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O Suspiro antes da Tempestade de Laços
A reta final da gravidez de Maria havia transformado a rotina da mansão em Manchester em algo que lembrava a preparação para uma final de Copa do Mundo. Erling, que sempre fora conhecido por sua disciplina quase robótica com sono, alimentação e recuperação física, agora aplicava toda essa intensidade nórdica ao bem-estar da esposa. A cada centímetro que a barriga de Maria crescia, o nível de alerta do jogador subia um degrau.
Maria estava sentada em uma poltrona ortopédica que Erling havia comprado após ler dezessete artigos sobre circulação sanguínea em gestantes de múltiplos. Ela observava o marido, que estava agachado no tapete do quarto das meninas, tentando montar o terceiro berço com a precisão de quem analisa um lance no VAR.
— Erling, querido, você está apertando esse parafuso há dez minutos — comentou Maria, soltando um riso leve enquanto acariciava o topo da barriga, que se movia freneticamente. — Acho que ele não vai fugir daí.
Erling levantou o rosto, o suor brilhando na testa, e afastou uma mecha de cabelo loiro que escapara do coque.
— Segurança em primeiro lugar, Maria — respondeu ele, sério. — Se a Freya decidir que quer pular no berço como se estivesse comemorando um gol, a estrutura precisa aguentar o impacto. Eu calculei o torque necessário.
— Você calculou o torque de um berço? — Maria arquejou, divertida. — Você é impossível. Vem aqui, deixa isso um pouco. Elas estão agitadas hoje. Acho que querem atenção do pai.
Erling largou a chave de fenda instantaneamente. Ele se aproximou com a agilidade que o tornava um pesadelo para os zagueiros da Premier League, mas sentou-se ao lado dela com uma delicadeza extrema, como se Maria fosse feita de cristal. Ele encostou o ouvido na barriga dela, fechando os olhos.
— Estão em formação de ataque outra vez — sussurrou ele, sentindo os chutes rítmicos. — Esta aqui embaixo, a Astrid, está tentando cavar um escanteio sob as suas costelas.
— Ela é a mais forte — concordou Maria, suspirando de alívio quando a mão grande e quente de Erling se espalhou sobre sua pele. — Às vezes eu sinto que não vou aguentar mais nem um dia, Erling. O peso, a falta de ar... parece que eu carreguei um time inteiro nas costas.
Erling mudou a expressão de brincadeira para uma de profunda ternura. Ele beijou a mão de Maria, olhando-a nos olhos com aquela intensidade azul que costumava desarmar qualquer um.
— Você é a pessoa mais incrível que eu já conheci, Maria. Eu enfrento defesas brutas e corro noventa minutos sob pressão, mas o que você está fazendo... criar três vidas ao mesmo tempo... isso é o verdadeiro poder. Eu sou apenas o assistente técnico. Você é a estrela do time.
— Um assistente técnico que quer controlar a pressão dos pneus do carrinho de bebê — provocou ela, fazendo-o rir.
— Falando nisso — disse Erling, levantando-se e pegando um tablet que estava sobre a cômoda —, eu recebi o cronograma da maternidade. Eles têm um plano de contingência para nascimentos múltiplos. Eu já decorei o caminho mais rápido da nossa casa até lá, considerando o tráfego de Manchester em horários de pico. Tenho três rotas alternativas.
— Três rotas, Erling?
— Sim — afirmou ele, voltando ao seu modo "Cyborg". — A Rota A é a principal. A Rota B evita a área do estádio em dias de jogo, e a Rota C é para caso chova e as vias principais alaguem. Eu até testei o tempo de cada uma ontem à noite, depois do treino.
Maria balançou a cabeça, emocionada e levemente incrédula.
— O que eu faria sem você?
— Você provavelmente chegaria lá do mesmo jeito — admitiu ele, voltando a se sentar aos pés dela —, mas eu não conseguiria dormir se não tivesse um plano. Eu só quero que elas cheguem e vejam que o pai delas estava pronto. Que tudo estava pronto para elas.
O silêncio confortável da tarde foi interrompido pelo toque do celular de Maria. Era uma chamada de vídeo de sua mãe, na Noruega. Erling ajudou a esposa a segurar o aparelho para que ambos aparecessem na tela.
— Como estão as minhas quatro rainhas? — perguntou a voz animada do outro lado.
— Estamos enormes, mãe — respondeu Maria, virando a câmera para mostrar a barriga. — Erling está tentando transformar a casa em um bunker de segurança máxima.
— Ele está certo! — exclamou a sogra. — Três meninas Haaland... o mundo não sabe o que o espera. Erling, meu querido, você já praticou como segurar as três ao mesmo tempo?
Erling ficou subitamente pálido.
— Eu... eu treinei com almofadas — confessou ele. — Mas as almofadas não se mexem, nem choram, nem precisam ter o pescoço segurado.
— Você vai aprender rápido — tranquilizou a sogra. — É instinto. Quando elas estiverem nos seus braços, você vai saber exatamente o que fazer.
Após desligarem, Erling ficou pensativo. Ele olhou para as três cadeirinhas de carro que já estavam instaladas no banco traseiro do seu SUV, esperando o momento da partida.
— Maria — disse ele em voz baixa —, você acha que elas vão gostar de mim?
Maria parou o que estava fazendo, surpresa com a vulnerabilidade na voz do marido. O homem que não temia encarar o mundo inteiro em um estádio lotado estava com medo do julgamento de três recém-nascidas.
— Erling, elas já te amam. Elas reconhecem a sua voz. Elas se acalmam quando você canta aquelas músicas esquisitas em norueguês para elas.
— Não são esquisitas, são canções de ninar tradicionais — defendeu-se ele, com um meio sorriso.
— Elas vão olhar para você e ver o herói delas. Não porque você faz gols, mas porque você é o homem que cuida da mãe delas e que montou esses berços com "torque calculado". Elas vão ver o seu coração, Erling. E ele é maior do que qualquer estádio.
Ele se inclinou e a abraçou, escondendo o rosto no pescoço dela.
— Eu só quero ser o pai que elas merecem. Eu quero que elas cresçam sabendo que podem ser qualquer coisa. Se a Astrid quiser ser física, se a Ingrid quiser ser artista e se a Freya quiser ser jogadora... eu vou estar lá.
— Elas serão felizes, Erling. Nós vamos garantir isso.
Naquela noite, a mansão estava silenciosa, mas a mente de Erling trabalhava a mil por hora. Ele não conseguia dormir, então desceu até a cozinha para preparar um de seus chás de ervas. Enquanto a água fervia, ele olhou para o jardim escuro através da grande janela de vidro.
Ele imaginou o futuro. Imaginou três meninas correndo por aquele gramado, o som de risadas infantis ecoando pelas paredes minimalistas que, em breve, estariam cobertas de desenhos e brinquedos espalhados. Ele imaginou o caos das manhãs, a correria para a escola, as festas de aniversário triplas.
Sentiu um frio na barriga que não sentia nem antes de um clássico contra o Manchester United. Era uma ansiedade diferente. Era o medo do desconhecido misturado com uma esperança avassaladora.
Maria apareceu na porta da cozinha, caminhando com dificuldade, envolta em um roupão de seda.
— Perdeu o sono, campeão? — perguntou ela.
— Só pensando na escalação inicial — brincou ele, servindo uma xícara para ela também. — Estava imaginando o jardim cheio delas.
— Vai ser lindo, não vai?
— Vai ser perfeito — disse ele, levando a xícara aos lábios. — Mas Maria, eu decidi uma coisa.
— O quê?
— Eu vou precisar de um personal trainer para bebês.
Maria quase engasgou com o chá.
— O quê? Erling, não!
— Não para elas! Para mim! — explicou ele, gesticulando. — Para eu aguentar carregar o carrinho triplo, as três malas de fraldas e ainda ter energia para brincar com elas depois dos treinos. Eu preciso de um treinamento funcional focado em paternidade múltipla.
Maria riu tanto que sentiu uma pontada na barriga.
— Você é a pessoa mais focada que eu já conheci. Mas sabe de uma coisa? Você não precisa de treino para isso. O amor vai te dar toda a energia que você precisa. E, se faltar, eu te dou um pouco da minha.
— Estamos juntos nessa, não estamos? — perguntou ele, segurando o rosto dela com as duas mãos.
— Sempre, Erling. O time Haaland contra o mundo.
— Três contra dois — corrigiu ele, sorrindo. — Elas estão em maioria. Mas eu não escolheria nenhum outro adversário para perder o controle da minha vida.
Eles ficaram ali, na cozinha silenciosa, compartilhando o chá e o peso doce da expectativa. O mundo lá fora continuava a girar, os jornais continuavam a especular sobre quantos gols Erling marcaria na próxima temporada e os torcedores continuavam a cantar seu nome nas arquibancadas.
Mas ali, dentro daquelas paredes, Erling Haaland não era o Cyborg, o Viking ou a máquina de gols. Ele era apenas um homem, perdidamente apaixonado por sua esposa e ansioso para conhecer as três pequenas mulheres que mudariam sua definição de sucesso para sempre.
O hat-trick da vida real estava prestes a começar, e o apito inicial poderia soar a qualquer momento. E, pela primeira vez na carreira, Erling não queria que o tempo passasse rápido. Ele queria saborear cada segundo daquele silêncio, antes que o doce caos das irmãs Haaland transformasse sua vida em uma celebração eterna.
— Maria? — chamou ele, quando já estavam voltando para o quarto.
— Sim, querido?
— Eu te amo. E obrigado por me dar o melhor troféu que eu poderia ganhar.
— Eu também te amo, Erling. Agora vamos dormir, porque acho que a Freya acabou de chutar a bexiga da mamãe e o "plano de contingência" pode ser acionado antes do que você imagina.
Erling arregalou os olhos e, por um segundo, Maria jurou que ele ia pegar o cronômetro. Mas ele apenas sorriu, apagou a luz e a guiou com cuidado para a cama, pronto para o que quer que o amanhã trouxesse. As princesas estavam chegando, e o reino estava, finalmente, completo.