Ghost Face
O Altar das Sombras
O dia amanheceu cinzento, com a névoa de Seul rastejando pelas frestas da janela como dedos fantasmagóricos. Nari não havia dormido. Cada estalo do assoalho de madeira, cada mudança na respiração de Jungkook na sala ao lado, funcionava como uma descarga elétrica em seu sistema nervoso. Ela estava sentada na beira da cama, os olhos fixos na maçaneta da porta, esperando o momento em que o carcereiro decidiria que o dia havia começado.
O clique da fechadura foi suave, quase educado. A porta se abriu lentamente, revelando Jungkook. Ele não parecia o monstro da noite anterior; vestia um suéter de lã escura que o deixava com uma aparência macia, quase inofensiva, se não fosse pelo brilho possessivo que nunca abandonava suas pupilas. Ele carregava uma bandeja com café, torradas e frutas cortadas com uma precisão cirúrgica.
— Bom dia, meu anjo — disse ele, entrando no quarto e colocando a bandeja sobre a mesa de cabeceira. — Você não parece ter descansado. Seus olhos estão vermelhos.
Nari não respondeu. Ela apenas o observava, as mãos apertando o edredom com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
— Eu preparei o café — continuou ele, ignorando o silêncio dela. — As morangos estão doces hoje. Eu mesmo os escolhi na feira enquanto você ainda tentava lutar contra o sono.
— Você saiu? — a voz de Nari saiu falha, seca como pergaminho.
— Por apenas dez minutos — ele sorriu, sentando-se na ponta da cama, perigosamente perto das pernas dela. — Mas não se preocupe, eu tranquei a porta por fora. Você estava segura.
— Segura de quem, Jungkook? — ela perguntou, sentindo uma súbita onda de coragem nascida do desespero. — Da única pessoa que me mantém presa aqui? O único perigo nesta sala é você.
Jungkook inclinou a cabeça, uma mecha de cabelo preto caindo sobre sua testa. Ele estendeu a mão para afastá-la, mas Nari recuou bruscamente. O sorriso dele não vacilou, mas seus olhos escureceram um tom, tornando-se poços de obsidiana.
— O mundo é o perigo, Nari. Eu sou apenas o muro que impede que ele te devore. Você ainda não entende, mas vai entender. Com o tempo, você vai agradecer por este silêncio.
Ele pegou um pedaço de morango e o estendeu em direção aos lábios dela.
— Coma. Não me obrigue a perder a paciência logo cedo. Eu detesto quando você me olha com esse desprezo.
Nari abriu a boca e aceitou a fruta, sentindo o gosto doce se misturar com o amargor da bile em sua garganta. Ela mastigou devagar, sentindo-se como uma boneca de porcelana nas mãos de uma criança caprichosa que poderia quebrá-la a qualquer momento se ficasse entediada.
— O que você vai fazer comigo? — ela sussurrou após engolir. — Vai me manter trancada neste quarto para sempre?
— Oh, não — ele riu, um som melodioso e aterrorizante. — Este apartamento é muito pequeno para o que eu planejei para nós. Hoje é o nosso último dia aqui. Vamos nos mudar para um lugar onde ninguém possa nos encontrar. Um lugar onde o barulho da cidade não distraia você de mim.
O pânico, que estava latente, explodiu no peito de Nari. Se ele a levasse dali, ela estaria verdadeiramente perdida. Ali, no prédio, ainda havia vizinhos, ainda havia a chance de um grito ser ouvido, mesmo que as chances fossem mínimas.
— Eu não vou — disse ela, levantando-se da cama com as pernas trêmulas. — Você não pode simplesmente me levar.
Jungkook levantou-se também, sua altura dominando o espaço exíguo do quarto. Ele deu um passo à frente, forçando-a a recuar até que suas costas batessem na parede fria. Ele apoiou as mãos na parede, uma de cada lado da cabeça dela, prendendo-a em um arco de músculos e obsessão.
— Eu posso fazer qualquer coisa, Nari-ah — ele sussurrou, o hálito com cheiro de menta e perigo roçando sua bochecha. — Eu limpei sua vida. Não há mais emprego, não há mais vizinhos curiosos, não há mais família que se importe o suficiente para vir atrás de você. Para o resto do mundo, você simplesmente decidiu recomeçar em outro lugar. E esse lugar sou eu.
Ele desceu uma das mãos para o pescoço dela, não apertando, mas deixando os dedos descansarem ali, sentindo a pulsação frenética de sua artéria carótida.
— Seu coração bate tão rápido por mim — ele comentou, parecendo fascinado. — É como um pássaro tentando escapar da gaiola. Mas a gaiola é feita de ouro, Nari. Por que você quer tanto sair?
— Porque eu não te amo! — ela gritou, as lágrimas finalmente transbordando. — Eu te odeio! Eu odeio cada mensagem, cada presente, cada vez que você respira perto de mim!
O rosto de Jungkook se transformou. A máscara de calma caiu, revelando uma frieza cortante. Ele apertou levemente o pescoço dela, apenas o suficiente para que ela sentisse a pressão, o lembrete de quem detinha o poder de vida e morte naquele quarto.
— Ódio e amor são vizinhos muito próximos — disse ele, a voz agora um barítono baixo e ameaçador. — Eu aceito o seu ódio por enquanto. Ele é intenso. Ele é real. É muito melhor do que a indiferença que você me dava quando eu passava por você no restaurante e você nem sequer notava que eu existia.
Ele a soltou e caminhou até o armário, puxando uma mala de mão que Nari nem sabia que ele tinha trazido.
— Arrume suas coisas. Apenas o essencial. O resto eu comprarei novo para você. Quero que você use as roupas que eu escolher, o perfume que eu gosto. Quero apagar cada vestígio do homem que você era antes de ser minha.
Nari ficou parada, soluçando silenciosamente.
— Agora! — o grito dele ecoou como um tiro, fazendo-a saltar.
Com as mãos trêmulas, ela começou a colocar algumas peças de roupa na mala. Seus olhos vagaram para o abajur de metal sobre a mesa. Era pesado. Se ela conseguisse acertá-lo quando ele estivesse distraído...
Jungkook, como se lesse seus pensamentos, soltou um estalo com a língua.
— Nem pense nisso, querida. Eu conheço cada movimento que você vai fazer antes mesmo de você decidir. Se você tentar me machucar, eu terei que te castigar. E eu realmente não quero machucar essa pele tão macia.
Ela desistiu da ideia, sentindo uma derrota esmagadora. Terminou de fechar a mala e ele a pegou, segurando o pulso dela com a outra mão. Eles saíram do quarto. A sala estava impecável, como se ninguém tivesse passado a noite ali. Jungkook a conduziu até a porta principal.
— Olhe bem para este lugar — disse ele, abrindo a porta. — É a última vez que você verá a mediocridade.
Eles desceram as escadas. O corredor estava deserto. Nari tentou fazer barulho com os pés, tentou tossir alto, mas Jungkook apertou seu pulso com um aviso silencioso. Ao chegarem à rua, um carro preto de vidros escuros estava estacionado em frente ao prédio, com o motor ligado.
Jungkook abriu a porta traseira e a empurrou gentilmente para dentro, entrando logo em seguida e trancando as portas. O motorista, um homem de terno escuro que não disse uma palavra, deu a partida.
Nari olhou pela janela, vendo seu prédio desaparecer na distância. Ela viu a cafeteria onde costumava parar, o ponto de ônibus onde esperava todos os dias. Toda a sua vida estava sendo deixada para trás como um cenário de filme que foi desmontado.
— Para onde estamos indo? — ela perguntou, a voz sem vida.
— Para o nosso refúgio — respondeu Jungkook, recostando-se no banco de couro e puxando a mão dela para o seu colo, começando a traçar padrões invisíveis na palma dela com a ponta do canivete fechado. — Uma casa nas montanhas. Onde o único som que você ouvirá será o meu nome.
A viagem durou horas. A paisagem urbana de Seul deu lugar a subúrbios industriais e, finalmente, a estradas sinuosas cercadas por florestas densas. O céu continuava nublado, e a temperatura parecia cair à medida que subiam.
Finalmente, o carro parou diante de um portão de ferro maciço. Após um sinal do motorista, os portões se abriram eletronicamente, revelando uma propriedade vasta. No centro, erguia-se uma casa de arquitetura moderna, feita de vidro e concreto, mas que parecia uma fortaleza.
— Chegamos — anunciou Jungkook, sua voz tingida de uma excitação quase infantil.
Eles desceram do carro. O ar ali era puro e gelado. Nari olhou em volta; não havia outras casas à vista. Apenas árvores e o silêncio opressor das montanhas.
Jungkook a levou para dentro. O interior da casa era luxuoso, decorado em tons de cinza e preto, com móveis de design minimalista. Grandes janelas de vidro do chão ao teto ofereciam uma vista panorâmica da floresta, mas Nari notou imediatamente que o vidro era reforçado e que não havia trincos ou maçanetas visíveis.
— É lindo, não é? — perguntou ele, parando no centro da sala de estar. — Eu mesmo desenhei alguns detalhes. Especialmente o seu quarto.
Ele a conduziu por um corredor longo até uma porta no final. Ao abri-la, Nari sentiu o coração despencar.
O quarto era enorme, mas não havia janelas. As paredes eram cobertas por telas de alta definição que projetavam imagens de uma floresta ao entardecer, criando uma ilusão de espaço, mas a falta de ar natural era claustrofóbica. No centro, uma cama king-size com dossel de seda preta. E, na parede oposta, uma galeria de fotos.
Nari caminhou até a parede, sentindo uma náusea profunda. Eram centenas de fotos dela. No restaurante, caminhando na chuva, dormindo em seu antigo apartamento através da janela, até mesmo fotos dela chorando na noite anterior. Era um altar dedicado à sua própria perseguição.
— Você gosta? — Jungkook apareceu atrás dela, envolvendo sua cintura com os braços e apoiando o queixo em seu ombro. — É a minha coleção favorita. Cada momento capturado porque eu não conseguia estar fisicamente ao seu lado. Mas agora, não preciso mais de fotos. Eu tenho a realidade.
Nari se virou no abraço dele, as mãos contra o peito dele, tentando criar algum espaço.
— Por que você faz isso, Jungkook? Por que não pode simplesmente me deixar ir e encontrar alguém que te ame de verdade?
Ele soltou uma risada sombria, os olhos fixos nos dela.
— Porque ninguém mais é você, Nari-ah. Ninguém mais tem essa mistura de força e fragilidade que me dá vontade de te proteger e de te destruir ao mesmo tempo. Você é a minha obsessão. E uma obsessão não se liberta. Ela se consome até que não reste mais nada além da posse.
Ele a conduziu até a cama e a fez sentar.
— Vou deixar você se familiarizar com seu novo lar. O jantar será servido às oito. Eu mesmo vou cozinhar para você.
Ele caminhou até a porta, mas parou antes de sair.
— Ah, e Nari? — ele se virou, um sorriso cruel brincando em seus lábios. — Não tente procurar por câmeras ou microfones. Estão em todos os lugares. Eu vou ouvir cada suspiro seu. Eu vou ver cada lágrima. Você nunca mais estará sozinha. Nunca mais.
A porta se fechou com um som pesado e eletrônico. Nari correu até ela, mas não havia fechadura, apenas um painel liso de metal. Ela estava em uma cela de luxo, um pássaro em uma gaiola de vidro e concreto.
Ela se atirou na cama, enterrando o rosto nos travesseiros que tinham o cheiro dele. O silêncio da casa era interrompido apenas pelo som artificial do vento nas telas da parede.
Horas se passaram até que a porta se abriu novamente. Jungkook entrou, trazendo uma garrafa de vinho e duas taças. Ele parecia relaxado, quase doméstico.
— O jantar está pronto, meu amor. Preparei algo especial.
Ele a levou até a sala de jantar, onde uma mesa estava posta com velas e flores frescas. O jantar foi um exercício de tortura psicológica. Jungkook falava sobre o futuro, sobre as viagens que fariam quando ela "aprendesse a se comportar", sobre como eles seriam felizes longe do resto da humanidade.
Nari comia mecanicamente, sentindo-se como um fantasma em sua própria vida.
— Você está muito calada — observou ele, servindo mais vinho. — O que está pensando?
— Estou pensando em como você pode ser tão bonito e, ao mesmo tempo, tão podre por dentro — ela respondeu, a voz desprovida de emoção.
Jungkook parou com a taça a meio caminho da boca. Ele a colocou na mesa e se levantou, caminhando lentamente até ela. Ele se inclinou, as mãos apoiadas nos braços da cadeira dela.
— Podre? — ele repetiu, a palavra soando como um elogio em seus lábios. — Talvez eu seja. Mas eu sou o seu podre. Eu sou o homem que vai te segurar quando você cair, mesmo que eu tenha sido aquele que te empurrou.
Ele pegou o canivete borboleta do bolso e o abriu, a lâmina refletindo a luz das velas. Ele a aproximou do rosto de Nari, traçando o contorno da mandíbula dela com o metal frio.
— Você vê esta lâmina? — ele sussurrou. — Ela é afiada, precisa e mortal. Mas ela também é fiel. Ela faz exatamente o que eu comando. Eu quero que você seja como ela, Nari. Quero que você seja minha extensão. Minha arma e meu tesouro.
— Eu prefiro morrer — ela disse, olhando nos olhos dele.
Jungkook sorriu, um sorriso que enviou calafrios por toda a espinha dela.
— A morte é muito fácil, querida. E eu não vou deixar você morrer. Eu vou te manter viva, mesmo que tenha que te quebrar em mil pedaços para te reconstruir do jeito que eu quero.
Ele fechou o canivete e o guardou.
— O jantar acabou. Vamos para o quarto.
Ele a pegou no colo, ignorando seus protestos e tentativas inúteis de se soltar. Ele a carregou de volta para o santuário de fotos, colocando-a na cama com uma delicadeza que contrastava com a violência de suas palavras.
Ele se deitou ao lado dela, prendendo-a em seus braços, as pernas entrelaçadas nas dela.
— Não tente fugir durante a noite — ele murmurou, fechando os olhos e respirando o perfume do cabelo dela. — Os sensores de movimento nos corredores estão ligados. Se você sair deste quarto, o alarme vai acordar toda a montanha. E eu não serei tão gentil na próxima vez.
Nari ficou imóvel, sentindo o calor do corpo dele contra o seu. Ela olhou para as fotos na parede, para as centenas de versões de si mesma que ele havia roubado.
— Jungkook... — ela chamou em um sussurro.
— Sim, meu anjo?
— Por que eu? — ela repetiu a pergunta, buscando alguma lógica naquela loucura.
Ele abriu um dos olhos, o brilho negro refletindo a luz das telas de LED.
— Porque no momento em que eu te vi, eu percebi que você era a única coisa neste mundo que valia a pena possuir. E eu sempre consigo o que eu quero.
Ele a apertou mais forte, um abraço que era tanto uma carícia quanto uma corrente.
— Durma agora, Nari-ah. Amanhã, o treinamento começa. Eu vou te ensinar a me amar, nem que isso leve o resto das nossas vidas.
Enquanto a respiração de Jungkook se tornava pesada e regular, Nari ficou acordada, olhando para a floresta digital nas paredes. Ela percebeu que a liberdade era agora um conceito abstrato, uma lembrança de uma vida que pertencia a outra pessoa.
Ela estava no coração da montanha, no altar de um deus sombrio e obcecado. E, enquanto as sombras das árvores artificiais dançavam ao seu redor, ela soube que a caçada não havia terminado. Ela apenas havia mudado de cenário. O labirinto agora era maior, mais luxuoso e infinitamente mais mortal.
E Jeon Jungkook, com seu canivete e seu amor distorcido, era o único mestre de seu destino. Nari fechou os olhos, as lágrimas secando em seu rosto, enquanto o silêncio da montanha a engolia por completo.