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Growls and silver weapons

O rastro da Marca: Entre o Aço e o Instinto

O dia amanheceu com uma névoa densa sobre o campus da Universidade de Bangkok, mas para Lookmhee Armstrong Sarocha, a verdadeira névoa era a presença sufocante de Sonya Austin Waraha. Desde o primeiro raio de sol, a loba havia decidido que não daria um centímetro de espaço para a caçadora.

Na primeira aula, de História da Arte, Sonya sentou-se na cadeira imediatamente atrás de Lookmhee, soprando levemente a nuca da garota sempre que o professor se virava para o quadro. No refeitório, ela apareceu do nada com uma bandeja cheia, afastando Kapook e Meena com um sorriso possessivo que dizia "ela é minha distração agora". Até mesmo na biblioteca, onde o silêncio era sagrado, Sonya encontrou uma forma de ser barulhenta apenas com a sua presença, batucando os dedos na mesa e lançando olhares carregados de segundas intenções.

— Você não tem um treino para ir? Uma bola para chutar? Um ego para inflar em outro lugar? — Lookmhee perguntou, sem tirar os olhos do seu livro de anatomia, enquanto caminhavam pelo pátio central em direção ao bloco de ciências.

— O treino é só mais tarde, Mhee-Mhee — Sonya respondeu, usando o apelido que sabia que irritava a outra até a medula. Ela andava de costas na frente de Lookmhee, com as mãos nos bolsos da jaqueta de couro, exibindo uma agilidade que desafiava a gravidade. — E meu ego está perfeitamente alimentado observando como você tenta, desesperadamente, fingir que eu não existo.

— Eu não estou fingindo. Você é um ruído de fundo, Sonya. Como um zumbido de mosquito. Irritante, mas eventualmente a gente esquece que está lá — Lookmhee ajustou os óculos, sua expressão gélida.

— Um mosquito que morde, lembra? — Sonya deu um passo para o lado, invadindo o espaço pessoal de Lookmhee e fazendo-a parar bruscamente. — Admita. Você gosta da perseguição. Sua linhagem adora caçar, não é? Eu só estou facilitando o seu trabalho. Sou a presa que se entrega de bandeja.

Lookmhee sentiu o sangue subir. A audácia de Sonya em mencionar "linhagem" em público, mesmo que de forma codificada, era um jogo perigoso. Ao redor delas, outros estudantes começavam a cochichar. A capitã do vôlei, a garota mais popular e desejada do campus, estava sendo tratada como lixo pela caloura de óculos que ninguém conhecia direito, e ainda assim, Sonya parecia uma cadelinha fiel seguindo um dono que a chutava.

— Você não faz ideia do que está falando — Lookmhee sibilou, os olhos brilhando com uma fúria contida. — Saia da minha frente. Agora.

— E se eu não sair? — Sonya desafiou, inclinando o rosto. — Vai me morder? Vai me colocar de castigo?

O limite de Lookmhee foi ultrapassado. Ela não era apenas uma estudante; ela era uma Armstrong Sarocha, treinada desde os cinco anos para reagir a ameaças e provocações de criaturas. Sua mão desceu para o bolso oculto de sua saia plissada com uma velocidade que o olho humano comum mal acompanharia.

Em um movimento fluido e letal, Lookmhee sacou uma pequena adaga de arremesso — uma peça de prata pura, equilibrada e afiadíssima. Ela não mirou para matar, mas o cansaço mental e a irritação nublaram sua precisão milimétrica por um milésimo de segundo.

O metal prateado cortou o ar com um assobio baixo. Sonya, cujos reflexos lupinos eram sobre-humanos, inclinou a cabeça para o lado, mas a lâmina passou raspando.

Um filete de sangue vermelho vivo brotou instantaneamente na lateral do pescoço de Sonya, logo abaixo da mandíbula. A adaga cravou-se no tronco de uma árvore logo atrás dela, vibrando com a força do impacto.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Sonya levou a mão ao pescoço, sentindo o ardor característico da prata queimando sua pele. O contato com o metal sagrado era como fogo para sua espécie. Seus olhos castanhos e amarelos brilharam com uma intensidade selvagem, e por um breve momento, suas unhas se alongaram e um rosnado baixo e gutural vibrou em seu peito. O instinto de revidar, de pular na jugular daquela humana atrevida e mostrar quem estava no topo da cadeia alimentar, quase a dominou.

Lookmhee, por sua vez, não recuou. Ela manteve a postura, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas. Ela tinha acabado de atacar um membro de um dos clãs mais poderosos do país em plena luz do dia.

Sonya fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, forçando seu lobo a recuar. Ela não podia se transformar ali. Não podia revelar o segredo. Quando abriu os olhos novamente, a fúria cega havia sido substituída por uma mágoa sombria e uma autoridade que Lookmhee ainda não conhecia.

— Você ficou louca? — Sonya perguntou, sua voz não era mais sarcástica, mas baixa e perigosa. — Você poderia ter me matado.

— Eu não erro alvos — mentiu Lookmhee, embora suas mãos estivessem geladas. — Foi um aviso. Eu mandei você sair da frente.

— Peça desculpas — ordenou Sonya, dando um passo à frente.

— Nunca. Você me provocou até o limite. Considere isso uma lição de etiqueta — Lookmhee tentou passar por ela, mas Sonya foi mais rápida.

A loba agarrou o braço de Lookmhee e a empurrou para trás, prensando-a contra a mesma árvore onde a adaga estava cravada. Antes que a caçadora pudesse reagir, Sonya envolveu a cintura de Lookmhee com o outro braço, puxando-a para perto, eliminando qualquer espaço entre seus corpos.

— Você é inconsequente, Lookmhee Armstrong Sarocha — Sonya rosnou perto do rosto dela. — Você brinca com armas que não entende e com pessoas que podem te destruir antes mesmo de você sacar essa prata de novo.

Lookmhee ficou paralisada. Ela deveria usar o joelho, deveria acertar o ponto de pressão no pescoço de Sonya, deveria gritar. Mas o contato físico a desarmou de uma forma que nenhuma luta jamais fizera. A cintura dela parecia encaixar perfeitamente na mão de Sonya. O calor que emanava da loba era avassalador, e o cheiro de sangue misturado com o aroma selvagem de Sonya estava criando uma névoa em sua mente analítica.

— Me solta... — Lookmhee pediu, mas sua voz saiu sem a firmeza habitual.

— Não até você entender que eu não sou um dos seus desenhos — Sonya disse, aproximando o nariz do pescoço de Lookmhee. — Você acha que me conhece? Você não sabe nada.

Sonya sentiu o cheiro de Lookmhee — medo, adrenalina e aquele sândalo persistente. Em um impulso territorialista, impulsionado pelo ferimento de prata que ainda ardia, Sonya esfregou o rosto suavemente contra o pescoço de Lookmhee, logo acima da clavícula. Foi um gesto rápido, quase imperceptível para quem olhasse de longe, mas para um metamorfo, era um ato de reivindicação.

Ela estava marcando. Não com dentes, mas com o cheiro. As glândulas odoríferas próximas à sua mandíbula depositaram uma assinatura química invisível e potente na pele da caçadora.

Lookmhee sentiu um arrepio violento percorrer seu corpo. Era como se uma corrente elétrica tivesse sido disparada de seu pescoço para cada nervo de sua coluna. Ela finalmente encontrou forças para empurrar Sonya, que a soltou com um sorriso estranho, quase melancólico.

— O que você fez? — Lookmhee perguntou, levando a mão ao pescoço, sentindo a pele formigar onde Sonya a tocara.

— Eu deixei um lembrete — Sonya respondeu, limpando o sangue do pescoço com as costas da mão. O corte já estava começando a fechar, graças à sua cura acelerada, embora a cicatriz da prata fosse demorar a sumir. — Agora, toda vez que você se olhar no espelho ou sentir seu próprio perfume, vai saber que eu estive lá.

Sonya se virou e caminhou em direção ao ginásio, deixando Lookmhee sozinha sob a árvore. A caçadora arrancou a adaga do tronco com um puxão violento, guardando-a de volta no esconderijo. Ela tentou respirar fundo para se acalmar, mas tudo o que conseguia sentir era o cheiro de Sonya. Estava em sua roupa, em sua pele, impregnado em seus sentidos.

— Aquela idiota... — Lookmhee sussurrou, mas sua mão não saía do pescoço.

Mais tarde, no dormitório, o silêncio era tenso. Sonya estava deitada em sua cama, com um curativo simples no pescoço, fingindo mexer no celular. Lookmhee estava em sua mesa, tentando estudar, mas as palavras nos livros pareciam dançar.

Toda vez que o vento soprava pela janela aberta, o cheiro de Sonya Austin Waraha a atingia como um soco. Era uma fragrância de pinheiro, terra molhada e algo quente e almiscarado que fazia o estômago de Lookmhee dar voltas.

— Por que você está me olhando assim? — Sonya perguntou, sem tirar os olhos do celular.

— Eu não estou olhando para você — Lookmhee mentiu, voltando-se para o caderno.

— Está sim. Você está confusa, Mhee. O que foi? O cheiro está te incomodando?

Lookmhee travou.

— Como você sabe...?

Sonya finalmente se sentou, soltando um riso baixo.

— Eu sou um lobo, lembra? Eu sei exatamente o que eu fiz. Eu te marquei. Para qualquer outra criatura neste campus, você agora cheira a "propriedade de uma Waraha". É um aviso para que fiquem longe.

Lookmhee levantou-se, a cadeira arrastando com um barulho estridente.

— Eu não sou propriedade de ninguém! Você não tem o direito de... de me carimbar como se eu fosse um gado!

— Eu salvei sua vida, embora você seja orgulhosa demais para admitir — Sonya rebateu, levantando-se também e caminhando até a linha divisória do quarto. — Outros da minha espécie não seriam tão pacientes com alguém que atira prata no pescoço deles. Agora, você está protegida. De nada.

— Eu não preciso de proteção! Eu sou uma caçadora! Eu caço seres como você! — Lookmhee gritou, a frustração transbordando.

— Então por que você não me matou hoje, Caçadora? — Sonya desafiou, parando a centímetros dela. — Você teve a chance. Você teve a adaga. Mas você hesitou. Por que?

Lookmhee abriu a boca para responder, para dizer que foi apenas um erro de cálculo, que ela não queria os problemas legais de um cadáver no campus. Mas a verdade estava presa em sua garganta. Ela hesitou porque, no momento em que viu o brilho nos olhos de Sonya, algo dentro dela reconheceu uma conexão que ia além de séculos de guerra entre suas famílias.

— Saia do meu lado do quarto — foi tudo o que Lookmhee conseguiu dizer.

Sonya deu um passo para trás, mas o sorriso vitorioso não abandonou seus lábios.

— Você pode tentar lavar o cheiro, Sarocha. Pode tomar dez banhos, usar todo o perfume do mundo. Mas o seu instinto sabe. Você sabe.

Naquela noite, Lookmhee tomou o banho mais longo de sua vida. Ela esfregou o pescoço até a pele ficar vermelha e irritada. Mas quando saiu e se deitou, o aroma de pinheiro e terra ainda estava lá, sutil, mas inegável.

Ela olhou para a cama ao lado e viu Sonya dormindo tranquilamente, um braço pendendo para fora do colchão, a respiração pesada e rítmica. Lookmhee pegou seu caderno de desenhos e, sob a luz fraca do abajur, escreveu uma nova nota:

*“O cheiro de um metamorfo não é apenas uma ferramenta biológica. É uma invasão. Ele se infiltra nos seus sentidos e altera sua percepção da realidade. É perigoso. É viciante.”*

Ela olhou para a palavra "viciante" e rapidamente a riscou com tanta força que o papel quase rasgou. Mas, no fundo de sua mente, ela sabia que a marca de Sonya era apenas o começo. A adaga de prata tinha cortado a pele, mas o cheiro de Sonya tinha cortado algo muito mais profundo em Lookmhee: sua certeza de que elas eram apenas inimigas.

A guerra ainda existia, mas as fronteiras agora estavam borradas. E enquanto Sonya sonhava com florestas e corridas sob a lua, Lookmhee permanecia acordada, prisioneira de um perfume que ela deveria odiar, mas que, secretamente, a fazia se sentir mais viva do que nunca.