Growls and silver weapons
O Estigma da Matilha e a Rendição dos Instintos
O pátio da universidade parecia um tabuleiro de xadrez onde todas as peças eram rainhas prontas para o xeque-mate. De um lado, a elegância letal de Freen Sarocha e a precisão fria de Becky Armstrong; do outro, o carisma magnético de Engfa Waraha e a autoridade indomável de Charlotte Austin. O ar estava tão saturado de tensão que os outros pais e alunos mantinham uma distância de segurança, sentindo que qualquer movimento brusco poderia detonar uma explosão.
— Eu não acredito nisso — murmurou Sonya, observando as quatro mulheres se encararem a poucos metros de distância. — Se elas começarem a brigar aqui, o campus vai precisar de uma reforma estrutural.
Lookmhee, sentindo o peso do olhar de sua mãe Freen — que já parecia estar calculando a trajetória de uma bala imaginária —, respirou fundo.
— Precisamos separar as duplas. Agora. Antes que a diplomacia de sangue comece.
Com um aceno rápido, elas se dividiram. Sonya correu em direção a Engfa, que estava um pouco afastada de Charlotte, analisando o terreno com a cautela de um lobo alfa veterano.
— Mamãe Fa! — Sonya exclamou, interceptando Engfa antes que ela pudesse dizer algo ofensivo para Freen. — Preciso falar com você. Agora. A sós.
Engfa olhou para a filha, seus olhos suavizando por um milésimo de segundo antes de voltarem a escanear o ambiente.
— Sonya, o que está acontecendo aqui? O cheiro de prata neste lugar está me dando dor de cabeça, e aquela mulher de blazer ali — ela apontou discretamente para Freen — está me olhando como se eu fosse um tapete de sala de estar.
— Esquece a Freen por um minuto — Sonya a puxou para trás de uma pilastra de mármore. — Eu preciso te contar uma coisa antes que a mamãe Char apareça e o caos seja total.
Engfa cruzou os braços, a jaqueta de couro rangendo.
— Diga logo, filhote. Você parece que engoliu um passarinho e ele ainda está piando no seu estômago.
Sonya respirou fundo, sentindo o coração martelar.
— Eu gosto da Lookmhee. Da filha delas. Da Armstrong Sarocha.
O silêncio que se seguiu foi quase cômico. Engfa piscou, processando a informação. Ela olhou para o céu, depois para Sonya, e soltou um suspiro que pareceu carregar o peso de gerações de rivalidade.
— Por que eu abri a minha boca grande? — Engfa praguejou baixinho, olhando para cima como se pedisse paciência. — Eu disse que você podia ficar com qualquer pessoa, Sonya. Sem exceções. Eu disse que o coração Waraha é livre. Mas eu não esperava que você fosse escolher justamente a linhagem que tem como passatempo favorito fazer churrasco de lobisomem!
— Ela não é assim, Fa. Ela me desenha. Ela me estudou. Ela... ela é diferente — Sonya defendeu, o brilho amarelo em seus olhos denunciando sua paixão.
Engfa passou a mão pelo rosto, rindo de forma nervosa.
— Charlotte vai ter um surto. Um leve surto? Não, ela vai ter um colapso completo. Você conhece sua mãe. Ela é territorialista. A ideia de uma Armstrong por perto vai fazê-la querer rosnar para as paredes por um mês.
— Você vai me ajudar? — Sonya perguntou, segurando o braço da mãe.
— Eu não vou te impedir, Sonya — Engfa disse, agora séria, colocando a mão no ombro da filha. — Mas esteja preparada. Se você decidiu que ela é sua, você vai ter que lutar contra o mundo inteiro, inclusive contra a família dela. Aquelas mulheres não brincam em serviço.
Enquanto isso, do outro lado do jardim, Lookmhee havia arrastado Becky para perto da fonte, longe dos ouvidos atentos de Freen.
— Mãe, eu preciso de uma resposta honesta — começou Lookmhee, ajustando os óculos com os dedos trêmulos. — As criaturas... os metamorfos... eles são realmente tão ruins quanto os manuais dizem? Todos eles são monstros sem controle?
Becky Armstrong inclinou a cabeça, seus olhos azuis observando a filha com uma profundidade analítica. Ela não precisou de muito tempo para entender o que estava acontecendo.
— Depende do ponto de vista, Mhee. Eles são movidos por instinto, sim. Mas instinto não é necessariamente maldade. Por que a pergunta?
Lookmhee hesitou, mas a honestidade de Becky sempre fora seu refúgio.
— Eu gosto da Sonya. A Sonya Austin Waraha.
Becky não se moveu. Ela permaneceu estática por alguns segundos, e então, com um suspiro controlado, aproximou-se da filha.
— Lookmhee — Becky disse em voz baixa —, eu percebi o cheiro de cachorro impregnado em você no momento em que você atravessou o pátio. É um cheiro forte. De marcação.
Lookmhee sentiu o rosto queimar.
— Ela... ela é persistente.
— Freen vai surtar — Becky afirmou, olhando para a esposa que ainda mantinha um duelo de olhares com Charlotte à distância. — Sua mãe vê o mundo em preto e branco. Para ela, lobos são alvos e caçadores são a lei. Se ela souber que você está se deixando envolver por uma Waraha, ela vai querer te trancar em um bunker de prata até você completar trinta anos.
— Eu não vou voltar atrás, mãe — Lookmhee disse, sua voz ganhando uma firmeza que surpreendeu Becky. — Eu decidi. Eu vou me permitir amar a Sonya. Ela não é um espécime para mim. Ela é... ela.
Becky deu um meio sorriso, orgulhosa da coragem da filha, embora preocupada com as consequências.
— Então prepare o seu escudo, minha querida. Porque quando aquelas duas — ela apontou para Engfa e Charlotte — descobrirem, e quando a Freen processar a informação, este campus vai virar um campo de batalha. Mas saiba que, se as coisas ficarem feias, eu estarei do seu lado. Afinal, eu também sempre tive uma queda pelo perigo.
As duas duplas voltaram a se reunir no centro do pátio. O encontro era inevitável. Engfa e Charlotte de um lado, Freen e Becky do outro. As quatro mulheres se encaravam como se estivessem prestes a sacar armas.
— Então — Engfa começou, quebrando o gelo com sua arrogância habitual —, parece que nossas filhas têm passado muito tempo juntas.
Freen Sarocha estreitou os olhos, sua postura rígida.
— "Tempo demais" é um eufemismo, Waraha. Minha filha cheira a floresta úmida e eu não acredito que seja por causa das aulas de botânica.
Charlotte Austin deu um passo à frente, seu olhar fixo em Lookmhee e depois em Sonya.
— O que está acontecendo aqui, Sonya? Por que a herdeira das Armstrong está usando um olhar de posse para cima de você?
Sonya não recuou. Ela deu um passo à frente, parando ao lado de Lookmhee. Na frente de suas mães, na frente de todo o campus, ela buscou a mão de Lookmhee e a entrelaçou com a sua.
— O que está acontecendo, mãe — Sonya disse, a voz ecoando com a força de um alfa —, é que eu amo a Lookmhee. E não vai ter ninguém, nem mesmo o clã Waraha ou a linhagem Armstrong Sarocha, capaz de me impedir de amá-la. Eu já a marquei como minha, e pretendo continuar marcando todos os dias.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Freen parecia ter esquecido como respirar. Charlotte abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Lookmhee, sentindo o aperto firme de Sonya, olhou para Freen e Becky.
— Eu não vou pedir desculpas por isso — disse a caçadora, sua voz calma e cortante. — Eu sou uma Armstrong Sarocha, e nós não fugimos do que queremos. E eu quero a Sonya.
Engfa foi a primeira a reagir. Ela soltou uma gargalhada alta, genuína, que quebrou a tensão como um trovão.
— Bem, Freen! Parece que nossos clãs acabaram de assinar um tratado de paz que nenhuma de nós previu!
— Isso não é um tratado — sibilou Freen, embora houvesse uma centelha de derrota em seus olhos ao ver a determinação da filha. — Isso é um desastre diplomático.
— É o amor, Freen — Becky disse, colocando a mão no ombro da esposa. — E você sabe melhor do que ninguém que, contra o amor, nem a prata mais afiada tem poder.
Charlotte olhou para Sonya, depois para Lookmhee. Ela viu a marca no pescoço de Sonya — o rastro da adaga — e viu a marca invisível no pescoço de Lookmhee — o cheiro da filha. Ela suspirou, cruzando os braços.
— Se você a magoar, garota — Charlotte disse para Lookmhee —, eu não me importo com quem são suas mães. Eu mesma caço você.
Lookmhee deu um sorriso de lado, o primeiro sorriso desafiador que já direcionara a um lobo puro.
— Ela é difícil demais para ser magoada, senhora Austin. Mas obrigada pelo aviso. Vou manter minhas adagas polidas, caso ela precise de um lembrete de quem manda no dormitório.
Sonya riu, puxando Lookmhee para mais perto e beijando sua têmpora na frente de todos.
— Viu só? — Sonya sussurrou para Lookmhee. — Eu disse que ninguém ia nos impedir.
— Você é uma idiota convencida — Lookmhee respondeu, mas não se afastou.
O "Dia da Família" continuou, mas a hierarquia do campus havia mudado para sempre. Enquanto as quatro mães começavam uma discussão acalorada sobre qual linhagem era superior — uma discussão que Engfa claramente estava ganhando no quesito barulho e Freen no quesito sarcasmo —, Sonya e Lookmhee caminharam em direção ao bloco de artes.
— Então — Sonya disse, balançando a cauda sob a saia de forma discreta —, agora que o segredo acabou... o que você vai escrever no seu caderno sobre hoje?
Lookmhee parou, tirou o pequeno caderno da mochila e abriu em uma página em branco. Ela escreveu rapidamente e mostrou para Sonya.
— "Observação final: O lobo e a caçadora descobriram que a melhor forma de neutralizar um inimigo não é com armas, mas com a rendição total. O espécime Austin Waraha é oficialmente meu. E eu sou, irremediavelmente, dela."
Sonya sorriu, seus olhos brilhando com o amarelo mais vibrante que Lookmhee já vira.
— Eu gosto dessa conclusão — disse Sonya. — Mas acho que precisamos de mais "pesquisa de campo" para confirmar os dados.
— Concordo — disse Lookmhee, fechando o caderno e puxando Sonya para um beijo que selou, de uma vez por todas, o destino de suas linhagens.
A guerra havia acabado. Ou talvez, para a sorte delas, uma guerra muito mais interessante estivesse apenas começando dentro do quarto 402.