Growls and silver weapons
Entre Garras e Grafite: O Jogo de Sombras
A porta do dormitório 402 bateu com um clique seco, ecoando no silêncio que se seguiu à saída impetuosa de Lookmhee. Sonya permaneceu estática por alguns segundos, o peito subindo e descendo em uma respiração descompassada. O cheiro de sândalo e papel antigo ainda pairava no ar, agredindo seus sentidos aguçados e fazendo seu sangue ferver de uma forma que ela não conseguia explicar.
— Insuportável... — murmurou Sonya, mas sua voz saiu sem convicção. — Absolutamente insuportável.
De repente, um espasmo percorreu sua coluna. Sonya apertou os punhos, sentindo a adrenalina da discussão se transformar em algo mais visceral. Como era filha de dois lobos puros, seu controle era excepcional, mas as emoções fortes eram sempre o gatilho para as características físicas que ela tanto se esforçava para esconder.
Com um som abafado, uma cauda peluda e robusta, de um castanho idêntico ao de seu cabelo, surgiu por uma fenda estratégica na sua bermuda de moletom, balançando freneticamente de um lado para o outro. Suas orelhas, ocultas sob a massa de fios ondulados, latejaram, e ela sentiu a necessidade quase incontrolável de rosnar.
— Droga, Sonya, controle-se — sibilou para si mesma, indo até o espelho. — É só uma nerd de óculos. Uma nerd muito petulante, mas só uma nerd.
Ela olhou para o próprio reflexo. O olho amarelo brilhava com uma intensidade lupina, denunciando sua agitação. A cauda não parava; ela chicoteava o ar com uma alegria traidora. Por que seu lobo estava tão animado? Aquela garota tinha acabado de insultá-la, de ameaçá-la e de quebrar seu ego em mil pedaços. Mas, para sua natureza selvagem, aquele embate parecia um convite. Um desafio de dominância que ela estava ansiosa para vencer.
Enquanto isso, no corredor, Lookmhee caminhava com passos rápidos, a mochila pesando em seu ombro como se carregasse pedras. Seus dedos ainda formigavam de onde haviam tocado o peito de Sonya para afastá-la. A pele da loba era quente, uma fornalha de energia que parecia queimar através do tecido fino da regata.
— Calma, Lookmhee. Analise a situação — ela sussurrou, ajustando os óculos com uma mão que ainda tremia levemente. — Ela é um alvo. Um espécime. Nada mais.
Ela entrou na biblioteca do campus, buscando o refúgio das prateleiras altas e do cheiro de poeira. Escolheu uma mesa isolada no fundo e abriu seu caderno de anotações. Seus olhos correram pelas descrições que ela mesma havia escrito sobre os metamorfos.
*“Metamorfos lupinos: territoriais, movidos por instinto e emoção. Frequentemente usam o flerte e a proximidade física como tática de intimidação ou marcação de território.”*
Ela pegou a caneta e hesitou. O que Sonya tinha feito não parecia apenas uma tática. Havia uma faísca real ali, algo cru e caótico. Lookmhee começou a desenhar, mas em vez de diagramas anatômicos, seus traços formaram o contorno de uma mandíbula definida e olhos que não combinavam.
— Oi, Mhee! — Uma voz sussurrada interrompeu seus pensamentos.
Lookmhee fechou o caderno com um estrondo, quase prendendo os dedos. Ela olhou para cima e viu Meena e Kapook, suas melhores amigas e parceiras de "estudo" (ou, como o resto do mundo não sabia, suas companheiras de linhagem de caçadores).
— Você parece que viu um fantasma — disse Kapook, sentando-se à mesa com um sorriso de lado. — Ou talvez algo pior. Como foi o encontro com a nova colega de quarto?
Lookmhee suspirou, tentando retomar sua máscara de indiferença.
— É um desastre. O campus cometeu um erro administrativo crasso ao me colocar com Sonya Austin Waraha.
Meena arregalou os olhos, abafando uma risadinha.
— A capitã do vôlei? Aquela que parece ter saído de um comercial de jaquetas de couro? Boa sorte, Mhee. Dizem que ela é um pesadelo de egocentrismo.
— Ela é uma criatura — disse Lookmhee, a voz fria e cortante. — Literalmente. Eu sinto o cheiro dela a quilômetros. É um lobo, e dos grandes.
O clima na mesa mudou instantaneamente. Kapook e Meena ficaram sérias, inclinando-se para frente.
— Você tem certeza? — perguntou Meena em voz baixa.
— Absoluta. Heterocromia, caninos proeminentes, temperatura corporal elevada e uma falta total de respeito pelo espaço pessoal. É uma Waraha. Filha da Engfa.
— Isso é perigoso — murmurou Kapook, a mão indo instintivamente para o pingente de prata em seu pescoço. — Suas mães sabem disso? Se a Becky descobrir que você está dormindo a metros de um lobo...
— Elas não vão saber — interrompeu Lookmhee. — Se eu reportar agora, elas me tiram da universidade ou começam uma guerra diplomática com o clã Waraha. Eu vou observar. Vou catalogar cada fraqueza dela. Se ela for uma ameaça, eu cuido disso.
— Ou você pode acabar se queimando — avisou Meena, observando o desenho inacabado saindo das bordas do caderno de Lookmhee. — Lobos são perigosos não só pelos dentes, Mhee. Eles caçam em bando e envolvem a presa antes que ela perceba que está encurralada.
Lookmhee apertou a mandíbula.
— Eu sou uma Armstrong Sarocha. Nós não somos presas.
***
Enquanto isso, no dormitório, Sonya já tinha conseguido recolher sua cauda e orelhas, mas a inquietação permanecia. Jeep e Pang entraram no quarto sem bater, como de costume, encontrando a amiga jogada na cama, encarando o teto com uma expressão de quem queria morder alguém.
— Ih, a capitã está de mau humor — cantarolou Pang, jogando uma bola de vôlei para o alto e pegando-a com uma mão. — O treino foi ruim ou a colega de quarto é feia?
Sonya sentou-se num pulo, os cabelos bagunçados.
— Ela não é feia. Esse é o problema. Ela é... irritante. Ela usa óculos, desenha coisas estranhas e fala comigo como se eu fosse um cachorro de rua que precisa de adestramento.
Jeep soltou uma gargalhada, sentando-se na cadeira de estudos de Lookmhee — e recebendo um olhar mortal de Sonya.
— Sai daí, Jeep! Se ela vir você sentado na cadeira "sagrada" dela, ela vai esterilizar o quarto inteiro com álcool 70.
— Nossa, ela é das bravas? — Jeep se levantou, levantando as mãos em sinal de rendição. — Mas e aí? Você já tentou o "charme Waraha"? Aquele olhar de lado que faz as calouras esquecerem o próprio nome?
Sonya bufou, cruzando os braços.
— Tentei. Ela me chamou de medíocre. E disse que meu charme é tão funcional quanto um salto quebrado.
Pang e Jeep trocaram olhares de choque puro, seguidos por uma explosão de risos.
— Alguém finalmente quebrou o ego da Sonya! — Pang exclamou, limpando uma lágrima fictícia. — Eu preciso conhecer essa garota. Ela é uma heroína nacional.
— Ela é uma caçadora — murmurou Sonya, tão baixo que apenas os ouvidos lupinos dos amigos poderiam captar.
O riso parou imediatamente. A atmosfera no quarto ficou densa.
— Você tem certeza, Sonya? — Jeep perguntou, o tom agora sério e protetor.
— O cheiro de prata nela é sutil, mas está lá. E o jeito que ela me olha... não é curiosidade de estudante. É análise. Ela está me medindo, procurando por onde atacar. Ela sabe o que eu sou, ou pelo menos suspeita.
— Sonya, você não pode ficar aqui — disse Pang, preocupada. — Se ela for uma Armstrong Sarocha ou algo do tipo, você está em perigo constante. Aquelas mulheres são implacáveis.
Sonya levantou-se e caminhou até a janela, observando o campus. O sol estava começando a se pôr, tingindo o céu de laranja e roxo.
— Eu não vou fugir. Minha mãe Fa sempre disse que um lobo nunca recua diante de um desafio. E minha mãe Char me ensinou que, se alguém quer te caçar, você deve tornar a caçada o mais interessante possível.
— O que você vai fazer? — perguntou Jeep.
Sonya deu um sorriso de lado, o mesmo sorriso que Lookmhee chamara de patético, mas que agora carregava uma promessa de caos.
— Eu vou provocá-la até que ela perca aquela calma irritante. Se ela quer me estudar, eu vou dar a ela o show da vida dela. Vamos ver quanto tempo a "caçadora de gelo" aguenta antes de derreter.
***
A noite caiu sobre a Universidade de Bangkok, e com ela veio o silêncio tenso do quarto 402. Lookmhee voltou tarde, esperando encontrar Sonya dormindo. Em vez disso, encontrou a loba sentada no chão, cercada por papéis e lanches, com a música tocando baixo em um alto-falante.
Lookmhee parou na porta, fechando-a com cuidado.
— São onze da noite. Existe uma coisa chamada horário de silêncio — disse ela, a voz monótona.
Sonya olhou para cima, um pedaço de chocolate entre os lábios. Ela estava usando uma camiseta larga que caía por um dos ombros, revelando a pele bronzeada.
— Ah, você voltou, Sarocha. Achei que tinha decidido dormir na biblioteca com seus amigos empoeirados. Quer um pouco? — Ela estendeu o chocolate.
Lookmhee ignorou a oferta, caminhando até sua cama.
— Não como porcaria antes de dormir. E limpe essa bagunça. Eu não quero acordar com formigas no meu lado do quarto.
Sonya se levantou com uma agilidade felina, aproximando-se de Lookmhee. Ela parou a uma distância desconfortável, o cheiro de cacau misturando-se ao seu aroma natural de floresta e chuva.
— Sabe, Mhee... — Sonya usou o apelido de propósito, vendo o leve tique nervoso no olho da outra. — Você é muito tensa. O que foi? Medo de que, se você relaxar um pouco, eu descubra que você tem um coração batendo aí embaixo dessa armadura de livros?
Lookmhee tirou os óculos, limpando as lentes com a barra da blusa. Sem o acessório, seus olhos pareciam ainda mais profundos e afiados.
— Meu coração bate perfeitamente bem, Austin. Ele apenas não acelera por táticas baratas de sedução.
Sonya deu um passo à frente, encurralando Lookmhee contra a borda da escrivaninha.
— E por que você está tremendo, então? — sussurrou a loba, levando a mão ao rosto de Lookmhee, mas parando antes de tocar a pele.
Lookmhee sentiu o calor vindo de Sonya. Era como estar perto de uma fogueira em uma noite de inverno. Seus instintos diziam para sacar a adaga, para acabar com aquela proximidade perigosa. Mas seu corpo... seu corpo estava curioso.
— Eu não estou tremendo — mentiu Lookmhee, sua voz vacilando apenas um milímetro. — Eu estou irritada. Há uma diferença.
— É mesmo? — Sonya inclinou a cabeça, o olho amarelo brilhando na penumbra do quarto. — Porque seu cheiro mudou. Você cheira a... adrenalina. E algo mais. Algo que eu conheço muito bem.
— Você não conhece nada sobre mim — rebateu Lookmhee, recuperando a postura e empurrando Sonya pelos ombros. — Agora, saia do meu espaço. Eu vou dormir.
Sonya riu, uma risada baixa e rouca que reverberou no peito de Lookmhee.
— Bons sonhos, Caçadora. Tente não sonhar comigo. Pode ser perigoso para a sua saúde mental.
Lookmhee deitou-se, virando-se de costas para Sonya. Ela fechou os olhos, mas o som da respiração da loba no outro lado do quarto parecia amplificado. Ela sabia que Sonya estava acordada, observando-a.
Debaixo do travesseiro, a mão de Lookmhee apertou o cabo de prata de sua adaga.
Do outro lado, Sonya se aninhou em seus lençóis, sua cauda — escondida sob as cobertas — balançando suavemente de um lado para o outro. O jogo tinha apenas começado. Ela podia sentir a resistência de Lookmhee, mas também sentia a rachadura na parede de gelo.
— Um passo de cada vez, lobinha — pensou Sonya consigo mesma, fechando os olhos com um sorriso vitorioso.
A convivência no quarto 402 não era apenas uma questão de dividir espaço. Era um cerco. Uma dança entre o predador que não queria ser pego e a caçadora que estava começando a questionar quem, afinal, era a verdadeira presa. E no silêncio da noite, o único som era o pulsar de dois corações que, apesar de pertencerem a mundos inimigos, batiam em um ritmo perigosamente sincronizado.