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Happy?

O Peso do Ar entre as Estantes

A luz do dia seguinte parecia agressiva demais para Sua. O reflexo no espelho do banheiro mostrava o que uma noite inteira de soluços contidos no travesseiro podia fazer: seus olhos roxos estavam inchados, a pele, geralmente pálida como porcelana, parecia acinzentada, e a expressão de "pessoa morta" que ela costumava carregar por puro cansaço agora era uma máscara real de desolação.

No corredor de casa, ela cruzou com Ivan. Ele estava terminando de ajustar a gravata, com um pirulito de cereja no canto da boca. Ele parou por um segundo, analisando o estado deplorável da irmã. Ivan sabia que ela tinha chorado; as paredes da casa não eram tão grossas assim, e o silêncio da madrugada fora interrompido pelos suspiros pesados vindo do quarto ao lado.

— Você está horrível, Sua — disse Ivan, sem qualquer traço de empatia na voz. — Se for para morrer, morra depois da escola. Não quero ter que carregar seu cadáver no ônibus.

Sua nem sequer o olhou. Ela apenas passou por ele, o ombro batendo de leve no dele, e saiu em direção ao colégio. Ivan deu de ombros, revirando os olhos. Ele não tinha tempo para os dramas melancólicos da irmã; tinha doces para comer e um certo garoto de cabelos cinzas para atormentar.

Ao chegar na escola, o ambiente parecia sufocante. Sua tentou se esconder atrás de seus livros, mas Hyuna a encontrou em tempo recorde. A amiga não disse nada a princípio, apenas envolveu Sua em um abraço protetor que quase a fez desmorar de novo.

— Eu estou aqui — sussurrou Hyuna. — O dia todo. Se ela respirar perto de você, eu resolvo.

Durante as primeiras aulas, Hyuna cumpriu a promessa. Ela se sentou ao lado de Sua, trocando bilhetes engraçados para tentar arrancar um sorriso da amiga, embora sem sucesso. No intervalo, Hyuna rosnava para qualquer um que olhasse demais para os olhos inchados de Sua. No entanto, a bolha de proteção foi rompida quando Luka apareceu.

— Hyuna, você pode me ajudar com a organização do Grêmio? — Luka perguntou, ajeitando os óculos com um nervosismo evidente. — O diretor está cobrando os relatórios e você é a única que sabe onde estão as chaves da sala de arquivos.

Hyuna olhou para Sua, hesitante.

— Vai, Hyuna — murmurou Sua, com a voz rouca. — Eu vou para a biblioteca. É o único lugar onde o barulho não me machuca hoje.

— Tem certeza? — Hyuna cerrou os punhos, olhando feio para Luka, que encolheu os ombros.

— Tenho. Eu preciso de silêncio.

Sua caminhou a passos lentos até a biblioteca, um santuário de prateleiras altas e cheiro de papel antigo. Ela se escondeu em uma mesa nos fundos, cercada por livros de poesia que ninguém lia há anos.

Enquanto isso, no pátio, o caos habitual reinava. Ivan tinha encurralado Till perto dos armários externos.

— O que foi, Till? O rock ontem estava tão alto que esqueceu como se usa o cérebro? — Ivan ria, segurando o caderno de partituras de Till acima da cabeça, aproveitando-se da sua altura superior.

— Devolve isso, seu desgraçado! — Till saltou, o rosto vermelho de fúria. — Eu vou quebrar cada dente dessa sua cara de playboy!

— Tente, baixinho. Tente e eu te dou um doce para consolar o seu fracasso.

Ivan estava tão focado em ver as veias saltarem no pescoço de Till que nem percebeu Mizi se afastando. Geralmente, ela estaria ali, rindo da briga ou incentivando a confusão, mas hoje Mizi estava inquieta. O brilho dourado de seus olhos parecia opaco. Ela sentia um peso estranho no estômago toda vez que lembrava da expressão de Sua no dia anterior.

Sem rumo, Mizi acabou entrando na biblioteca. Ela não queria ler; queria apenas um lugar para tirar um cochilo e fugir dos próprios pensamentos. Ela caminhou entre as estantes, sem notar a figura encolhida de Sua a alguns metros de distância. Mizi se jogou em uma poltrona macia, fechando os olhos, mas o sono não vinha.

— Mizi? Você por aqui? Que milagre!

Mizi abriu um olho. Era Ruby, uma garota do segundo ano. Ela tinha cabelos loiros longos, olhos azuis vibrantes e um sorriso que sempre parecia estar tentando conquistar alguém.

— Oi, Ruby — respondeu Mizi, sem muita animação.

— Fiquei sabendo que você vai dar aquela festa depois da formatura — Ruby sentou-se na beirada da mesa próxima, ignorando o aviso de silêncio da bibliotecária. — Eu queria saber se posso levar umas amigas. Você sabe, a gente podia se conhecer melhor antes disso...

Mizi forçou um sorriso. Ruby era bonita e popular, o tipo de pessoa com quem Mizi normalmente adoraria conversar para passar o tempo.

— Claro, Ruby. Quanto mais gente, melhor.

Do outro lado da estante, Sua sentiu o coração despencar. Ela conseguia ver as duas através de uma fresta entre os livros. Ver Mizi conversando tão normalmente, sorrindo para outra garota como se nada tivesse acontecido, como se o mundo de Sua não tivesse sido estraçalhado em mil pedaços menos de vinte e quatro horas atrás, era uma tortura refinada.

O ciúme ardeu, uma chama fria e dolorosa. Sua queria levantar, gritar, exigir uma explicação, mas ela não tinha esse direito. Ela nunca teve.

Mizi, sentindo-se observada, virou o rosto por instinto. Seus olhos dourados encontraram os olhos roxos de Sua por uma fração de segundo. O impacto foi quase físico. Sua desviou o olhar imediatamente, a cabeça baixando com tanta rapidez que o cabelo preto cobriu seu rosto como uma cortina. Para Sua, aquele contato visual queimava como fogo.

Mizi sentiu um aperto no peito. Ela ignorou Ruby por um momento, o olhar fixo no lugar onde Sua estava.

— Mizi? Você está me ouvindo? — Ruby perguntou, tocando o braço de Mizi.

— Ah, sim. Desculpe, Ruby. Eu... eu lembrei que tenho que resolver uma coisa. A gente se fala depois, tá?

Ruby pareceu confusa, mas deu um tchauzinho e saiu da biblioteca.

Mizi ficou parada por alguns segundos. O silêncio da biblioteca agora parecia carregado de eletricidade estática. Ela olhou para os pufes coloridos dispostos perto da seção de literatura clássica, onde Sua estava sentada, tentando desesperadamente parecer que estava lendo um livro de cabeça para baixo.

Com passos hesitantes, Mizi caminhou até lá. Ela não foi diretamente para a mesa de Sua, mas sentou-se em um pufe a pouco mais de um metro de distância. O silêncio entre elas era denso, quase sólido.

Sua não se mexeu. Ela sentia a presença de Mizi, o perfume leve de flores que ela sempre usava. A respiração de Sua estava curta, errática.

— Sua? — Mizi chamou baixo.

Sua não respondeu. Suas mãos tremiam levemente sobre as páginas do livro.

— Olha... — Mizi começou, passando a mão pelo cabelo rosa e azul, um gesto nervoso que ela raramente mostrava. — Eu pensei muito sobre ontem. Na verdade, eu não consegui pensar em outra coisa.

Sua finalmente levantou os olhos, mas não encarou Mizi diretamente. Ela olhou para o chão, para os sapatos impecáveis da garota à sua frente.

— Você não precisa dizer nada, Mizi — a voz de Sua era um sussurro quebradiço. — Você já deixou bem claro o que pensa.

— Não! — Mizi exclamou, baixando o tom logo em seguida ao receber um olhar reprovador da bibliotecária. — Eu agi como uma idiota. Eu entrei em pânico, Sua. Eu nunca... ninguém nunca tinha falado aquilo para mim. E eu fui cruel. Eu disse coisas que eu não devia ter dito.

Mizi inclinou-se para frente, tentando buscar o olhar de Sua.

— Eu não acho que você seja nojenta. E eu não acho que o que você sente seja doentio. Eu só... eu fiquei com medo. Medo de perder a nossa amizade, medo do que as pessoas iam falar, medo de não saber como reagir.

Sua finalmente olhou para ela. As lágrimas, que ela achava terem secado durante a noite, voltaram a brilhar nos cantos de seus olhos roxos.

— Você me machucou muito, Mizi.

— Eu sei. E eu me odeio por isso — disse Mizi, e pela primeira vez, a garota que parecia ter a vida perfeita parecia genuinamente vulnerável. — Eu não sei se consigo corresponder ao que você sente... eu ainda estou muito confusa. Mas eu não quero te perder. Você é importante demais para mim. Me desculpa? Por favor?

Sua olhou para Mizi por um longo tempo. O ciúme de minutos atrás, a dor da rejeição, a melancolia profunda... tudo parecia lutar dentro dela. Mas, ao ver o arrependimento sincero nos olhos dourados de Mizi, a barreira de Sua começou a ceder.

— Eu te desculpo — disse Sua, a voz ainda trêmula. — Mas não espere que tudo volte ao normal hoje.

Mizi soltou um suspiro de alívio, um sorriso pequeno e triste surgindo em seus lábios.

— Eu sei. Eu vou me esforçar para consertar isso. Eu prometo.

Elas ficaram ali, sentadas próximas no silêncio da biblioteca. O clima ainda era estranho, a ferida ainda estava aberta, mas, pela primeira vez desde a declaração desastrosa, o ar entre elas não parecia mais tão pesado. E, embora Mizi ainda não entendesse o que sentia, ela sabia que não queria estar em nenhum outro lugar, senão ali, perto da garota de olhos roxos que via o mundo de um jeito que ela ainda estava tentando aprender a enxergar.