Grenade
O Eco das Cordas e o Gosto da Chuva
A penumbra da boate parecia pulsar no mesmo ritmo que o sangue nas veias de Bruno. O mundo lá fora, com seus táxis amarelos cortando a noite de Los Angeles e as luzes de neon piscando em promessas vazias, não existia. Ali, naquele canto esquecido pelo tempo e pela moralidade, o que importava era o calor da pele de Alicia e a maneira como ela parecia decifrar cada nota que ele compunha no silêncio do seu quarto.
Ele a apertou mais contra a mesa, sentindo a textura da madeira áspera contrastar com a suavidade da seda do vestido dela. Bruno sentia uma fome que não vinha do estômago, mas de uma alma que fora deixada em carne viva meses atrás. Ele se lembrava, com uma clareza dolorosa, do peso do piano em suas costas, do suor escorrendo pelo rosto enquanto ele atravessava a cidade como um mártir do amor, apenas para encontrar o vazio nos olhos de Jessica. Mas Alicia... Alicia era o oposto do vazio. Ela era o caos, a vida, o empurrão violento que o tirara dos trilhos quando o metal do trem já soprava o hálito da morte em seu pescoço.
— Você está respirando tão rápido — sussurrou Alicia, os lábios roçando o lóbulo da orelha dele. — O que foi, Mars? O palco te deixou elétrico ou é só o medo de eu te morder de volta?
Bruno soltou uma risada rouca, um som que vibrou no peito dela.
— Eu já morri uma vez, Ali. Naquela noite nos trilhos. Tudo o que veio depois é bônus. E se você for o meu fim, eu vou com um sorriso no rosto.
Ele a beijou novamente, um beijo que carregava o gosto da tequila e uma urgência quase desesperada. Suas mãos, calejadas pelas cordas da guitarra e pelas teclas do piano, desceram pelas curvas dela com uma possessividade que ele não tentava mais esconder. Ele não era o "bom moço" que Jessica queria que ele fosse; ele era um homem quebrado que estava sendo reconstruído por mãos pequenas e uma vontade de ferro.
Alicia envolveu as pernas ao redor da cintura dele, puxando-o para mais perto, eliminando qualquer espaço que restasse entre seus corpos. Ela sentia o coração dele batendo contra o seu, um compasso acelerado, sincopado, como uma de suas músicas mais complexas.
— Você fala demais — disse ela, interrompendo o beijo por um segundo para olhá-lo nos olhos. — Menos poesia, Bruno. Mais... isso.
Ela puxou a nuca dele, forçando-o a descer o rosto novamente para o seu pescoço. Bruno sentiu o cheiro dela — uma mistura de baunilha, cigarro e algo que era puramente Alicia. Ele cravou os dentes de leve no ombro dela, ouvindo-a soltar um suspiro que se transformou em um gemido baixo. O som o atingiu como um acorde perfeito.
— Vamos sair daqui — ele murmurou contra a pele dela. — Meu apartamento é minúsculo, você sabe. O piano novo ocupa metade da sala e o teto vaza quando chove, mas lá... lá eu não preciso dividir você com o barulho dessa música.
Alicia sorriu, aquele sorriso que parecia iluminar até os becos mais escuros de sua mente.
— Eu gosto do seu apartamento. Ele tem cheiro de música inacabada.
Eles se separaram apenas o suficiente para conseguirem caminhar, embora Bruno mantivesse o braço firmemente passado pela cintura dela, como se temesse que, ao soltá-la, ela pudesse evaporar como a fumaça da boate. Cruzaram o salão em direção à saída, ignorando os olhares curiosos. Bruno não se importava mais em ser o centro das atenções por causa de seu talento; ele queria ser o centro do mundo de Alicia.
O ar frio da noite de Los Angeles os atingiu como um tapa, mas nenhum dos dois pareceu notar. Eles caminharam apressados pelas calçadas rachadas, rindo de piadas internas que só faziam sentido para quem já tinha compartilhado o silêncio da madrugada. O apartamento de Bruno ficava a poucos quarteirões dali, em um prédio antigo onde o elevador raramente funcionava e o corredor cheirava a comida chinesa e umidade.
Ao subirem as escadas, Bruno sentia a adrenalina ainda correndo. Cada degrau era uma nota em direção ao clímax. Quando ele finalmente girou a chave na fechadura e os dois entraram, o silêncio do apartamento foi preenchido apenas pelo som de suas respirações ofegantes.
A luz da lua entrava pela janela sem cortinas, iluminando o piano de armário que ele comprara com o pouco que restara de suas economias após o acidente nos trilhos. O instrumento era velho, com a madeira descascada, mas tinha uma alma que o piano destruído nunca tivera.
Alicia não esperou. Assim que a porta foi trancada, ela o empurrou contra a madeira do piano. O som de algumas teclas sendo pressionadas aleatoriamente pelo impacto ecoou pelo quarto, uma nota dissonante que parecia perfeita para o momento.
— Você se lembra da primeira vez que me viu? — perguntou ela, as mãos subindo pelo peito dele, sentindo o calor através da camisa.
— Como eu poderia esquecer? — Bruno sorriu, lembrando-se da sensação de ser jogado no cascalho, do cheiro de ferro do trem passando a centímetros de sua cabeça e do par de olhos mais intensos que ele já vira olhando para baixo, verificando se ele ainda estava vivo. — Você me salvou de ser uma mancha nos trilhos. Eu achei que era um anjo. Depois você começou a xingar porque eu tinha quase te derrubado junto, e eu percebi que era algo muito melhor que um anjo.
— Um demônio? — Alicia arqueou uma sobrancelha, um brilho travesso nos olhos.
— Uma mulher real — corrigiu ele, segurando o rosto dela com as duas mãos. — A primeira pessoa que me viu de verdade, Ali. Não o cara que escreve canções bonitinhas. Mas o cara que estava pronto para desistir de tudo por causa de uma mentira.
Alicia suavizou a expressão. Ela sabia o quanto Jessica o tinha machucado. Ela vira os rascunhos de "Grenade" espalhados pelo chão, as letras sangrando dor e traição.
— Aquela garota foi a maior idiota da história desta cidade — sussurrou Alicia. — Ela queria um troféu, Bruno. Ela não queria o homem que move pianos.
— E você? O que você quer?
— Eu quero o homem que não tem medo de sentir demais. Eu quero o cara que canta sobre gorilas e depois me olha como se eu fosse a única nota que importa.
Bruno não precisou de mais nada. Ele a ergueu, sentando-a sobre a tampa fechada do piano. O metal e a madeira gemeram sob o peso, mas ele não parou. Ele a beijou com uma ferocidade que dizia tudo o que as palavras ainda não conseguiam expressar. Suas mãos trabalharam nos botões da camisa dele com pressa, enquanto ele explorava a extensão das pernas dela, subindo o vestido de seda até que não houvesse mais barreiras.
A conexão entre eles era elétrica, quase perigosa. No pequeno apartamento, cercados por folhas de partitura e instrumentos baratos, eles criaram sua própria sinfonia. Não havia promessas de se jogar na frente de trens — eles já tinham passado por isso. Havia apenas a realidade nua e crua de dois seres que se encontraram no escuro e decidiram que não queriam mais andar sozinhos.
Horas depois, quando a primeira luz cinzenta do amanhecer começou a rastejar pelo chão, eles estavam deitados no colchão fino no canto do quarto. Alicia estava com a cabeça apoiada no peito de Bruno, traçando círculos imaginários em sua pele.
— Bruno? — chamou ela baixinho.
— Oi.
— Você vai escrever sobre isso? — Ela gesticulou para o quarto, para eles, para a noite que acabara de passar.
Bruno deu um beijo no topo da cabeça dela, sentindo a paz que nunca achou que teria novamente.
— Eu já estou escrevendo, Ali. No meu coração, cada batida é um verso sobre você.
— Brega — ela riu, mas se apertou mais contra ele.
— Pode ser — ele admitiu, sorrindo para o teto descascado. — Mas é a verdade. Eu passei tanto tempo tentando morrer por alguém que não valia a pena, que quase esqueci como é viver por alguém que vale.
Ele se levantou um pouco, apoiando-se no cotovelo, e olhou para o piano no canto.
— Sabe, Alicia... as pessoas acham que o amor é aquela coisa perfeita de cinema. Mas eu aprendi que o amor é o que acontece depois que o piano quebra. É o que sobra quando você está caído no chão, sujo de graxa e poeira, e alguém estende a mão para te levantar.
Alicia sentou-se, deixando o lençol cair levemente. Ela olhou para ele com uma seriedade que raramente mostrava.
— Eu não te salvei porque queria ser uma heroína, Bruno. Eu te salvei porque vi alguém que tinha música demais dentro de si para deixar silenciar daquele jeito.
— E agora? — perguntou ele, puxando-a para um abraço.
— Agora — disse ela, selando seus lábios nos dele de forma doce e lenta —, agora a gente faz o resto do mundo ouvir o que você tem a dizer. Mas a primeira audição... a primeira sempre vai ser minha.
Bruno Mars, o cara que um dia pensou que o amor era uma sentença de morte, finalmente entendeu que a música mais bonita não era sobre morrer por alguém. Era sobre estar vivo, intensamente vivo, nos braços de quem te ensinou a respirar novamente.
Ele se levantou, caminhou até o piano e tocou uma única nota. O som reverberou pelo quarto, límpido e forte.
— Essa é para você — disse ele, voltando para o lado dela.
— Só uma nota? — ela brincou.
— É o começo — ele respondeu, deitando-se ao lado dela. — O resto da música a gente escreve amanhã.
E ali, enquanto a cidade de Los Angeles despertava para mais um dia de sonhos e decepções, Bruno e Alicia adormeceram, embalados pelo silêncio de uma promessa que não precisava de granadas, trens ou lâminas para ser real. Apenas deles. Apenas música. Apenas vida.