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Gostoso Aaron

O Labirinto de Vidro e a Ausência do Sol

O silêncio na enfermaria do Ponto Ômega era diferente do silêncio da cela de Warner. Lá, o ar era carregado de tensão e eletricidade; aqui, era estéril, cheirando a antisséptico e a uma calma forçada que Clara detestava. Ela estava sentada na beira da maca, observando as bandagens em seu braço. A pele por baixo latejava ritmicamente, um lembrete constante de sua imprudência na cozinha.

A porta se abriu com um estrondo suave, e Castle entrou. Sua expressão não era de raiva, o que Clara teria preferido. Era de uma decepção profunda, o tipo que pesava mais do que qualquer grito. Atrás dele, Sonya e Sara caminhavam como sentinelas silenciosas, suas expressões espelhando a gravidade da situação.

— Você me desobedeceu, Clara — disse Castle, parando diante dela com as mãos entrelaçadas atrás das costas. — Eu fui claro sobre o seu repouso. E fui ainda mais claro sobre a sua segurança.

— Eu só queria ajudar, pai — murmurou Clara, encolhendo os ombros, sentindo-se pequena sob o olhar dele. — Ele não estava comendo. Ele ia morrer de fome.

— Ele é um soldado, Clara! — A voz de Castle subiu um tom, ecoando nas paredes brancas. — Ele sabe sobreviver. O que ele não sabe é como lidar com a bondade, e ele vai usar a sua contra você. Você se feriu gravemente. Sonya me informou que sua cicatrização está lenta, muito mais do que o esperado. Seu corpo está exausto.

Clara olhou para as próprias mãos, as unhas cravadas na palma da mão sã. Ela sabia que ele tinha razão sobre o cansaço. Ser uma "anomalia" sem poderes ativos no Ponto Ômega significava que seu corpo não tinha as defesas aceleradas dos outros. Ela era apenas humana, com todas as fragilidades que isso envolvia.

— Sonya, Sara — chamou Castle, sem desviar os olhos da filha. — Por favor, garantam que Clara não saia desta ala pelos próximos sete dias. Se necessário, usem seus dons para mantê-la em repouso absoluto.

Clara arregalou os olhos, sentindo o pânico subir pela garganta.

— Pai, não! Você não pode me trancar aqui como se eu fosse uma prisioneira!

— Não é uma prisão, é proteção — respondeu ele, sua voz suavizando-se, mas mantendo a firmeza de ferro. — Você é preciosa demais para ser desperdiçada com alguém que não hesitaria em nos destruir.

Sonya aproximou-se, colocando uma mão gentil no ombro de Clara.

— Sinto muito, querida. Mas Castle está certo. Sua ferida está inflamada. Se você continuar se esforçando, pode perder a sensibilidade dos nervos da mão. Você precisa de nós.

As gêmeas trocaram um olhar. Clara sentiu uma onda de sonolência súbita e antinatural começar a nublar seus sentidos. Elas estavam usando sua conexão, manipulando o fluxo de energia em seu corpo para forçá-la a relaxar.

— Quem... quem vai levar o livro? — a voz de Clara saiu arrastada, seus olhos lutando para permanecerem abertos.

— Não se preocupe com isso — foi a última coisa que ouviu Castle dizer antes que a escuridão a levasse.

***

Enquanto isso, nos níveis inferiores, a atmosfera era de puro gelo.

Aaron Warner estava de pé, encostado na parede fria da cela. Ele havia comido a maçã no dia anterior. Havia até, contra todos os seus instintos de autopreservação, comido a ração insossa que o guarda trouxera pela manhã, apenas porque ela pedira. Ele esperava o som dos passos dela. O ritmo leve, um pouco hesitante, que denunciava a presença de Clara antes mesmo de a porta se abrir.

Mas, quando o chiado hidráulico finalmente aconteceu, o perfume que inundou a cela não era o de baunilha e açúcar mascavo. Era o cheiro de ozônio, de chuva antes da tempestade e de um medo que ele conhecia muito bem.

Juliette Ferrars entrou na cela, carregando uma bandeja com movimentos rígidos.

Warner não se moveu. Seus olhos verdes, que haviam suavizado ligeiramente nos últimos dias, tornaram-se lâminas de vidro.

— Onde ela está? — A pergunta saiu como um chicote.

Juliette parou a alguns passos de distância, seus olhos grandes e torturados encontrando os dele. Ela parecia exausta, a pressão de ser a arma secreta do Ponto Ômega pesando sobre seus ombros.

— Clara está na enfermaria — respondeu Juliette, sua voz trêmula, mas decidida. — Ela teve uma recaída. A queimadura piorou e Castle proibiu que ela chegasse perto desta ala.

Warner sentiu uma pontada de algo que se recusava a chamar de preocupação. Era uma irritação possessiva, uma raiva fria contra o mundo que parecia determinado a tirar dele a única coisa que não o olhava com repulsa.

— Ela se machucou por sua causa, Aaron — continuou Juliette, colocando a bandeja sobre a mesa. — Você sabe disso, não sabe? Ela gasta o pouco que tem tentando humanizar você.

Warner deu um passo à frente, e Juliette instintivamente recuou, a energia ao redor dela oscilando. Ele soltou um riso curto e amargo.

— E você veio aqui para me dar um sermão, amor? Ou veio apenas para ver se o monstro ainda está na jaula?

— Eu vim porque ninguém mais queria vir — disse ela, desviando o olhar. — E porque Clara me pediu. Ela estava... delirando de febre, mas não parava de falar sobre um livro. "O Morro dos Ventos Uivantes". Ela disse que você precisava dele.

Juliette tirou um volume gasto debaixo do braço e o colocou ao lado da comida. Warner olhou para o livro como se fosse um objeto sagrado e perigoso ao mesmo tempo.

— Ela é diferente de você, Juliette — disse Warner, sua voz agora baixa e perigosamente calma. — Ela não tem medo do que eu sou. Ela não me olha e vê apenas um reflexo de seus próprios traumas. Ela me vê.

Juliette estremeceu.

— Ela vê algo que não existe, Aaron. Você vai acabar destruindo-a, assim como destrói tudo o que toca.

— Saia daqui — rosnou ele.

Juliette não esperou por um segundo convite. Ela saiu, a porta se fechando pesadamente atrás dela, deixando Warner sozinho com o silêncio e o livro.

Ele pegou o volume. Ao abrir a capa, um pequeno pedaço de papel caiu. Era um bilhete escrito com uma caligrafia trêmula, claramente feita com a mão esquerda, a mão que não estava ferida.

*"O silêncio não precisa ser barulhento se você tiver uma boa história. Coma a sopa. Eu voltarei logo. C."*

Warner apertou o papel entre os dedos. Ele sentiu uma vontade avassaladora de quebrar algo. De derrubar as paredes daquele lugar e encontrar a garota que, mesmo com dor, se preocupava com o seu tédio.

***

Três dias depois, Clara acordou sentindo-se mais lúcida, mas a frustração ainda queimava em seu peito. Sonya e Sara eram enfermeiras maravilhosas, mas eram carcereiras implacáveis. Elas não a deixavam sair da cama para nada, exceto para ir ao banheiro, e Kenji era o único visitante permitido.

— Você parece um leão enjaulado, C. — Kenji disse, sentando-se na beira da cama e descascando uma laranja. — Relaxa. A Juliette está levando a comida para o loiro. Ele não vai morrer.

— A Juliette o odeia, Kenji. E ele a ama... ou acha que ama. É uma dinâmica tóxica. Ele precisa de alguém que não tenha história com ele. Alguém neutro.

Kenji bufou, jogando um pedaço de laranja na boca.

— Neutro? Clara, você está cozinhando doces especiais para o inimigo público número um. Você atravessou a fronteira da neutralidade há quilômetros.

— Ele não é o que vocês pensam — insistiu ela, tentando se sentar, mas sentindo a tontura causada pelos sedativos leves de Sonya.

— Ele é exatamente o que pensamos. O problema é que você tem esse complexo de "salvadora de monstros". Escuta, o Castle está certo em te manter aqui. Você demorou para cicatrizar porque seu sistema imunológico está sobrecarregado. Você não dorme, mal come para dar a ele as melhores porções... você está se apagando, Clara.

Clara olhou para o braço. A bandagem fora trocada naquela manhã. A pele ainda estava rosada e sensível, mas a inflamação havia diminuído.

— Eu só me sinto útil lá, Kenji. Aqui, eu sou só a filha do Castle que precisa ser vigiada. Naquela cela, eu sou Clara. Apenas Clara.

Kenji suspirou e pegou a mão sã dela, apertando-a.

— Você é muito mais do que isso para mim. E para o seu pai. Não deixe aquele psicopata entrar na sua cabeça.

— Ele já entrou, Kenji — sussurrou ela depois que ele saiu. — Mas não da forma que você pensa.

Naquela noite, Clara esperou até que as luzes da enfermaria diminuíssem. Sonya e Sara haviam ido descansar, confiando que os sedativos fariam seu trabalho. Mas Clara havia fingido engolir a última dose, escondendo a pílula sob a língua.

Ela se levantou devagar, sentindo o chão frio sob os pés descalços. Sua mão latejava, mas ela a ignorou. Ela precisava ver com os próprios olhos se ele estava bem. Precisava saber se a presença de Juliette o havia transformado novamente no bloco de gelo que ela encontrara no primeiro dia.

Caminhando pelas sombras, Clara usou os túneis de serviço que conhecia tão bem. Ela era invisível no Ponto Ômega; ninguém prestava atenção na garota da cozinha, especialmente à noite.

Quando chegou ao setor de contenção, o guarda estava cochilando. Clara deslizou pela sombra, usando o cartão de acesso que havia "emprestado" do bolso de Kenji durante a visita da tarde.

A porta da cela se abriu com um clique quase inaudível.

Warner não estava dormindo. Ele estava sentado no chão, encostado na cama, lendo o livro sob a luz fraca da luminária de emergência. Quando a porta se abriu, ele se levantou em um salto, a postura pronta para o combate.

Ao ver Clara, ele congelou.

Ela estava pálida, vestindo uma camisola hospitalar larga, com o cabelo bagunçado e os olhos cansados. A bandagem em seu braço brilhava na penumbra.

— Você é louca — disse ele, a voz rouca.

— Eu trouxe o resto da história — respondeu ela, dando um sorriso fraco e mostrando um pequeno marcador de página que trouxera no bolso.

Warner caminhou até ela em três passos largos. Ele não parou a uma distância segura. Ele parou tão perto que Clara podia sentir o calor emanando de seu corpo. Ele levantou a mão, hesitando por um segundo, antes de tocar o rosto dela com as costas dos dedos.

— Você deveria estar descansando — disse ele, a voz carregada de uma intensidade que fez os joelhos de Clara tremerem.

— Eu não conseguia dormir. Eu sabia que você não estava comendo o que a Juliette trazia.

Warner soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um momento enquanto sua mão permanecia em contato com a pele dela.

— A comida dela tem gosto de cinzas. A sua... — ele abriu os olhos, e o verde estava escuro, profundo como uma floresta à noite. — A sua tem gosto de algo que eu esqueci que existia.

Clara sentiu o coração martelar contra o peito. Ela se sentia vulnerável, exposta, mas, pela primeira vez em sua vida, não se sentia inadequada. Warner a olhava como se ela fosse a única fonte de luz em um mundo em ruínas.

— Por que você voltou? — perguntou ele, sua voz descendo para um tom íntimo. — Você sabe o que dizem sobre mim. Você sabe o que eu fiz.

— Eu sei o que você fez — disse Clara, mantendo o olhar firme. — Mas eu também sei que você guardou o meu bilhete. E sei que você terminou o livro que eu escolhi.

Warner deslizou a mão do rosto dela para a nuca, puxando-a gentilmente para mais perto. Clara podia sentir a respiração dele contra sua testa.

— Você é um perigo para mim, Clara — sussurrou ele. — Mais perigosa do que a Juliette e seu toque mortal. Porque você me faz querer ser algo que eu não sou.

— E o que você é? — ela perguntou, a voz quase sumindo.

— Um monstro — respondeu ele. — Mas, por você, eu poderia tentar ser um monstro que protege, em vez de um que destrói.

Antes que Clara pudesse responder, o som de passos apressados ecoou no corredor. O alarme silencioso da enfermaria devia ter disparado.

— Você precisa ir — disse Warner, soltando-a bruscamente, a máscara de frieza voltando ao lugar instantaneamente. — Se te encontrarem aqui, nunca mais permitirão que você volte.

— Eu voltarei — prometeu ela, recuando em direção à porta. — Em quatro dias. Quando meu repouso acabar.

Warner olhou para ela, o livro ainda em sua mão.

— Coma a sopa, Aaron.

— Só se você prometer não se queimar novamente — replicou ele, com um rastro de um sorriso sarcástico que não chegava aos olhos, mas que aqueceu o coração de Clara.

Ela saiu da cela segundos antes de Kenji dobrar o corredor. Ele a encontrou encostada na parede, tentando recuperar o fôlego.

— Clara! O que você está fazendo aqui? Sonya está tendo um ataque cardíaco!

— Eu só... precisava caminhar, Kenji. O ar da enfermaria estava me sufocando.

Kenji olhou para a porta da cela de Warner e depois para Clara. Ele não era bobo; ele viu o brilho nos olhos dela e a cor que havia voltado às suas bochechas.

— Vamos voltar — disse ele, sua voz cheia de uma preocupação nova e mais sombria. — Antes que o Castle decida que o Warner precisa de uma cela sem portas.

Enquanto era levada de volta, Clara sentiu o toque de Warner ainda gravado em sua pele. Ela sabia que o caminho à frente era perigoso. Sabia que estava se apaixonando por um homem que o mundo inteiro odiava. Mas, enquanto lembrava da forma como ele segurava o livro, ela soube que a bondade não era apenas algo que ela oferecia a ele. Era a ponte que, talvez, pudesse trazê-lo de volta da escuridão.

E ela estava disposta a queimar as mãos quantas vezes fosse necessário para manter aquela ponte de pé.

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