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Harry Potter volta no tempo

O Despertar do Sangue e as Alianças Proibidas

O silêncio na sala de estar do número 12 de Grimmauld Place era tão denso que Harry sentia que poderia cortá-lo com uma faca. Walburga Black permanecia sentada em sua poltrona, os olhos fixos nos livros sobre a mesa, enquanto Sirius alternava o olhar entre o afilhado vindo do futuro e a mãe, cuja postura parecia ter enrijecido com uma resolução sombria.

— Monstro! — a voz de Walburga chicoteou o ar novamente.

O elfo doméstico reapareceu instantaneamente, tremendo sob o peso da tensão que emanava de sua senhora.

— Sim, minha nobre senhora? Monstro está pronto para servir.

— Vá agora — ordenou ela, a voz desprovida de qualquer hesitação. — Leve convocações oficiais da Casa Black. Quero meu marido, Órion, aqui imediatamente. E não pare por aí. Quero que chame Cygnus e Druella. Quero que localize Andrômeda... — ela fez uma pausa, os lábios se comprimindo em uma linha fina — e diga a ela que a proteção da linhagem precede qualquer desentendimento sobre casamentos. Chame Cedrella Weasley.

Sirius soltou um assobio baixo, chocado.

— Cedrella? Você vai chamar a "traidora do sangue" que foi apagada da tapeçaria? Mãe, você está bem?

Walburga virou-se para o filho, seus olhos brilhando com uma fúria gélida.

— Sirius Orion Black, se o que este rapaz diz é verdade, nossa família não será apenas manchada; ela será extinta. Bellatrix matando você? Regulus desaparecendo na escuridão? Eu me tornando um retrato histérico em uma casa em ruínas? — Ela se levantou, a seda de seu vestido sussurrando contra o chão. — A Nobre e mui Antiga Casa dos Black não se curva a um mestiço que se autointitula Lorde se ele planeja nos levar ao abismo. Se vamos lutar uma guerra para preservar nosso sangue, que o façamos por nós mesmos, e não como peões de um lunático que divide a própria alma. Monstro, vá! E traga também os Potter. Se o garoto é um deles, James Potter e seus pais devem estar presentes para reivindicar sua parte nesta loucura.

O elfo, embora confuso com as ordens contraditórias ao que lhe fora ensinado por décadas, desapareceu com um estalo sonoro.

Harry sentiu um frio na espinha. Ele havia vindo para o passado para encontrar conforto, mas agora estava prestes a presenciar uma reunião que, em seu tempo, seria considerada impossível.

— Você tem noção do que acabou de fazer? — perguntou Harry, olhando para Walburga. — Se você trouxer todos eles aqui agora, o futuro que eu conheço deixará de existir no momento em que a primeira palavra for lida.

— Essa é a ideia, não é, Pontas Júnior? — Sirius deu um passo à frente, uma excitação selvagem brilhando em seus olhos cinzentos. — Se o futuro é um desastre, por que diabos iríamos querer que ele acontecesse? Imagine a cara do James quando vir você. Ele vai ter um colapso!

— Sirius, ele é seu melhor amigo, mas ele ainda é um adolescente aqui — lembrou Harry, sentindo-se estranhamente mais velho que o próprio pai. — E Lily... ela nem deve estar com ele ainda.

— Oh, ela não está — riu Sirius. — Ela o detesta. Mas se ela ler que vai se casar com ele e ter um herdeiro que salva o mundo, talvez ela lhe dê uma chance antes do previsto.

As horas seguintes foram um borrão de estalos de aparatação e gritos de surpresa. O primeiro a chegar foi Órion Black. Ele entrou na sala com uma expressão de profunda preocupação, que se transformou em choque absoluto ao ver Harry e, em seguida, os livros. Walburga o levou para um canto, falando em sussurros urgentes enquanto apontava para a tapeçaria.

Logo depois, a lareira rugiu com chamas verdes. James Potter tropeçou para fora, seguido por seus pais, Fleamont e Euphemia. James estava rindo de algo até que seus olhos pousaram em Harry. O riso morreu instantaneamente.

— Mas que... Almofadinhas? Quem é o seu clone? E por que ele parece que foi mastigado por um Rabo-Córneo? — James perguntou, ajustando os óculos, que eram idênticos aos de Harry.

Harry sentiu a garganta fechar. Ver James Potter vivo, jovem e vibrante era quase mais do que ele podia suportar. Fleamont Potter, um homem de cabelos grisalhos e olhos gentis, colocou a mão no ombro do filho, observando Harry com uma curiosidade científica e emocional.

— Ele tem os olhos daquela menina Evans que você não para de falar, James — observou Euphemia, a voz carregada de espanto.

Antes que James pudesse responder, a porta se abriu novamente. Andrômeda entrou, parecendo defensiva, segurando a mão de um homem que Harry reconheceu como Ted Tonks. Atrás deles, Cedrella Weasley, uma mulher idosa com a dignidade dos Black mas o calor dos Weasley, entrou com uma expressão de quem esperava uma armadilha, mas estava disposta a enfrentá-la.

A sala de estar, antes vasta e vazia, agora fervilhava com a elite e os renegados das linhagens mais antigas da Grã-Bretanha.

— Silêncio! — a voz de Órion Black ecoou, profunda e autoritária.

Todos se calaram. Ele olhou para Harry e depois para a assembleia.

— Minha esposa me informou de algo que desafia a lógica. Este jovem viajou do ano de 1998 usando um vira-tempo quebrado e a magia residual de uma guerra que ainda não aconteceu. Ele trouxe registros. Registros de nossa queda.

— Queda? — Cygnus Black, que acabara de chegar com Druella, soltou uma risada de escárnio. — Estamos no auge do nosso poder. O Lorde das Trevas nos prometeu...

— O Lorde das Trevas nos prometeu cinzas! — Walburga rugiu, silenciando o irmão. — Eu vi a tapeçaria, Cygnus. Eu vi o que acontece com seus filhos. Eu vi o que acontece com os meus.

Ela apontou para Harry.

— Este é Harry Potter. Neto de Dorea Black, filho de James Potter. No futuro dele, quase todos nesta sala estão mortos. Alguns por mãos inimigas, outros pelas mãos de seus próprios parentes.

Um murmúrio de horror percorreu a sala. Andrômeda apertou a mão de Ted, enquanto James se aproximava de Harry, a curiosidade superando o medo.

— Você é meu filho? — James perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.

— Sou — respondeu Harry, olhando nos olhos do pai. — E você é o homem mais corajoso que eu já conheci, embora eu só tenha te conhecido através de memórias e fantasmas.

James engoliu em seco, sem saber como reagir a tal declaração.

— O resumo — ordenou Órion, sentando-se e gesticulando para que os outros fizessem o mesmo. — Harry, leia o resumo novamente. Todos precisam ouvir.

Harry pegou o pergaminho que acompanhava os livros. Sua mão tremia, mas ele começou a ler. Ele leu sobre a profecia, sobre o Lorde das Trevas escolhendo o bebê Potter como seu igual. Ele leu sobre a traição de Peter Pettigrew.

— Pettigrew? — James interrompeu, o rosto ficando vermelho de raiva. — Aquele ratinho? Ele nunca faria isso! Ele é nosso amigo!

— Ele é um Animago não registrado, James? — Harry perguntou, desafiador. — Um rato com uma pata faltando?

James empalideceu. Sirius, ao lado dele, apertou os punhos.

— Como você sabe disso? — Sirius sibilou.

— Porque no meu tempo, ele passou doze anos dormindo na cama de um dos meus melhores amigos, fingindo ser um rato de estimação, enquanto você apodrecia em Azkaban por causa dele — Harry cuspiu as palavras com amargura.

A revelação atingiu a sala como uma explosão. Fleamont Potter levantou-se, sua aura de bondade substituída por uma frieza ancestral.

— Se um convidado da minha casa pretende trair meu filho para um louco, ele já está morto — declarou Fleamont.

Harry continuou a leitura. Ele falou sobre a morte de Regulus Black. Ele viu Walburga empalidecer quando mencionou que o filho mais novo morreu tentando destruir uma das Horcruxes de Voldemort, traindo o Lorde das Trevas por remorso.

— Regulus... — sussurrou Walburga, as lágrimas brilhando em seus olhos severos. — Ele foi um herói?

— O maior de todos — disse Harry. — Ele morreu sozinho em uma caverna para que eu tivesse uma chance de vencer anos depois.

Andrômeda se manifestou, a voz firme:

— E quanto a Bellatrix? E Narcisa?

Harry hesitou, olhando para Cygnus.

— Narcisa faz o que pode para proteger a família, mas Bellatrix... ela se tornou a serva mais leal e insana de Voldemort. Ela matou Sirius. Ela matou Ninfadora, sua filha, Andrômeda.

Andrômeda soltou um grito sufocado, caindo nos braços de Ted. O caos irrompeu na sala. Cygnus tentou protestar que Bellatrix era uma Black orgulhosa, mas Órion o calou com um olhar de puro ódio.

— Chega! — Órion se levantou. — Não ouviremos mais sobre como morremos. Ouviremos sobre como vamos lutar.

Ele olhou para Fleamont Potter. Por décadas, os Black e os Potter estiveram em lados opostos de ideologias políticas, mas ali, diante da extinção de suas linhagens, o ouro e a prata pareciam se fundir.

— Fleamont — disse Órion, estendendo a mão. — Nossos filhos são o futuro. Se este garoto veio de 1998, é porque o destino nos deu uma chance de sermos mais inteligentes do que o destino pretendia.

Fleamont aceitou a mão de Órion, um aperto que selou uma aliança que mudaria a história da Grã-Bretanha bruxa.

— O que fazemos primeiro? — perguntou James, olhando de Harry para Sirius.

— Primeiro — disse Harry, sentindo uma força que não sentia desde que a guerra terminara —, vamos encontrar Peter Pettigrew. E não vamos entregá-lo ao Ministério. Vamos usá-lo para provar a verdade antes que a mentira seja contada.

— E as tais Horcruxes? — perguntou Cedrella Weasley, sua voz carregada de sabedoria. — Se esse homem dividiu a alma, ele não pode ser morto por meios comuns.

— Eu sei onde elas estão — disse Harry. — Ou onde estarão. O anel em Little Hangleton, o medalhão nesta mesma casa, a taça em Gringotes...

— Gringotes? — Druella Black soltou uma risada nervosa. — Você sugere que invadamos o cofre dos Lestrange?

— Eu já fiz isso uma vez — respondeu Harry com um sorriso frio. — E desta vez, terei a ajuda dos donos da casa.

Walburga Black caminhou até o centro da sala. Ela parecia ter rejuvenescido dez anos, a chama da liderança Black queimando em seu peito.

— Monstro! Prepare o jantar mais refinado que esta casa já viu. Temos estratégias para traçar. Cedrella, você conhece os Weasley e os Prewett; precisamos de números. Andrômeda, você ficará aqui, sob a proteção de Grimmauld Place. Ninguém toca em um Black enquanto eu respirar.

Ela então se virou para Harry.

— E você, Harry Potter. Você diz que o mundo bruxo quase acabou?

— Sim, senhora — respondeu Harry.

— Pois bem. O mundo bruxo pode até acabar — disse ela, com um sorriso que faria Voldemort tremer —, mas a Casa Black não cairá com ele. Vamos mostrar a esse Tom Riddle o que acontece quando ele tenta destruir uma família que sobreviveu a milênios de intrigas.

James se aproximou de Harry, colocando a mão em seu ombro.

— Ei, Harry... — James parecia desconfortável, mas emocionado. — Obrigado. Por ter vindo. Por ter sobrevivido.

— Eu não tive escolha, pai — disse Harry, a palavra "pai" soando estranha e maravilhosa em seus lábios.

— Bem, agora você tem — disse Sirius, juntando-se aos dois. — Temos os livros, temos o conhecimento e, aparentemente, temos minha mãe em modo de guerra. Pobre Voldemort. Ele não tem a menor chance.

Enquanto o grupo se acomodava para planejar a destruição sistemática de Lorde Voldemort décadas antes de sua ascensão final, Harry Potter olhou para a tapeçaria na parede. O brilho dourado de seu nome parecia mais forte agora, espalhando-se para os ramos ao redor.

O futuro de 1998 estava desaparecendo, sendo substituído por algo novo, incerto e, pela primeira vez na vida de Harry, cheio de pessoas que ele amava, vivas e prontas para lutar ao seu lado. A Batalha de Hogwarts fora vencida com sangue e perdas; a Batalha de Grimmauld Place seria vencida com astúcia e a fúria de uma família que se recusava a morrer.