Voltar ao resumo

Growls and silver weapons

Entre o Cio da Lua e o Brilho da Prata

O silêncio do dormitório 402 era um contraste ensurdecedor com o caos que haviam deixado para trás no pátio da universidade. Quando a porta se fechou com um clique seco, Lookmhee e Sonya permaneceram imóveis por alguns segundos, as costas encostadas na madeira, recuperando o fôlego. O ar entre elas parecia ter sido substituído por eletricidade estática.

— Sobrevivemos — sussurrou Sonya, soltando uma risada nervosa que beirava o delírio. Ela jogou a jaqueta de couro em cima de sua cama, revelando os braços definidos e a postura que exalava uma energia selvagem, agora sem as amarras da presença das mães. — Eu realmente achei que a Mamãe Fa e a sua mãe Freen iam transformar o campus em um cenário de filme de guerra.

Lookmhee tirou os óculos, limpando-os com o canto da blusa de forma metódica, embora suas mãos tremessem levemente.

— Minha mãe Freen não faz guerra, Sonya. Ela faz limpeza de terreno. Se a sua mãe não fosse tão... — Lookmhee buscou a palavra certa, recolocando os óculos e encarando a loba — ...absurdamente barulhenta e irritante, talvez elas tivessem se entendido em menos de dez minutos.

— Barulhenta? — Sonya deu um passo à frente, invadindo o espaço de Lookmhee com aquela confiança predatória que a caçadora fingia odiar. — Minha mãe é intensa. É o sangue Waraha. Nós não sabemos ser discretos quando algo nos interessa.

— Eu percebi — Lookmhee murmurou, sentindo o calor que emanava do corpo de Sonya.

O clima no quarto mudou drasticamente. A adrenalina do confronto com as famílias estava se transformando em algo muito mais denso e perigoso. Sonya não recuou; em vez disso, encurralou Lookmhee contra a porta, apoiando as mãos na madeira, uma de cada lado da cabeça da caçadora. O cheiro de Sonya — aquele pinheiro misturado com terra molhada e algo quente, quase febril — preencheu os pulmões de Lookmhee.

— E agora? — perguntou Sonya, a voz descendo uma oitava, tornando-se um rosnado aveludado. — Não há mais segredos. Nossas mães sabem. O campus sabe. Eu não preciso mais fingir que não quero te morder toda vez que você me olha com esse ar de superioridade.

Lookmhee sentiu o coração martelar contra as costelas. Ela deveria sacar a adaga. Deveria usar uma de suas técnicas de imobilização. Mas seus dedos, em vez de buscarem a prata, subiram pelo peito de Sonya, sentindo a batida descompassada do coração da loba.

— Você fala demais, Austin — disse Lookmhee, a voz firme apesar do desejo que a consumia. — Menos latido, mais ação.

Sonya não precisou de um segundo convite. Ela avançou, capturando os lábios de Lookmhee em um beijo que era pura urgência. Não havia ternura ali, apenas a fome de meses de provocações reprimidas, de flertes ácidos e de uma atração que desafiava a lógica de suas espécies. Lookmhee soltou um gemido baixo, passando os braços pelo pescoço de Sonya e puxando-a para mais perto, querendo fundir seus corpos.

As mãos de Sonya desceram para a cintura de Lookmhee, apertando com uma força que deixaria marcas, mas que a caçadora recebia com um prazer sombrio. Elas tropeçaram em direção à cama de Lookmhee, caindo sobre os lençóis de algodão egípcio que logo foram bagunçados pela luta por domínio.

— Você é tão fria por fora — ofegou Sonya, distribuindo beijos pelo pescoço de Lookmhee, parando exatamente onde sua marca de cheiro era mais forte —, mas por dentro, Mhee... você queima mais que qualquer lobo que eu já conheci.

— Cala a boca — Lookmhee puxou Sonya pelo cabelo, forçando-a a olhá-la nos olhos. As íris de Sonya estavam completamente amarelas, as pupilas dilatadas. — Se você vai me caçar, faça direito.

Enquanto o quarto 402 se tornava o epicentro de uma entrega absoluta, o pátio da universidade ainda pulsava com a energia remanescente das quatro matriarcas.

Engfa Waraha estava encostada em uma mesa de piquenique, palitando um dente com um ar de quem tinha acabado de ganhar a loteria. Ela olhava para Freen Sarocha com um sorriso provocativo que faria qualquer pessoa comum fugir para as colinas.

— Admita, Sarocha — disse Engfa, gesticulando com as mãos de forma expansiva —, nossas filhas têm bom gosto. A minha Sonya tem aquele charme Waraha que ninguém resiste, e a sua menina... bem, ela tem aquele olhar de quem vai colocar a minha filha de castigo. O que, entre nós, a Sonya está precisando há anos.

Freen Sarocha, que mantinha os braços cruzados e a expressão de quem preferia estar fazendo um canal radicular sem anestesia, soltou um suspiro pesado.

— Como é que a Charlotte, uma mulher tão centrada e elegante, acabou casada com uma criança infantil de no máximo três anos de idade? — perguntou Freen, olhando para Charlotte com uma mistura de pena e genuína curiosidade.

Charlotte Austin, que estava ao lado de Becky compartilhando o que parecia ser um entendimento silencioso entre esposas de pessoas difíceis, deu de ombros com um sorriso diplomático.

— O charme dela é... persistente, Freen. E, no fundo, ela é útil para alcançar as prateleiras mais altas e espantar vizinhos indesejados.

— Útil? — Engfa exclamou, fingindo indignação. — Eu sou um espécime magnífico, Char!

Becky Armstrong interveio, colocando a mão no braço de Freen para acalmar os ânimos que ainda faíscavam.

— Vamos baixar as armas, Freen. O mundo não acabou. Se a Lookmhee escolheu a Sonya, é porque ela viu algo que nós, com nossos preconceitos de caçadoras, não vimos. E, honestamente, a Sonya parece ser uma boa garota. Bagunceira, sim, mas leal.

Freen olhou para Becky, sua expressão suavizando instantaneamente. O poder que Becky exercia sobre ela era a única coisa mais forte que seu treinamento.

— Ela é uma loba, Becky.

— E nós somos Armstrong Sarocha — rebateu Becky com um brilho divertido nos olhos. — Nós não somos presas. Se a Lookmhee quiser domesticar aquela loba, ela vai. E se a loba quiser protegê-la, melhor para nós. Menos trabalho de vigilância.

Charlotte assentiu, olhando para as duas caçadoras.

— Eu dou meu voto de confiança — disse Charlotte, sua voz carregada de uma autoridade calma. — A linhagem de vocês é honrada, à sua maneira peculiar. Se a Sonya escolheu a Lookmhee, eu aceito. Mas se eu souber de qualquer adaga de prata perto do coração da minha filha de forma não... recreativa, teremos problemas.

Engfa soltou uma gargalhada, batendo palmas.

— Recreativa! Char, você é brilhante! Sarocha, vamos tomar um drinque. Eu conheço um lugar aqui perto que serve uma tequila que faz até caçadora ver lobisomem onde não tem.

— Eu não bebo com metamorfos — declarou Freen, embora sua postura já não fosse mais de ataque.

— Ah, você vai beber sim — disse Engfa, passando o braço pelo ombro de Freen, que ficou rígida como uma estátua. — Vamos celebrar o fato de que não nos matamos hoje. É um progresso histórico!

De volta ao dormitório, o progresso histórico era de uma natureza muito mais íntima.

Lookmhee estava sentada no colo de Sonya, suas pernas entrelaçadas na cintura da loba. As roupas estavam espalhadas pelo chão, e a pele de ambas brilhava com o suor e a luz da lua que agora entrava pela janela. Sonya tinha as mãos espalmadas nas costas de Lookmhee, sentindo cada curva, cada reação da caçadora.

— Você ainda quer me colocar uma coleira? — sussurrou Sonya contra a pele do ombro de Lookmhee, seus caninos raspando levemente ali, enviando ondas de choque pelo corpo da outra.

Lookmhee inclinou a cabeça para trás, expondo a garganta, um gesto de confiança que Sonya sabia ser o maior sacrifício que uma caçadora poderia fazer.

— Talvez — respondeu Lookmhee, a voz embargada. — Mas só se você prometer que vai ser uma boa garota e obedecer quando eu mandar.

Sonya soltou um rosnado baixo, profundo, que vibrou no peito de Lookmhee.

— Eu sou sua, Mhee. Da forma que você quiser. Só não me peça para ficar longe de você. O instinto... o meu lobo... ele reconheceu você como o meu par. Não há volta.

Lookmhee segurou o rosto de Sonya, forçando-a a olhar para ela. A heterocromia de Sonya estava mais vibrante do que nunca, um olho castanho profundo e o outro um amarelo incandescente. Era a imagem perfeita do conflito e da harmonia que elas representavam.

— Eu passei a vida inteira aprendendo a destruir o que você é — confessou Lookmhee, os olhos marejados de uma emoção que ela raramente permitia aflorar. — Mas agora, tudo o que eu quero é proteger você. Mesmo que seja de mim mesma.

— Você não precisa me proteger — Sonya sorriu, um sorriso doce que desarmou Lookmhee completamente. — Você só precisa me amar. O resto a gente resolve com mordidas e sarcasmo.

Lookmhee riu, uma risada leve que selou a paz entre elas. Ela se inclinou e beijou Sonya com uma ternura que nenhuma das duas esperava, uma promessa silenciosa de que as linhagens poderiam estar em guerra, mas ali, naquele quarto, havia apenas uma verdade inegável.

Lá fora, o campus mergulhava no silêncio da noite. No bar da esquina, Engfa tentava ensinar Freen a uivar para a lua após o quarto shot de tequila, enquanto Becky e Charlotte conversavam sobre as dificuldades de criar filhas tão teimosas.

O destino, com sua ironia peculiar, havia unido o aço e o instinto. A caçadora e a loba. E, contra todas as probabilidades, o mundo não acabou. Ele apenas começou a fazer sentido, um suspiro e uma mordida de cada vez.

Lookmhee deitou a cabeça no peito de Sonya, ouvindo o coração da loba se acalmar. Ela sabia que os desafios viriam, que o segredo teria que ser mantido diante de outros caçadores e outras matilhas. Mas, enquanto sentia o braço de Sonya envolvê-la com um instinto protetor avassalador, ela soube que nenhuma adaga de prata seria tão afiada quanto o que sentiam uma pela outra.

— Sonya? — chamou Lookmhee, quase pegando no sono.

— Hum?

— Se você roncar como um lobo velho, eu te jogo da cama.

Sonya riu, apertando Lookmhee contra si.

— Dorme, Mhee-Mhee. O seu "ruído de fundo" não vai a lugar nenhum.

A lua, testemunha de séculos de batalhas, brilhou um pouco mais forte sobre o dormitório 402, abençoando a união improvável que mudaria a história de suas famílias para sempre.