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Ghost Face

O Eco das Correntes de Seda

O silêncio na fortaleza de Jungkook nunca era absoluto; era preenchido pelo zumbido quase imperceptível dos servidores de vigilância e pelo som da própria respiração de Nari, que agora parecia ecoar como um martelo contra o mármore. Após a noite em que o corpo dela se rendeu à vontade dele, o ar na suíte principal parecia ter mudado. Estava mais pesado, saturado com o cheiro de Jungkook e com a percepção devastadora de que a fronteira entre o medo e a submissão havia sido borrada.

Nari abriu os olhos e encontrou o teto de vidro. O céu lá fora estava tingido de um cinza profundo, anunciando uma tempestade que se formava sobre as montanhas. Jungkook não estava ao seu lado, mas o calor de seu corpo ainda impregnava os lençóis de cetim. Ela se sentou lentamente, sentindo os músculos protestarem. Cada marca em sua pele era um lembrete da noite anterior, uma cartografia de posse que ele desenhara com as mãos e os lábios.

Ela se levantou e caminhou até a grande janela. O jardim de vidro lá embaixo parecia uma joia isolada no meio da selva selvagem. Nari tocou o vidro frio. Ela era a rosa sem espinhos agora. Ou, pelo menos, era isso que ele acreditava.

A porta do quarto se abriu sem um som. Jungkook entrou segurando uma pequena caixa de veludo negro. Ele estava vestido impecavelmente, a camisa de seda preta aberta nos primeiros botões, revelando a pele onde ela o arranhara no auge da paixão forçada. Seus olhos negros brilharam ao vê-la de pé, a silhueta dela emoldurada pela luz cinzenta da manhã.

— Você acordou — disse ele, aproximando-se com a elegância de um predador que não precisa mais caçar porque a presa já está no curral. — Eu estava observando você dormir pelas câmeras. Você parecia tão em paz, Nari-ah. Finalmente em casa.

Nari não se virou imediatamente. Ela manteve os olhos na floresta distante.

— Onde você foi? — perguntou ela, sua voz soando estranha aos seus próprios ouvidos, desprovida da urgência que costumava ter.

— Fui preparar o seu presente — ele parou logo atrás dela, o calor de seu peito irradiando contra as costas dela. — Ontem à noite foi o início da nossa verdadeira vida juntos. Eu prometi que tiraria todos os seus espinhos, e você me deu o que eu mais desejava: a sua aceitação.

Ele abriu a caixa de veludo. Dentro, havia uma gargantilha de platina, fina e delicada, com um único diamante negro no centro. Não era apenas uma joia; era um símbolo. Um adorno que marcava o que era dele.

— Deixe-me colocar em você — sussurrou ele.

Nari sentiu as mãos frias dele afastarem seu cabelo. O clique do fecho da gargantilha pareceu tão definitivo quanto o som de uma cela se fechando. Jungkook a virou para frente e a conduziu até o espelho.

— Veja — disse ele, as mãos repousando em seus ombros. — Agora todos saberão a quem você pertence, mesmo que não haja mais ninguém para ver. É o meu selo em você.

— Por que um diamante negro? — ela perguntou, tocando a pedra fria.

— Porque ele absorve a luz, assim como eu absorvi você — ele sorriu, um sorriso que mostrava os dentes, perigoso e belo. — Você é a minha escuridão favorita, Nari.

Ele a levou para a sala de jantar, onde um banquete estava posto. Jungkook parecia exultante, quase maníaco em sua felicidade. Ele falava sobre o futuro, sobre como mandaria buscar as melhores sedas da Itália e os vinhos mais raros da França, criando um paraíso onde ela nunca precisaria de nada.

— Jungkook — ela o interrompeu, a coragem voltando em pequenas doses —, se eu agora sou sua... se eu aceitei o meu lugar aqui... por que ainda existem câmeras dentro do banheiro? Por que ainda sinto que sou um espécime no seu laboratório?

Ele pousou os talheres com uma lentidão deliberada. O brilho de satisfação em seus olhos esfriou por um momento.

— A vigilância não é falta de confiança, meu amor — explicou ele, inclinando-se sobre a mesa. — É devoção. Eu não quero perder um único segundo da sua existência. Se você suspira, eu quero ouvir. Se você estremece, eu quero saber o motivo. Eu sou o seu guardião. As câmeras são os meus olhos quando eu não posso estar fisicamente ao seu lado.

— Mas eu me sinto sufocada — ela insistiu, tentando usar a nova proximidade entre eles como alavanca. — Você disse que me ama. O amor não deveria ter um pouco de privacidade?

Jungkook riu, um som seco e sem humor.

— O amor comum, talvez. Mas o que temos é puro. É absoluto. Privacidade é o lugar onde os segredos crescem, Nari. E entre nós não pode haver segredos. Eu conheço cada cicatriz da sua alma. Eu sei que você ainda pensa na fuga que tentou com o meu canivete.

Nari congelou. Ela achava que ele havia esquecido, ou que a noite anterior apagara aquele pecado.

— Eu não esqueci — ele continuou, a voz tornando-se um sussurro letal. — Mas eu te perdoei porque você é frágil. Mas não se engane... a faca que eu uso para criar beleza também pode ser usada para corrigir a desobediência.

Ele se levantou e caminhou até ela, puxando-a da cadeira. Ele a levou para o subsolo, para o quarto de aço que ela tanto temia: o estúdio de taxidermia. O cheiro de formaldeído e produtos químicos a atingiu como um soco.

— Ontem você viu o meu trabalho concluído — disse ele, apontando para os pássaros e pequenos animais em suas redomas de vidro. — Hoje, quero que você veja o processo. Quero que entenda a responsabilidade de preservar algo.

Sobre a mesa de metal, havia uma raposa pequena, cujos olhos já haviam sido substituídos por esferas de vidro sem vida. Jungkook pegou um bisturi, a lâmina brilhando sob as luzes de LED.

— A vida é caótica, Nari. Ela é cheia de movimentos inúteis e vontades que levam ao sofrimento. Quando eu retiro as entranhas, quando eu limpo a pele e a moldo sobre uma estrutura perfeita, eu estou libertando a criatura do fardo de ser viva. Estou dando a ela a eternidade.

Ele olhou para ela, e Nari viu o verdadeiro horror: ele falava com uma sinceridade absoluta. Ele não se via como um assassino ou um monstro, mas como um salvador.

— Você quer que eu seja como essa raposa? — ela perguntou, a voz tremendo. — Imóvel? Sem vontade?

— Eu quero que você seja eterna — ele respondeu, passando o bisturi levemente sobre a palma da própria mão, deixando um filete de sangue brotar. — Mas eu prefiro que você colabore com a sua própria perfeição. Se você lutar contra a estrutura que eu criei para você, você vai se rasgar.

Ele pegou a mão dela e pressionou a palma sangrenta dele contra a dela, misturando o sangue dele com a pele dela.

— Somos um só agora, Nari. Se você tentar fugir de novo, você estará tentando fugir de si mesma. E eu não posso permitir que você se machuque.

Ele a abraçou ali mesmo, no meio dos animais mortos e das ferramentas de corte. Nari sentiu o cheiro de sangue e produtos químicos, e pela primeira vez, ela não chorou. Suas lágrimas haviam secado na noite anterior. Ela percebeu que a única maneira de sobreviver a Jeon Jungkook era tornar-se algo que ele não pudesse prever.

— Eu entendo, Jungkook — disse ela, sua voz soando tão fria quanto o metal da mesa. — Eu sou a sua obra-prima.

Ele se afastou para olhar o rosto dela, e o que viu pareceu satisfazê-lo imensamente. Ele não percebeu o brilho de ódio gélido que se escondia atrás da submissão dela. Ele achava que a havia quebrado.

— Ótimo — disse ele, limpando o sangue com um lenço de seda. — Agora, vamos subir. Preparei uma surpresa maior.

Eles voltaram para a sala de estar, onde as luzes estavam apagadas, exceto por uma única projeção na parede principal. Era um vídeo. Nari sentiu o coração parar ao reconhecer o cenário. Era o restaurante onde ela trabalhava.

No vídeo, um homem caminhava pelo beco dos fundos. Era o gerente do restaurante, o Sr. Choi. Ele parecia nervoso, olhando para os lados. De repente, uma figura saiu das sombras. Era Jungkook.

O vídeo não tinha som, mas a violência era audível no silêncio do quarto. Jungkook não usou uma arma de fogo. Ele usou as mãos. Com uma eficiência assustadora, ele derrubou o homem e, em seguida, tirou o canivete borboleta.

Nari desviou o olhar, mas Jungkook segurou seu rosto, forçando-a a ver.

— Olhe, Nari. Veja o que eu faço por você. Esse homem estava tentando entrar em contato com a polícia. Ele estava tentando tirar você de mim. Ele queria destruir o nosso paraíso.

No vídeo, Jungkook limpava a lâmina no paletó do homem caído antes de desaparecer nas sombras. O Sr. Choi não se moveu mais.

— Ele está... — Nari não conseguiu terminar a frase.

— Ele está onde não pode mais nos incomodar — Jungkook desligou a projeção. — Eu limpei o seu passado, Nari. Não sobrou nada lá fora. Nenhuma conexão, nenhum amigo, nenhum emprego. O mundo acredita que você fugiu com um amante rico para a Europa. Eu cuidei dos registros, das mensagens, de tudo.

Ele a puxou para o sofá e a fez sentar em seu colo, como se fossem um casal comum assistindo a um filme de domingo.

— Agora você é verdadeiramente livre — continuou ele, acariciando o diamante negro em seu pescoço. — Livre das preocupações mundanas, livre das pessoas pequenas que não te mereciam. Você só tem a mim. E eu sou tudo o que você precisa.

— Você matou ele por minha causa? — ela perguntou, a voz monótona.

— Eu o removi por nossa causa — corrigiu ele. — Não pense nisso como um assassinato. Pense nisso como uma poda. Para que o nosso amor cresça, os galhos podres precisam ser cortados.

Ele começou a beijar o ombro dela, o toque possessivo agora acompanhado pelo conhecimento de que ele mataria qualquer um que ousasse olhar para ela. Nari sentiu uma náusea profunda, mas manteve o corpo relaxado. Ela sabia que qualquer tensão seria detectada por ele.

— Jungkook — disse ela, virando-se para ele com um olhar que simulava admiração —, se você fez tudo isso por mim... se você limpou o meu caminho... eu quero te dar algo em troca.

Os olhos dele brilharam com uma intensidade febril.

— O que, meu anjo?

— Eu quero aprender sobre o seu trabalho — mentiu ela, cada palavra sendo um prego em seu próprio caixão moral. — Você disse que a taxidermia é a arte da preservação. Eu quero entender como você mantém as coisas bonitas para sempre. Quero que você me ensine a usar aquelas ferramentas.

Jungkook pareceu paralisado por um momento. O pedido dela era o ápice de sua fantasia: a vítima tornando-se a aprendiz, a possessão tornando-se a cúmplice. Ele a abraçou com tanta força que ela mal conseguia respirar.

— Você faria isso? — ele sussurrou, a voz embargada por uma emoção distorcida. — Você quer entrar no meu mundo de verdade?

— Eu não tenho outro mundo para ir, não é? — ela respondeu, retribuindo o abraço. — Quero que sejamos parceiros. Em tudo.

Jungkook a pegou no colo e a levou de volta para o subsolo. Ele estava radiante. Naquela tarde, ele começou o que chamou de "o treinamento". Ele mostrou a ela como segurar o bisturi, como fazer cortes precisos que não danificassem a pele, como tratar os tecidos.

Nari observava tudo com uma atenção gélida. Ela não estava aprendendo a preservar a vida; ela estava aprendendo a anatomia do homem que a mantinha presa. Ela observava a maneira como os tendões dele se moviam, onde as artérias eram mais superficiais, quão forte era necessário pressionar para atingir um órgão vital.

— Você é uma aluna excelente — elogiou ele, enquanto a guiava no tratamento da pele da raposa. — Suas mãos são firmes. Você nasceu para isso, Nari. Nasceu para estar ao meu lado, governando este reino de silêncio e beleza.

À noite, a tempestade finalmente desabou sobre a montanha. Os trovões faziam a estrutura de vidro vibrar, e os relâmpagos iluminavam o quarto como flashes de uma câmera fotográfica gigante. Jungkook adormeceu rapidamente, exausto pela descarga de adrenalina de ter "conquistado" a alma de Nari.

Nari permaneceu acordada. Ela sentiu o peso do braço dele sobre seu peito e a gargantilha de platina apertando seu pescoço. Ela olhou para a mesa de cabeceira, onde o canivete borboleta dele repousava, como sempre, ao alcance de sua mão.

Ela não o pegou. Ainda não.

Ela se levantou e caminhou até a parede de fotos. No escuro, iluminada apenas pelos relâmpagos, ela viu a cronologia de sua própria destruição. Jungkook a seguira por meses. Ele conhecia seus hábitos, seus medos, seus sorrisos. Ele a transformara em uma imagem antes mesmo de transformá-la em prisioneira.

Ela tocou uma das fotos, uma em que ela aparecia sorrindo no restaurante, segurando uma bandeja. Ela parecia tão jovem, tão distante.

— Você não vai me transformar em um pássaro azul, Jungkook — sussurrou ela para a escuridão. — Eu não vou ser estática.

Ela voltou para a cama e deitou-se ao lado dele. Jungkook, mesmo dormindo, moveu-se para envolvê-la, seu corpo buscando o dela como um ímã. Nari fechou os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, ela não sentiu medo.

Ela sentiu uma paciência infinita.

Ela esperaria. Aprenderia cada segredo de sua fortaleza. Aprenderia cada fraqueza de seu corpo. Ela se tornaria a rosa perfeita, sem espinhos visíveis, até o momento em que pudesse cravar sua vontade no coração do jardineiro.

Lá fora, a chuva lavava o sangue da montanha, mas dentro da casa de vidro e ossos, o sangue apenas começava a se acumular. Jungkook achava que havia vencido o jogo. Ele não percebia que, ao abrir as portas de seu estúdio e de seu coração para Nari, ele havia dado a ela as únicas armas que poderiam destruí-lo.

A caçada não havia terminado. Ela apenas havia mudado de mãos. E no altar das sombras, Nari começou a orar por sua própria e sangrenta libertação.