Gostoso Aaron
O Calor que Trai e o Frio que Castiga
O vapor subia em espirais densas, embaçando os óculos que Clara ocasionalmente usava para ler receitas antigas. A cozinha do Ponto Ômega era o seu santuário, um dos poucos lugares onde o caos do mundo exterior e a pressão de ser uma "anomalia" pareciam dissipar-se entre o cheiro de manjericão e o som rítmico de facas batendo contra tábuas de madeira.
Clara estava concentrada. O "doce" que prometera a si mesma levar para Warner não era algo simples. Em um refúgio subterrâneo com suprimentos racionados, fazer algo especial exigia criatividade. Ela estava derretendo um pouco de açúcar mascavo com o resto de uma manteiga guardada para ocasiões especiais, pretendendo criar uma calda para as maçãs cozidas.
— C., você está com aquela cara de novo — a voz de Kenji surgiu atrás dela, acompanhada pelo som de seus passos leves.
— Que cara, Kenji? — Clara perguntou, sem desviar os olhos da panela de ferro pesada.
— A cara de quem está planejando um banquete para um rei que, honestamente, preferiria nos ver todos mortos. — Kenji se aproximou, roubando um pedaço de maçã crua da bancada. — Você está exagerando. É só o Warner. Ele sobreviveu a torturas, acho que ele aguenta uma sopa sem sobremesa.
— Não é sobre o que ele aguenta — rebateu Clara, sentindo o rosto esquentar, e não era apenas pelo fogão. — É sobre manter a humanidade. Se pararmos de tratar os prisioneiros com dignidade, qual a diferença entre nós e o Restabelecimento?
Kenji mastigou a maçã, observando-a com um olhar mais sério do que o habitual.
— Você é boa demais para esse lugar, Clara. De verdade. Mas tome cuidado. O Castle está preocupado com o quanto você está se dedicando a essa... "missão de caridade". E eu também.
— Eu sei me cuidar — murmurou ela, embora a insegurança desse um nó em seu estômago. Ela se sentia grande, desajeitada e comum perto de pessoas como Kenji ou a estonteante Juliette. Mas ali, entre as panelas, ela tinha controle.
Ou pelo menos achava que tinha.
Um estrondo ecoou nos níveis superiores — provavelmente um treinamento de combate que saiu do controle, algo comum com os novos recrutas. A vibração fez o chão tremer levemente. Clara, assustada, tentou segurar a alça da panela de ferro que começava a deslizar no suporte improvisado.
O metal estava incandescente.
— Cuidado! — gritou Kenji, movendo-se com sua velocidade sobre-humana, mas ele estava a dois metros de distância e o reflexo de Clara foi mais rápido, porém desastroso.
Sua mão direita fechou-se sobre a alça de ferro sem a proteção do pano de prato.
O som da pele queimando foi abafado pelo grito agudo que escapou de sua garganta. A dor não foi imediata; foi um choque branco, gélido, que logo se transformou em uma agonia pulsante e abrasadora. A panela virou, derramando a calda fervente sobre o balcão e respingando em seu antebraço.
— Droga, Clara! — Kenji estava ao lado dela em um segundo, segurando-a pelos ombros enquanto ela cambaleava para trás, as lágrimas já inundando seus olhos.
— Minha mão... — ela soluçou, a voz falhando. A pele de sua palma estava vermelha e já começava a formar bolhas assustadoras.
— Água, agora! — Kenji a puxou para a pia, abrindo a torneira e deixando o fluxo frio correr sobre a ferida.
Clara gemeu, encostando a testa no azulejo frio da parede. A dor era excruciante, mas, através da névoa de sofrimento, um pensamento ridículo e persistente surgiu em sua mente: *Eu não vou conseguir levar o jantar dele.*
***
Duas horas depois, Clara estava sentada na enfermaria. Sua mão e metade do antebraço estavam envoltos em bandagens brancas e espessas, tratadas com os poucos unguentos medicinais que Sonya e Sara conseguiram poupar. A medicação a deixara grogue, mas a dor ainda era uma pontada constante.
Castle entrou na sala, seu rosto carregado de uma preocupação paternal que sempre fazia Clara se sentir pequena e protegida.
— Minha querida — disse ele, aproximando-se e colocando a mão em seu ombro não ferido. — Sonya me disse o que aconteceu. Você precisa descansar. Nada de cozinha por, pelo menos, uma semana.
— Mas, pai... — Clara tentou se levantar, mas a tontura a impediu. — Quem vai levar as refeições para o setor de contenção? Os guardas são... eles são brutos. Eles não vão dar a ele o livro que eu prometi continuar lendo...
Castle suspirou, sentando-se no banco ao lado dela.
— Aaron Warner não é sua responsabilidade, Clara. Ele é um prisioneiro de guerra. O fato de você ter sido gentil com ele é admirável, mas sua saúde vem primeiro. Kenji já se encarregou de designar um dos soldados para levar o rancho básico.
— Um soldado? — Clara sentiu um aperto no peito. — Ele vai odiar isso. Ele mal fala com as pessoas.
— Ele não está aqui para ser feliz, Clara. Ele está aqui porque é perigoso.
Clara fechou os olhos, a imagem dos olhos verdes de Warner, frios e solitários, surgindo em sua mente. Ela sabia que ele era um monstro para o resto do mundo. Mas ela tinha visto aquele momento de hesitação quando ele comeu o pão. Ela sentia que, de alguma forma estranha, sua presença silenciosa era a única coisa que não o agredia naquele buraco de concreto.
***
Na cela de contenção, o silêncio era absoluto, exceto pelo zumbido das luzes.
Warner estava sentado na mesma posição de sempre. Suas costas doíam, sua mente corria em círculos sobre táticas de fuga e a imagem de Juliette, mas havia uma pequena parte de seu cérebro que estava, irritantemente, contando os minutos.
A garota. A garota que cheirava a baunilha e farinha. Ela deveria ter chegado há vinte minutos.
Ele não admitiria nem sob tortura, mas a presença dela era... tolerável. Diferente dos outros, ela não o olhava com o ódio ardente de quem queria vingança, nem com o medo paralisante de quem espera a morte. Ela o olhava como se ele fosse um quebra-cabeça que ela tinha medo de montar, mas não conseguia parar de observar. E ela era gentil. Uma gentileza que o irritava por ser tão genuína, tão desprovida de segundas intenções.
A porta chiou. Warner não se moveu, mantendo o olhar fixo na parede.
— Deixe na mesa — ordenou ele, sua voz fria como o aço.
— O Comandante está exigente hoje, hein?
A voz não era a dela. Era áspera, masculina e carregada de desprezo.
Warner virou a cabeça lentamente. Um soldado alto, com o uniforme do Ponto Ômega amarrotado e uma expressão de nojo, chutou a bandeja de metal para dentro da cela. O pão caiu no chão sujo. A sopa, rala e fria, derramou metade no trajeto.
— Onde ela está? — Warner perguntou, seus olhos estreitando-se.
O soldado soltou uma risada seca.
— A garota da cozinha? Se deu mal. Se queimou toda no fogão por causa de um lixo como você. Castle disse que ela está fora de serviço. Agora coma isso e fique quieto, ou eu mesmo faço você engolir o metal da bandeja.
Warner levantou-se em um movimento fluido, a aura de ameaça emanando dele como uma onda de choque. O soldado deu um passo atrás, a mão voando para a arma no coldre, o medo estampando seu rosto.
— Saia — disse Warner, a voz tão baixa que era quase um rosnado.
— O quê? Eu sou quem manda aqui, seu...
— SAIA! — O grito de Warner ecoou pelas paredes de contenção, vibrando com uma intensidade que fez as luzes piscarem.
O soldado, acovardado, bateu na porta freneticamente para ser liberado. Assim que a porta se fechou, Warner olhou para a comida espalhada no chão. O pão, que Clara preparava com tanto cuidado, agora era apenas massa suja no concreto frio.
Ele sentiu uma pontada estranha no peito. Não era fome. Era uma irritação profunda, uma inquietação que ele não conseguia nomear. Ele se aproximou da mesa e viu que não havia livro novo. Não havia o "doce" que ela mencionara vagamente no dia anterior.
Havia apenas o frio.
Ele se sentou no catre, fechando os olhos. O Ponto Ômega parecia subitamente muito mais escuro. Ele tentou se concentrar em seu ódio pelo Restabelecimento, em seu desejo por Juliette, em seus planos de poder. Mas a única coisa que conseguia visualizar era a garota gordinha e tímida, com seus olhos gentis, sofrendo por causa de uma distração estúpida.
— Droga — sussurrou ele para o vazio.
***
Três dias se passaram. Clara estava inquieta. Suas mãos estavam melhorando, mas a pele ainda estava sensível demais para qualquer trabalho manual. Ela passava a maior parte do tempo na biblioteca ou tentando ajudar Kenji com mapas, o que geralmente terminava com ele contando piadas ruins para tentar animá-la.
— Você está distraída, C. — Kenji disse, jogando uma caneta sobre a mesa. — O que foi agora?
— Ele não está comendo, Kenji.
Kenji suspirou, jogando a cabeça para trás.
— Como você sabe?
— Eu perguntei ao soldado que está levando a comida. Ele disse que Warner chuta a bandeja de volta toda vez. Ele está há três dias sem comer quase nada. Ele vai ficar fraco, vai adoecer...
— Ele é um monstro, Clara! Se ele quiser passar fome, o problema é dele. Talvez assim ele morra e nos poupe o trabalho de decidir o que fazer com ele.
Clara levantou-se, a indignação superando a dor em seu braço.
— Ninguém merece morrer de fome em uma cela escura, Kenji. Nem ele.
Ela saiu da sala antes que Kenji pudesse protestar. Suas pernas a levaram diretamente para a cozinha. Com apenas uma mão funcional, ela começou a separar algumas coisas. Pão fresco (que ela pediu para outro ajudante separar), uma maçã inteira e uma garrafa de água limpa.
— O que você está fazendo? — A voz de Sonya era suave, mas firme, na porta da cozinha.
— Ele vai morrer, Sonya. Eu não posso deixar isso acontecer.
A curandeira observou a determinação nos olhos de Clara. Ela viu a bandagem no braço da garota e a forma como ela protegia o membro ferido.
— Castle não vai gostar disso.
— Castle não precisa saber. Por favor, Sonya. Só desta vez.
Sonya suspirou e caminhou até ela, colocando a mão sobre a bandagem de Clara. Um calor suave emanou da palma da curandeira, aliviando a dor latente.
— Vá. Mas se ele tentar qualquer coisa, eu mesma vou garantir que ele nunca mais sinta o gosto de nada.
Clara sorriu, grata, e pegou a pequena sacola com a mão boa.
O caminho até as celas pareceu mais longo do que o normal. Seu coração batia contra as costelas como um pássaro enjaulado. Quando chegou à porta, o guarda de plantão — um homem mais velho que respeitava Castle — olhou para ela com hesitação.
— Ele está de péssimo humor, senhorita Clara. Não abriu a boca para nada além de ameaças.
— Eu sei. Por favor, abra.
A porta se abriu.
A cela estava na penumbra. Warner estava deitado, o braço sobre os olhos. Ele parecia mais pálido, as maçãs do rosto mais salientes. Ele não se moveu quando ouviu o chiado.
— Eu já disse para levar essa porcaria embora — disse ele, a voz fraca, mas carregada de veneno.
— Até mesmo a maçã?
Warner congelou. Ele removeu o braço do rosto e sentou-se lentamente. Seus olhos verdes encontraram os de Clara, e, por um breve momento, a máscara de frieza caiu, revelando uma surpresa genuína.
Ele olhou para o braço dela, envolto em gaze.
— Você é uma idiota — disse ele, embora o tom não tivesse a crueldade habitual.
— É bom ver você também, Warner — Clara respondeu, aproximando-se com cuidado e colocando a sacola sobre a mesa. — Ouvi dizer que você está fazendo greve de fome. É um pouco dramático, não acha?
Warner levantou-se e caminhou até ela. Ele parou a poucos centímetros, a diferença de altura obrigando Clara a inclinar a cabeça. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que a fez estremecer, tocou a borda da bandagem em seu antebraço.
— Foi por minha causa — afirmou ele. Não era uma pergunta.
— Foi um acidente. Eu fui desastrada.
— Você estava fazendo aquela... calda.
Clara sentiu o rosto arder.
— Você ouviu?
— O soldado que veio aqui tem a boca grande. Ele achou divertido contar como a "garota da comida" se machucou por causa de um prisioneiro.
Warner soltou a bandagem, seus dedos roçando a pele sã de Clara por um segundo a mais do que o necessário. O toque era elétrico, fazendo o pulso dela acelerar de uma forma que a assustava.
— Você não deveria ter voltado — disse ele, voltando-se para a mesa. — Eu não sou alguém que mereça o seu sacrifício, Clara.
— Eu não decido quem merece bondade baseada no que os outros dizem, Warner. Eu decido baseada no que eu vejo.
Ele pegou a maçã, observando a fruta vermelha em sua mão pálida.
— E o que você vê? — perguntou ele, a voz quase um sussurro, sem olhar para ela.
Clara deu um passo à frente, encurtando a distância. O cheiro dele era uma mistura de sabão barato da prisão e algo puramente Aaron Warner — algo frio, limpo e perigoso.
— Eu vejo alguém que está com medo de que, se for humano por um segundo, o mundo vá destruí-lo.
Warner riu, um som seco e sem alegria.
— O mundo já me destruiu há muito tempo.
Ele deu uma mordida na maçã. O silêncio que se seguiu não era opressor como os anteriores; era compartilhado. Clara ficou ali, observando-o comer, sentindo a dor em seu braço diminuir diante da intensidade daquele momento.
— Onde está o livro? — ele perguntou após terminar.
— Eu não consegui carregar tudo. Mas trarei amanhã. Se você prometer comer o que os guardas trouxerem pela manhã.
Warner olhou para ela, um brilho enigmático em seus olhos verdes.
— Eu não faço promessas a soldados.
— Então faça para mim.
Ele a estudou por um longo tempo. O Comandante do Setor 45, o homem que Juliette temia, o monstro do Ponto Ômega, inclinou levemente a cabeça.
— Traga o livro, Clara. E eu pensarei no assunto.
Clara saiu da cela com um sorriso que não conseguia esconder. Ela sabia que Kenji a mataria se soubesse, e que seu pai ficaria desapontado. Mas, enquanto caminhava pelos corredores úmidos, ela sentia que tinha conquistado algo que nenhuma arma no Ponto Ômega conseguiria: ela tinha feito o monstro sentir falta de algo.
E, pela primeira vez, a insegurança sobre seu corpo ou sua falta de poderes não importava. Naquele pequeno espaço de concreto, ela era a única pessoa que realmente via Aaron Warner. E ele, de alguma forma distorcida, estava começando a vê-la de volta.