Voltar ao resumo

Guns n.. girls?

O Intruso no Castelo de Cartas

A mansão em Malibu nunca pareceu tão silenciosa, e isso era um sinal perigoso. Geralmente, o som de amplificadores sendo testados, o tilintar de garrafas de cerveja ou as discussões acaloradas sobre contratos e turnês preenchiam cada fresta das paredes. Mas naquela noite, o silêncio era tenso, denso como a fumaça de cigarro que Izzy soprava lentamente enquanto observava o portão principal.

— Ele chegou — anunciou Izzy, sua voz calma agindo como um estopim.

Axl, que estava andando de um lado para o outro na sala de estar, parou bruscamente. Ele vestia uma calça de couro preta e uma camiseta branca justa, os cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo baixo, mas seu rosto era a imagem da ansiedade.

— Todo mundo em suas posições — ordenou Axl, como se estivesse preparando uma emboscada militar. — Slash, tire o cabelo do rosto. Duff, tente não parecer que acabou de sair de uma briga de bar. Steven, por favor, não assuste o garoto nos primeiros cinco minutos.

— Relaxa, Axl — disse Slash, jogado em uma poltrona, dedilhando uma guitarra desligada. — É só um namorado. A Evie tem bom gosto.

— É exatamente isso que me preocupa! — rebateu Axl.

A porta se abriu e Evie entrou, parecendo um raio de sol dos anos 70. Ela usava um vestido de veludo azul-escuro e uma fita de cetim no cabelo. Atrás dela, surgiu a figura que fez o coração de Axl errar uma batida por todos os motivos errados.

Clark era… irritantemente perfeito. Ele era alto, com ombros largos que pareciam capazes de carregar o peso do mundo, cabelos escuros levemente bagunçados e olhos azuis tão claros e inocentes que faziam Axl se sentir um pecador apenas por olhar para eles. Ele vestia uma camisa de flanela limpa e jeans simples. Ele tinha aquele ar de garoto do interior, de quem ajuda a avó a atravessar a rua e resgata gatinhos de árvores.

— Oi, família! — disse Evie, com um brilho de desafio nos olhos. — Este é o Clark.

Houve um silêncio mortal. Clark deu um passo à frente, com um sorriso que poderia iluminar um estádio inteiro.

— Boa noite — disse Clark, sua voz era um barítono suave e educado. — É um prazer conhecer todos vocês. Evie me falou muito bem da família dela.

Ele estendeu a mão para Axl. O vocalista olhou para a mão do garoto como se fosse uma serpente venenosa antes de apertá-la com força excessiva.

— Axl — disse o ruivo, estreitando os olhos. — O pai dela.

— Prazer, senhor Rose — respondeu Clark, sem demonstrar dor pelo aperto de mão esmagador. — Eu trouxe isso para o jantar. Minha mãe fez, é uma torta de maçã típica da nossa fazenda.

Ele entregou a torta para um Steven boquiaberto, que a aceitou como se fosse um tesouro sagrado.

O jantar foi a experiência mais surreal da vida de Clark, embora ele não soubesse disso. Ele se sentou à mesa cercado por cinco das figuras mais perigosas e famosas do rock mundial, mas agia como se estivesse em um piquenique de igreja.

— Então, Clark — começou Duff, tentando soar intimidador enquanto cortava o bife —, a Evie disse que você é bolsista. O que você estuda?

— Engenharia agronômica, senhor — respondeu Clark educadamente. — Quero levar tecnologia para as fazendas da minha região. Minha família vive da terra há gerações.

— Terra. Interessante — comentou Slash, escondido atrás de seus óculos escuros, mesmo dentro de casa. — E o que você ouve? Qual o seu som?

Clark pensou por um momento, mastigando um pedaço de pão.

— Gosto de música country antiga. Willie Nelson, Johnny Cash… e coro de igreja. Minha mãe canta no coro, tem uma voz de anjo.

Axl quase engasgou com o vinho.

— Você não ouve… rádio? Nada mais pesado? — perguntou Axl, inclinado sobre a mesa.

— Às vezes — disse Clark com sinceridade. — Mas acho que algumas músicas hoje em dia têm muito barulho e pouca melodia, não acha?

Izzy soltou uma risada curta e seca, escondendo o rosto atrás da mão. Steven começou a rir abertamente. Axl parecia que ia explodir ou, talvez, adotar o garoto. Era impossível odiá-lo. Ele era tão genuinamente bom que chegava a ser ofensivo para um bando de rockstars decadentes.

— Ele é um alienígena — sussurrou Axl para Slash enquanto Evie e Clark riam de algo na ponta da mesa. — Ele não sabe quem nós somos. Ele me chamou de "Senhor Rose" três vezes.

— Ele é o seu pior pesadelo, Axl — zombou Slash. — Ele é um cara legal de verdade.

Após o jantar, que transcorreu sob a vigilância constante de dez olhos atentos, Evie se levantou.

— Bom, vamos lá para cima. Quero mostrar para o Clark a minha coleção de vinis novos.

Axl se endireitou na cadeira imediatamente.

— Lá para cima? No quarto? Com a porta fechada?

— Pai, nós vamos ouvir música — disse Evie, com aquele tom de voz que indicava que ela não aceitaria discussões. — O Clark é um cavalheiro. Ao contrário de certas pessoas nesta mesa, ele sabe o significado de respeito.

— Eu posso subir também! — ofereceu Steven, animado. — Eu adoro vinis!

— Não, Steven — disse Evie firmemente. — Vamos, Clark.

Os dois subiram as escadas, e o som dos passos de Clark, pesados e rítmicos, ecoou pelo corredor. No andar de baixo, os cinco músicos ficaram em um silêncio absoluto, as orelhas praticamente coladas em direção ao teto.

— Eu não gosto disso — murmurou Axl, levantando-se e começando a andar em círculos. — Ele é muito alto. Ele tem braços fortes. E se ele decidir que a "agronomia" dele inclui colher rosas ruivas?

— Axl, senta aí — disse Duff. — O garoto é um santo. Ele trouxe uma torta de maçã, pelo amor de Deus. Ninguém que planeja algo ruim traz uma torta de maçã feita pela mãe.

— É um disfarce! — sibilou Axl. — É o crime perfeito!

Enquanto isso, no quarto de Evie, o ambiente era completamente diferente. O quarto cheirava a lavanda e papel antigo. Clark olhava ao redor, maravilhado com a delicadeza do espaço. Ele parou diante da estante de discos e começou a folhear os títulos.

— Sua casa é… intensa — comentou Clark, com um sorriso tímido. — Seus tios são figuras interessantes. E seu pai… ele parece estar sempre pronto para uma luta.

Evie riu, sentando-se na beirada da cama e tirando os sapatos.

— Ele é apenas protetor. Eles todos são. Eles vivem em um mundo onde tudo é exagerado, Clark. Eles acham que cada sombra é um perigo.

Clark se aproximou e sentou-se no chão, aos pés dela, olhando para cima com aqueles olhos azuis que pareciam enxergar a alma de Evie.

— Eu entendo por que ele te protege. Você é diferente de tudo o que eu já vi. Na minha cidade, as pessoas são… previsíveis. Você é como uma música que eu nunca ouvi antes, mas que sinto que conheço a vida inteira.

Evie sentiu o rosto esquentar. Ela estendeu a mão e acariciou os cabelos escuros dele.

— Você não tem medo deles?

— Por que eu teria? — perguntou Clark, genuinamente confuso. — Eles parecem se importar muito com você. E eu também me importo. Nada que eles digam ou façam vai mudar o que eu sinto quando estou perto de você, Evie Rose.

Lá embaixo, Axl estava parado na base da escada, com Slash e Duff logo atrás dele.

— Está muito quieto — sussurrou Axl. — Por que não tem música tocando? Ela disse que iam ouvir música!

— Talvez eles estejam conversando, Axl — disse Slash, ajustando a cartola. — Sabe, aquela coisa que pessoas normais fazem?

— Ou talvez ele esteja hipnotizando ela com papo de trator e colheita! — Axl começou a subir os degraus na ponta dos pés. — Eu vou lá. Vou dizer que… que esqueci de avisar sobre o horário do toque de recolher.

— São oito da noite, cara — lembrou Duff, mas seguiu o amigo, movido pela curiosidade.

Os três (e Steven, que vinha logo atrás comendo o resto da torta) pararam diante da porta de Evie. Izzy ficou no final do corredor, encostado na parede, observando a cena com um ar de "eu não conheço esses idiotas".

Axl aproximou o ouvido da madeira da porta.

— Eu não ouço nada — sussurrou ele, entrando em pânico. — E se ele a sequestrou pela janela?

— Mora no segundo andar, gênio — murmurou Slash.

De repente, o som de uma vitrola começou a tocar. Mas não era rock. Era uma melodia suave, um violão dedilhado e uma voz feminina melancólica. "Blue" de Joni Mitchell.

Lá dentro, Clark havia se levantado e estendido a mão para Evie.

— Você me concede esta dança? — perguntou ele, com a formalidade de um baile de formatura de interior.

Evie sorriu, colocando a mão na dele. Clark a puxou para perto, mantendo uma distância respeitosa, mas firme. Eles começaram a se mover lentamente pelo pequeno espaço do quarto, entre pilhas de livros e almofadas de veludo.

— Você dança bem — sussurrou Evie, descansando a cabeça no ombro dele.

— Minha mãe me obrigou a aprender para o casamento da minha irmã — confessou ele no ouvido dela. — Mas agora, fico feliz que ela tenha feito isso.

No corredor, Axl estava prestes a girar a maçaneta quando a voz de Evie ecoou, clara o suficiente para ser ouvida através da porta.

— Eu sei que você está aí, pai. E o tio Slash e o tio Duff também.

Os três homens deram um pulo para trás, tropeçando uns nos outros.

— Merda! — exclamou Axl.

— Eu disse que ela ia perceber — comentou Izzy, calmamente.

A porta se abriu e Evie apareceu, com as mãos nos quadris e uma expressão de absoluta exasperação. Clark estava logo atrás dela, parecendo mais divertido do que assustado.

— O que vocês estão fazendo? — perguntou ela.

— Eu… eu estava apenas verificando se a pressão da água no seu banheiro estava boa! — mentiu Axl, sem pestanejar. — Ouvi um ruído… um cano…

— O cano se chama ciúme, Axl — disse Duff, desistindo do disfarce. — Desculpe, Evie. O seu pai é um lunático.

Clark deu um passo à frente, colocando a mão suavemente no ombro de Evie.

— Está tudo bem, senhor Rose. Eu entendo. Se eu tivesse uma filha como a Evie, eu também ficaria atrás das portas para garantir que ela está segura.

Axl abriu a boca para retrucar, para gritar, para expulsar o garoto por ser tão… tão compreensivo. Mas as palavras morreram em sua garganta. Ele olhou para Clark, depois para a filha. Evie brilhava. Havia uma segurança nela que ele raramente via. Ela não era mais a garotinha deixada em uma cesta na porta da "Hell House". Ela era uma mulher jovem, encontrando seu próprio ritmo em um mundo que ele não podia controlar.

— Escuta aqui, Clark — disse Axl, tentando recuperar sua dignidade. — Você parece um bom garoto. Quase bom demais. E isso me assusta. Mas se você fizer ela chorar, eu não vou usar advogados. Eu não vou usar a imprensa. Eu vou usar o Slash. E você não quer o Slash atrás de você.

Slash acenou com a cabeça, fazendo o cabelo balançar de forma sinistra.

— Entendido, senhor — disse Clark com um aceno sério. — Eu prometo que minhas intenções são as melhores possíveis.

— Ótimo — resmungou Axl. — Agora, desçam. O Steven quer que você explique como se faz aquela torta e o Izzy quer saber se você conhece algum bardo de Nashville.

Enquanto Clark e os outros desciam, Axl ficou parado no corredor por um momento. Evie se aproximou dele e o abraçou apertado.

— Ele é um dos bons, pai — sussurrou ela.

Axl suspirou, beijando o topo da cabeça ruiva da filha.

— Eu sei. É isso que me apavora. Eu não sei lidar com "os bons", Evie. Eu só sei lidar com o caos.

— Talvez esteja na hora de aprender — disse ela, dando-lhe um sorriso encorajador antes de seguir o namorado.

Axl ficou sozinho no corredor escuro por um instante, ouvindo as risadas que vinham do andar de baixo. Ele olhou para as próprias mãos, marcadas pelos anos de excessos e lutas. Ele percebeu que, por dezesseis anos, ele tentou proteger Evie do mundo, sem perceber que o mundo que ela estava construindo era muito mais bonito do que o dele.

Ele desceu as escadas e encontrou Clark sentado no sofá, com Slash de um lado e Duff do outro, discutindo seriamente sobre a melhor época para plantar milho versus a melhor afinação para um baixo.

— Ele está ganhando de nós — comentou Izzy, aproximando-se de Axl com um copo de água. — O garoto do interior conquistou os piratas.

Axl sentou-se em sua poltrona, observando a cena. Ele ainda não confiava totalmente — era de sua natureza desconfiar —, mas enquanto via Evie rir de uma piada que Clark contou, ele sentiu uma paz estranha.

— Ei, Clark! — gritou Axl, interrompendo a conversa. — Você sabe tocar alguma coisa? Além de harpa de anjo?

Clark sorriu e pegou um violão acústico que estava encostado no canto.

— Sei um pouco de blues, senhor.

— Então toca — ordenou Axl, cruzando as pernas. — Vamos ver se você tem alma ou se é só um rostinho bonito de comercial de sabonete.

Clark posicionou os dedos nas cordas e começou a tocar um blues sujo, pesado e profundo, que parecia vir das raízes da terra que ele tanto amava. O ritmo era perfeito, a alma estava ali, vibrando em cada nota.

Slash parou de beber. Duff inclinou a cabeça. Axl sentiu um arrepio.

— É… — murmurou Axl, escondendo um sorriso de satisfação. — Talvez ele sirva.

Naquela noite, a mansão dos Rose não teve gritos, nem brigas, nem drama. Teve apenas música — uma mistura estranha de rock de Los Angeles e blues do interior. E no centro de tudo, Evie Rose, a garota vintage que uniu dois mundos, observava o pai e o namorado compartilharem um momento de respeito mútuo sob as luzes da Sunset Strip.

O caos ainda estava lá fora, mas dentro daquela casa, por algumas horas, a melodia era a única coisa que importava. Axl Rose finalmente entendeu que não precisava lutar contra o mundo para proteger a filha; ele só precisava garantir que a música dela nunca parasse de tocar. E Clark, com seu sorriso de olhos azuis e mãos de fazendeiro, parecia ser o instrumento perfeito para isso.