Ghost Face
O Beijo da Lâmina e do Abismo
A escuridão no quarto de fotos não era apenas a ausência de luz; era uma entidade viva, densa e sufocante que parecia entrar pelos poros de Nari. Sem a floresta digital para iluminar as paredes, o tempo perdeu o sentido. Ela não sabia se haviam passado horas ou minutos desde que o som da tranca eletrônica selara seu destino. O único ponto de referência era a voz de Jungkook, que surgia dos alto-falantes em intervalos irregulares, sussurrando promessas de devoção que soavam como sentenças de morte.
— Você está chorando de novo, Nari-ah — a voz dele ecoou, vinda de todos os cantos do teto. — Eu consigo ver o calor das suas lágrimas pela câmera térmica. Elas brilham como pequenas estrelas no escuro. Por que desperdiçá-las com alguém que não está aí para limpá-las?
Nari se encolheu no canto entre a cama e a parede, abraçando os joelhos. O chão de mármore drenava o calor de seu corpo, mas ela não se atrevia a subir na cama. Sentia que, se o fizesse, estaria aceitando o convite dele para o seu mundo de pesadelos.
— Deixe-me sair... — ela sussurrou, a voz arranhando a garganta seca.
— Ainda não. Você precisa entender que o mundo lá fora é o verdadeiro escuro. Aqui, eu sou a sua visão. Sem mim, você não é nada além de calor e sombra.
O silêncio voltou, pesado e cortante. Nari tentou fechar os olhos, mas a escuridão atrás das pálpebras era idêntica à do quarto. Ela começou a contar os batimentos de seu próprio coração para não perder a sanidade. Um, dois, três... No milésimo batimento, a porta se abriu.
A luz do corredor inundou o quarto, ferindo os olhos de Nari. Ela cobriu o rosto com as mãos, soltando um gemido baixo. Jungkook estava parado no batente, segurando uma bandeja. Ele não entrou imediatamente; ficou ali, observando-a como um cientista observa um espécime que acaba de passar por um teste de estresse.
— Dois dias se passaram — disse ele, sua voz agora natural, sem a distorção dos alto-falantes. — Você aprendeu a lição, ou ainda sente falta do brilho daquela lâmina na sua mão?
Ele caminhou até ela e colocou a bandeja no chão. Havia uma tigela de sopa fumegante e um copo de água com gelo. Jungkook se ajoelhou à sua frente, ignorando a distância que ela tentava manter.
— Coma. Você está fraca.
— Por que você faz isso? — Nari perguntou, a voz trêmula enquanto ela aceitava o copo de água. — Se você diz que me ama, por que me tortura?
Jungkook estendeu a mão e acariciou o cabelo bagunçado dela, afastando os fios de seu rosto pálido. Seus dedos eram quentes, um contraste aterrorizante com a frieza de suas ações.
— O amor exige pureza, Nari. E a pureza só vem depois que o ego é quebrado. Eu não estou te torturando; estou te lapidando. Quero que você entenda que a sua única dependência deve ser eu.
Ele pegou a colher e levou um pouco de sopa aos lábios dela. Nari hesitou, mas a fome era um monstro que ela não conseguia mais ignorar. Ela aceitou o alimento, sentindo o calor se espalhar pelo peito, odiando-se por sentir gratidão pelo homem que a trancara no escuro.
— Bom — ele murmurou, sorrindo de forma quase doce. — Hoje vamos sair um pouco. O sol apareceu entre as nuvens e eu quero que você veja como as flores do jardim sentiram sua falta.
Após a refeição, Jungkook a ajudou a se levantar. Suas pernas estavam bambas, e ele a segurou pela cintura com uma firmeza que não permitia protestos. Ele a levou até o banheiro luxuoso, onde uma banheira já estava cheia de água morna e sais perfumados.
— Lave-se — ordenou ele, entregando-lhe um roupão de seda branca. — Vou esperar lá fora. Não demore. Eu não gosto de ficar longe de você por muito tempo.
Nari tomou banho mecanicamente. Ela olhou para o próprio reflexo no espelho embaçado e mal se reconheceu. Havia uma sombra em seus olhos que não estava lá dias atrás; uma aceitação silenciosa e terrível do seu destino. Ela vestiu o roupão e saiu, encontrando Jungkook encostado na parede do corredor, girando o canivete borboleta entre os dedos com uma destreza hipnótica.
Ao vê-la, ele guardou a arma no bolso e ofereceu o braço.
— Você está linda, mesmo com essa palidez. Parece uma assombração que eu capturei para mim.
Eles caminharam até a estufa de vidro. O sol de outono filtrava-se pelo teto reforçado, iluminando as plantas exóticas. Jungkook a conduziu até um banco de pedra cercado por lírios.
— Sente-se aqui — disse ele. — Tenho algo para te mostrar.
Ele se afastou por um momento e voltou segurando um pequeno pássaro ferido. Era um pardal que devia ter batido no vidro da estufa. A ave tremia nas mãos grandes de Jungkook.
— Veja — ele disse, mostrando o pássaro a ela. — Ele tentou entrar. Ele viu a beleza aqui dentro e achou que poderia fazer parte dela sem ser convidado. Agora, ele está quebrado.
Nari olhou para a criaturinha, sentindo uma afinidade dolorosa com ela.
— Você vai ajudá-lo? — ela perguntou, a esperança brilhando por um segundo.
Jungkook olhou para o pássaro com uma expressão de indiferença.
— Eu poderia. Eu tenho os meios para curá-lo. Mas o que ele faria se eu o soltasse? Ele bateria no vidro de novo. Ele não entende que a liberdade lá fora é apenas uma ilusão que leva à dor.
Com um movimento súbito e brutalmente calmo, Jungkook fechou a mão sobre o pássaro. Nari ouviu o estalo seco dos ossos minúsculos se quebrando. Ela soltou um grito sufocado, cobrindo a boca com as mãos.
— Por que você fez isso?! — ela soluçou, o horror transbordando.
Jungkook abriu a mão. O pardal estava morto, um amontoado de penas e sangue. Ele o jogou casualmente entre as raízes de uma árvore.
— Para te mostrar que a misericórdia é um conceito relativo, Nari. Eu o poupei de uma morte lenta e solitária. Aqui, no meu mundo, eu decido quem vive e quem morre. E eu decidi que você viverá. Mas apenas se você parar de bater as asas contra o vidro.
Ele limpou a mão suja de sangue no roupão branco de Nari, deixando uma mancha escarlate sobre o seu coração.
— Você entende agora? — ele perguntou, aproximando seu rosto do dela. — Cada tentativa de fuga, cada pensamento de rebeldia, é como esse pássaro batendo no vidro. Você só vai se machucar. E eu odeio ver você machucada, meu anjo.
Nari não conseguia parar de tremer. A brutalidade casual dele era mais aterrorizante do que qualquer ameaça direta. Ele a pegou pelo queixo, forçando-a a olhar em seus olhos negros.
— Diga que entendeu — ele exigiu, a voz descendo para um tom perigoso.
— Eu... eu entendi — ela sussurrou, as lágrimas escorrendo.
— Ótimo — ele a beijou na testa, o gesto parecendo uma profanação. — Agora, vamos voltar para dentro. Preparei um filme para assistirmos. Algo sobre um homem que constrói um império para a mulher que ama.
Eles voltaram para a sala de cinema privativa da casa. Jungkook a sentou no sofá de couro e se acomodou ao lado dela, puxando-a para que ela deitasse a cabeça em seu ombro. O filme começou, mas Nari não conseguia processar as imagens na tela. Tudo o que ela sentia era o cheiro de metal e o calor do corpo de Jungkook.
No meio do filme, ele começou a falar, sua voz quase sumindo na trilha sonora.
— Sabe, Nari, eu recebi um relatório hoje. O Sr. Choi, seu antigo gerente... ele começou a fazer perguntas. Ele achou estranho você ter se demitido por mensagem.
O coração de Nari deu um salto.
— O que você fez com ele? — ela perguntou, o medo por outra pessoa superando momentaneamente o medo por si mesma.
Jungkook soltou um suspiro de tédio.
— Nada permanente. Eu apenas enviei alguns homens para explicar que a curiosidade é um vício perigoso. Ele não vai mais perguntar por você. Ninguém vai.
— Você vai matar todo mundo que me conheceu? — ela perguntou, a voz embargada. — É esse o seu plano? Me deixar sozinha no mundo para que eu não tenha escolha a não ser ficar com você?
— Exatamente — ele respondeu, acariciando o braço dela. — Eu sou o seu apocalipse, Nari-ah. O mundo como você o conhecia acabou. Mas não se preocupe; o novo mundo que eu construí é muito mais bonito.
Ele se inclinou e beijou o pescoço dela, exatamente onde a pulsação era mais forte. Nari fechou os olhos, sentindo uma náusea profunda. Ela percebeu que a luta física era inútil. Jungkook era mais forte, mais rápido e estava sempre dez passos à frente. Se ela quisesse sobreviver, se quisesse ter qualquer chance de escapar daquele labirinto de vidro, ela precisava mudar de tática.
Ela precisava se tornar a rosa sem espinhos que ele tanto desejava.
Lentamente, com um esforço que parecia rasgar sua alma, Nari retribuiu o abraço dele. Ela sentiu Jungkook congelar por um segundo, a surpresa atravessando sua armadura de controle.
— Nari? — ele murmurou, afastando-se para olhar o rosto dela.
— Você tem razão, Jungkook — ela disse, a mentira saindo de seus lábios com uma doçura venenosa. — Não há mais nada lá fora para mim. Você tirou tudo.
Os olhos de Jungkook brilharam com uma alegria doentia. Ele a puxou para mais perto, esmagando-a contra o peito.
— Eu sabia que você entenderia! — ele exclamou, sua voz cheia de um triunfo maníaco. — Eu sabia que éramos almas gêmeas. Você só precisava de um tempo para ver a verdade.
— Mas se eu for ficar aqui — ela continuou, mantendo a voz calma —, eu não quero mais ficar trancada naquele quarto. Eu quero poder andar pela casa. Quero poder cozinhar para você.
Jungkook a observou por um longo tempo, seus olhos analíticos buscando qualquer sinal de falsidade. Nari manteve a expressão de uma pessoa que havia desistido de lutar, uma casca vazia pronta para ser preenchida.
— Você quer cozinhar para mim? — ele perguntou, parecendo encantado com a ideia.
— Sim. Eu sinto falta da cozinha do restaurante. Era a única coisa que eu gostava no meu trabalho.
Jungkook sorriu, e desta vez o sorriso parecia quase humano.
— Está bem. A partir de amanhã, você terá acesso à cozinha. Mas não se esqueça, Nari: as câmeras estão em todos os lugares. E as facas... bem, eu vou monitorar como você as usa.
— Eu só quero que as coisas pareçam normais — ela mentiu, encostando a cabeça no peito dele novamente.
— Nós seremos mais do que normais, meu amor. Seremos perfeitos.
Naquela noite, Jungkook não a trancou no quarto de fotos. Ele a levou para a suíte principal, um quarto vasto com uma cama que parecia um altar. Ele a abraçou durante toda a noite, sua respiração quente em seu pescoço. Nari ficou acordada, olhando para o teto, planejando cada movimento.
Ela sabia que a cozinha continha facas. Facas que ela sabia usar bem. Ela também sabia que Jungkook tomava um chá específico todas as noites antes de dormir para acalmar sua mente hiperativa.
A caçada não havia terminado. Nari apenas havia trocado o papel de presa pelo de isca.
Na manhã seguinte, Jungkook a levou para a cozinha. Era um espaço profissional, com bancadas de inox e equipamentos de última geração. Ele abriu uma gaveta e tirou um conjunto de facas de cerâmica preta.
— Use estas — disse ele. — Elas são incrivelmente afiadas. Se você se cortar, eu vou ficar muito triste.
— Eu vou tomar cuidado — ela respondeu, pegando a faca de chef. O peso do cabo em sua mão era familiar e reconfortante. — O que você quer para o jantar?
— Surpreenda-me.
Jungkook sentou-se na banqueta do balcão, observando-a. Nari começou a cortar legumes com uma precisão que o deixou fascinado. O som rítmico da lâmina batendo na tábua de madeira era a única música na sala.
— Você tem mãos de artista — comentou ele. — É um desperdício que você tenha passado tanto tempo servindo mesas.
— Talvez eu devesse ter sido taxidermista, como você — ela disse, sem olhar para cima.
Jungkook riu.
— Você não tem estômago para isso, Nari-ah. Você é sensível demais. É por isso que eu preciso te proteger.
Enquanto preparava o guisado, Nari notou um frasco de ervas na prateleira de cima. Ela sabia que algumas daquelas flores na estufa não eram apenas ornamentais; algumas eram altamente tóxicas se preparadas da maneira correta. Ela havia lido sobre isso em um dos livros da biblioteca dele na tarde anterior, quando ele a deixara sozinha por alguns minutos.
— Jungkook, você poderia pegar um pouco de alecrim fresco na estufa? — ela perguntou, dando-lhe o seu melhor sorriso forçado. — O sabor faz toda a diferença.
Ele hesitou por um segundo, mas a visão dela ali, naquela cena doméstica que ele tanto desejara, o desarmou.
— Claro. Não demoro.
Assim que ele saiu da cozinha, Nari agiu. Ela correu até o armário onde vira os produtos de limpeza e os suprimentos médicos. Ela buscava por algo específico: um sedativo forte que vira no kit de primeiros socorros de Jungkook. Ela o encontrou e escondeu no bolso do roupão.
Quando ele voltou com o alecrim, ela estava mexendo a panela calmamente.
— Aqui está — disse ele, entregando as ervas. — O cheiro está maravilhoso.
O jantar foi servido sob a luz de velas. Jungkook comeu com gosto, elogiando cada tempero. Nari mal tocou na comida, alegando que o cheiro a deixara sem apetite.
— Agora, o chá — disse ela, levantando-se. — Eu vi que você gosta de chá de camomila à noite. Deixe que eu preparo.
Ela foi até a cozinha e preparou duas xícaras. Na dele, ela dissolveu uma dose generosa do sedativo. Suas mãos tremiam tanto que ela quase derrubou a xícara. Ela voltou para a sala e entregou a bebida a ele.
— Para uma noite de sono perfeita — disse ela.
Jungkook pegou a xícara e olhou para o líquido por um longo tempo. Nari sentiu o suor frio escorrer por suas costas. Será que ele sabia? Será que as câmeras haviam captado seu movimento?
— Você é uma mulher cheia de surpresas, Nari — ele disse, finalmente levando a xícara aos lábios.
Ele bebeu tudo em poucos goles. Nari tomou o seu chá, sentindo o gosto de camomila e medo.
Minutos se passaram. Jungkook começou a piscar mais devagar. Sua cabeça pendeu ligeiramente para o lado.
— Eu me sinto... estranho — ele murmurou, tentando se levantar, mas suas pernas falharam.
Ele olhou para Nari, e por um momento, a clareza voltou aos seus olhos. Uma clareza cheia de uma fúria gelada.
— O que... o que você fez?
— Eu te dei o que você queria, Jungkook — ela disse, levantando-se e pegando a faca de cerâmica que havia escondido sob a mesa. — Eu te dei o silêncio.
Jungkook tentou alcançar o canivete no bolso, mas seus movimentos eram lentos, como se ele estivesse debaixo d'água. Ele caiu do sofá, atingindo o chão com um baque surdo.
Nari caminhou até ele, a faca brilhando sob a luz das velas. Ela poderia acabar com tudo ali. Poderia cravar a lâmina em seu coração e terminar o pesadelo. Mas, ao olhar para ele, ela viu o pássaro quebrado na estufa. Ela viu o homem que matara seu vizinho e destruíra sua vida.
— Eu não sou como você — ela sussurrou, as lágrimas caindo sobre o rosto dele. — Eu não vou te matar. Mas eu vou te deixar aqui, trancado no seu próprio paraíso de vidro.
Ela revistou os bolsos dele e encontrou o cartão de acesso mestre e o controle dos portões. Ela correu para a porta da frente, o coração martelando contra as costelas. O cartão passou pelo leitor. *Bip.* A porta se abriu.
O ar gelado da montanha a atingiu como uma benção. Nari correu em direção aos portões, descalça, ignorando as pedras que cortavam seus pés. Ela acionou o controle e os portões de ferro se abriram lentamente.
Ela não olhou para trás. Não olhou para a casa de vidro que brilhava como uma joia maldita na escuridão. Ela correu pela estrada sinuosa, guiada apenas pela luz da lua e pelo desejo desesperado de viver.
Horas depois, ela encontrou uma estrada principal. Um caminhoneiro parou para ajudá-la.
— Senhorita! O que aconteceu? Você está coberta de manchas vermelhas!
Nari olhou para o roupão branco. O sangue do pássaro ainda estava lá, uma marca indelével de seu tempo com Jungkook.
— Por favor... — ela implorou, entrando na cabine do caminhão. — Me leve para longe daqui. Me leve para a polícia.
Enquanto o caminhão se afastava, Nari olhou pelo retrovisor. Nas sombras das montanhas, ela sentia que os olhos negros de Jungkook ainda a observavam. Ela sabia que ele acordaria. Sabia que ele usaria todos os seus recursos para encontrá-la.
Mas, pela primeira vez em semanas, o vidro havia se quebrado.
Longe dali, na casa nas montanhas, Jungkook abriu os olhos no chão da sala. O efeito do sedativo ainda o deixava zonzo, mas o sorriso que se formou em seus lábios era de puro êxtase. Ele olhou para a porta aberta, para a ausência da mulher que ele amava.
— Muito bem, Nari-ah — ele sussurrou para o silêncio. — Você finalmente aprendeu a caçar.
Ele se levantou com dificuldade e caminhou até a janela, observando o amanhecer.
— Corra o quanto quiser. O mundo é pequeno demais para você se esconder de mim. E agora que você mostrou as garras... eu te desejo ainda mais.
Ele pegou o canivete borboleta do chão e o abriu. O metal brilhou com a promessa de um reencontro sangrento. A caçada não havia terminado; ela apenas havia se tornado, finalmente, interessante.