da frente, evitando o beco dos fundos. A rua estava deserta, o ar frio da noite cortando seu rosto. Ela começou a andar rápido, os saltos de seus sapatos batendo no asfalto com um ritmo frenético.
— Táxi! — ela gritou, estendendo o braço para um veículo amarelo que passava.
O carro parou. Nari entrou, trancando a porta imediatamente.
— Para onde, senhorita? — perguntou o motorista, um homem idoso que parecia cansado.
Ela deu o endereço de um hotel barato do outro lado da cidade, longe de seu apartamento. Ela não podia voltar para casa. Não hoje.
O motorista deu a partida. Nari encostou a cabeça no vidro frio, fechando os olhos por um segundo. O alívio, porém, durou pouco. O som de uma notificação de mensagem ecoou no espaço confinado do carro.
"O Hotel Blue Moon é um pouco decadente para você, não acha? O lençol deles tem cheiro de mofo. Você prefere o conforto da sua cama, Nari-ah. Eu sei que prefere."
Nari soltou um grito abafado, jogando o celular no chão do táxi.
— Algum problema, senhorita? — o motorista olhou pelo retrovisor, preocupado.
— Mude o caminho! — ela exclamou, a voz embargada. — Me leve para a delegacia mais próxima. Agora!
O motorista franziu o cenho, mas começou a fazer o retorno. Nari olhou pela janela traseira. Não havia carros seguindo-os de perto. Apenas a escuridão da metrópole. Como ele sabia? Como ele podia ler suas intenções antes mesmo de ela executá-las?
Ao chegar na delegacia, Nari correu para dentro. O ambiente cheirava a café forte e papel velho. Um oficial jovem estava atrás do balcão, digitando algo em um computador lento.
— Por favor... — Nari começou, ofegante. — Tem alguém me seguindo. Ele sabe tudo o que eu faço. Ele... ele matou meu vizinho.
O oficial parou de digitar e olhou para ela com uma mistura de tédio e ceticismo.
— Calma, senhorita. Nome?
— Kim Nari. Por favor, ele está me mandando mensagens agora mesmo. Ele está lá fora!
— Vamos ver essas mensagens — disse o policial, estendendo a mão.
Nari buscou o celular na bolsa, mas suas mãos pararam no meio do movimento. O aparelho não estava lá. Ela se lembrou de tê-lo jogado no chão do táxi.
— Eu... eu deixei no carro. No táxi.
O oficial suspirou, recostando-se na cadeira.
— Senhorita Kim, sem provas é difícil fazer um registro. Quanto ao seu vizinho, o Sr. Park? Recebemos o relatório de que ele viajou para visitar a filha em Busan. Não há crime algum.
— Não! — Nari bateu no balcão. — Ele mentiu! Ele está me cercando!
— Olhe, senhorita, por que você não vai para casa e descansa? Se ele aparecer de novo, ou se você recuperar o telefone com as provas, volte aqui. Não podemos prender sombras.
Nari saiu da delegacia sentindo-se completamente nua. O mundo parecia ter se voltado contra ela, ou melhor, Jungkook havia moldado a realidade ao redor dela para que ninguém acreditasse em sua dor.
Ela começou a caminhar sem rumo, com medo de pegar outro táxi, com medo de ficar parada. A noite estava cada vez mais silenciosa. Ao dobrar uma esquina em direção a uma praça iluminada, ela viu uma figura encostada em um poste de luz.
Seu coração parou.
Era ele. Jungkook não usava mais a máscara. Ele estava ali, sob a luz pálida, com a jaqueta de couro aberta e uma expressão de paciência infinita. Em sua mão direita, ele balançava o celular de Nari.
— Você esqueceu isso no carro, querida — disse ele, a voz suave como veludo, mas carregada de uma autoridade que a fez tremer. — O motorista foi muito gentil em me entregar quando eu o parei duas quadras depois.
Nari deu um passo para trás, mas suas costas encontraram o muro de pedra de um jardim fechado.
— O que você quer? — ela perguntou, as lágrimas voltando a cair. — Dinheiro? Eu não tenho nada.
Jungkook riu, um som curto e sem humor. Ele se aproximou, diminuindo a distância entre eles com a graça de um predador.
— Eu tenho todo o dinheiro de que preciso, Nari. Eu quero o que o dinheiro não compra. Eu quero a sua atenção exclusiva. Eu quero ser a primeira coisa em que você pensa ao acordar e a última antes de dormir. E, pelo que vi hoje, estou conseguindo, não estou?
Ele parou a centímetros dela. O perfume amadeirado que ela sentira no restaurante agora a envolvia completamente. Era um cheiro inebriante, que parecia entorpecer seus sentidos.
— Você foi à polícia — continuou ele, inclinando-se para sussurrar em seu ouvido. — Isso me magoou. Eu cuido tanto de você, e é assim que me retribui? Tentando me trancar em uma cela?
— Você é um monstro — ela sibilou, embora sua voz não tivesse força.
— Eu sou o seu monstro — corrigiu ele, pegando a mão dela e entrelaçando seus dedos nos dela. A mão dele era quente e firme. — O mundo lá fora é cruel, Nari. As pessoas são falsas. O Sr. Choi te explora por um salário de miséria. O policial nem olhou na sua cara. Mas eu... eu vejo cada detalhe. Eu vejo a marca de nascença atrás da sua orelha. Eu vejo como você morde o lábio quando está nervosa.
Ele levantou o celular e o colocou de volta na bolsa dela, com um gesto quase carinhoso.
— Vamos para casa agora. Você teve um dia longo.
— Eu não vou com você.
Jungkook suspirou, e pela primeira vez, Nari viu um brilho de irritação em seus olhos escuros. Ele tirou o canivete borboleta do bolso e o abriu com um movimento rápido. A lâmina brilhou sob a luz do poste. Ele não a apontou para ela, mas começou a limpar as unhas com a ponta afiada.
— Sabe, Nari-ah, eu não gosto de usar a força. Mas eu também não gosto de ser desobedecido. Você tem duas opções. Você pode caminhar ao meu lado, como a minha garota, e eu prometo que você nunca mais terá que trabalhar naquele restaurante ou sentir medo de nada além de mim. Ou...
Ele parou, olhando para a lâmina.
— Ou eu posso tornar as coisas muito, muito sangrentas para qualquer um que cruzar o nosso caminho hoje. Começando por aquele segurança da praça que está vindo para cá.
Nari olhou para o lado e viu um guarda noturno se aproximando, fazendo sua ronda habitual. O homem não tinha ideia do perigo que corria.
— Não... — sussurrou ela. — Não machuque ele.
— Então escolha — disse Jungkook, fechando o canivete com um estalo seco e guardando-o. Ele estendeu o braço, oferecendo-o a ela como um cavalheiro em um encontro romântico distorcido.
Nari olhou para a mão dele e depois para o guarda. Ela sentiu como se estivesse pulando de um penhasco, mas não havia outra saída. Se ela gritasse, o guarda morreria. Se ela corresse, Jungkook a alcançaria.
Lentamente, ela colocou a mão sobre o braço dele.
Jungkook sorriu, e desta vez, o sorriso chegou aos olhos, tornando-o assustadoramente bonito.
— Boa menina — ele murmurou.
Eles caminharam juntos pelas ruas de Seul. Para qualquer observador casual, pareciam apenas um jovem casal voltando para casa após uma noite fora. Ele mantinha o braço dela firme contra o seu corpo, uma posse silenciosa e absoluta.
Ao chegarem ao prédio de Nari, o silêncio parecia ainda mais denso. Eles subiram as escadas. Nari sentia que cada degrau a levava para mais longe de sua vida antiga. Quando chegaram à porta do apartamento, ela hesitou com a chave na mão.
— Deixe que eu faço isso — disse Jungkook, pegando a chave da mão dela.
Ele abriu a porta e entrou primeiro, acendendo a luz. O pequeno apartamento, que antes era o refúgio dela, agora parecia o palco de uma peça de teatro dirigida por um louco.
Jungkook caminhou pelo espaço com familiaridade, como se morasse ali. Ele foi até a cozinha, pegou um copo e o encheu com água, entregando-o a ela.
— Beba. Você está pálida.
Nari aceitou o copo, suas mãos batendo contra o vidro. Ela bebeu tudo, sentindo a água descer rasgando sua garganta seca.
— Por que eu? — ela perguntou, sentando-se no sofá. — Existem tantas outras mulheres. Por que me perseguir?
Jungkook sentou-se ao lado dela, mas não a tocou. Ele apenas a observou, seus olhos percorrendo seu rosto com uma fome que a fazia querer desaparecer.
— Porque você é a única que não tenta parecer perfeita o tempo todo — disse ele, a voz baixa. — Eu te vi uma vez, há seis meses, ajudando uma senhora cega a atravessar a rua na chuva. Você estava toda molhada, seu cabelo estava bagunçado, mas você sorria. Naquele momento, eu soube. Você era a luz que faltava na minha escuridão. E eu decidi que ninguém mais teria o direito de ver esse sorriso. Só eu.
— Isso não é amor, Jungkook. É doença.
— O amor é uma doença, Nari. Ele consome, ele destrói, ele reconstrói. E eu vou reconstruir você.
Ele se levantou e caminhou até a janela, fechando as cortinas que Nari havia deixado abertas.
— Amanhã, você não vai trabalhar — afirmou ele, sem olhar para trás. — Eu já mandei uma mensagem do seu celular para o Sr. Choi dizendo que você se demite por motivos de saúde.
— Você o quê? — Nari levantou-se, indignada. — Como você ousa? É o meu sustento!
Jungkook virou-se, e a frieza em seu rosto a fez calar-se instantaneamente.
— Eu sou o seu sustento agora. Você não precisa mais se preocupar com contas, com clientes rudes ou com a solidão. Eu vou prover tudo. Em troca, você só precisa estar aqui. Para mim.
Ele caminhou até ela e, com uma suavidade aterrorizante, beijou sua testa.
— Vou deixar você descansar agora. Vou estar na sala, caso precise de algo. Não tente sair pela janela, moramos no terceiro andar e eu odiaria ver esse corpo lindo quebrado no asfalto.
Ele saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Nari ouviu o clique da fechadura. Ele a trancara por fora.
Ela correu até a porta e puxou a maçaneta, mas era inútil. Ela estava presa em sua própria casa, com um predador do outro lado da madeira. Nari desabou contra a porta, escorregando até o chão.
O silêncio do apartamento foi quebrado pelo som da televisão na sala. Jungkook estava assistindo a algo, agindo como se aquela fosse uma noite normal.
Nari abraçou os joelhos, escondendo o rosto. Ela olhou para o celular em sua bolsa. Havia uma nova mensagem, mesmo ele estando a poucos metros de distância.
"Durma bem, Nari-ah. Amanhã começa a nossa vida juntos. Eu prometo que vou te fazer feliz, mesmo que eu tenha que matar cada pessoa no mundo para garantir que você só tenha olhos para mim."
Ela desligou o celular pela última vez naquela noite, mas as palavras dele continuaram brilhando em sua mente como brasas. Ela percebeu que a fechadura da porta não era o seu maior problema. O verdadeiro problema era que, no labirinto de vidro que Jungkook construíra ao redor dela, todas as saídas levavam de volta para ele.
E, enquanto o som da respiração dele atravessava a fresta da porta, Nari soube que o medo não era mais um visitante ocasional. Era o seu novo e único companheiro.