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Sombras e Espelhos

A luz suave do meio da manhã filtrava-se através das frestas da persiana persa, desenhando listras douradas sobre os lençóis de linho amarrotados. O lado da cama onde Vinnie estivera deitado ainda guardava um resquício tênue de calor e o cheiro inconfundível de sua pele, embora o colchão já estivesse vazio. Pelo som abafado de passos descalços e do tilintar de pratos que vinha da cozinha integrada, Clara sabia que ele estava cumprindo a promessa de preparar o café da manhã.

Ela se espreguiçou lentamente, sentindo o atrito do moletom dele contra a pele nua das pernas. Deveria ter sido um despertar perfeito. A noite anterior havia sido um bálsamo para suas angústias habituais; as palavras carinhosas de Vinnie, os beijos tranquilos na escuridão e a maneira possessiva e protetora com que ele a manteve aninhada ao peito haviam silenciado todos os seus monstros internos por algumas horas.

No entanto, o mundo real sempre encontrava uma maneira de se infiltrar pelas rachaduras daquele casulo.

Esticando o braço com preguiça, Clara pegou o celular esquecido na mesinha de cabeceira. A tela acendeu com uma enxurrada de notificações silenciosas: mensagens da mãe perguntando se ela voltaria para almoçar, lembretes de tarefas da faculdade e os indefectíveis alertas dos aplicativos de redes sociais. Movida por um hábito quase involuntário, ela deslizou o dedo para desbloquear o aparelho e abriu o TikTok.

Foi um erro. Ela soube no exato segundo em que o primeiro vídeo preencheu o visor.

A plataforma parecia ter farejado sua conexão implícita com Vinnie. O algoritmo, impiedoso em sua eficiência, não demorou a entregar o assunto mais comentado das últimas vinte e quatro horas no universo das celebridades da internet.

Era um *edit*.

A transição suave começava com uma batida lenta e envolvente de uma música pop acelerada. Na tela, dividida em dois takes de altíssima definição, surgiu Vinnie Hacker em uma festa recente em Hollywood Hills — cabelos cacheados milimetricamente bagunçados, terno escuro sem gravata revelando as tatuagens do pescoço, o sorriso de canto que desarmava qualquer um. No corte seguinte, em sincronia milimétrica com a batida do baixo, aparecia Chloe Campbell.

Chloe era a definição exata do ideal estético inalcançável daquele aplicativo: alta, dona de uma cintura milagrosamente fina, pernas esguias e um rosto tão simétrico que parecia esculpido digitalmente. Ela era uma influenciadora de dezenove anos, modelo de marcas de biquíni e queridinha das semanas de moda em Nova York. No vídeo, os clipes mostravam os dois interagindo durante o lançamento de uma marca de bebidas semanas atrás. Chloe rindo jogando a cabeça para trás, Vinnie sussurrando algo no ouvido dela enquanto as luzes estroboscópicas desenhavam a silhueta esbelta dos dois juntos.

Eles pareciam uma pintura renascentista adaptada para o século vinte e um. O contraste perfeito. O padrão impecável.

Clara sentiu um nó repentino se formar em sua garganta, seco e sufocante. O polegar hesitou, mas desceu para a seção de comentários. Centenas de milhares de curtidas. Mais de dez mil mensagens.

*“O visual desse casal é simplesmente surreal. Eles nasceram um para o outro.”*

*“Imagina ter a Chloe como namorada? O Vinnie finalmente achou alguém no mesmo nível de beleza que ele.”*

*“Ela é tão magra, tão elegante... parece uma deusa grega do lado dele. O casal mais estético da internet, sem condições.”*

*“Se eles não estiverem ficando em segredo, eu me recuso a acreditar no amor. Eles combinam demais, combinam esteticamente em tudo.”*

Cada frase lida agia como uma lâmina invisível cortando qualquer resquício da segurança que Vinnie havia construído nela na noite passada. Clara puxou o ar com força, soltando a respiração trêmula enquanto seus dedos deslizavam para outro vídeo sugerido. Mais um edit dos dois. Desta vez, um compilado de fotos onde fãs analisavam os detalhes: *“Vinnie olhou fixamente para a cintura dela nesse momento”*, dizia a legenda em letras garrafais.

Instintivamente, a mão livre de Clara desceu até o próprio corpo.

Sob a barra larga do moletom que usava, os dedos encontraram a maciez arredondada de seu abdômen. Ela apertou de leve a carne suave dos quadris, sentindo a plenitude de suas formas, as marcas tênues que o tempo e o crescimento haviam deixado em sua pele. Não havia ali linhas retas, ossos angulares da bacia proeminentes sob a pele bronzeada ou a magreza fluida que as câmeras de Los Angeles tanto veneravam. Ela era cheia de curvas reais, maciez, peso e presença física que o mundo parecia querer esconder sob camadas de vergonha.

*“No mesmo nível de beleza que ele.”*

A frase ecoava em sua cabeça, cruel e insistente. Clara se encolheu na cama, as pernas dobradas contra o peito, os olhos fixos na tela fria do celular. O contraste era escandaloso. Se a internet descobrisse que o garoto desejado por dezenas de milhões de garotas — o mesmo garoto que os fãs sonhavam ver ao lado de modelos esguias e impecáveis — passava a madrugada abraçado a uma garota gordinha, comum, filha da amiga da mãe dele...

O massacre não teria fim. Ela seria reduzida a piadas vis, montagens zombeteiras, teorias de pena ou acusações absurdas de que estaria se aproveitando da fama dele. E o pior: dentro de si mesma, a voz sussurrante da insegurança dizia que as pessoas estariam certas. Que ela não pertencia àquele quadro. Que, ao lado de Vinnie, ela parecia um erro de composição visual.

Uma lágrima quente escapou por entre seus cílios e escorreu pela bochecha, caindo silenciosamente sobre o travesseiro de algodão egípcio.

A porta de vidro que separava a sacada da cozinha foi aberta com um clique suave, seguido pelo aroma tentador de café fresco, torradas amanteigadas e bacon estaladiço. Vinnie entrou no quarto segurando uma bandeja de madeira, equilibrando-a com uma facilidade graciosa. Ele estava vestindo apenas uma calça de moletom cinza, os pés descalços e os cabelos louros caídos sobre a testa de maneira despretensiosa.

— Clara, você não vai acreditar no milagre que eu fiz — disse ele, abrindo um sorriso largo e iluminado que destacava a covinha no canto da boca. — As torradas ficaram douradas, não queimaram nem um pouco. Acho que estou evoluindo como ser humano.

Ele caminhou até o lado da cama e colocou a bandeja com cuidado sobre a mesa de cabeceira. Quando se virou para Clara com a intenção de puxar o edredom e enchê-la de beijos matinais, o sorriso em seus lábios desapareceu em uma fração de segundo.

O semblante do rapaz mudou completamente, os olhos castanho-esverdeados varrendo a postura encolhida dela, o rosto virado para a parede e o brilho úmido evidente em sua bochecha.

— Ei... — Vinnie sentou-se na beirada da cama, o colchão afundando sob seu peso. Sua voz desceu várias oitavas, tornando-se um sussurro carregado de apreensão genuína. — O que aconteceu? O que foi, amor?

Clara bloqueou a tela do celular com rapidez, virando o aparelho contra o peito em um gesto quase infantil de proteção. Ela tentou secar o rosto discretamente com a manga longa do moletom, mas o movimento trêmulo apenas denunciou ainda mais seu estado.

— Nada — respondeu ela, a voz falha traindo sua tentativa inútil de soar indiferente. — Nada não, Vinnie. Eu só... acabei de acordar meio sensível. Deve ser sono.

Vinnie franziu as sobrancelhas, os traços de seu rosto suavizando-se em uma preocupação profunda. Ele não era bobo. Conhecia cada nuance da linguagem corporal de Clara desde quando eram adolescentes, sabia ler o exato momento em que ela tentava se diminuir para caber em um canto invisível.

Com delicadeza absoluta, ele estendeu a mão grande e quente, pousando os dedos na bochecha dela para trazê-la gentilmente de volta ao seu campo de visão. Os polegares dele traçaram o caminho úmido da lágrima com uma ternura quase reverente.

— Não mente pra mim, Clara — pediu ele, os olhos cravados nos dela com uma intensidade que a desarmava por completo. — Estava tudo tão bem ontem à noite. Você tava sorrindo, a gente tava em paz. O que te machucou enquanto eu tava na cozinha?

Clara desviou o olhar, sentindo as lágrimas voltarem com mais força, ardendo atrás dos olhos.

— Não é nada que você tenha feito, de verdade — sussurrou ela, as palavras saindo com dificuldade por causa do nó em sua garganta. — Sou eu. Sou eu sendo idiota, como sempre.

O olhar de Vinnie desceu para o celular que ela segurava com tanta firmeza contra o peito. Ele soltou um suspiro pesado, compreendendo instantaneamente a fonte provável da dor. Naquele mundo hiperconectado em que ele vivia, as piores agressões quase sempre vinham através de telas de vidro.

— Me dá o telefone, Clara.

— Vinnie, por favor, não precisa...

— Clara, me dá o celular — insistiu ele, não com aspereza, mas com uma autoridade calma e firme. Ele esticou a palma da mão aberta, esperando pacientemente até que ela, vencida pelo cansaço emocional, colocasse o aparelho em seus dedos.

Assim que a tela se acendeu, o vídeo pausado de Chloe Campbell e dele surgiu em destaque. Vinnie apertou os olhos para ver do que se tratava, e sua expressão passou de preocupação para uma irritação gélida ao reconhecer o tipo de conteúdo. Ele leu a legenda em destaque, viu os comentários em primeiro plano e olhou de volta para a garota deitada à sua frente, que agora mantinha a cabeça baixa, os ombros encolhidos como se quisesse desaparecer dentro do moletom enorme.

Ele bloqueou o celular com um clique seco e o jogou sem cerimônia sobre a poltrona do outro lado do quarto, longe do alcance de ambos.

— Você tá chorando por causa disso? — perguntou ele, o tom de voz transbordando uma mágoa que não era de raiva, mas de dor por vê-la se torturar daquela maneira.

— Vinnie, olha pra ela — desabafou Clara, as comportas de sua insegurança finalmente se rompendo. Ela se sentou na cama, puxando os joelhos para o peito, a voz embargada pelo choro acumulado. — Olha para a Chloe. Olha para todas as meninas com quem a internet coloca o seu nome. Elas são... elas são modelos. Elas têm a barriga perfeita, as pernas compridas, rostos que parecem feitos para outdoors. E você olha os comentários e todo mundo diz que você merece alguém assim, que o padrão de vocês dois combina, que ela é bonita o bastante pra você.

As lágrimas escorriam livremente agora, manchando o tecido cinza da roupa que ela vestia.

— E aí eu olho pra mim — continuou ela, engolindo em seco, o peito subindo e descendo em respirações entrecortadas. — Eu sou a Clara. Eu sou gordinha, tenho pneuzinhos, celulite, os braços cheios, um corpo que as pessoas na internet usariam de chacota se soubessem que eu estou aqui na sua cama. Eu não sou estética, Vinnie. Eu não combino com você no feed de ninguém. E ver todo mundo achando que você deveria estar com alguém como ela só me faz lembrar do abismo que existe entre o seu mundo e eu.

O quarto mergulhou em um silêncio denso por alguns segundos, quebrado apenas pelos soluços abafados de Clara.

Vinnie não respondeu de imediato. Em vez disso, ele subiu de vez na cama, arrastando-se até ela com os joelhos no colchão. Suas mãos não hesitaram; ele passou os braços longos ao redor das costas dela, envolvendo-a completamente e puxando seu corpo inteiro de encontro ao peito nu. Clara tentou resistir por um breve segundo, constrangida por sua vulnerabilidade, mas o calor dele, o cheiro limpo e o pulsar rítmico do coração de Vinnie contra seu rosto foram suficientes para que ela desmoronasse, afundando os dedos nas costas musculosas do rapaz enquanto chorava em seu ombro.

Ele enterrou o rosto nos cabelos dela, apertando o abraço com uma força possessiva, quase desesperada.

— Cala a boca — sussurrou ele contra o ouvido dela, a voz tremendo de emoção reprimida. — Cala a boca, Clara, por favor. Nunca mais repete uma merda dessa.

— Vinnie...

— Não, me escuta — interrompeu ele, afastando-se apenas o suficiente para segurar o rosto dela com ambas as mãos, forçando-a a encará-lo nos olhos. O olhar de Vinnie brilhava com uma seriedade avassaladora, os nós dos dedos acariciando as maçãs do rosto dela com fervor. — Você acha mesmo que eu dou a mínima para o que uma pirralha de internet ou um monte de comentários de perfis falsos pensam sobre estética? Você acha que a minha vida é um editorial de moda?

— Eles não tão mentindo sobre o que o público acha...

— Eu não me importo com o público! — declarou ele, a voz firme ecoando pelas quatro paredes do quarto. — A Chloe? Eu conversei com ela durante cinco minutos naquela festa idiota porque o assessor de imprensa dela pediu para tirarmos uma foto juntos. Ela não sabe nada sobre mim. Ela não sabe o que me faz rir, ela não sabe quando eu tô tendo uma crise de ansiedade, ela não sabe absolutamente nada da pessoa real que existe por trás dessa porcaria de imagem que a internet cria. Nenhuma daquelas garotas sabe.

Ele desceu uma das mãos até a cintura de Clara, deslizando a palma quente sob a barra do moletom até alcançar a pele macia de seus quadris. Seus dedos apertaram a curva com firmeza e afeto, sem a menor sombra de hesitação ou nojo, traçando a linha arredondada de seu corpo com a reverência de quem toca algo sagrado.

— Você sabe — continuou Vinnie, respirando fundo enquanto encostava a testa na dela, os olhos fixos nos lábios entreabertos da garota. — Você me conhece desde quando eu era um moleque desajeitado que quebrava o skate na calçada da sua mãe. Você me viu chorar, me viu crescer, esteve comigo quando ninguém sabia quem era Vinnie Hacker. E você acha que um corpo padrão de passarela chega aos pés de tudo o que você é pra mim?

Clara fechou os olhos, as lágrimas cessando aos poucos sob a torrente de convicção daquelas palavras. A pele de sua cintura ardia onde a mão dele repousava, um calor reconfortante que parecia expulsar a frieza dos comentários cruéis da internet.

— Você é linda, Clara — disse ele, a voz agora rouca, vibrando no peito. — Não é uma beleza fabricada pra ganhar curtida em aplicativo. É você. Eu amo cada centímetro dessa maciez, amo o jeito como o seu corpo se encaixa perfeitamente no meu quando a gente dorme junto, amo suas curvas, amo quando você se espreguiça e fica toda manhosa na minha cama. Se eu pudesse escolher qualquer mulher desse planeta inteiro para acordar do meu lado todas as manhãs, seria você. Mil vezes você. Sem pensar por um segundo sequer.

— Você não tem medo? — sussurrou ela, abrindo os olhos lentamente para encarar a imensidão verde e castanha dos dele. — De um dia isso vir a público e caírem em cima de você? De dizerem que você perdeu status?

Vinnie soltou uma risada curta e sem humor, balançando a cabeça em negação.

— Minha única preocupação sempre foi e sempre vai ser te proteger — afirmou ele com absoluta firmeza. — Eu escondo a gente do mundo porque sei a podridão que existe na internet e não quero que você sofra com o veneno de gente vazia. Mas status? Foda-se o status, Clara. Foda-se a aprovação de gente que só liga para aparências. Se amanhã você acordar e disser: *“Vinnie, eu tô pronta, eu não ligo pro que falarem”*, eu posto uma foto nossa no feed do meu Instagram no mesmo minuto, marcando você, dizendo pro mundo inteiro que você é a minha mulher.

O coração de Clara deu um salto descompassado dentro do peito.

— Você faria isso? — perguntou ela, as bochechas corando sob a intensidade daquela confissão.

— Faria agora mesmo — respondeu ele sem pestanejar, inclinando-se para a frente até que seus lábios quase roçassem nos dela. — Só não fiz ainda porque respeito o seu tempo e a sua paz. Mas nunca mais ouse achar que você é menos do que ninguém. Muito menos por causa de uma modelo qualquer que só existe em foto editada. Você é real. Você é o meu refúgio.

Antes que ela pudesse formular qualquer outra dúvida, Vinnie selou a distância entre eles.

Foi um beijo carregado de uma paixão urgente e profunda, que não deixava espaço para inseguranças ou fantasmas virtuais. A boca dele tomou a dela com calma e vigor ao mesmo tempo, suas mãos segurando a cintura e a nuca de Clara com uma determinação que a fez esquecer por completo a existência de um mundo fora daquele quarto. As carícias dele desceram lentas, explorando as curvas de seu corpo com uma familiaridade carinhosa que apagava cada comentário maldoso, cada comparação infeliz que a internet havia tentado plantar em sua alma.

Quando o beijo terminou, ambos estavam sem fôlego. Vinnie permaneceu com a testa colada à dela, os olhos semicerrados em pura adoração enquanto uma de suas mãos brincava distraidamente com as pontas dos cabelos castanhos de Clara.

— Agora — murmurou ele, um sorriso suave finalmente voltando a desenhar seus lábios —, as torradas provavelmente esfriaram, mas eu ainda fiz o café do jeitinho que você gosta, com duas colheres de açúcar e um pingo de leite.

Clara soltou uma risada fraca e genuína, o peso de antes dissipando-se como fumaça ao vento. Ela passou os braços ao redor do pescoço dele, puxando-o para um abraço apertado, sentindo o calor firme de sua pele e a certeza silenciosa de que, não importava o quanto a internet criasse ilusões estéticas para o público, o coração dele pertencia apenas àquele quarto, e àquela garota.

— Eu quero o café — disse ela baixinho, o rosto aninhado na curva de seu pescoço.

— Seu pedido é uma ordem, minha princesa — respondeu Vinnie, beijando-lhe a têmpora demoradamente antes de se esticar até a mesinha para resgatar a bandeja, disposto a passar o restante da manhã provando a ela, em cada gesto, que não havia no mundo nenhum lugar onde ele preferisse estar.

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