Harry Potter volta no tempo
O Sangue se Reúne: Ouro, Prata e Fogo Ruivo
A sala de estar do número 12 de Grimmauld Place, que por décadas fora um santuário de silêncio aristocrático e preconceitos velados, agora pulsava com uma energia caótica e vibrante. O ar cheirava a magia antiga, chá de ervas e a exalação metálica do medo contido. Walburga Black, de pé junto à lareira, observava as chamas verdes com uma intensidade que faria um dragão recuar.
O próximo estalo de aparatação trouxe Cedrella Weasley. Ela não veio sozinha. Ao seu lado estava Septimus Weasley, um homem de rosto bondoso e mãos calejadas, seguido por um jovem Arthur Weasley, que trazia nos braços um bebê de cabelos muito ruivos — o pequeno Gui — e uma Molly Weasley visivelmente grávida, segurando a mão de um Charlie de dois anos.
— Pelas barbas de Merlin! — exclamou Arthur, ajustando os óculos e olhando ao redor com uma mistura de fascínio e terror. — Uma convocação oficial da Casa Black? Eu pensei que éramos... bem, "persona non grata" aqui.
— E são — respondeu Walburga, sua voz cortante, mas sem o veneno habitual. — Mas a sobrevivência precede a etiqueta, Sr. Weasley. Sentem-se. E mantenham essas crianças longe das minhas tapeçarias.
Cedrella caminhou até Walburga. As duas mulheres, uma renegada e a outra a matriarca, trocaram um olhar longo e pesado.
— Você finalmente enlouqueceu, Walburga? — perguntou Cedrella suavemente.
— Eu finalmente acordei, Cedrella — retrucou Walburga, apontando para Harry. — Aquele rapaz é o neto de Dorea. Ele veio do futuro. E se não mudarmos o curso da história hoje, seus netos serão órfãos e os meus serão cadáveres.
Antes que os Weasley pudessem processar a informação, a porta se abriu com um estrondo. Bellatrix e Narcisa Black entraram. Bellatrix estava em seu auge, uma beleza selvagem e perigosa, seus olhos brilhando com um fervor que Harry conhecia bem demais. Narcisa, ainda jovem e com uma elegância contida, parecia confusa e ligeiramente alarmada.
— Mãe? — Bellatrix olhou para a sala cheia, seu lábio superior se curvando em desdém ao ver os Weasley e os Potter. — O que é isso? Uma reunião de caridade para traidores do sangue? E quem é esse intruso que ousa usar o rosto de um Potter nesta casa?
Harry sentiu uma onda de fúria e trauma subir pelo peito. Ele apertou o cabo da varinha em seu bolso, a cicatriz em sua testa latejando por instinto.
— Sente-se, Bellatrix — ordenou Órion Black, sua voz carregada de uma autoridade que até mesmo ela não ousou desafiar de imediato. — E guarde sua língua. Você está prestes a ouvir a história de como sua lealdade cega nos levará à ruína.
Sirius, que estava encostado na parede, deu um passo à frente, um sorriso de escárnio no rosto.
— Olá, Bella. Olá, Cissa. Sentem-se. O show vai começar, e garanto que vocês não vão gostar do final.
Narcisa sentou-se graciosamente, lançando um olhar de soslaio para Andrômeda, que estava do outro lado da sala. Houve um momento de hesitação, um lampejo de saudade nos olhos de Narcisa, antes que ela desviasse o olhar para Harry.
— Comece, Harry — pediu James Potter, que agora estava sentado ao lado de sua mãe, Euphemia. Ele parecia ter envelhecido cinco anos em uma hora. — Conte a elas o que o "Lorde" delas faz com a nossa família.
Harry respirou fundo e levantou o segundo livro, *A Ordem da Fênix*. Ele sabia que precisava ser cirúrgico.
— Bellatrix — começou Harry, sua voz fria e firme. — No meu tempo, você é a serva mais fiel de Voldemort. Você passa quatorze anos em Azkaban por torturar os Longbottom até a loucura.
Bellatrix soltou uma risada estridente, mas seus olhos vacilaram quando Harry mencionou o nome de Voldemort sem hesitação.
— E quando você sai — continuou Harry —, você mata Sirius. Você mata seu próprio primo nesta mesma casa. Você mata a filha de Andrômeda, Ninfadora. E você morre pelas mãos de uma mãe que você subestimou, defendendo um mestre que nunca se importou se você vivia ou morria.
— Mentira! — gritou Bellatrix, levantando a varinha. — O Lorde das Trevas nos elevará! Ele purificará o mundo!
— Ele destruirá tudo o que você ama, Bella! — gritou Sirius de volta. — Olhe para esta sala! Você realmente acha que ele se importa com o nome Black? Ele usa você como um cão de caça e depois a descarta.
Harry virou-se para Narcisa.
— E você, Narcisa. Você se casa com Lucius Malfoy. Vocês têm um filho, Draco. E no final, você é forçada a ver seu filho ser marcado como um criminoso antes mesmo de sair da escola, enviado em uma missão suicida apenas para punir seu marido por um erro. Você acaba traindo Voldemort, não por ideologia, mas porque ele quase destruiu sua única razão de viver: seu filho.
Narcisa empalideceu tanto que parecia feita de mármore. Suas mãos tremiam sobre o colo.
— Meu filho... — sussurrou ela. — Ele o colocaria em perigo?
— Ele o usaria como um peão descartável — confirmou Harry.
Molly Weasley, que estava ouvindo tudo com uma expressão de horror, abraçou o pequeno Charlie com mais força.
— E quanto a nós? — perguntou ela, a voz trêmula. — O que acontece com os meus filhos?
Harry olhou para ela, sentindo o peso de cada perda.
— No futuro original, Molly... você perde um filho na batalha final. Fred. E outros são feridos, marcados para sempre. Arthur é atacado e quase morre. Mas vocês lutam. Vocês lutam porque é a coisa certa a fazer.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo choro baixo do bebê Gui. Walburga Black levantou-se e caminhou até a mesa de centro, onde os livros repousavam como sentenças de morte.
— Já ouvimos o suficiente das tragédias — declarou Walburga. — Órion e eu discutimos. Se este Lorde das Trevas é um mestiço chamado Tom Riddle, como Harry nos revelou, então ele não tem direito algum sobre o sangue Black. Ele é um usurpador usando nossa herança para alimentar seu complexo de divindade.
Órion Black assentiu, cruzando os braços.
— A Casa Black retira seu apoio, oficial e magicamente. Mas não podemos simplesmente nos esconder. Ele virá atrás de nós.
— Ele não terá tempo — disse Fleamont Potter, levantando-se com uma determinação que explicava de onde vinha o fogo de James e Harry. — Temos os locais das Horcruxes. Temos a localização de Peter Pettigrew. E temos algo que Voldemort nunca entendeu: alianças baseadas em algo além do medo.
James Potter levantou-se também, olhando para Sirius e depois para Harry.
— Onde está o rato agora? — perguntou James. — Ele deve estar em Hogwarts ou na casa dos pais. Se ele ainda não entregou o segredo, podemos pegá-lo antes que ele sequer pense em ir até Voldemort.
— Ele está em Hogwarts — disse Harry. — Provavelmente no dormitório da Grifinória, fingindo ser o animal de estimação de algum primeiranista, ou talvez já esteja com você, James.
James revistou os bolsos freneticamente, seu rosto se transformando em uma máscara de desgosto.
— Ele estava comigo hoje cedo. Disse que ia visitar a mãe.
— Então vamos pegá-lo — disse Sirius, a voz perigosamente calma. — Mas antes... mãe, o medalhão.
Walburga franziu a testa.
— Que medalhão?
— O medalhão de Slytherin — explicou Harry. — Regulus vai trazê-lo para cá em breve, ou talvez já o tenha. É uma das partes da alma de Voldemort. Ele o escondeu em uma caverna cheia de Inferi. Regulus vai morrer para tirá-lo de lá.
Walburga cambaleou, segurando-se no encosto da poltrona.
— Monstro! — chamou ela.
O elfo apareceu.
— Onde está o jovem mestre Regulus? — perguntou ela, a voz falhando.
— O jovem mestre Regulus está em seu quarto, minha senhora. Ele está... ele está muito quieto ultimamente. Ele tem segredos com Monstro.
— Traga-o aqui! — ordenou Órion. — Agora!
Momentos depois, um Regulus Black de dezesseis anos entrou na sala. Ele parecia pálido e exausto, com olheiras profundas sob os olhos cinzentos. Ao ver a sala cheia de pessoas que ele fora ensinado a evitar ou odiar, ele parou bruscamente.
— Pai? Mãe? O que está acontecendo?
Sirius caminhou até o irmão. Sem dizer uma palavra, ele o puxou para um abraço apertado. Regulus ficou rígido de choque.
— Não vá à caverna, Reggie — sussurrou Sirius contra o ouvido do irmão. — Nós já sabemos. Nós vamos ajudar você.
Regulus se afastou, os olhos arregalados de terror.
— Como vocês... como vocês sabem?
— Não importa como sabemos — disse Walburga, aproximando-se do filho caçula e segurando seu rosto com as duas mãos. — O que importa é que você não vai morrer por um medalhão de ouro. Você é um Black. Seu lugar é aqui, reconstruindo nossa honra, não servindo de alimento para Inferi.
Harry observava a cena com o coração apertado. Ele estava mudando tudo. O sacrifício de Regulus, a prisão de Sirius, a morte de seus pais... tudo estava sendo desfeito diante de seus olhos.
— Temos um plano — anunciou Harry, ganhando a atenção de todos. — Os Potter e os Black juntos. Os Weasley fornecendo a conexão com o resto do mundo bruxo que não é obcecado por pureza de sangue. Vamos coletar as Horcruxes uma a uma. E quando Voldemort perceber que sua imortalidade acabou, ele não encontrará um mundo de seguidores ajoelhados, mas uma frente unida que ele nunca imaginou ser possível.
Bellatrix soltou um rosnado, mas Narcisa colocou a mão no braço da irmã, apertando-o com força.
— Bella, olhe para eles — sussurrou Narcisa. — Se o que o garoto diz é verdade... você quer mesmo morrer nas mãos de uma dona de casa enquanto nosso nome desaparece?
Bellatrix olhou para Harry, um ódio puro queimando em seus olhos, mas também uma dúvida que ela nunca permitira sentir.
— E o que você sugere, mestiço? — cuspiu ela.
— Sugiro que você use essa sua sede de sangue para algo útil — respondeu Harry. — Ajude-nos a caçar o rato. Mostre que sua lealdade é à sua família, e não a um monstro que transformou você em uma assassina de parentes.
Bellatrix sorriu, um sorriso torto e perigoso.
— Caçar um rato? Isso parece... divertido.
Arthur Weasley limpou a garganta, parecendo ainda um pouco sobrecarregado.
— Eu posso falar com Alvo Dumbledore. Ele precisa saber disso.
— Não! — Harry e Sirius disseram em uníssono.
— Dumbledore joga um jogo de xadrez de longo prazo — explicou Harry. — Ele deixaria as coisas acontecerem de certa forma para garantir a vitória final. Mas nós não queremos uma vitória final daqui a vinte anos. Queremos parar isso agora.
— Harry tem razão — disse Órion Black. — Dumbledore é um grande homem, mas ele confia demais em profecias e sacrifícios. Os Black confiam em resultados.
Fleamont Potter sorriu.
— E os Potter confiam na ação. James, Sirius, Harry... vocês três vão atrás de Pettigrew. Eu e Órion vamos organizar a segurança de nossas propriedades. Walburga, Cedrella e Narcisa... vocês precisam garantir que o resto da "velha guarda" entenda que o vento mudou de direção.
Molly Weasley levantou-se, entregando o bebê para Arthur.
— E eu? — perguntou ela, com um brilho feroz nos olhos.
— Você, Molly — disse Harry com um sorriso —, vai garantir que todos nesta casa estejam alimentados e prontos para a luta. E se algum Comensal da Morte se atrever a chegar perto desta porta, eu sei que você será a última pessoa que eles verão.
A noite em Grimmauld Place continuou com mapas sendo abertos, livros sendo consultados e uma aliança improvável sendo forjada. Harry Potter, o menino que sobreviveu a uma guerra devastadora, agora observava o início de uma revolução.
Enquanto James e Sirius discutiam táticas de captura no canto da sala, rindo como os adolescentes que ainda eram, Harry sentiu uma mão em seu ombro. Era Walburga Black.
— Você trouxe uma tempestade para minha casa, Harry Potter — disse ela em voz baixa.
— Sinto muito, senhora Black — respondeu Harry.
— Não sinta — disse ela, olhando para os dois filhos que agora conversavam sem a barreira do ódio. — Às vezes, uma tempestade é a única coisa que pode limpar o ar de tanta podridão. Você nos salvou do esquecimento. Agora, deixe-nos garantir que você tenha um mundo para onde voltar... ou melhor, um mundo onde você nunca precise ser um órfão.
Harry olhou para a lareira, onde as chamas agora queimavam de um laranja quente e acolhedor. Ele viera em busca de um eco, mas encontrara uma canção de guerra que prometia um futuro onde a cicatriz em sua testa talvez se tornasse apenas uma marca comum, e não o símbolo de uma tragédia.
A caçada ao rato estava prestes a começar, e com ela, o fim do reinado de terror de Voldemort, antes mesmo que ele pudesse declarar sua primeira vitória oficial. A Nobre e mui Antiga Casa dos Black, os Potter e os Weasley estavam unidos. E o destino, pela primeira vez, parecia estar do lado dos vivos.