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Gostoso Aaron

O Labirinto de Vidro e a Ausência do Sol

O Ponto Ômega fervilhava com uma energia nova, uma mistura de alívio e desconfiança que parecia eletrificar as paredes de concreto. Aaron Warner, o monstro de olhos verdes, o herdeiro do Restabelecimento, finalmente havia cedido. Ele concordara em colaborar, em oferecer seus conhecimentos táticos e sua própria força em troca de uma aliança tênue contra o próprio pai.

Para a maioria, era uma vitória estratégica sem precedentes. Para Clara, era o início de um pesadelo silencioso.

Ela estava na cozinha, as mãos mergulhadas em uma massa de pão que ela sovava com uma força desnecessária. A farinha subia em pequenas nuvens, sujando seu avental e se prendendo aos fios soltos de seu cabelo. Desde a noite em que ouvira as palavras dele para Juliette, Clara havia se tornado um fantasma. Ela não levava mais as bandejas. Não deixava mais livros. Não perguntava mais sobre ele.

— Se você bater mais forte nessa massa, ela vai processar você por agressão, C. — A voz de Kenji soou próxima, carregada daquele tom brincalhão que sempre servia como a única âncora de Clara.

Ela parou, respirando fundo, e limpou o suor da testa com as costas da mão suja de farinha.

— Só estou garantindo que o glúten se desenvolva, Kenji.

— Sei. E eu sou o próximo Comandante Supremo — Kenji se aproximou, apoiando os cotovelos na bancada de metal. Ele a observou com aqueles olhos perspicazes que viam através de todas as suas barreiras. — Ele está solto, você sabe. Bem, "solto" com supervisão. Ele está ajudando o Castle nos mapas do Setor 45 agora mesmo.

O coração de Clara deu um solavanco doloroso, mas ela manteve a expressão neutra.

— Bom para o Ponto Ômega. Espero que ele seja útil.

— Você não foi vê-lo. Nem uma vez desde que ele saiu da contenção. Ele tem perguntado... bem, ele não pergunta com palavras, mas ele olha para a porta toda vez que alguém entra com comida. Ele está procurando por você, Clara.

— Ele tem a Juliette para procurar — rebateu ela, voltando a sovar a massa com vigor renovado. — Eu sou apenas a cozinheira, Kenji. E cozinheiras ficam na cozinha.

Kenji soltou um suspiro pesado e, em um movimento rápido, segurou as mãos dela, forçando-a a parar.

— Você não é "apenas" nada. E você sabe que eu odeio ver você assim, agindo como se fosse invisível de novo. Vamos, saia daqui. O pão pode esperar. Vamos dar uma volta nos níveis superiores, pegar um pouco de ar que não cheire a fermento.

Clara tentou protestar, mas Kenji era persistente. Ele a puxou pela mão, rindo enquanto ela tentava tirar o avental apressadamente.

Enquanto caminhavam pelos corredores, Kenji passou o braço pelos ombros de Clara, puxando-a para perto em um gesto de proteção e carinho fraternal que era comum entre eles. Clara encostou a cabeça no ombro dele por um momento, sentindo o conforto daquela amizade sólida. Kenji começou a contar uma história absurda sobre um dos novos recrutas que tentou usar seus poderes para gelar uma bebida e acabou congelando a própria mão na mesa, e Clara não pôde evitar uma risada genuína, a primeira em dias.

Eles dobraram a esquina que levava ao salão principal de estratégia, ainda rindo. Kenji deu um tapinha carinhoso na bochecha de Clara e bagunçou seu cabelo.

— Viu? Eu disse que você precisava rir. Você fica muito mais bonita quando não está tentando matar uma massa de pão.

— Idiota — ela disse, dando um empurrão de brincadeira no braço dele.

Foi nesse momento que ela o viu.

Warner estava parado a poucos metros de distância, acompanhado por Castle e um guarda. Ele não usava mais as roupas cinzas de prisioneiro; vestia um traje preto tático que parecia uma segunda pele, realçando a elegância perigosa de cada um de seus movimentos. Ele estava com um mapa enrolado em uma das mãos, mas seus olhos não estavam nos documentos.

Eles estavam fixos em Clara e Kenji.

O ar ao redor de Warner parecia ter caído vários graus. A expressão dele era uma máscara de gelo absoluto, mas seus olhos verdes queimavam com uma intensidade que Clara sentiu na pele. Ele observou o braço de Kenji ainda apoiado nos ombros dela, a proximidade física, a risada que ainda ecoava no ar.

— Ah, vejam só — disse Kenji, sua voz perdendo o tom de brincadeira e tornando-se vigilante. — O novo aliado decidiu sair da toca.

Warner não respondeu a Kenji. Ele deu um passo à frente, ignorando o guarda e o próprio Castle, que o observava com curiosidade. Seu olhar desceu para a mão de Kenji, que agora segurava o braço de Clara, e depois voltou para o rosto dela.

Havia algo diferente no olhar de Warner. Não era apenas o desdém habitual. Era uma fúria contida, uma possessividade silenciosa que Clara não compreendeu de imediato.

— Clara — disse Warner. O som do nome dela na boca dele ainda tinha o poder de desarmá-la.

— Comandante — ela respondeu, usando o título como uma armadura.

Warner estreitou os olhos. O uso do título formal parecia irritá-lo mais do que um insulto direto.

— Eu não a vejo há dias — continuou ele, sua voz baixa e suave, mas com uma vibração que sugeria perigo. — Pensei que estivesse... indisposta. Mas vejo que encontrou formas excelentes de passar o seu tempo livre.

Kenji deu um passo à frente, colocando-se meio à frente de Clara, um gesto instintivo de defesa.

— Ela está ótima, Warner. Estava apenas ocupada com pessoas que realmente valem o tempo dela. Algum problema com isso?

O olhar de Warner se deslocou para Kenji. Foi um olhar de puro ódio, tão afiado quanto uma lâmina. Ele analisou Kenji de cima a baixo, desde o cabelo desgrenhado até a postura relaxada, e Clara viu o canto da boca de Warner se curvar em um esgar de nojo.

— Então é isso — murmurou Warner, quase para si mesmo. — O bobo da corte finalmente conseguiu o que queria.

— Do que você está falando, loirinho? — Kenji perguntou, a voz subindo de tom.

— Não me chame assim — sibilou Warner. Ele voltou a olhar para Clara, e havia uma mágoa profunda escondida sob a camada de gelo. — Eu deveria ter imaginado. Você sempre teve uma inclinação por... caridade. Suponho que o seu amigo aqui seja apenas mais um dos seus projetos de resgate.

Clara sentiu o sangue subir ao rosto. A implicação dele era clara: ele achava que ela e Kenji eram um casal. E, mais do que isso, ele falava como se ela estivesse cometendo um erro, como se ela pertencesse a algum outro lugar.

— O que eu faço ou com quem eu saio não é da sua conta, Warner — disse Clara, sua voz tremendo levemente de raiva. — Você não tem o direito de questionar nada.

— Eu tenho todos os direitos sobre o que me pertence — disse ele, a voz tão baixa que apenas ela e Kenji podiam ouvir.

— Eu não pertenço a você! — Clara exclamou, as lágrimas de frustração começando a arder. — Você deixou isso bem claro na sala de interrogatório, lembra? Você pertence à Juliette. Você ama a Juliette. Eu fui apenas... o pão e o livro.

Warner empalideceu. Ele deu um passo em direção a ela, mas Kenji colocou a mão no peito dele, impedindo-o.

— Dê um passo para trás, cara. Agora.

Warner olhou para a mão de Kenji em seu peito como se fosse um inseto repugnante. A energia na sala mudou; Warner parecia prestes a explodir, a liberar o poder que Castle tanto temia.

— Você não faz ideia do que está acontecendo aqui, Kishimoto — disse Warner, sua voz fria como o vácuo. — Você a toca como se a entendesse, mas você não vê nada. Você a vê como um porto seguro. Eu a vejo como o oceano.

— Chega! — Castle interveio, aproximando-se e colocando-se entre os homens. — Warner, temos trabalho a fazer. Kenji, leve Clara para a cozinha. Agora.

Kenji não precisou de um segundo convite. Ele lançou um último olhar desafiador para Warner e puxou Clara pelo corredor. Clara não olhou para trás, mas podia sentir os olhos de Warner cravados em suas costas, como brasas que se recusavam a apagar.

Quando chegaram à segurança da cozinha, Clara desabou em um banco, cobrindo o rosto com as mãos. O silêncio da cozinha agora parecia pesado e opressor.

— C., o que foi aquilo? — Kenji perguntou, sentando-se à frente dela, a expressão confusa. — Ele agiu como se... como se estivesse com ciúmes. De mim.

Clara soltou uma risada amarga entre os dedos.

— Ele é louco, Kenji. Ele acha que pode ter tudo. Ele quer a alma da Juliette e o conforto que eu ofereci a ele. Ele viu a gente junto e a arrogância dele não suporta a ideia de que eu segui em frente. Mesmo que eu nunca tenha sido nada para ele.

Kenji suspirou, passando a mão pelo cabelo.

— Eu não sei, Clara. Eu vi o jeito que ele olhou para mim. Não era o olhar de quem está perdendo um "conforto". Era o olhar de quem está perdendo uma guerra. Ele realmente acha que a gente está junto.

— Deixe que ele ache — disse ela, levantando o rosto. Seus olhos estavam vermelhos, mas havia uma nova determinação neles. — Talvez assim ele pare de me procurar. Talvez assim ele entenda que eu não sou um prêmio de consolação.

***

Nos dias seguintes, a tensão no Ponto Ômega só aumentou. Warner estava oficialmente integrado às reuniões de cúpula, mas seu comportamento era errático. Ele era brilhante nas táticas, mas sua paciência era inexistente. E ele parecia ter desenvolvido uma obsessão em estar em qualquer lugar onde Clara estivesse.

Se ela ia buscar suprimentos, ele "coincidentemente" estava passando pelo corredor. Se ela estava na biblioteca, ele aparecia para "consultar um mapa". Mas ele nunca falava com ela. Ele apenas ficava parado, observando-a de longe com uma expressão sombria, especialmente se Kenji estivesse por perto.

Uma tarde, Clara estava limpando as mesas do refeitório após o almoço. O lugar estava quase vazio, exceto por alguns retardatários. Kenji estava sentado em uma das mesas, ajudando-a a dobrar os guardanapos de pano enquanto contava mais uma de suas histórias.

— E então eu disse para o Adam: "Cara, se você ficar mais tenso, vai virar um diamante!" — Kenji riu, jogando um guardanapo dobrado em Clara.

Clara riu, jogando o pano de volta.

— Você é impossível, Kenji.

— E você adora isso.

Kenji se levantou e, em um momento de carinho impulsivo, inclinou-se e deu um beijo rápido no topo da cabeça de Clara antes de se espreguiçar.

— Vou para o treino. Te vejo no jantar?

— Com certeza.

Assim que Kenji saiu, o ar no refeitório pareceu sumir. Clara sentiu a presença antes de ouvi-la.

— Ele não é bom o suficiente para você.

Clara se virou. Warner estava encostado em uma pilastra, as sombras da sala acentuando os ângulos afiados de seu rosto. Ele parecia não ter dormido; havia olheiras sob seus olhos verdes, e sua postura, geralmente impecável, tinha um toque de exaustão.

— Você ainda está aqui? — Clara perguntou, voltando a limpar a mesa com movimentos mecânicos. — Pensei que estivesse ocupado planejando a queda do mundo.

Warner caminhou até ela. Desta vez, não havia guardas, não havia Kenji, não havia Castle. Havia apenas os dois no vasto refeitório.

— Ele é simplório — continuou Warner, ignorando o sarcasmo dela. — Ele faz piadas para esconder o fato de que não entende a profundidade do que você carrega. Ele a toca com uma familiaridade que ele não conquistou.

Clara parou de limpar e olhou diretamente para ele.

— Ele me entende melhor do que você jamais entenderá, Warner. Ele me vê quando eu estou triste, ele me faz rir quando eu quero chorar, e ele nunca, nem por um segundo, me fez sentir como se eu fosse a segunda opção de alguém.

Warner recuou como se tivesse sido esbofeteado.

— Você acha que ele a ama? — A pergunta saiu rouca, quase dolorosa.

— Eu acho que ele se importa comigo de uma forma que você não consegue compreender. O amor não é apenas grandes declarações e obsessão, Warner. O amor é estar presente. É o pão quente quando se está com fome. É o silêncio compartilhado. Coisas que você só valoriza quando não as tem mais.

Warner deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Clara podia sentir o calor emanando dele, a mesma eletricidade que a consumira na cela.

— Eu valorizo — sussurrou ele. — Eu não sabia o quanto, até que o silêncio daquela cela se tornou ensurdecedor sem a sua voz. Eu vi você com ele, Clara. Vi o jeito que você sorri para ele. E cada vez que ele a toca, eu sinto como se estivessem arrancando a pele do meu corpo.

— Isso não é amor, Warner. Isso é orgulho ferido. Você ama a Juliette. Você mesmo disse isso.

— O que eu sinto por ela... — Warner parou, lutando com as palavras, algo raro para ele. — É uma vida inteira de necessidade. É um destino. Mas o que eu senti com você naquela cela... o que eu sinto quando vejo você agora... é algo que eu nunca pedi para sentir. É uma paz que eu não mereço. E ver você entregar essa paz para alguém como o Kishimoto...

— "Alguém como o Kishimoto" é o meu melhor amigo — Clara o interrompeu, a voz firme. — E ele é dez vezes o homem que você é, porque ele não precisa diminuir os outros para se sentir poderoso.

Warner riu, um som seco e sem vida.

— Ele a ama como um irmão, Clara. Você sabe disso. Mas você está usando ele como um escudo contra mim.

Clara sentiu o coração disparar. Ele a conhecia bem demais.

— E se eu estiver? — desafiou ela. — Pelo menos com ele eu estou segura. Com você, eu sou apenas um dano colateral no seu épico de amor com a Juliette.

Warner estendeu a mão, e desta vez Clara não recuou. Ele tocou a ponta dos dedos dela, um contato leve que fez o braço dela formigar.

— Você nunca foi um dano colateral — disse ele, os olhos verdes fixos nos dela com uma sinceridade devastadora. — Você foi a única coisa que me fez querer ficar neste lugar miserável. Juliette é a minha rainha, Clara. Mas você... você é a minha humanidade. E eu estou perdendo a cabeça vendo você nos braços de outro.

— Então perca — disse Clara, puxando a mão de volta. — Porque eu não sou um prêmio para ser disputado. E eu prefiro ser a "humanidade" de alguém que saiba me valorizar por inteiro, e não apenas nos momentos de solidão.

Ela se virou e saiu do refeitório, deixando Warner sozinho entre as mesas vazias. Suas pernas tremiam, e ela precisou se apoiar na parede do corredor para não cair.

Ela sabia que Warner estava sofrendo. Sabia que a confusão dele era real. Mas ela também sabia que não podia ser a cura para um homem que ainda estava sangrando por outra pessoa.

Naquela noite, na cozinha, Clara voltou a sovar a massa. Kenji apareceu mais tarde, trazendo uma flor silvestre que encontrara em uma das expedições externas. Ele a colocou atrás da orelha dela e a fez dançar uma valsa desajeitada entre os sacos de farinha.

Do lado de fora, nas sombras do corredor, Aaron Warner observava a cena. Ele viu a risada de Clara, viu o jeito que ela se apoiava em Kenji, e sentiu a verdade de suas próprias palavras. Ele estava perdendo a guerra. E, pela primeira vez em sua vida, não havia nenhuma tática, nenhum plano e nenhuma força que pudesse trazer de volta a garota que cheirava a baunilha e que, um dia, acreditara que ele poderia ser salvo.

Ele apertou o bilhete amassado que ainda carregava no bolso — o bilhete dela — e deu as costas, desaparecendo na escuridão do Ponto Ômega. Ele ajudaria a vencer a guerra contra o pai. Ele protegeria Juliette. Mas ele sabia, com uma clareza cortante, que o seu maior fracasso não seria no campo de batalha, mas sim no silêncio daquela cozinha, onde ele era apenas um estranho observando a felicidade que ele mesmo havia destruído.

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