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Ghost Face

O Labirinto de Vidro e Ossos

O despertar de Nari foi como emergir de um poço de piche. Seus olhos se abriram para a mesma floresta digital que brilhava nas paredes, uma simulação eterna de um entardecer que nunca chegava ao fim. Por um momento, ela se esqueceu de onde estava, mas o peso de um braço possessivo sobre sua cintura a trouxe de volta à realidade com a força de um soco.

Jungkook ainda dormia. No sono, as linhas rígidas de seu rosto pareciam suavizadas, quase angelicais. Era difícil conciliar aquela imagem com o homem que carregava uma lâmina no bolso e um abismo nos olhos. Nari prendeu a respiração, tentando se afastar milímetro por milímetro. Cada movimento era uma aposta contra a morte.

Quando ela finalmente conseguiu se desvencilhar e colocar os pés no chão frio, o som de um clique eletrônico ecoou.

— Aonde você pensa que vai, Nari-ah? — A voz dele era um barítono rouco de sono, mas perfeitamente alerta.

Nari parou, as costas tensas. Ela se virou e o viu sentado na cama, os cabelos bagunçados sobre a testa, observando-a com uma curiosidade predatória.

— Eu só... eu precisava de água — mentiu ela, a voz falhando.

Jungkook levantou-se com uma agilidade felina. Ele caminhou até ela, descalço, e parou a uma distância mínima. Ele não parecia zangado, o que era quase pior. Sua calma era a calmaria antes do furacão.

— Há uma jarra de cristal na mesa de cabeceira — disse ele, apontando com o queixo. — Mas se você queria sair, deveria apenas ter pedido. Eu tenho uma surpresa para você hoje.

Ele a conduziu até um closet que parecia maior que seu antigo apartamento. Lá, fileiras de roupas caras, todas em tons de preto, branco e cinza, estavam perfeitamente alinhadas. Jungkook escolheu um vestido de seda preta, simples e elegante.

— Use este. Quero que você esteja bonita para o nosso passeio.

— Passeio? — Nari perguntou, sentindo uma ponta de esperança. — Vamos sair da propriedade?

Jungkook soltou uma risada curta, uma nota de escárnio em seu tom.

— Não seja tola. O mundo lá fora não existe mais para você. Vamos conhecer o jardim.

Após se vestir sob o olhar atento dele — um olhar que a fazia sentir como se ele estivesse tatuando a imagem dela em sua mente —, Jungkook a levou para fora do quarto. Eles caminharam por corredores que pareciam galerias de arte, mas em vez de quadros, as paredes exibiam telas monitorando cada ângulo da propriedade.

Eles saíram por uma porta lateral que dava para um enorme átrio de vidro. Era uma estufa colossal, integrada à arquitetura da casa. Lá dentro, a vegetação era exuberante, mas estranha. Eram flores exóticas, muitas das quais Nari nunca tinha visto, crescendo em um arranjo que parecia milimetricamente planejado.

— Este é o meu lugar favorito — disse Jungkook, respirando o ar úmido e perfumado. — Aqui, eu controlo a temperatura, a luz e a vida. Nada morre sem a minha permissão.

Eles caminharam por trilhas de pedra polida. O som da água correndo em pequenas fontes artificiais criava uma atmosfera de paz que Nari sabia ser ilusória. No centro do jardim, havia uma mesa de ferro batido com duas cadeiras. Sobre ela, um buquê de lírios brancos.

— Lírios — Nari murmurou, lembrando-se de algo. — No restaurante, uma vez, um cliente deixou um lírio na mesa e eu disse que eram as minhas flores favoritas.

Jungkook parou e sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos.

— Eu sei. Eu estava na mesa ao lado. Eu comprei a floricultura inteira de onde esses vieram, Nari. Agora, todos os lírios do mundo pertencem a você. E você pertence a mim.

Ele a fez sentar e serviu chá. O silêncio entre eles era denso, pontuado apenas pelo farfalhar das folhas. Nari olhou para cima, através do teto de vidro. O céu real estava nublado, prometendo chuva.

— Jungkook — ela começou, tentando manter a voz estável —, quanto tempo você pretende me manter aqui?

Ele pousou a xícara com uma precisão assustadora.

— Para sempre é uma palavra muito longa, não acha? Prefiro dizer que você ficará aqui até que a ideia de sair seja tão dolorosa quanto a ideia de morrer.

— Você não pode forçar alguém a amar você — ela sibilou, a frustração vencendo o medo por um instante. — Você pode me prender, pode me observar, mas meu coração... meu coração nunca será seu.

Jungkook levantou-se e caminhou até uma roseira próxima. Ele estendeu a mão e, com um movimento rápido, cortou uma rosa vermelha com o seu canivete borboleta, que parecia ter aparecido magicamente em sua mão. Ele voltou para a mesa e começou a retirar os espinhos da flor com a lâmina, um por um.

— O amor é uma construção, Nari-ah — disse ele, sem olhar para ela. — As pessoas acham que é um raio que cai do céu, mas é mais como esta rosa. Se eu tirar os espinhos, se eu a colocar no vaso certo, se eu lhe der a luz correta, ela não terá escolha a não ser florescer para mim.

Ele jogou a rosa sem espinhos no colo dela.

— Eu vou tirar todos os seus espinhos. Vou tirar suas memórias de outras pessoas, suas preocupações com o futuro, sua vontade própria. E quando você estiver nua de tudo o que te define agora, eu vou te preencher com a minha presença.

Nari sentiu um calafrio. Ele falava de uma lobotomia emocional, de apagar quem ela era para criar uma versão que o servisse.

— Você é um monstro — ela repetiu a frase que se tornara seu mantra.

— E você é a minha obsessão — ele retrucou, inclinando-se sobre a mesa. — Sabe o que acontece com as rosas que se recusam a florescer no meu jardim, Nari?

Ele apontou para a base de uma árvore grande no canto da estufa. A terra ali parecia mais escura, revolvida.

— Elas viram adubo. Para que as próximas possam crescer mais fortes.

A ameaça estava clara. Ele não teria piedade se ela não se quebrasse.

— Por que eu? — ela perguntou novamente, a pergunta que nunca recebia uma resposta satisfatória. — Por que não uma mulher que te quisesse? Com sua aparência, com seu dinheiro... você poderia ter qualquer uma.

Jungkook fechou o canivete com um estalo que ecoou no vidro.

— Porque as outras são fáceis. Elas olham para mim e veem o que eu quero que vejam. Mas você... no dia em que nos esbarramos no restaurante, você me olhou como se eu fosse apenas um homem. E então, eu vi você sorrir para aquela senhora cega. Foi um sorriso puro, sem segundas intenções. Eu decidi que queria ser o motivo desse sorriso. E se eu não puder ser o motivo, serei a única coisa que restará para você sorrir.

Ele se levantou e estendeu a mão para ela.

— Venha. Quero te mostrar o resto da casa.

Eles caminharam por uma biblioteca onde todos os livros pareciam novos, nunca lidos. Jungkook explicou que eram clássicos sobre romance e tragédia. Ele parecia ter uma fixação por histórias onde o amor levava à destruição.

— Romeu e Julieta eram amadores — comentou ele, passando os dedos pelas lombadas de couro. — Eles morreram porque não souberam se esconder do mundo. Nós não cometeremos esse erro.

Ao passarem por uma porta de aço reforçado no subsolo, Nari sentiu um cheiro metálico, algo que lembrava o restaurante no fim do turno, mas mais intenso.

— O que tem ali? — ela perguntou, recuando.

Jungkook parou, a mão na maçaneta. Seus olhos brilharam com algo que Nari só podia descrever como um orgulho doentio.

— É onde eu trabalho. Meu estúdio pessoal.

— Você é artista?

— De certa forma — ele abriu a porta.

O quarto era frio e iluminado por lâmpadas de LED brancas e fortes. No centro, uma mesa de metal. Nas paredes, ferramentas de precisão: bisturis, pinças, serras finas. Não havia telas de pintura, mas sim frascos de vidro contendo o que pareciam ser espécimes biológicos preservados em formaldeído.

Nari sentiu o estômago revirar.

— O que é isso?

— Taxidermia — respondeu ele, caminhando até um dos frascos. Dentro, havia um pássaro azul, com as asas abertas em um voo eterno. — É a arte de preservar a beleza para sempre. A vida é passageira, Nari. Ela apodrece, ela muda, ela trai. Mas aqui... aqui a beleza é estática. É perfeita.

Ele se virou para ela, e a luz branca da sala fez sua pele parecer mármore.

— Às vezes, eu olho para você e desejo poder te colocar em um desses frascos. Assim, você nunca envelheceria, nunca choraria, nunca tentaria fugir de mim. Você seria minha obra-prima eterna.

— Você... você é louco — Nari sussurrou, as pernas cedendo. Ela caiu de joelhos no chão frio do laboratório. — Você vai me matar e me empalhar? É isso?

Jungkook se ajoelhou à frente dela, pegando seu rosto com as duas mãos. Sua expressão era de uma ternura perturbadora.

— Não, meu amor. Isso seria um desperdício. Eu prefiro você viva, quente e respirando. Mas quero que saiba que eu tenho as habilidades para te manter comigo de qualquer forma. A morte não é uma saída para você. Nem mesmo se você tentasse tirar a própria vida, eu encontraria um jeito de te preservar.

Ele a beijou. Foi um beijo frio, que tinha o gosto do metal e do medo. Nari não reagiu; ela era apenas uma estátua de carne em seus braços.

— Vamos voltar para cima — disse ele, levantando-a com facilidade. — O ar aqui embaixo é muito pesado para você.

De volta à sala de estar, a chuva começou a cair, batendo com força contra os vidros blindados. O som era abafado, como se o mundo estivesse tentando entrar, mas fosse impedido por uma barreira intransponível.

Jungkook sentou-se no sofá e puxou Nari para o seu colo. Ele começou a acariciar o cabelo dela, um gesto que deveria ser reconfortante, mas que parecia o movimento de uma aranha tecendo uma teia.

— Sabe, Nari — ele começou, a voz suave —, eu apaguei todas as suas redes sociais hoje de manhã. Seus amigos, aqueles poucos que você tinha, receberam mensagens dizendo que você conheceu alguém e que decidiu viajar pelo mundo. Ninguém está te procurando.

Nari fechou os olhos. O isolamento estava completo. Ela era uma náufraga em terra firme, e Jungkook era o oceano que a cercava.

— Por que você faz tanta questão de que eu não tenha ninguém? — ela perguntou, a voz abafada contra o peito dele.

— Porque eu sou o suficiente — ele respondeu, com uma convicção inabalável. — Eu sou seu pai, sua mãe, seu amigo e seu amante. Eu sou seu universo. E um universo não precisa de vizinhos.

O telefone de Jungkook, que estava sobre a mesa de centro, vibrou. Ele o pegou e franziu o cenho.

— Um problema no trabalho — ele murmurou. — Fique aqui. Não saia deste sofá.

Ele se levantou e foi para o outro canto da sala, falando em voz baixa em um idioma que Nari não reconheceu imediatamente. Suas palavras eram rápidas e carregadas de autoridade.

Nari olhou para a porta da frente. Ela sabia que estava trancada eletronicamente. Olhou para as janelas; blindadas. Mas então, seus olhos pousaram no canivete que Jungkook havia deixado sobre a mesa de centro, esquecido por um momento de distração.

Era sua única chance.

Ela se moveu com uma lentidão agonizante, estendendo a mão para o objeto metálico. Seus dedos tocaram o aço frio. Ela o escondeu na manga do vestido de seda, sentindo a ponta afiada contra seu pulso.

Jungkook desligou o telefone e se virou. Ele parecia tenso, a mandíbula cerrada.

— Preciso resolver algo no escritório. Você vai para o quarto agora.

Ele a acompanhou até o quarto de fotos e a trancou por dentro. Nari esperou até ouvir os passos dele desaparecerem pelo corredor.

Ela tirou o canivete da manga. Suas mãos tremiam tanto que ela quase o deixou cair. Ela olhou para a lâmina borboleta, a mesma que ele usara para cortar a rosa e para ameaçar sua vida. Era uma ferramenta de destruição, mas, naquele momento, era sua única ferramenta de liberdade.

Ela caminhou até uma das telas de LED que projetavam a floresta. Se ela pudesse cortar os fios, se pudesse causar um curto-circuito no sistema, talvez as portas eletrônicas se abrissem. Era uma ideia desesperada, mas ela não tinha mais nada.

Nari começou a cutucar a moldura da tela com a ponta da lâmina. O metal rangeu. Ela forçou com toda a sua força, o suor escorrendo por sua testa. De repente, a tela piscou e uma fresta se abriu, revelando um emaranhado de cabos coloridos.

— O que você está fazendo, Nari-ah?

A voz veio do alto-falante oculto no teto. Nari congelou.

— Eu disse que estava em todos os lugares — a voz de Jungkook ecoou, calma e perigosamente decepcionada. — Você roubou meu brinquedo favorito. Isso é muito feio.

A porta do quarto se abriu com um estrondo. Jungkook estava parado ali, as sombras das luzes do corredor projetando uma silhueta demoníaca. Ele entrou no quarto, fechando a porta atrás de si.

— Devolva — ele estendeu a mão, a palma virada para cima.

Nari recuou, apontando o canivete para ele.

— Não chegue perto! Eu juro que eu uso!

Jungkook soltou uma risada sombria, dando um passo à frente, ignorando a ameaça.

— Você não tem coragem, Nari. Você é luz, lembra? Luz não corta. Luz apenas ilumina a escuridão alheia.

Ele deu mais um passo. Nari avançou com a lâmina, mas Jungkook foi mais rápido do que o olho humano podia acompanhar. Ele segurou o pulso dela, torcendo-o até que o canivete caísse no tapete felpudo. Em um movimento fluido, ele a prensou contra a parede de fotos, as mãos dele prendendo os pulsos dela acima da cabeça.

— Você tentou me machucar — ele sussurrou, o rosto a centímetros do dela. — Isso muda as coisas. Eu queria ser gentil. Eu queria que você viesse por vontade própria.

Ele pegou o canivete do chão sem soltá-la, abrindo-o com um estalo que pareceu um trovão no quarto silencioso.

— Mas se você quer brincar com lâminas, vamos brincar.

Ele encostou a ponta fria do canivete no ombro dela, cortando a alça do vestido de seda. O tecido escorregou, revelando a pele pálida e trêmula.

— Eu te dei um jardim — ele continuou, a voz descendo para um tom gutural. — Eu te dei uma fortaleza. E você tentou destruir o meu sistema. Agora, você vai aprender o que acontece com as rosas que tentam cortar o jardineiro.

Ele não a cortou. Em vez disso, usou a lateral da lâmina para acariciar o pescoço dela, um lembrete constante de seu poder.

— Você vai ficar trancada aqui no escuro por dois dias — ele decretou. — Sem telas, sem florestas artificiais. Apenas você e o som da minha voz pelos alto-falantes. Talvez assim, quando eu finalmente abrir a porta, você perceba que eu sou a única luz que você realmente tem.

Ele se afastou, levando o canivete com ele. Antes de sair, ele apagou as telas. O quarto mergulhou em uma escuridão absoluta, o tipo de escuridão que parece ter peso.

— Durma bem, Nari-ah — a voz dele veio do sistema de som, preenchendo o vazio. — Eu estarei observando você pelo infravermelho. Não tente se esconder. Não há lugar para se esconder de quem te ama tanto.

Nari desabou no chão, o silêncio da montanha e a escuridão do quarto tornando-se sua nova realidade. Ela sentiu o frio do chão de mármore e soube que, naquela casa de vidro e ossos, Jungkook não era apenas o dono da propriedade.

Ele era o dono de sua alma, e a caçada havia terminado em uma captura total e absoluta. Na escuridão, a única coisa que ela podia ouvir era o bater de seu próprio coração, e o som rítmico, quase imperceptível, de Jungkook respirando do outro lado dos microfones.