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gui e os ossos

Equilíbrio Instável entre Copos e Batidas

O convite para a "MedFest" estava colado em cada mural do hospital universitário, uma explosão de cores neon que contrastava violentamente com o branco estéril dos corredores. Para os alunos, era o evento do semestre; para os professores, geralmente era uma nota de rodapé a ser ignorada. No entanto, naquele ano, o ar no Hospital Universitário estava eletrizado por algo que não vinha dos desfibriladores.

Guigo ajustou a gola da sua camisa polo escura, sentindo-se estranhamente exposto sem o jaleco que servia como sua armadura diária. O local da festa, um galpão industrial reformado perto do campus, já pulsava com graves que faziam o chão vibrar. Ele queria apenas relaxar, mas a sensação de ser observado, que o perseguia pelas enfermarias, parecia ter pegado carona com ele até ali.

— Você parece um interno prestes a entrar em uma prova de residência, Guigo — disse uma voz melodiosa atrás dele.

Ele se virou e sentiu o ar escapar dos pulmões. A Dra. Cecil estava radiante. Longe dos uniformes hospitalares, ela usava um vestido de seda verde-esmeralda que realçava a inteligência viva em seus olhos. Não havia nada da frieza clínica ali, apenas uma elegância que parecia flutuar sobre a poeira da festa.

— Dra. Cecil! — Guigo exclamou, surpreso. — Eu não achei que a senhora viria a uma festa de estudantes.

— Ora, Guigo, eu ainda me lembro de como é ter vinte e poucos anos — disse ela, aproximando-se o suficiente para que ele sentisse o perfume suave de baunilha. — E, além disso, recebi um convite muito insistente da comissão organizadora. Ou talvez eu só quisesse garantir que meu aluno favorito não fosse corrompido pelo excesso de álcool... ou de más companhias.

Ela lançou um olhar significativo para a entrada do galpão, onde uma figura imponente acabara de cruzar o portal.

Jhong não usava seda. Ele vestia uma jaqueta de couro preta sobre uma camiseta escura, uma imagem que parecia saída de um filme de ação clássico. Ele não caminhava; ele desbravava o espaço. A presença dele era tão magnética que a música parecia diminuir de volume para que ele passasse. Quando seus olhos escuros encontraram os de Guigo, o aluno sentiu aquele familiar frio na espinha, mas dessa vez temperado com um calor desconhecido.

— Vejo que a ala da gastroenterologia resolveu fazer uma inspeção de campo — disse Jhong, parando ao lado deles. Sua voz, mesmo sob a música alta, era perfeitamente audível, profunda e vibrante.

— E vejo que a cirurgia resolveu abandonar o bisturi por uma noite — rebateu Cecil, o sorriso afiado como sempre. — O que foi, Jhong? Medo de que o Guigo aprendesse a se divertir sem a sua supervisão severa?

Jhong ignorou a provocação, mantendo o olhar fixo em Guigo.

— Você está tenso, Guilherme. O trapézio está contraído. Um cirurgião precisa saber quando desarmar a musculatura.

— Eu estou bem, doutor — respondeu Guigo, tentando manter a voz firme enquanto o coração martelava contra as costelas. — Só não esperava ver meus dois mentores em uma festa de faculdade.

— A vida é cheia de variáveis inesperadas, rapaz — disse Jhong, dando um passo à frente, diminuindo o espaço pessoal de Guigo. — A questão é como você reage a elas.

— Ele reage com graça, Jhong — interrompeu Cecil, colocando a mão suavemente no braço de Guigo, um gesto que parecia uma reivindicação silenciosa. — Algo que você, com sua sutileza de um trator, talvez não compreenda.

— A graça não salva vidas em uma hemorragia, Cecil — rosnou Jhong, embora houvesse um brilho de desafio em seus olhos que não era inteiramente profissional. — A precisão sim. E o Guilherme tem precisão. Ele só precisa de alguém que saiba lapidar isso sem a moleza do seu departamento.

— Moleza? — Cecil riu, um som cristalino que atraiu olhares de vários alunos ao redor. — Você chama diagnóstico diferencial e empatia de moleza? Por isso seus pacientes têm medo de você, Jhong. Eles te respeitam, mas têm medo.

A tensão entre os dois era quase física. Guigo sentia-se no centro de um furacão. Ele olhou para Cecil, que representava a promessa de uma carreira brilhante e humana, e depois para Jhong, que representava a excelência técnica e uma paixão que beirava a obsessão. E, no fundo, ele sabia que a disputa não era apenas sobre qual especialidade ele escolheria. Havia algo mais profundo, algo que brilhava nos olhos de Jhong quando ele o corrigia no bloco, e no toque de Cecil quando ela o guiava pelos exames.

— Eu vou buscar uma bebida — anunciou Guigo, precisando de um momento de oxigênio longe daquela pressão.

— Eu acompanho você — disseram os dois, em uníssono.

Eles se olharam com faíscas nos olhos, mas seguiram o aluno até o bar improvisado. Guigo pediu uma cerveja, Cecil optou por um gim-tônica e Jhong pediu um uísque puro, sem gelo.

— Um brinde — propôs Cecil, levantando sua taça. — Ao futuro da medicina. E ao aluno que tem o discernimento de escolher seu próprio caminho.

— Ao futuro cirurgião — corrigiu Jhong, batendo seu copo com força contra o de Guigo. — Que ele nunca perca o instinto de ataque.

Guigo bebeu, sentindo o líquido gelado descer queimando. A música mudou para um ritmo mais lento, uma batida de sintetizador que convidava à proximidade. O galpão estava na penumbra, iluminado apenas por luzes roxas e azuis.

— Dance comigo, Guigo — pediu Cecil, não como uma ordem, mas como um convite irresistível.

Guigo olhou para Jhong, esperando uma explosão ou um comentário sarcástico. O cirurgião apenas estreitou os olhos, a mandíbula travada.

— Vá — disse Jhong, a voz estranhamente rouca. — Mas lembre-se de que o equilíbrio é a base de tudo. Não se deixe levar por ritmos fáceis.

Na pista de dança, Cecil se moveu com uma fluidez natural. Ela colocou as mãos nos ombros de Guigo, e ele, timidamente, envolveu a cintura dela.

— Você é muito bom nisso — sussurrou ela perto do ouvido dele. — Em manter a calma enquanto o mundo explode ao seu redor.

— Eu sinto como se estivesse pisando em ovos, Dra. Cecil — confessou Guigo. — Ou em bisturis.

— Ele intimida você, não é? — perguntou ela, afastando-se um pouco para olhar em seus olhos. — O Jhong. Ele tem essa aura de poder. Mas não se engane, Guigo. Por trás daquela fachada de aço, ele está aterrorizado com o fato de que você pode não precisar dele tanto quanto ele quer que você precise.

— E a senhora? — perguntou Guigo, ganhando coragem. — O que a senhora quer de mim?

Cecil sorriu, um sorriso que era metade ternura e metade ambição.

— Eu quero que você veja o que eu vejo. Um médico que não apenas cura, mas que entende a dor. E, talvez, eu queira provar para aquele cirurgião arrogante que nem tudo pode ser resolvido com um corte.

A música terminou, mas antes que pudessem se afastar, uma mão firme pousou no ombro de Guigo. Era Jhong.

— Minha vez — disse o cirurgião. Não era um pedido.

Cecil arqueou a sobrancelha, mas deu um passo atrás, fazendo um gesto de "prossiga" com a mão, um brilho divertido nos olhos. Ela sabia que Jhong estava fora de seu elemento.

Guigo engoliu em seco. Dançar com o professor mais temido do hospital não estava em seus planos para o sábado à noite. Jhong não se moveu com a fluidez de Cecil; ele era sólido, uma presença que exigia espaço. Ele não colocou as mãos nos ombros de Guigo, mas sim firmemente em suas costas, guiando-o com uma autoridade que fazia o aluno se sentir minúsculo e, ao mesmo tempo, o centro do universo.

— Você está tremendo, Guilherme — observou Jhong, a voz baixa, quase um sussurro contra o topo da cabeça de Guigo.

— É a cafeína, doutor — mentiu Guigo.

— Não minta para mim. Eu conheço a fisiologia do medo. E conheço a da antecipação — Jhong apertou levemente o aperto. — Você acha que eu sou um monstro porque exijo o máximo de você. Mas a verdade é que eu não suportaria ver você ser menos do que o melhor.

— Por que eu, doutor? — Guigo perguntou, a mesma pergunta do corredor do hospital, mas agora envolta pela penumbra e pelo álcool. — Existem outros alunos com notas melhores.

Jhong parou de se mover, obrigando Guigo a olhá-lo nos olhos. A intensidade ali era devastadora.

— Notas são números. Eu vejo as suas mãos. Eu vejo a sua mente sob pressão. E eu vejo algo em você que eu perdi há muito tempo: a crença de que podemos ser deuses por alguns minutos em uma mesa de operação. Eu não estou disputando você com a Cecil apenas pela medicina, rapaz.

Ele não terminou a frase. Não precisava. O subtexto estava ali, vibrando entre eles como uma corda tensionada ao máximo. Jhong soltou Guigo abruptamente, como se tivesse percebido que tinha ido longe demais.

— Não se atrase para a ronda de amanhã. O paciente da colecistectomia é sua responsabilidade agora.

Ele se virou e caminhou em direção à saída, a jaqueta de couro sumindo na escuridão do galpão. Cecil se aproximou de Guigo, que ainda estava parado no meio da pista, tentando processar o que acabara de acontecer.

— Ele tem um jeito peculiar de expressar admiração, não tem? — comentou ela, entregando a Guigo o que restava de sua bebida.

— Ele é... complicado — conseguiu dizer Guigo.

— Nós todos somos, querido — disse Cecil, tocando o queixo dele com a ponta dos dedos. — Mas você é o catalisador. O hospital vai ficar pequeno para nós três se continuarmos assim.

Ela deu um beijo suave na bochecha dele, um gesto que era ao mesmo tempo maternal e carregado de uma promessa silenciosa, e também se afastou, deixando-o sozinho sob as luzes neon.

Guigo ficou ali por um longo tempo, a música pulsando em seus ouvidos, mas seus pensamentos estavam longe dali. Ele pensava no toque firme de Jhong e no olhar perspicaz de Cecil. Ele pensava na adrenalina do bloco cirúrgico e na calma da enfermaria.

Ele sabia que a festa era apenas uma trégua. Na segunda-feira, as luzes fluorescentes do hospital voltariam a brilhar, e ele estaria novamente no meio do fogo cruzado. Mas, enquanto caminhava para fora do galpão, sentindo o ar fresco da noite, Guigo percebeu que não tinha mais medo da disputa.

Ele era o prêmio, sim. Mas ele também era o jogador. E, pela primeira vez, ele começou a se perguntar o que aconteceria se, em vez de escolher entre o bisturi e o endoscópio, entre o carrasco e a mentora, ele decidisse criar seu próprio caminho, onde os corações — inclusive o dele — não fossem apenas objetos de estudo, mas o destino final de toda aquela jornada.

A disputa estava longe de terminar. E, secretamente, no silêncio de sua caminhada para casa, Guigo sorriu. A medicina nunca fora tão fascinante. E a vida, ele descobriu, era o procedimento cirúrgico mais complexo de todos, onde não havia anestesia para as emoções e onde cada batida do coração contava uma história diferente.

Longe dali, em seus respectivos apartamentos, Jhong revisava um artigo científico sem conseguir se concentrar nas palavras, e Cecil olhava para as luzes da cidade com uma taça de vinho na mão. Ambos pensavam no mesmo aluno. Ambos sabiam que o jogo tinha mudado. E ambos estavam dispostos a ir até as últimas consequências para não perderem o que Guigo representava: a última chance de sentirem algo real em meio à frieza da profissão.

A segunda-feira prometia ser o início de uma nova fase. E o Hospital Universitário nunca mais seria o mesmo.

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