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Guns n.. girls?

O Som das Cordas e o Peso da Coroa

A paz na mansão dos Rose nunca durava mais do que o tempo de uma música de três minutos. Três dias haviam se passado desde o incidente com Tyler na escola, e o clima de "cessar-fogo" entre Axl e Evie era tão frágil quanto uma corda de guitarra velha sob tensão máxima.

Axl estava sentado no sofá de couro da sala de estar, cercado por papéis de contratos e letras de músicas rabiscadas em guardanapos. Tentava se concentrar, mas seus olhos constantemente desviavam para a escadaria. Ele sabia que Evie estava lá em cima, provavelmente em seu pequeno mundo vintage, e o silêncio dela o deixava mais inquieto do que qualquer gritaria.

— Você vai acabar abrindo um buraco no tapete se continuar andando com os olhos — comentou Slash, que estava jogado em uma poltrona próxima, trocando as cordas de sua Les Paul.

— Eu não estou fazendo nada — rebateu Axl, cruzando os braços e afundando no sofá. — Só estou garantindo que o ambiente esteja calmo.

— Calmo? Axl, você parece uma granada sem pino — disse Duff, entrando na sala com um baixo na mão e o suor brilhando na testa após horas de ensaio no porão. — Deixa a garota respirar. Ela não falou com o "projeto de Tom Cruise" desde segunda-feira. Eu verifiquei.

Axl arqueou uma sobrancelha.

— Você verificou?

— É, eu passei na escola "por acaso" para ver se ela precisava de uma carona extra — Duff deu de ombros, fingindo desinteresse. — Ela estava sentada sozinha no gramado, lendo um livro que parecia ter uns cem anos.

Axl sentiu uma pontada de culpa, mas a disfarçou com um bufo de desdém.

— Viu? Ela está segura. Livros não partem corações nem levam garotas para festas em colinas desertas.

Enquanto os homens discutiam na sala, Evie descia as escadas silenciosamente. Ela não usava suas botas habituais, mas sim meias de lã coloridas que abafavam seus passos. Ela parou no último degrau, observando aquela cena que era a sua definição de "família". Cinco homens que eram os rostos do perigo para o mundo, mas que para ela eram os guardiões de sua infância.

— Eu vou sair — anunciou ela, a voz suave cortando a conversa dos músicos.

Axl pulou do sofá como se tivesse levado um choque.

— Sair? Para onde? Com quem? O Tyler mandou um sinal de fumaça?

Evie revirou os olhos castanho-dourados, ajustando a faixa de veludo que prendia seus cachos.

— Vou ao sebo no centro, pai. O tio Izzy disse que eles receberam uma edição rara de poesias da Sylvia Plath. E vou sozinha. De ônibus.

— De ônibus? — Axl parecia que estava prestes a ter um aneurisma. — Nem pensar. Los Angeles é um ninho de cobras. Eu te levo. Ou o Slash leva. Slash, pegue as chaves!

— Eu estou trocando as cordas, Axl — murmurou o guitarrista, sem levantar a cabeça.

— Eu vou com ela — ofereceu-se Steven, aparecendo na porta da cozinha com um pote de iogurte. — Eu adoro sebos! Eles têm cheiro de papel velho e... coisas velhas.

Evie suspirou, cruzando os braços sobre o vestido de crochê que parecia ter saído diretamente de um festival de 1969.

— Eu tenho dezesseis anos. Quase dezessete. Eu sei pegar um ônibus e sei atravessar a rua. Se vocês continuarem me seguindo, eu vou acabar virando uma daquelas eremitas que vivem em florestas e nunca mais falam com ninguém.

Axl olhou para os companheiros de banda, buscando apoio, mas encontrou apenas olhares de "ela tem razão". Izzy, que estava encostado no batente da janela, soltou uma lufada de fumaça de seu cigarro e olhou para a sobrinha de consideração.

— Deixe ela ir, Axl. Se algum maluco mexer com ela, ela provavelmente vai citar um poema tão melancólico que o cara vai entrar em depressão e ir embora.

Evie deu um sorrisinho para Izzy, o único que parecia entender sua necessidade de silêncio.

— Tudo bem — cedeu Axl, apontando o dedo para ela. — Mas leve o pager. E se eu ligar e você não responder em trinta segundos, eu ligo para a SWAT.

— Combinado, xerife — disse ela, dando um beijo rápido na bochecha do pai antes de escapar pela porta da frente.

Assim que a porta se fechou, a sala mergulhou em um silêncio tenso. Axl ficou parado, olhando para a madeira da porta como se pudesse ver através dela.

— Dez minutos — disse Slash, quebrando o silêncio.

— Dez minutos para quê? — perguntou Duff.

— Para o Axl pegar as chaves do carro e ir atrás dela disfarçado.

— Eu não vou fazer isso! — exclamou Axl, indignado.

Sete minutos depois, Axl Rose estava colocando um boné de beisebol, óculos escuros de aviador e uma jaqueta de couro preta que ele esperava que o tornasse "invisível".

— Eu só vou garantir que o ônibus não quebre — resmungou ele, passando pelos amigos que tentavam esconder o riso.

— Pega uma edição da Plath para mim também! — gritou Steven, enquanto Axl saía em direção à garagem.

Axl dirigia seu Jeep preto a uma distância segura do ônibus de linha. Ele se sentia um idiota, um perseguidor profissional, mas a ansiedade em seu peito era uma fera que ele não conseguia domar. Para ele, Evie era uma criatura de vidro em um mundo de marretas. Ele via o olhar dos homens na rua, via a malícia que ele mesmo já havia carregado, e a ideia de que alguém pudesse manchar a pureza de sua filha o deixava fisicamente doente.

Ele a viu descer no centro, perto de uma área repleta de lojas de discos e livrarias antigas. Evie caminhava com uma leveza invejável, os braços balançando ao ritmo de alguma música que tocava em sua cabeça. Ela entrou no sebo "The Last Chapter", um lugar escuro e empoeirado que combinava perfeitamente com ela.

Axl estacionou em uma vaga proibida e desceu, mantendo a cabeça baixa. Ele entrou na loja logo atrás dela, escondendo-se atrás de uma prateleira de enciclopédias médicas.

— Posso ajudar, senhor? — perguntou um funcionário com piercings no rosto e uma camiseta do Megadeth.

— Só estou olhando — rosnou Axl, a voz abafada pelo boné. — Me deixe em paz ou eu compro essa loja e te demito.

O funcionário recuou, reconhecendo o tom de voz perigoso, mesmo sem ver o rosto.

Axl observou Evie. Ela estava na seção de poesia, os dedos longos e delicados deslizando pelas lombadas dos livros. Ela parecia tão em paz. Então, ele viu. Um homem, por volta dos trinta anos, aproximou-se dela. Ele não era um garoto de escola como Tyler. Era um homem com aparência de intelectual, usando um casaco de veludo cotelê.

— A edição de 1965 é melhor — disse o homem, apontando para um livro na mão de Evie. — Tem as ilustrações originais.

Evie sorriu, aquele sorriso que Axl queria guardar em um cofre.

— Eu estava procurando exatamente por essa. Obrigada.

— Você tem bom gosto. Não se vê muitas jovens interessadas em Plath hoje em dia. A maioria está ocupada demais ouvindo aquele barulho de rádio.

Axl apertou a borda da prateleira. "Barulho de rádio?" Ele estava prestes a mostrar para aquele sujeito o que era barulho de verdade.

— Eu gosto de rádio também — respondeu Evie, para a surpresa de Axl. — Mas às vezes o mundo é barulhento demais. A poesia ajuda a organizar o caos.

— Concordo plenamente — disse o homem, inclinando-se um pouco mais. — Eu sou Julian. Sou professor de literatura na UCLA.

Axl não aguentou. A menção a "professor" e "UCLA" soou como um desafio de território. Ele saiu de trás das enciclopédias, tirando os óculos escuros com um gesto dramático.

— E eu sou o pai dela. E se você não quer que a sua próxima aula de literatura seja sobre como reconstruir um maxilar, sugiro que volte para a seção de dicionários.

Evie quase deixou o livro cair.

— Pai! O que você está fazendo aqui?

O professor Julian empalideceu ao reconhecer o rosto estampado em milhões de pôsteres ao redor do mundo. Axl Rose estava ali, a poucos centímetros dele, exalando uma energia que faria um vulcão parecer estável.

— Eu... eu só estava dando uma sugestão de leitura — gaguejou o professor, recuando tão rápido que tropeçou em uma pilha de revistas velhas. — Com licença.

Evie olhou para o pai, a expressão alternando entre o choque e uma profunda decepção. Ela não gritou. Ela não fez uma cena. Apenas colocou o livro de volta na prateleira.

— Você me seguiu. De novo.

— Evie, escuta... aquele cara era velho demais para você. Ele estava usando táticas de... de predador intelectual!

— Ele estava sendo gentil, pai! — As lágrimas começaram a brilhar nos olhos dela. — Eu não posso ter uma conversa de dois minutos com um estranho sobre livros sem que você apareça como um... um vilão de filme de terror?

— Eu só quero te proteger, Evie! — Axl tentou segurar o braço dela, mas ela se esquivou. — Você não sabe como as pessoas são. Você é doce, você é sensível. Eles vão te usar.

— E você está me sufocando! — ela exclamou, a voz subindo de tom, atraindo a atenção dos poucos clientes na loja. — Você diz que eu sou a única coisa que você fez certo, mas você não confia na sua própria criação! Se você me criou tão bem, por que acha que eu sou tão fraca?

Aquelas palavras atingiram Axl como um soco no estômago. Ele parou, os braços caindo ao lado do corpo. O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo som do trânsito lá fora.

— Eu não acho que você seja fraca — sussurrou ele, a voz falhando.

— Então pare de agir como se eu fosse — disse ela, limpando o rosto com as costas da mão. — Eu vou para casa. De táxi. E não ouse me seguir.

Ela saiu da loja a passos largos. Axl ficou parado entre os livros de poesia, sentindo-se menor do que nunca. Ele olhou para o livro que ela estava segurando — a edição de 1965 de Sylvia Plath. Ele o pegou, caminhou até o balcão e jogou uma nota de cem dólares.

— Fique com o troco — disse ao funcionário assustado.

O caminho de volta para casa foi um borrão. Axl entrou na mansão e não encontrou ninguém na sala. O som de uma bateria vinha do porão — Steven estava descontando sua energia nos pratos. Axl subiu direto para o quarto de Evie. A porta estava trancada.

Ele se sentou no corredor, encostado na parede oposta à porta dela, exatamente como fizera tantas vezes quando estava em turnê e se sentia sozinho. Ele colocou o livro de poesias no chão, deslizando-o por baixo da porta.

— Eu comprei o livro — disse ele, alto o suficiente para que ela ouvisse através da madeira. — O de 1965. Com as ilustrações.

Não houve resposta imediata. Axl suspirou, tirando o boné e passando a mão pelos cabelos ruivos suados.

— Eu sei que eu sou um desastre, Evie. Eu passei a vida inteira lutando contra todo mundo. Contra a polícia, contra a imprensa, contra os meus próprios demônios. Eu não sei como "não lutar". E quando eu olho para você... eu fico com medo de que a minha luta acabe te atingindo. Eu sinto que se eu soltar a sua mão, você vai sumir nesse barulho todo.

Houve um movimento do outro lado da porta. Ele ouviu o som do papel sendo arrastado pelo chão.

— Você não precisa segurar minha mão o tempo todo, pai — a voz dela veio abafada, mas mais calma. — Você só precisa estar por perto para quando eu decidir segurar a sua.

Axl fechou os olhos, sentindo um nó na garganta.

— Eu vou tentar. Eu juro que vou tentar ser menos... eu.

— Não seja menos você — respondeu Evie, e ele podia jurar que ouviu um leve sorriso na voz dela. — Só seja menos o Axl Rose do palco e mais o pai que me ensinou a gostar de chuva.

— O Slash quer saber se você quer pizza — disse Axl, mudando de assunto para esconder a emoção. — Ele disse que se você não descer, ele vai comer a sua parte com anchovas.

A porta se abriu lentamente. Evie apareceu, segurando o livro contra o peito. Ela olhou para o pai, sentado no chão do corredor, parecendo mais um adolescente perdido do que um deus do rock.

— Anchovas são um crime contra a humanidade — disse ela, estendendo a mão para ajudá-lo a levantar.

Axl pegou a mão da filha, sentindo a força silenciosa que ela carregava. Eles desceram as escadas juntos. Lá embaixo, a banda estava reunida ao redor de várias caixas de pizza.

— E aí? — perguntou Slash, olhando de relance para os dois. — O "professor" sobreviveu?

Axl lançou um olhar de aviso para o guitarrista, mas Evie apenas riu.

— Ele sobreviveu, mas acho que vai precisar de terapia literária por um tempo.

— Sentem aí — disse Duff, abrindo espaço no sofá. — Começou um documentário sobre o Woodstock na TV. O Steven está tentando adivinhar quem estava mais chapado em cada cena.

— Eu aposto no baterista do Santana! — gritou Steven, com a boca cheia de queijo.

Evie se acomodou entre Axl e Izzy, sentindo o calor daquela família disfuncional. Axl passou o braço pelos ombros dela, um gesto de proteção que, desta vez, não parecia uma prisão, mas um porto seguro.

Ele olhou para a tela da TV, para as imagens granuladas de jovens florescendo em meio à lama e à música, e depois para a filha ao seu lado. Ele percebeu que Izzy tinha razão: Evie era uma Rose. Ela tinha o fogo e a doçura, a poesia e o caos. E, embora o mundo lá fora fosse perigoso, ele sabia que, enquanto houvesse um disco tocando e uma mão para segurar, eles ficariam bem.

Pelo menos até o próximo garoto aparecer no portão da mansão. Mas essa seria uma batalha para outro dia. Por ora, havia pizza, Woodstock e o som suave da respiração da sua melodia favorita no meio de todo aquele barulho.