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O Labirinto de Laços, Chuteiras e Corações

Quinze anos haviam se passado desde que o "Hat-trick de Erling" mudara o cenário da mansão em Manchester. O silêncio que um dia Maria e Erling tentaram preservar agora era uma memória distante, substituída pelo som constante de música alta, notificações de redes sociais e as batidas rítmicas de bolas de futebol contra o muro do jardim. As trigêmeas, agora com dezesseis anos, não eram mais as bebês que cabiam nas palmas das mãos do pai; eram forças da natureza, cada uma com uma órbita própria, desafiando a gravidade do controle de Erling.

Erling Haaland, ainda em excelente forma física, mas com alguns fios loiros que ele jurava serem "luzes naturais" e não cabelos brancos causados pelo estresse, estava sentado na ilha da cozinha, observando o caos matinal. Ele segurava um tablet, mas não analisava táticas de jogo. Ele analisava o rastreador de localização das filhas.

— Erling, pare com isso — disse Maria, entrando na cozinha com a elegância de quem aprendeu a navegar em tempestades adolescentes. — Elas estão na escola. O GPS não vai mudar de lugar nos próximos dez minutos.

— Eu só estou checando a precisão do sinal, Maria — mentiu ele, fechando o aplicativo rapidamente. — A segurança cibernética é importante.

— O que é importante é você aceitar que elas estão crescendo — Maria serviu-se de café e sentou-se ao lado dele. — Hoje é sexta-feira. Elas vão querer sair. E você prometeu que não ia agir como um viking em pé de guerra se elas mencionassem a palavra "festa".

Antes que Erling pudesse protestar, o som de passos apressados desceu as escadas. Astrid foi a primeira a entrar. Ela era a imagem de Erling: alta, atlética e com um olhar focado que intimidava até os professores. Ela já jogava nas categorias de base do City e levava o esporte com uma seriedade quase assustadora.

— Bom dia, família — disse Astrid, pegando uma maçã e jogando-a para o alto antes de pegá-la com um reflexo impecável. — Pai, preciso que você assine a autorização para o amistoso em Londres. E, mãe, a Ingrid vai chegar tarde hoje. Ela tem "ensaio".

— Ensaio ou encontro? — Erling perguntou, os olhos estreitados.

Astrid deu de ombros, um sorriso enigmático nos lábios.

— Com a Ingrid, nunca se sabe. Ela é a artista da família, lembra?

Logo atrás, Ingrid entrou, com fones de ouvido e um estilo boêmio que contrastava totalmente com o uniforme esportivo de Astrid. Ela era a sensibilidade da casa, apaixonada por fotografia e cinema. Ela mal olhou para os pais, absorta em editar algo no celular.

— Ingrid, querida, bom dia — chamou Maria.

— Oi, mãe. Oi, pai — Ingrid respondeu sem tirar os olhos da tela. — Pai, vou precisar do carro hoje à noite. Vou cobrir um evento de arte no centro.

— Que tipo de evento? — Erling cruzou os braços. — Quem vai estar lá? É em local aberto? Tem segurança privada?

Ingrid finalmente levantou os olhos, suspirando com a paciência de quem lida com um treinador exigente.

— É uma galeria, pai. E a Freya vai comigo. Satisfeito?

— Cadê a Freya? — Maria perguntou, notando a ausência da terceira ponta do tridente.

Como se fosse convocada, Freya apareceu. Se Astrid era a força e Ingrid a alma, Freya era o elemento imprevisível. Ela era a que mais se parecia com Maria na fisionomia, mas tinha o humor ácido e a ousadia de Erling. Ela entrou na cozinha vestindo uma jaqueta de couro que Erling não reconhecia.

— Gostaram? — Freya deu uma voltinha. — Peguei emprestado.

— De quem? — A voz de Erling subiu um oitavo.

— De um amigo — Freya respondeu, pegando uma torrada. — Um amigo muito legal que tem um gosto excelente para roupas. E para música.

O silêncio que se seguiu foi carregado. Erling olhou para Maria, buscando apoio, mas ela apenas arqueou uma sobrancelha, divertida com o desespero silencioso do marido.

— Um amigo, Freya? — Erling começou, tentando manter a calma. — Esse amigo tem nome? Ou um CPF? Ou um histórico escolar que eu possa revisar?

— O nome dele é Leo, pai. Ele estuda comigo. E antes que você pergunte, não, ele não joga futebol. Ele toca baixo.

Erling sentiu um peso no peito. Um baixista. O pesadelo de qualquer pai que valorizava a disciplina e o condicionamento físico.

— Um músico — resmungou Erling. — Eles nunca dormem na hora certa. O ritmo circadiano dele deve ser um desastre.

— Ele é incrível, pai — Freya disse, aproximando-se e dando um beijo na bochecha do gigante. — E ele quer te conhecer. Mas eu disse a ele para esperar você ganhar o próximo jogo, porque aí seu humor estaria melhor.

— Esperta — comentou Astrid, rindo. — Mas pai, o problema não é o Leo. O problema é quem a Ingrid está fotografando ultimamente.

Ingrid ficou subitamente vermelha, escondendo o rosto nos fones de ouvido.

— Astrid, cala a boca! — sibilou Ingrid.

— O quê? — Erling levantou-se, sua figura de quase dois metros dominando a cozinha. — O que tem o "quem" da Ingrid?

Maria interveio, colocando a mão no braço de Erling.

— Meninas, para a escola. Agora. Erling, sente-se.

As três saíram em meio a risadinhas e cochichos, deixando para trás um rastro de perfume e ansiedade adolescente. Erling caiu na cadeira, passando as mãos pelo rosto.

— Maria, elas estão namorando. Ou quase isso. Três delas. Ao mesmo tempo. Isso é uma sobrecarga tática. Eu não tenho defensores suficientes para isso.

— Erling, é natural — Maria disse, sentando-se no colo dele, o que sempre o acalmava. — Elas têm dezesseis anos. São lindas, inteligentes e vivem em um mundo onde tudo acontece rápido. O que precisamos é ser o porto seguro delas, não os carcereiros.

— Eu sei, eu sei — ele suspirou, abraçando a cintura da esposa. — Mas eu prometi a mim mesmo, no dia em que elas nasceram, que eu seria o melhor goleiro do mundo para proteger o coração delas. E agora eu sinto que a bola está vindo de todos os lados e eu estou sem luvas.

— Você não precisa defender tudo sozinho — Maria beijou seu nariz. — Nós somos um time, lembra?

A noite de sexta-feira chegou mais rápido do que Erling gostaria. A mansão estava em polvorosa. Astrid estava saindo para um jantar com o time, Ingrid estava se arrumando para a tal galeria, e Freya... Freya estava esperando o tal "Leo".

Erling decidiu que ficaria na sala, lendo um livro sobre "Liderança e Gestão de Crises", que ele achou apropriado para o momento. Quando a campainha tocou, ele saltou do sofá como se fosse interceptar um cruzamento na área.

Ele abriu a porta e deparou-se com um garoto magro, de cabelos cacheados e uma expressão que oscilava entre o terror absoluto e a admiração.

— Você deve ser o Leo — disse Erling, a voz profunda ecoando pelo hall.

— S-sim, Senhor Haaland. Digo, Erling. Digo... Senhor — o garoto gaguejou, estendendo a mão trêmula.

Erling apertou a mão do garoto. Ele não apertou demais — Maria o avisara sobre isso —, mas o suficiente para que Leo soubesse que aquelas mãos já haviam levantado taças pesadas e poderiam, se necessário, esmagar esperanças.

— A Freya é muito importante para mim, Leo — Erling disse, mantendo o contato visual. — E eu tenho drones, seguranças e uma excelente relação com a polícia local. Entendeu?

— Perfeitamente, senhor — Leo engoliu em seco.

Freya desceu as escadas, revirando os olhos ao ver a cena.

— Pai, pare de assustar o garoto. Vamos, Leo, antes que ele comece a mostrar os troféus dele e a falar sobre dietas de proteína.

Assim que saíram, Ingrid apareceu. Ela estava diferente. Usava um terno de corte impecável e parecia nervosa.

— Pai, mãe... — Ingrid começou, brincando com a alça da câmera. — Tem uma pessoa me esperando lá fora. Eu... eu queria que vocês vissem quem é. Antes de eu ir.

Maria e Erling trocaram um olhar. Eles foram até a janela da frente. Parada ao lado de um carro elétrico discreto, estava uma garota de cabelos curtos e um sorriso gentil. Ela acenou timidamente quando viu os vultos na janela.

— O nome dela é Maya — Ingrid disse, a voz suave, mas firme. — Ela estuda curadoria de arte. Ela é a pessoa que eu estou fotografando, pai. A pessoa que me faz querer tirar as melhores fotos da minha vida.

Erling sentiu um nó na garganta. Ele olhou para a filha e viu a mesma vulnerabilidade que vira nela quando ela era pequena e tinha medo do escuro. Mas viu algo mais: uma coragem silenciosa.

Ele caminhou até Ingrid e colocou as mãos em seus ombros.

— Ela parece ter um bom gosto para arte, então — disse Erling, com um sorriso pequeno. — Porque ela escolheu a melhor fotógrafa que eu conheço.

Ingrid abraçou o pai com força, um abraço que dizia mais do que mil palavras de gratidão.

— Traga ela para jantar no domingo — Maria completou, aproximando-se e beijando a bochecha da filha. — Queremos conhecer a musa da nossa artista.

Quando Ingrid saiu, a casa finalmente ficou em silêncio. Astrid já havia saído pelos fundos para evitar o interrogatório do pai. Erling e Maria voltaram para a sala, exaustos.

— Viu? — Maria disse, aninhando-se a ele no sofá. — O mundo não acabou.

— Não — Erling concordou, olhando para o teto. — Mas eu acho que vou precisar de um novo esquema tático. Um baixista e uma curadora de arte. Minha vida está ficando muito cultural, Maria.

— E a Astrid? — Maria perguntou. — Você sabe que ela está saindo com aquele atacante da base do United, não sabe?

Erling sentou-se ereto, os olhos arregalados.

— O QUÊ? Do United? Isso é traição! Isso é quebra de contrato!

Maria começou a rir, uma risada gostosa que preencheu a sala.

— Eu estou brincando, Erling. Ela está saindo com uma menina do time de vôlei. O nome dela é Chloe.

Erling relaxou, mas apenas por um segundo.

— Vôlei? Pelo menos elas têm bons impulsos verticais. É bom para o condicionamento físico.

Eles riram juntos, a tensão da noite se dissipando. Mas, como sempre acontecia na vida dos Haaland, o silêncio durava pouco. O celular de Erling apitou. Era uma mensagem no grupo da família.

"Freya: Pai, o Leo quer saber se você pode dar um autógrafo na palheta dele. Ele disse que você é o 'viking mais legal do mundo'."

Erling sorriu, digitando a resposta enquanto Maria observava, sabendo que, apesar de toda a pose de durão, Erling Haaland era o maior fã de suas filhas.

"Erling: Diga a ele que se ele trouxer a Freya às 22h em ponto, eu assino. Se chegar às 22h01, eu uso a palheta para limpar meus dentes."

— Você não tem jeito — Maria disse, apagando a luz da sala.

— Eu sou um pai, Maria. É a minha posição mais importante em campo.

A adolescência das trigêmeas era, de fato, o maior desafio que Erling já enfrentara. Cada namoro, cada descoberta, cada mudança de humor era como um jogo de mata-mata onde ele não podia perder. Mas, enquanto caminhava para o quarto ao lado da mulher que fora sua parceira em cada hat-trick da vida, ele percebeu que o ciúme era apenas o reflexo de um amor que transbordava.

Astrid, Ingrid e Freya estavam trilhando seus próprios caminhos, descobrindo quem amavam e o que queriam ser. E Erling, o gigante de Manchester, percebeu que seu papel não era mais marcar os gols por elas, mas sim estar na arquibancada da vida delas, torcendo mais alto que qualquer um, pronto para invadir o campo e abraçá-las, não importa o resultado do jogo.

Afinal, na dinastia Haaland, o troféu mais valioso nunca fora de ouro; era feito de laços, de confiança e da certeza de que, não importa para onde o coração das filhas as levasse, o caminho de volta para casa estaria sempre iluminado pelo amor incondicional de um pai que aprendeu que a vida, assim como o futebol, é muito mais bonita quando compartilhada com quem amamos.