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Happy?

Labirintos de Vidro e Beijos de Neon

Dois dias haviam se passado desde a conversa na biblioteca, e o clima entre o grupo de amigos era uma mistura bizarra de alívio e uma tensão que ninguém conseguia nomear. Mizi e Sua haviam voltado a se falar, mas a dinâmica estava diferente. Mizi parecia mais cautelosa, menos explosiva em suas brincadeiras, enquanto Sua tentava enterrar a tristeza de saber que seus sentimentos não eram recíprocos sob uma camada de resignação silenciosa.

Naquela noite de sexta-feira, todos estavam reunidos na casa de Hyuna. Os pais dela haviam viajado, o que significava que a sala de estar, ampla e decorada com pôsteres de bandas indie, pertencia a eles. As luzes estavam apagadas, exceto por alguns fios de LED azul que Hyuna mantinha acesos, criando sombras longas e dramáticas.

— Eu juro, se esse palhaço aparecer de novo, eu vou embora — resmungou Till, encolhido em um canto do sofá, abraçando os próprios joelhos.

— É só um filme, Till. Não seja um bebê — provocou Ivan, sentado no chão, cercado por embalagens de balas e chocolates. Ele parecia perfeitamente confortável, embora seus olhos pretos brilhassem com o reflexo da TV toda vez que Till levava um susto.

Sua estava sentada na outra ponta do sofá, o mais longe possível de Ivan. Ela estava praticamente fundida ao estofado, cobrindo metade do rosto com a gola do suéter. Cada vez que a trilha sonora do filme de terror aumentava, ela fechava os olhos com força, o coração batendo contra as costelas.

Mizi estava no meio, entre Sua e Hyuna. Ela parecia a única, junto com a dona da casa, que estava realmente se divertindo. Seus olhos dourados estavam fixos na tela, e ela ria toda vez que alguém morria de forma sangrenta.

— Olha só aquele efeito especial! — Mizi exclamou, batendo palmas. — Parece geleia de morango!

— Mizi, por favor, cala a boca — implorou Sua, a voz abafada pelo tecido do suéter.

Luka, sentado em uma poltrona lateral, olhava mais para Hyuna do que para o filme. Ele tentava manter a postura de "nerd intelectual inabalável", mas seus dedos tamborilavam nervosamente no braço da poltrona.

Quando os créditos finalmente começaram a rolar, um suspiro coletivo de alívio — vindo principalmente de Till e Sua — preencheu a sala.

— Chega de cinema por hoje — anunciou Hyuna, levantando-se para acender a luz principal, fazendo todos piscarem, ofuscados. — Vamos jogar algo para animar. Verdade ou Desafio.

— Que clichê, Hyuna — Ivan disse, embora já estivesse se posicionando em círculo no tapete. — Mas aceito, se eu puder fazer o Till confessar que dorme com uma luz noturna de dinossauro.

— Eu não durmo com luz nenhuma, seu idiota! — Till rebateu, o rosto ficando cinza de raiva.

O grupo se acomodou em um círculo no chão. Luka sentou-se ao lado de Hyuna, Ivan ficou de frente para Till, e Mizi acabou sentada exatamente ao lado de Sua. O contato entre seus ombros fez Sua estremecer, mas ela tentou manter a expressão "morta" e cansada de sempre.

A garrafa de vidro de refrigerante girou no centro do círculo. O gargalo apontou para Ivan, e a base para Luka.

— Verdade ou desafio, quatro-olhos? — perguntou Ivan, com um sorriso predatório.

— Verdade — respondeu Luka, cauteloso.

— É verdade que você tem uma pasta no seu computador com fotos da Hyuna que você tirou sem ela ver?

— O quê?! Não! — Luka quase engasgou, o rosto ficando vermelho instantaneamente. — Eu sou um nerd, Ivan, não um stalker! Eu só... eu só admiro a estética dela!

Hyuna soltou uma gargalhada alta, dando um tapinha nas costas de Luka, que parecia querer ser abduzido por alienígenas naquele exato momento.

O jogo continuou. Till foi desafiado por Mizi a comer uma colher de canela (e quase morreu tossindo), Ivan teve que contar qual era o seu maior mico (que envolveu cair em uma fonte de shopping perseguindo um carrinho de algodão doce), e o clima estava ficando cada vez mais descontraído.

Até que a garrafa girou novamente.

O gargalo parou em Mizi. A base, em Hyuna.

Hyuna sorriu de um jeito que Sua conhecia muito bem. Era o sorriso de quem estava prestes a causar um terremoto. Ela sabia o que tinha acontecido na escola. Sabia da homofobia inicial de Mizi e da tristeza profunda de Sua. E Hyuna, sendo a força da natureza que era, decidiu que o "status quo" precisava ser quebrado.

— Mizi, meu amor — disse Hyuna, apoiando o queixo na mão. — Verdade ou desafio?

Mizi, sentindo-se invencível como sempre, jogou o cabelo rosa para trás e deu de ombros.

— Desafio, óbvio. Não sou covarde como o Luka.

— Ei! — protestou Luka, mas ninguém ouviu.

Hyuna olhou diretamente para Sua por um milésimo de segundo antes de voltar seus olhos azuis para Mizi.

— Eu desafio você a dar um beijo na Sua. Agora. Na frente de todo mundo.

O silêncio que se seguiu não foi apenas um silêncio comum; foi um vácuo. O som do relógio na parede parecia ter o volume de um trovão. Till parou de tossir canela, Ivan congelou com uma bala no meio do caminho para a boca, e Luka simplesmente arregalou os olhos, sem saber para onde olhar.

Sua sentiu o sangue sumir completamente de suas extremidades. Ela sentiu vontade de chorar, de correr, de gritar com Hyuna por ser tão inconsequente. Mizi a odiaria. Mizi diria que era nojento de novo. Mizi sairia da sala e a amizade delas, que estava sendo reconstruída com tanto cuidado, viraria cinzas.

— Hyuna, para com isso — murmurou Sua, a voz quase inaudível, os olhos roxos fixos no tapete. — Não é engraçado.

Mas todos os olhares se voltaram para Mizi. E o que encontraram não foi a reação esperada.

Mizi não parecia brava. Ela não parecia enojada. Na verdade, ela não parecia nada. Sua expressão era um branco absoluto, uma tela vazia que ninguém ali conseguia decifrar. Não havia hesitação, não havia o pânico do dia da declaração, nem a timidez que costuma acompanhar adolescentes em jogos de beijo.

Mizi apenas se moveu.

Ela se arrastou para o lado, diminuindo a pequena distância que a separava de Sua no tapete. O grupo prendeu a respiração em uníssono. Ivan inclinou-se para frente, a expressão de deboche substituída por uma curiosidade genuína e chocada.

Mizi estendeu a mão esquerda e a apoiou firmemente na coxa de Sua. O toque foi possessivo, quente através do tecido fino da calça. Sua sentiu um choque elétrico percorrer sua espinha, seus pulmões parando de funcionar.

Com a outra mão, Mizi tocou a clavícula de Sua, subindo os dedos longos e delicados até o queixo da garota pálida. Ela inclinou a cabeça de Sua para cima, forçando-a a encontrar seus olhos dourados.

— Mizi... — Sua tentou protestar, mas o nome morreu em seus lábios.

Mizi não esperou. Ela se inclinou e colou seus lábios nos de Sua.

No primeiro segundo, o grupo esperava um selinho rápido, algo para cumprir o desafio e acabar com o constrangimento. Mas Mizi tinha outros planos.

Ela aprofundou o beijo com uma determinação avassaladora. Sua sentiu a língua de Mizi pedindo passagem, invadindo sua boca com uma fome que não condizia com a amizade "normal" que elas fingiam ter. O beijo era quente, úmido e desesperado. Mizi puxou o corpo de Sua para mais perto, ignorando completamente as outras cinco pessoas na sala.

— Meu Deus... — sussurrou Till, o rosto vermelho.

— Caramba — Ivan murmurou, os olhos arregalados, o pirulito caindo de sua mão no tapete.

Hyuna estava com um sorriso triunfante, embora até ela estivesse surpresa com a intensidade da cena. Luka estava tão chocado que parecia ter esquecido como se pisca.

Sua estava em transe. O mundo havia desaparecido. Não havia mais filme de terror, não havia mais escola, não havia mais Ivan ou Hyuna. Havia apenas o gosto de Mizi, a pressão de suas mãos e a percepção estonteante de que aquilo não era apenas um desafio. Mizi estava beijando-a como se estivesse querendo provar algo para si mesma.

Depois de longos segundos que pareceram horas, Mizi se afastou. Ela não estava ofegante, mas suas bochechas tinham um leve rubor rosado que combinava com seu cabelo. Ela olhou para Sua por um momento — um olhar intenso, carregado de algo que Sua não conseguiu entender — e então, com a maior naturalidade do mundo, voltou para o seu lugar original no círculo.

Mizi esticou o braço e segurou a garrafa de vidro.

— Minha vez de girar, certo? — disse ela, a voz firme, como se não tivesse acabado de implodir a realidade de sua melhor amiga na frente de todos.

O grupo explodiu.

— QUE DIABOS FOI ISSO, MIZI?! — gritou Till, levantando-se de um salto.

— Mizi, você é uma lenda! — Hyuna ria, batendo palmas, enquanto Luka tentava procesar o que tinha visto.

— Eu não sabia que você tinha esse fogo todo, "herdeira" — zombou Ivan, embora sua voz tivesse um tom de respeito inédito. — Acho que a Sua morreu de verdade agora.

Sua, de fato, parecia ter deixado o plano terrestre. Ela continuava na mesma posição, os lábios entreabertos e inchados, os olhos roxos perdidos no vazio. Seu coração batia tão forte que ela tinha certeza de que todos podiam ouvir.

Mizi girou a garrafa com força, ignorando o barulho dos amigos. O objeto rodou freneticamente, mas os olhos dourados de Mizi permaneceram fixos na garrafa, evitando olhar para o lado.

— O jogo continua — disse Mizi, mas havia um tremor quase imperceptível em seus dedos.

A garrafa parou, apontando de Ivan para Till.

— Verdade ou desafio, Till? — Ivan perguntou, mas sua voz habitual de deboche estava um pouco mais contida. O clima na sala havia mudado drasticamente. O ar estava carregado, elétrico.

— Desafio — rosnou Till, tentando recuperar a compostura e desviar o foco da tensão entre as duas garotas. — E me dê algo difícil, seu poste.

— Ótimo. Eu te desafio a... — Ivan fez uma pausa, olhando de soslaio para Mizi e Sua — ...a dar um beijo em quem você gosta nesta roda.

O silêncio voltou a cair, mas desta vez era um silêncio de expectativa pura. Till congelou. Ele olhou para Mizi, que ainda estava em seu próprio mundo, e depois sentiu o olhar pesado de Ivan sobre ele.

— Eu não vou fazer isso — disse Till, a voz falhando.

— Então beba o resto daquela garrafa de molho de pimenta que a Hyuna tem na cozinha — desafiou Ivan, cruzando os braços.

Till levantou-se, bufando, e marchou para a cozinha, preferindo queimar o estômago a confessar o que todo mundo já sabia. Ivan o seguiu, rindo alto para esconder o fato de que seu próprio coração estava acelerado.

Luka e Hyuna começaram a conversar baixo sobre qualquer outra coisa, tentando dar um pouco de privacidade para as duas que sobraram no sofá.

Sua finalmente conseguiu mover o pescoço. Ela olhou para Mizi. Mizi estava brincando com um fio solto do tapete, a expressão voltando a ser aquela máscara de indiferença, mas suas orelhas estavam vermelhas.

— Mizi... — Sua sussurrou.

— Não diz nada, Sua — Mizi interrompeu, sem olhar para ela. — Era um desafio. Eu só... eu cumpro meus desafios.

— Foi só por causa do desafio? — A pergunta saiu antes que Sua pudesse contê-la.

Mizi finalmente virou o rosto. Seus olhos dourados encontraram os de Sua, e por um instante, a máscara caiu. Havia confusão ali. Havia um medo profundo e uma curiosidade que Mizi não sabia como lidar.

— Eu não sei — admitiu Mizi, a voz tão baixa que apenas Sua podia ouvir. — Eu realmente não sei. Mas eu não senti nojo.

Antes que Sua pudesse processar aquela informação, Till voltou da cozinha tossindo e xingando, seguido por um Ivan que parecia estar se divertindo mais do que o permitido por lei.

O jogo continuou pela madrugada, mas nada superou aquele momento. Para o grupo, era apenas uma história para contar depois. Para Hyuna, era um plano bem-sucedido. Para Ivan e Till, era mais uma camada de tensão em sua guerra particular.

Mas para Sua, deitada em sua cama mais tarde naquela noite, sentindo o gosto de cereja e pânico de Mizi ainda em seus lábios, era o começo de algo perigoso. Ela sabia que Mizi estava confusa, sabia que a garota rica e popular não tinha ideia de como navegar naquelas águas.

E na mansão silenciosa do outro lado da cidade, Mizi encarava o teto. Ela tocou os próprios lábios com a ponta dos dedos. A imagem de Sua, tão frágil e tão entregue sob o seu toque, não saía de sua cabeça.

— Que droga... — Mizi murmurou para a escuridão.

Ela sempre gostou de dormir, de fugir da realidade em sonhos tranquilos. Mas naquela noite, o sono não veio. A realidade, pela primeira vez, era muito mais barulhenta do que qualquer sonho. E tinha o rosto pálido e os olhos roxos de sua melhor amiga.