Haaland
Ouro, Guitarras e o Peso do Sobrenome
O vestiário do Manchester City exalava o cheiro característico de grama cortada, spray de massagem e o suor de uma vitória por 3 a 0. Erling Haaland estava sentado em seu banco habitual, desamarrando as chuteiras com uma força desnecessária. Ele deveria estar celebrando; tinha marcado dois gols, mas sua mente estava presa nos vídeos que circulavam nas redes sociais desde a noite anterior.
Os vídeos do show do Airbag. Os vídeos de suas filhas.
— Cara, eu ainda não consigo acreditar — disse Jack Grealish, sentando-se ao lado dele com um iPad nas mãos, o rosto iluminado pela tela. — Olha o estilo da Sol na bateria. Ela tem aquele olhar de "eu vou destruir tudo", igualzinho ao seu quando está na pequena área, mas com baquetas. É surreal.
Erling soltou um grunhido baixo, mas Jack não parou. Phil Foden e Rodri se aproximaram, atraídos pela conversa.
— E a Maya e a Luna? — comentou Foden, soltando um assobio impressionado. — Elas têm uma presença de palco absurda. E o figurino? Aquela jaqueta de couro da Luna deve ter custado uma fortuna ou pertencer a algum astro do rock. Elas não parecem mais aquelas criancinhas que corriam aqui pelo CT.
— Elas cresceram, Phil — disse Rodri, cruzando os braços. — E cresceram bem. Estão vivendo na Argentina, não é? O clima lá é outro. Elas parecem... mais livres.
— Mais "cool", você quer dizer — corrigiu Grealish, virando a tela para Erling. — Olha esse post no Instagram. Já tem meio milhão de curtidas. Estão chamando elas de "As Princesas do Rock Nórdico". E aquele cara, o padrasto... como é o nome? Patrício? O cara é um monstro na guitarra, Erling. Ele faz um solo e as meninas olham para ele como se ele tivesse inventado a roda.
Erling sentiu uma pontada aguda de ciúme, uma sensação mais incômoda do que qualquer entrada faltosa que tivesse recebido em campo.
— Ele é apenas um músico — resmungou Haaland, finalmente levantando a cabeça. — Elas deveriam estar focadas nos estudos. Ou no esporte. Elas têm o meu DNA.
— Ah, qual é, Erling! — Jack riu, dando um tapa amigável no ombro do gigante. — O DNA delas é de estrela, seja no campo ou no palco. E vamos ser sinceros, aquele Patrício parece ser um cara muito firme. Ele postou uma foto hoje de manhã com elas tomando café, todos descabelados, e a legenda era "Minha nova banda de apoio". Ele as trata como se fossem dele, cara. Isso é raro.
— Elas NÃO são dele — rebateu Erling, a voz subindo uma oitava, fazendo o vestiário ficar momentaneamente silencioso. — Elas são minhas filhas.
Ele se levantou abruptamente e caminhou em direção aos chuveiros, deixando os companheiros trocando olhares cúmplices. Erling sabia que estava sendo irracional, mas ver a conexão profunda das filhas com Patrício Sardelli era como levar um gol nos acréscimos de uma final.
Naquela noite, em seu apartamento luxuoso e silencioso — Isabel tinha levado o pequeno Erik para visitar a família —, Erling não conseguiu evitar. Ele abriu o Instagram e começou a "stalkear" o perfil de Patrício.
Havia fotos recentes de um ensaio em Buenos Aires. Em uma delas, Patrício estava sentado no chão com Maya, ensinando-lhe uma progressão de acordes. O sorriso no rosto de Maya era algo que Erling não via há anos. Era um sorriso de admiração pura, de alguém que encontrou um mentor e um amigo.
Em outra postagem, uma foto de grupo: Maria, com a barriga de grávida bem visível, encostada em Patrício, cercada pelos irmãos Sardelli e pelas trigêmeas. A legenda dizia: "Família é onde a música não para".
Erling sentiu um nó na garganta. Ele se lembrou de quando Maria tentava sugerir que eles tirassem férias em algum lugar calmo, sem câmeras, e ele sempre priorizava os treinamentos ou eventos de patrocinadores. Ele achava que dar a elas uma vida de luxo em Manchester era o suficiente. Mas ali, naquela foto granulada tirada em uma cozinha bagunçada na Argentina, elas pareciam ter algo que o dinheiro dele nunca comprou: pertencimento.
O celular dele vibrou. Era uma mensagem no grupo da família que ele ainda mantinha com as filhas, embora raramente participasse.
— Pai, você viu o vídeo que a mamãe postou? — escreveu Luna. — O Pato disse que se a gente continuar praticando assim, podemos gravar uma música de verdade no próximo álbum deles!
Erling respirou fundo, os dedos pairando sobre o teclado.
— Legal, Luna. Mas não se esqueçam que vocês têm provas na semana que vem. A música é um hobby, a educação é o futuro.
O silêncio que se seguiu na conversa foi ensurdecedor. Minutos depois, Maya respondeu:
— O Pato diz que a música é a educação da alma, pai. E ele nos ajuda com a lição de casa de espanhol e história todo dia. Ele é muito inteligente.
Erling jogou o celular no sofá. "O Pato diz isso", "O Pato faz aquilo". Era insuportável.
Dois dias depois, Erling decidiu que precisava agir. Ele não podia competir com a música, mas podia lembrar às filhas quem ele era. Ele ligou para Maria.
— Erling? Aconteceu alguma coisa? — a voz de Maria soou calma, mas distante.
— Eu quero que as meninas venham passar o próximo final de semana comigo. Vou fretar o jato.
— Erling, elas têm um ensaio importante e o aniversário do Gastón, irmão do Patrício. Elas já se comprometeram.
— O aniversário de um estranho é mais importante do que o pai delas? — ele explodiu.
— Gastón não é um estranho, Erling. Ele é o tio que as ensinou a andar de skate no mês passado. Ele é a pessoa que está presente quando elas precisam de ajuda com o equipamento de som. Você não pode simplesmente exigir presença por decreto real.
— Eu sou o pai delas, Maria! Eu pago por tudo!
— Você paga as contas, Erling. Patrício paga com tempo. Há uma diferença — disse Maria, sua voz suavizando, mas carregada de uma verdade cortante. — Se você quer que elas queiram estar com você, pare de tentar ser um ídolo e comece a tentar ser um pai. Elas não precisam do seu jato; elas precisam que você se interesse pelo que elas amam.
Maria desligou, deixando Erling no vácuo de sua própria frustração.
Naquela mesma tarde, durante o aquecimento para o treino, Kevin De Bruyne aproximou-se de Erling.
— Vi que você estava meio tenso no vestiário outro dia — disse o belga, com sua franqueza habitual. — Escuta, eu tenho filhos. Eles crescem rápido. Se você lutar contra o que elas amam, você só vai empurrá-las para mais perto de quem as apoia.
— Eu só não entendo como elas mudaram tanto — confessou Erling, os ombros caindo. — Elas eram minhas meninas. Agora elas são... argentinas. Elas falam de rock, de churrasco, de uma vida que eu não conheço.
— Talvez você devesse conhecer — sugeriu Kevin. — Em vez de se sentir ameaçado pelo guitarrista, por que não tenta entender o que ele dá a elas que você não deu?
Erling passou o resto do treino em silêncio. As palavras de Maria e Kevin ecoavam em sua mente.
Naquela noite, ele fez algo que nunca imaginou fazer. Ele pegou o telefone e, em vez de mandar uma mensagem autoritária, enviou um link para Luna. Era um vídeo de um show antigo de uma banda de rock norueguesa que ele gostava quando era criança.
— Eu costumava ouvir isso antes dos jogos quando era moleque — escreveu ele. — Talvez vocês gostem da linha de baixo.
Dez minutos depois, o celular explodiu de notificações.
— PAI! Isso é demais! — escreveu Sol. — O Pato conhece essa banda! Ele disse que eles foram uma grande influência para o rock europeu nos anos 90!
— Sério? — Erling digitou, sentindo uma pequena, mas real, vitória.
— Sim! — Maya entrou na conversa. — Ele disse que se você gosta disso, você tem bom gosto escondido sob essa marra de jogador. Ele riu e disse que ia tentar tirar o riff dessa música para a gente tocar juntos quando você vier nos buscar da próxima vez.
Erling sentiu o ciúme diminuir um milímetro, substituído por uma estranha sensação de alívio. Patrício não estava tentando apagá-lo; ele estava, de certa forma, tentando criar uma ponte.
— Digam a ele... — Erling hesitou, os dedos tremendo levemente — ...digam a ele que se ele conseguir tirar o riff, eu quero ouvir.
A resposta veio em forma de um áudio. Não era das meninas, mas de Patrício.
— — Fala, Erling — a voz do músico era rouca e tranquila, com o sotaque argentino marcado. — O riff é clássico, cara. Bom gosto. As meninas estão empolgadas. Quando estiver por aqui, aparece para um "asado". Eu cuido da grelha, você traz as histórias de gol, e a gente deixa elas mostrarem o que aprenderam. Sem pressão, de homem para homem.
Erling ouviu o áudio três vezes. Ele olhou para a parede de sua sala, repleta de troféus e camisas emolduradas. Pela primeira vez, aquilo pareceu um pouco frio demais.
Ele pegou o celular e respondeu ao grupo:
— Combinado. Mas eu levo o vinho. E avisem ao Patrício que eu ainda sou melhor no futebol do que ele jamais será na guitarra.
As meninas responderam com emojis de risada e corações. Maria, que observava a interação pelo celular das filhas em Buenos Aires, sorriu e encostou a cabeça no ombro de Patrício.
— Ele está cedendo — sussurrou ela.
— Ele é um competidor, Maria — disse Patrício, beijando o topo da cabeça dela. — Ele só precisava entender que, nesta banda, ninguém quer roubar o solo de ninguém. Há espaço para todos no palco.
Enquanto isso, em Manchester, Erling Haaland abria o Spotify. Ele não buscou por "músicas para treinar" ou "batidas de alta intensidade". Ele buscou por "Airbag".
Enquanto os primeiros acordes de uma balada rock argentina preenchiam o quarto, o gigante norueguês fechou os olhos. Ele ainda tinha ciúmes, ainda sentia o peso do novo filho que Maria esperava, e ainda odiava o fato de não ser mais o centro do universo delas. Mas, pela primeira vez, ele estava disposto a aprender a harmonia daquela nova canção.
Afinal, ele era um Haaland. E Haalands nunca desistiam de um jogo, mesmo quando as regras mudavam completamente. Ele ia reconquistar o respeito das filhas, não com gols, mas com a disposição de estar presente na primeira fila, mesmo que o show não fosse dele.