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Haaland

Sinfonia de Egos e Echoes

O ar de Buenos Aires naquela manhã de sábado estava impregnado com o cheiro de jasmim e a promessa de um calor intenso. Na casa de Maria e Patrício, o caos era uma coreografia bem ensaiada. Luna afinava o baixo, Sol testava a tensão das peles da bateria e Maya organizava as pastas de partituras digitais. Maria, agora com cinco meses de gravidez, movia-se com uma serenidade que contrastava com a energia elétrica das filhas.

O som de uma buzina de carro de luxo interrompeu o ensaio improvisado na sala. As trigêmeas pararam instantaneamente.

— É ele — disse Sol, largando as baquetas. — O papai chegou.

Maria olhou para Patrício, que estava sentado no sofá com sua Gibson repousando no colo. Ele deu um sorriso encorajador e piscou para ela.

— Relaxa, amor. É apenas um almoço. O "asado" já está quase no ponto, e o Gastón prometeu não fazer piadas sobre a Champions League.

Quando a porta se abriu, Erling Haaland entrou. Ele parecia um titã nórdico em solo latino, vestindo roupas de grife em tons neutros que pareciam formais demais para o ambiente descontraído. Ele trazia duas garrafas de um vinho caro e uma sacola de uma loja de brinquedos de elite — provavelmente para o bebê que ainda nem nascera.

— Oi, meninas — disse Erling, abrindo os braços.

As três o abraçaram com carinho, mas o abraço durou menos do que ele esperava. Elas logo voltaram para perto de seus instrumentos, ansiosas para mostrar algo.

— Pai, você chegou bem na hora! — exclamou Maya. — O Pato estava nos ajudando a entender como o baixo e a bateria precisam "conversar" no refrão. Quer ouvir?

Erling forçou um sorriso, seus olhos desviando para Patrício, que se levantou e estendeu a mão.

— Bem-vindo à nossa bagunça, Haaland — disse Patrício, com a voz rouca e amigável. — O vinho parece excelente. Vou colocar para decantar enquanto as meninas dão o show delas.

Erling apertou a mão do músico. Comparado ao aperto de mão de um defensor da Premier League, o de Patrício era firme, mas havia uma leveza de quem usava as mãos para criar, não para destruir.

— Obrigado — respondeu Erling, sentando-se em uma cadeira de vime que parecia pequena demais para ele.

As meninas começaram a tocar. Não era mais o som amador de meses atrás. Havia uma coesão, uma atitude rock que elas certamente não haviam herdado dos treinos de atletismo. Sol atacava os pratos da bateria com uma fúria técnica, Luna mantinha o groove estável e Maya cantava com uma voz que misturava a doçura de Maria com a potência que só a juventude proporciona.

Erling observava em silêncio absoluto. Ele olhou para o lado e viu Maria encostada no batente da porta, observando as filhas com um orgulho que brilhava nos olhos. Por um momento, ele sentiu um vazio. Aquela era a vida delas agora. Elas não falavam mais sobre recordes de velocidade; falavam sobre distorção, pedais de efeito e letras de música.

— Elas são boas, não são? — perguntou Patrício, aproximando-se de Erling com um copo de água. — Elas têm uma disciplina que eu nunca vi em iniciantes. Imagino que isso venha de você. Esse foco absoluto.

Erling olhou para o músico, surpreso pelo reconhecimento.

— Eu sempre exigi excelência — admitiu Erling. — Mas nunca imaginei que seria... nisso.

— A paixão é a mesma, Haaland. Só muda o campo de jogo — comentou Patrício, antes de se afastar para ajudar Sol com um ajuste no pedal.

O almoço foi servido no pátio, sob a sombra de uma grande árvore. Gastón e Guido Sardelli chegaram logo depois, trazendo uma energia ruidosa que inicialmente deixou Erling desconfortável. Eles falavam sobre a turnê, sobre cordas de guitarra quebradas e sobre a comida, tratando Erling não como uma divindade do futebol, mas como o "pai das meninas".

— Então, Erling — disse Gastón, servindo-se de uma generosa fatia de carne —, ouvimos dizer que você é um monstro na área. Mas me diga, você já tentou tocar alguma coisa?

— Eu foco no que sou bom — respondeu Erling, seco, mas sem agressividade. — Meus dedos servem para equilibrar o corpo na corrida, não para dedilhar.

— Uma pena — riu Guido. — Com esse tamanho de mão, você alcançaria acordes que eu só sonho em fazer.

As meninas riram, e a tensão começou a se dissipar. Maria observava a cena, sentindo o bebê chutar. Ela pegou a mão de Patrício por debaixo da mesa e a apertou. Ele retribuiu o gesto, mantendo os olhos em Erling.

— E como está o pequeno Erik? — perguntou Maria, tentando incluir o passado de forma saudável na conversa.

— Está bem — disse Erling, sua expressão suavizando ao falar do filho mais novo. — Ele já está chutando bolas de pelúcia pela casa toda. Isabel acha que ele vai ser canhoto.

— Mais um para o time — disse Patrício, levantando o copo. — Que ele tenha a força do pai.

Erling assentiu, aceitando o brinde. Mas o momento de paz foi testado quando Luna se levantou e trouxe um álbum de fotos.

— Pai, olha isso! O tio Gastón nos levou para conhecer o estúdio onde eles gravaram o último disco. Nós até gravamos nossas vozes de teste em uma faixa!

Erling folheou o álbum. Em cada foto, as filhas estavam rodeadas pelos irmãos Sardelli. Elas pareciam radiantes. Em uma foto específica, Patrício estava com o braço em volta de Luna e Sol, enquanto Maya fazia uma careta engraçada para a câmera. Era a imagem de uma família perfeita. Uma família da qual Erling não fazia parte.

O ciúme, aquele monstro verde que ele tentava domar, rugiu em seu peito. Ele olhou para Patrício, que estava rindo de uma piada de Guido.

— Você passa muito tempo com elas — afirmou Erling, não como uma pergunta, mas como uma acusação velada.

A mesa ficou em silêncio. Patrício pousou o garfo e olhou diretamente para Erling.

— Passo o tempo que elas me permitem, Erling. Elas moram aqui. Eu as vejo acordar, as ajudo com os problemas da escola e as escuto quando estão tristes. É o que um companheiro da mãe delas faz.

— Elas têm um pai — retrucou Erling, a voz ficando mais grave.

— Eu sei que têm — disse Patrício, mantendo a calma. — E elas te amam. Mas o amor não é um recurso limitado, Haaland. Elas terem carinho por mim não diminui o que sentem por você. Na verdade, acho que elas são mais felizes porque têm mais pessoas cuidando delas.

— Erling, por favor — interveio Maria, sua voz firme. — Não estrague o dia. Patrício tem sido um apoio incrível para elas, especialmente na transição para a Argentina.

Erling olhou para as filhas. Luna, Sol e Maya observavam a interação com expressões de ansiedade. Elas temiam que o pai fizesse uma cena, que ele diminuísse o mundo que elas aprenderam a amar.

Erling suspirou, sentindo-se, pela primeira vez na vida, em desvantagem numérica e emocional. Ele não estava em um estádio onde podia resolver as coisas marcando um gol. Ele estava em uma mesa de família, onde o poder era medido por empatia e presença.

— Eu só... — Erling hesitou, buscando as palavras em seu vocabulário limitado para emoções — ...eu só não quero ser esquecido.

As trigêmeas se levantaram quase ao mesmo tempo e foram até ele.

— Você nunca vai ser esquecido, pai! — disse Maya, abraçando-o pelo pescoço. — Você é o nosso viking.

— É — completou Sol. — Mas agora você é um viking com uma banda de rock de apoio.

O comentário arrancou uma risada geral, até mesmo de Erling. A tensão quebrou.

Mais tarde, enquanto as meninas levavam os tios Sardelli para verem uma nova técnica de bateria no estúdio dos fundos, Erling e Patrício ficaram sozinhos na varanda. Maria tinha ido descansar um pouco.

— Eu vi o vídeo que você mandou para elas — disse Patrício, encostado no parapeito. — Aquela banda norueguesa. O riff de abertura é matador.

— É uma boa música — admitiu Erling.

— Eu tirei a cifra dela — continuou Patrício, tirando uma palheta do bolso e girando-a entre os dedos. — Se você quiser, posso te ensinar o básico. Só para você tocar com elas na próxima vez que vier. Seria uma surpresa e tanto.

Erling olhou para o músico com descrença.

— Você quer me ensinar a tocar?

— Por que não? — Patrício deu de ombros. — Elas ficariam loucas de alegria. E, honestamente, Haaland, você tem mãos de pianista, apesar de dizer que não. Seria uma forma de você entrar no mundo delas, em vez de tentar puxá-las de volta para o seu.

Erling pensou na proposta. A ideia de sentar e aprender algo com o homem que agora ocupava o lugar que um dia foi seu era absurda. Mas a ideia de ver o brilho nos olhos de Luna e Maya ao vê-lo com uma guitarra na mão era tentadora.

— Eu não prometo que serei bom — disse Erling, com seu espírito competitivo brilhando. — Se eu fizer isso, quero ser o melhor aluno que você já teve.

Patrício riu alto, uma risada genuína.

— É assim que se fala. Vamos começar com o básico. Mas primeiro, me conte: como é marcar um gol em um estádio lotado? As meninas dizem que é o som mais alto do mundo, mas eu acho que elas nunca ouviram um amplificador Marshall no volume dez.

Os dois homens começaram a conversar, uma conversa que não era sobre Maria, nem sobre a traição do passado, mas sobre a sensação de êxtase que o desempenho em alto nível proporcionava.

Lá de dentro, Maria observava a cena pela janela da cozinha. Ela viu o gigante loiro e o músico de cabelos compridos gesticulando, compartilhando experiências de mundos tão diferentes, mas unidos pelo amor às mesmas três meninas — e ao quarto que estava a caminho.

Ela sentiu uma paz profunda. O divórcio tinha sido uma guerra, a mudança para a Argentina tinha sido uma fuga, mas aquele momento... aquele momento era a cura.

Ao final da tarde, quando Erling se preparava para ir embora, ele parou diante de Maria.

— Você parece feliz, Maria — disse ele, de forma simples.

— Eu estou, Erling. Finalmente estou.

— O Patrício... ele é um bom homem — admitiu Erling, as palavras saindo com dificuldade, mas com honestidade. — Ele me convidou para o casamento.

— E você vem? — perguntou ela, prendendo a respiração.

Erling olhou para as filhas, que acenavam da porta, e depois para Patrício, que segurava uma guitarra como se fosse uma extensão de seu próprio corpo.

— Eu estarei lá. Mas não espere que eu dance tango.

— Um passo de cada vez, Erling — riu Maria.

Enquanto o carro de Erling se afastava, as trigêmeas cercaram Patrício e Maria.

— O que vocês conversaram lá fora? — perguntou Luna, curiosa.

— Ah, nada demais — disse Patrício, piscando para Maria. — Só estávamos combinando a escalação do próximo "show".

A noite caiu sobre Buenos Aires, e o som de uma guitarra começou a ecoar da sala. Não era um solo complexo de Patrício, mas sim Maya praticando a melodia que o pai havia sugerido. O eco do passado de Manchester ainda estava lá, mas agora ele não era mais um ruído de dor; era apenas mais uma nota em uma sinfonia nova, mais rica e muito mais bonita.

Maria sentou-se na poltrona, ouvindo a música e sentindo o movimento em seu ventre. Ela sabia que a estrada à frente ainda teria seus desafios, especialmente com a chegada do novo bebê e a constante presença da mídia, mas com Patrício ao seu lado e Erling finalmente encontrando seu lugar como um pai presente e respeitoso, a melodia de sua vida nunca soou tão afinada.

— Próxima música? — perguntou Sol, posicionando as baquetas.

— "The Winner Takes It All", do ABBA? — sugeriu Guido, entrando na sala com mais pizzas. — Só para homenagear as raízes nórdicas do nosso convidado que acabou de sair.

— Não — disse Patrício, pegando sua guitarra e olhando para Maria. — Vamos tocar algo novo. Algo que a gente ainda está compondo.

E assim, entre acordes de rock e o calor de um lar reconstruído, a família Sardelli-Haaland encontrou seu ritmo. O ciúme deu lugar à curiosidade, a competição deu lugar à colaboração, e o amor, que um dia Maria pensou ter perdido para sempre, floresceu em solo argentino, mais forte do que qualquer estádio lotado e mais eterno do que qualquer canção de rádio.