gui e os ossos
O Suor, o Aço e a Pele
O ginásio da faculdade de medicina cheirava a uma mistura intensa de borracha queimada, desodorante barato e a adrenalina pura que só os Jogos Universitários conseguiam evocar. Guigo estava exausto. O time de futsal da medicina havia acabado de vencer uma partida sofrida contra a engenharia, e cada músculo do seu corpo protestava. Suas pernas pareciam feitas de chumbo, e o suor escorria por sua testa, ardendo nos olhos.
Ele se separou dos colegas que comemoravam ruidosamente e seguiu para os vestiários, buscando o silêncio e a água gelada do chuveiro. O corredor estava estranhamente vazio, o som da torcida tornando-se um eco abafado à medida que ele se afastava da quadra.
Ao entrar no vestiário, Guigo jogou sua mochila sobre um banco de madeira desgastado e puxou a camisa ensopada pela cabeça. O ar ali era úmido e quente. Ele estava prestes a soltar o cordão do calção quando a porta pesada de metal rangeu atrás dele.
Guigo congelou. Ele reconheceria aquele passo firme em qualquer lugar, mesmo sem o eco dos sapatos de couro nos corredores do hospital.
— Um desempenho interessante, Guilherme. Embora sua marcação defensiva tenha sido... negligente no segundo tempo.
Guigo virou-se lentamente. O Dr. Jhong estava parado junto à entrada, os braços cruzados sobre o peito largo. Ele não usava o jaleco branco, nem a jaqueta de couro da festa. Estava de calça jeans escura e uma camisa polo preta que parecia pequena demais para seus ombros, delineando os músculos que ele normalmente escondia sob as camadas profissionais.
— Dr. Jhong? — Guigo ofegou, a respiração ainda curta pelo esforço físico. — O senhor... veio assistir aos jogos?
Jhong deu um passo à frente, entrando no campo de luz das lâmpadas fluorescentes que zumbiam no teto. Seus olhos escuros percorreram o corpo de Guigo — do peito subindo e descendo rapidamente até as gotas de suor que brilhavam em suas clavículas.
— Eu estava por perto. E queria ver se a coordenação motora que você exibe com o bisturi se traduzia em campo — disse Jhong, sua voz baixando um oitavo, tornando-se aquele barítono perigoso que fazia os pelos da nuca de Guigo se arrepiarem. — Você tem explosão, mas falta-lhe foco sob fadiga.
Guigo sentiu o rosto esquentar, e não era apenas pelo exercício. Havia algo na forma como Jhong o olhava naquele ambiente privado, longe dos olhos de Cecil e dos outros alunos, que mudava completamente a dinâmica de poder.
— Eu dei o meu melhor — respondeu Guigo, tentando manter a dignidade enquanto estava seminu diante do seu mentor mais severo.
— O seu melhor é uma variável, não um limite — rebateu Jhong, aproximando-se ainda mais. Ele parou a poucos centímetros de Guigo. O cheiro de Jhong — sândalo, café e algo puramente masculino — invadiu os sentidos do aluno, misturando-se ao cheiro do próprio suor. — No bloco cirúrgico, o cansaço é o seu maior inimigo. Se você hesita porque seus pulmões queimam, o paciente morre.
Jhong estendeu a mão. Guigo esperava um gesto de repreensão ou um empurrão, mas os dedos longos e calejados do cirurgião apenas tocaram levemente o ombro de Guigo, deslizando pela pele úmida até a base do pescoço. O toque era frio contra a pele quente de Guigo, um contraste que enviou um choque elétrico direto para sua espinha.
— Você está tenso — murmurou Jhong. — O ácido lático está se acumulando aqui.
— Doutor... — a voz de Guigo falhou.
— Shhh — sibilou Jhong, dando um passo final que eliminou qualquer espaço entre eles. — O que eu disse sobre desarmar a musculatura?
A mão de Jhong subiu para a nuca de Guigo, os dedos enterrando-se levemente nos cabelos úmidos. A pressão era firme, possessiva. Guigo sentia o calor emanando do corpo do professor, uma fornalha de intensidade contida. A tensão sexual no vestiário tornou-se algo quase sólido, uma presença física que tornava o oxigênio escasso.
— A Dra. Cecil diz que eu sou um carrasco — disse Jhong, seu rosto agora a poucos centímetros do de Guigo. Ele podia sentir o hálito quente do cirurgião contra seus lábios. — Ela diz que eu não sei apreciar a sutileza. Mas ela não entende que a verdadeira paixão não é sutil, Guilherme. Ela é absoluta. Ela exige tudo de você.
Guigo olhou nos olhos de Jhong e viu ali algo que ia muito além da medicina. Era um desejo faminto, uma necessidade de controle que estava prestes a se quebrar.
— E o que o senhor quer de mim agora? — perguntou Guigo, sua voz mal passando de um sussurro desafiador. — Não há bisturis aqui. Não há pacientes.
Jhong soltou um riso curto e seco, seus olhos fixos na boca de Guigo.
— Aqui, só há o que é real. Sem os títulos, sem os jalecos. Apenas a anatomia e a vontade.
A mão de Jhong desceu da nuca para o peito de Guigo, parando exatamente sobre o coração do aluno, que batia descontrolado contra as costelas.
— Você sente isso? — perguntou Jhong. — Isso não é taquicardia por esforço. É resposta autonômica. Você não consegue mentir para mim, Guilherme. Seu corpo me responde de uma forma que você nunca admitiria para a Cecil.
Guigo sentiu-se encurralado contra o banco de madeira, mas não queria fugir. A arrogância de Jhong, sua força e a promessa de uma entrega total eram como um ímã. Ele levou as mãos aos braços de Jhong, sentindo a rigidez dos músculos sob a camisa polo.
— Ela me vê como um médico — disse Guigo, a voz ganhando uma nota de ousadia. — O senhor me vê como um instrumento.
— Eu vejo você como a única coisa que me faz sentir vivo neste hospital de merda — confessou Jhong, a máscara de frieza finalmente rachando.
Ele inclinou-se, o nariz roçando o de Guigo. A tensão era insuportável, um arco elétrico prestes a descarregar. Mas, no momento em que os lábios de Jhong estavam prestes a tomar os de Guigo, o som de risadas e vozes altas ecoou no corredor. O time estava voltando.
Jhong afastou-se em um movimento fluido, recuperando sua postura gélida em um piscar de olhos. Ele ajeitou a camisa, seus olhos voltando a ser as lâminas de aço habituais, embora suas pupilas ainda estivessem dilatadas.
— Tome um banho gelado, Guilherme — disse ele, sua voz agora carregada de uma autoridade profissional que parecia uma bofetada após a intimidade de segundos atrás. — Você precisa limpar o sistema. E não se esqueça: amanhã, às seis da manhã, eu quero você revisando a técnica de anastomose. Se você chegar um minuto atrasado...
— Eu estarei lá, doutor — interrompeu Guigo, tentando estabilizar sua própria respiração enquanto os colegas entravam no vestiário, inundando o local com barulho e caos.
Jhong deu um aceno de cabeça imperceptível e passou pelos alunos, que se calaram e abriram caminho para o temido professor de cirurgia como se ele fosse um predador atravessando um bando de presas.
Guigo ficou parado, a marca dos dedos de Jhong ainda parecendo queimar em sua pele. Ele olhou para o espelho embaçado acima das pias. Seu reflexo mostrava um homem que estava sendo puxado por duas forças titânicas. Cecil oferecia o entendimento, a luz e o futuro. Jhong oferecia o fogo, a escuridão e o agora.
Enquanto a água gelada do chuveiro finalmente batia em suas costas, Guigo fechou os olhos. Ele sabia que a disputa pelo seu coração estava se tornando perigosa. Mas, enquanto lembrava do peso da mão de Jhong sobre seu peito, ele percebeu, com um misto de medo e excitação, que talvez ele não quisesse ser salvo de nenhum dos dois.
A medicina era uma arte de vida e morte. E Guigo estava descobrindo que, entre o bisturi de Jhong e o olhar de Cecil, ele nunca se sentira tão intensamente vivo.