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Gostoso Aaron

O Labirinto das Palavras Não Ditas

Os sete dias de confinamento na enfermaria pareceram sete anos. Quando Sonya finalmente removeu as últimas bandagens, a pele de Clara estava nova, embora ainda sensível e marcada por um tom rosado que contava a história de sua dor. Mas o que mais doía não era o braço; era a ausência daquele espaço frio e cinzento onde, paradoxalmente, ela se sentia mais viva.

Naquela noite, o Ponto Ômega estava estranhamente calmo. A maioria dos soldados estava em uma reunião estratégica nos níveis superiores, discutindo os próximos movimentos contra o Restabelecimento. Clara aproveitou o vácuo de vigilância. Ela não levava apenas uma bandeja; levava uma decisão.

Ao entrar na cela, o ar pareceu estalar. Warner não estava lendo. Ele estava de pé, como se estivesse esperando por ela desde o momento em que a porta se fechara na última vez.

— Você demorou — disse ele. A voz não era uma acusação, mas uma constatação carregada de uma fome que não tinha nada a ver com a comida na bandeja.

Clara colocou a refeição sobre a pequena mesa, mas não recuou. Seus olhos encontraram os dele, e a eletricidade entre eles era quase insuportável.

— Eu fui proibida de vir — respondeu ela, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Mas eu cumpri minha promessa.

Warner deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. O cheiro de sabão e pele limpa a atingiu como um soco. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que contrastava com a reputação de monstro, tocou a cicatriz rosada no antebraço dela.

— A marca da sua bondade — sussurrou ele, os olhos verdes fixos na pele dela. — Ou da sua estupidez.

— Por que você se importa? — Clara perguntou, a respiração falhando quando ele subiu a mão pelo braço dela, parando no ombro.

Warner não respondeu com palavras. Ele a puxou para perto, e o contato de seus corpos foi como o encontro de dois fios desencapados. Clara sentiu a força dele, a tensão nos músculos e, acima de tudo, a vulnerabilidade que ele só mostrava entre aquelas quatro paredes de concreto.

— Porque você é a única coisa real neste lugar de sombras — disse ele, antes de inclinar a cabeça e capturar os lábios dela.

O beijo foi desesperado, uma colisão de anos de solidão dele com a insegurança latente dela. Clara sentiu-se desejada de uma forma que nunca imaginara. Ele a tocava como se ela fosse feita de vidro soprado, traçando as curvas de seu corpo com uma reverência que calava todas as vozes internas que diziam que ela não era "suficiente".

Na penumbra da cela, sobre o catre estreito e desconfortável, o mundo exterior deixou de existir. Não havia Setor 45, não havia Castle, não havia Kenji ou Juliette. Havia apenas o calor da pele, o som das respirações entrecortadas e a entrega total.

— Aaron... — ela sussurrou no auge da paixão, deixando o nome dele escapar como uma prece, um selo de intimidade que ela acreditava ter conquistado.

Ele não a corrigiu. Ele apenas a apertou mais forte, escondendo o rosto na curva do pescoço dela, enquanto o silêncio da noite os envolvia.

***

Na manhã seguinte, Clara acordou com uma sensação de leveza que nunca experimentara. Ela saiu da cela antes que as trocas de guarda se tornassem intensas, sentindo o coração flutuar. Ela acreditava, com a ingenuidade de quem finalmente se sentia vista, que algo havia mudado irrevogavelmente.

Ela estava voltando para a cozinha, pretendendo preparar algo especial, quando passou pelo corredor que levava à sala de interrogatórios privada, um lugar onde Castle permitia que Juliette conversasse com Warner longe de ouvidos curiosos.

A porta estava entreaberta.

Clara ia passar direto, mas o som da voz dele a fez parar. Era a voz de Warner, mas havia um tom nela que Clara nunca ouvira — uma mistura de agonia, adoração e uma súplica que a fez gelar por dentro.

— Você não entende, Juliette? — disse Warner. Clara espiou pela fresta.

Ele estava de pé diante de Juliette. A iluminação era forte, revelando cada detalhe da expressão dele. Ele parecia um homem à beira de um abismo.

— Eu faço o que for preciso para manter você viva — ele continuou, a voz embargada. — Eu aceito este lugar, aceito este tratamento, aceito qualquer coisa. Porque eu amo você. Eu sempre amei você, Juliette. Tudo o que eu fiz, cada atrocidade, cada escolha... foi por você.

O mundo de Clara girou. O chão sob seus pés pareceu se transformar em lama.

— Aaron... — Juliette começou, a voz cheia de pena e confusão.

— Não — ele a interrompeu, dando um passo em direção a ela, a mesma urgência que mostrara a Clara na noite anterior, mas com uma motivação devastadoramente diferente. — Não me chame assim se for para me rejeitar. Você é a única que tem o direito de usar esse nome. A única que realmente possui o que resta da minha alma.

Clara sentiu o ar escapar de seus pulmões. A mão que ele beijara na noite anterior agora cobria sua boca para abafar um soluço. As palavras dele eram lâminas. *A única.*

Ela lembrou-se de como o chamara de Aaron no calor do momento. Ele não a corrigira não porque aceitara a intimidade, mas talvez porque, naquele momento, ele estivesse apenas usando o corpo dela para preencher o vazio que a ausência de Juliette deixava. Ela fora um substituto. Uma distração gentil. Uma sopa quente em uma noite fria, mas nunca o banquete que ele desejava.

Clara recuou, as costas batendo contra a parede fria do corredor. A dor da queimadura em seu braço não era nada comparada ao rasgo em seu peito. Ela correu. Correu até que seus pulmões ardessem, até que o cheiro de baunilha da cozinha fosse substituído pelo cheiro de suor e lágrimas em seu próprio quarto.

***

Horas depois, era hora da entrega do jantar. O ciclo não parava, mesmo quando o coração de alguém era esmagado.

Clara ajeitou a bandeja. Suas mãos não tremiam mais; estavam frias, desprovidas de qualquer calor. Ela não usou temperos especiais. Não colocou um doce. Levou apenas o necessário para a sobrevivência biológica de um prisioneiro.

Quando a porta da cela se abriu, Warner estava sentado no catre, a postura impecável, os olhos fixos no livro que ela lhe dera. Ele levantou o olhar, e por um breve segundo, houve uma faísca de algo — expectativa? — em suas pupilas verdes.

— Você voltou — disse ele, a voz suavizando-se ligeiramente.

Clara não se aproximou. Ela colocou a bandeja na mesa perto da porta, mantendo uma distância segura, uma distância que não poderia ser transposta por beijos ou promessas silenciosas.

— Aqui está o seu jantar, Warner — disse ela. A voz era monótona, desprovida de qualquer emoção.

Ele franziu o cenho, a confusão nublando seus traços perfeitos. Ele se levantou lentamente, dando um passo em direção a ela.

— O que aconteceu? E por que me chamou assim? Ontem à noite...

— Ontem à noite foi um erro de julgamento — interrompeu Clara, seus olhos encontrando os dele com uma dureza que ela não sabia que possuía. — E eu chamei você pelo seu nome, Warner. Afinal, eu me lembrei do que você me disse no primeiro dia. Que apenas *ela* pode chamá-lo de Aaron.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Warner parou no meio do caminho, a compreensão atravessando seu rosto como uma sombra. Ele olhou para a porta, depois de volta para Clara, e a máscara de Comandante do Setor 45, fria e impenetrável, voltou a cair sobre ele.

— Você ouviu — disse ele. Não era um pedido de desculpas. Era um fato.

— Eu ouvi a verdade — respondeu Clara, sentindo as lágrimas queimarem, mas recusando-se a deixá-las cair. — Eu fui apenas a garota que trouxe o pão quando você estava com fome. Eu entendo agora.

— Clara, não é tão simples — ele começou, dando mais um passo, a mão estendida como se quisesse tocá-la.

— Não me toque — ela disse, a voz subindo de tom pela primeira vez. — Não se atreva. Eu posso não ser uma arma viva como a Juliette. Eu posso não ter o poder de destruir cidades ou de resistir a balas. Mas eu não sou um objeto para você usar enquanto espera pelo que realmente quer.

Warner recuou, a expressão tornando-se ilegível.

— Eu nunca disse que você era um objeto.

— Você não precisou dizer. Suas palavras para ela disseram tudo o que eu precisava saber sobre onde eu fico no seu mundo. E a resposta é: em lugar nenhum.

Clara bateu na porta para que o guarda a abrisse. Antes de sair, ela olhou para ele uma última vez. Ele parecia pequeno naquela cela, apesar de toda a sua arrogância e beleza.

— Coma a sopa, Warner — disse ela, usando o sobrenome dele como um escudo. — É o meu trabalho garantir que você não morra. Mas o meu trabalho de tentar salvar sua alma acabou.

A porta se fechou com um estrondo metálico, selando a distância entre eles.

Clara caminhou pelo corredor, encontrando Kenji no meio do caminho. Ele olhou para o rosto dela, para os olhos vermelhos e a postura rígida, e soube imediatamente que algo havia quebrado.

— C.? O que aquele desgraçado fez? — Kenji perguntou, a mão indo automaticamente para a arma, a raiva crescendo em seu rosto.

Clara balançou a cabeça, limpando uma lágrima solitária que escapou.

— Nada, Kenji. Ele não fez nada que eu já não devesse saber. Ele é o Warner. E eu sou apenas a Clara.

Kenji a puxou para um abraço apertado. Clara chorou silenciosamente contra o peito do amigo, sentindo o calor humano que era real, que não tinha segundas intenções e que não pertencia a outra pessoa.

Na cela, Aaron Warner olhou para a bandeja de comida fria. Ele pegou o livro, "O Morro dos Ventos Uivantes", e o atirou contra a parede de concreto. O barulho foi seco, final.

Ele sentou-se no escuro, o nome "Aaron" ecoando em sua mente com a voz de Clara, e depois com a de Juliette. Ele tinha o que queria — o amor de sua vida sabia de seus sentimentos. Mas, pela primeira vez, o silêncio da cela parecia barulhento demais. E o gosto do pão, que ele provou mecanicamente horas depois, não tinha mais o gosto de nada. Tinha apenas o gosto de cinzas.

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