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Harry Potter volta no tempo

O Refúgio de Godric's Hollow: Entre Fantasmas e Fundações

A viagem de Grimmauld Place até Godric's Hollow não foi feita por meio de chaves de portal ou aparatação direta, mas através de um silêncio carregado que pesava mais do que qualquer feitiço de compressão. Harry sentia o estômago dar voltas. Ele conhecia aquela vila como um lugar de sepulturas frias e casas em ruínas, um monumento ao seu próprio sofrimento. Ver o vilarejo através dos olhos de James Potter, que caminhava com a confiança de quem voltava para casa para jantar, era uma experiência que beirava o insuportável.

— Você está pálido, Harry — observou James, parando diante de um portão de ferro batido que Harry reconheceu instantaneamente. — Eu sei que deve ser estranho. Ver o lugar onde... bem, onde as coisas aconteceram.

— Estranho não é a palavra, pai — respondeu Harry, a voz falhando levemente. — Na última vez que estive aqui, a casa era um memorial protegido por feitiços de ocultamento, e havia uma placa dizendo que ela fora deixada em ruínas para lembrar o mundo do sacrifício de vocês.

James estremeceu visivelmente. Ele olhou para a casa — uma construção charmosa de dois andares, com janelas que brilhavam com uma luz quente e o jardim bem cuidado pela magia de Euphemia.

— Não hoje — disse James, colocando a mão no ombro de Harry e empurrando o portão. — Hoje, ela é apenas uma casa. E você é apenas um convidado que demorou dezoito anos para chegar.

Ao cruzarem a soleira, o cheiro de canela, polimento de madeira e magia antiga envolveu Harry. Era o cheiro que ele sempre tentara imaginar quando segurava o Mapa do Maroto ou olhava para o Espelho de Ojesed. Fleamont e Euphemia Potter já estavam lá dentro, tendo aparatado minutos antes para preparar o ambiente.

— Harry, querido, entre — disse Euphemia, vindo ao encontro deles. Ela não usava as vestes formais que exibira na casa dos Black; agora vestia um avental bordado e seus cabelos estavam presos de forma prática. — James, leve-o para a sala. Vou preparar um chá forte. Acho que todos precisamos.

A sala de estar era o oposto exato da rigidez de Grimmauld Place. Havia poltronas fundas e gastas, estantes repletas de livros de poções e quadribol, e fotos que se moviam em cada superfície disponível. Harry aproximou-se de uma moldura sobre a lareira. Nela, um James de dezessete anos tentava desesperadamente beijar a bochecha de uma Lily Evans que fingia estar irritada, mas não conseguia esconder o sorriso radiante.

— Ela ainda não mora aqui — disse James, aproximando-se de Harry e olhando para a foto com uma expressão de saudade e orgulho. — Essa foto foi tirada no último dia em Hogwarts. Meus pais a adoram. Acho que eles a adotariam se eu não me casasse com ela logo.

— Ela é linda — sussurrou Harry, tocando o vidro da moldura. — Eu sempre soube disso, mas vê-la assim... sem o peso da guerra nos olhos...

— Harry — Fleamont Potter chamou do canto da sala, onde examinava alguns pergaminhos. — Venha aqui um momento.

Harry aproximou-se do avô. Fleamont tinha uma expressão séria, mas seus olhos brilhavam com a inteligência que fizera dele um dos maiores mestres de poções de sua geração.

— Estive pensando no que você disse sobre o sangue — começou Fleamont. — Sobre como o sacrifício de Lily criou uma proteção que nem mesmo Voldemort pôde quebrar.

— Foi magia antiga — explicou Harry. — Dumbledore disse que foi o poder do amor, algo que Tom Riddle nunca entendeu.

— Sim, mas há algo mais — Fleamont apontou para um diagrama da árvore genealógica dos Potter que estava aberto sobre a mesa. — Os Potter descendem de Linfred de Stinchcombe, o "Potterer". Nós sempre tivemos uma conexão profunda com a terra e com as proteções domésticas. Se soubermos que o ataque virá, podemos transformar esta casa em algo que nem mesmo uma maldição da morte pode penetrar. Não apenas com o sacrifício de uma vida, mas com a vontade de toda uma linhagem.

— Você quer fortalecer Godric's Hollow antes que o Pettigrew possa falar — deduziu Harry.

— Exatamente — confirmou Fleamont. — Mas para isso, precisamos de você. Você carrega o sangue do futuro, um sangue que já sobreviveu ao impossível. Sua presença aqui ancora a linhagem de uma forma que desafia as leis da arithmancia.

Nesse momento, Sirius Black entrou na sala, tendo acabado de chegar de uma breve conversa com os pais em Londres. Ele parecia mais leve, sem a sombra de Azkaban que Harry sempre associara a ele.

— O rato ainda não se moveu do dormitório — anunciou Sirius, jogando-se em uma poltrona. — O Mapa mostra que ele está "dormindo". Mal sabe ele que o sono dele vai ser interrompido por um batalhão de Aurores e dois adolescentes muito zangados.

— Três — corrigiu Harry, sentando-se também.

— Três — concordou Sirius, sorrindo. — Mas Harry... tem algo que eu queria te perguntar. Naquela sua época... naqueles livros... o que aconteceu comigo depois que eu fugi de Azkaban? Eu fui um bom padrinho?

O silêncio caiu sobre a sala. James e Fleamont pararam o que estavam fazendo para ouvir. Harry olhou para Sirius, vendo o jovem cheio de vida que ele nunca teve a chance de conhecer plenamente.

— Você foi a primeira pessoa que me fez sentir que eu tinha uma família, Sirius — disse Harry, com a voz embargada. — Você me deu uma vassoura quando eu era bebê, e me deu uma esperança quando eu tinha treze anos. Você viveu em cavernas comendo ratos só para ficar perto de mim durante o Torneio Tribruxo. Você era imprudente, sim, e às vezes me via como se eu fosse o meu pai, mas você me amava mais do que a si mesmo.

Sirius baixou o olhar, as orelhas ficando vermelhas.

— Comer ratos? Credo, James, eu realmente devo ter ficado desesperado no futuro.

— Você era um Black — disse Harry com um sorriso triste. — E como sua mãe disse hoje, os Black não se curvam. Você nunca se curvou ao Ministério, nem a Azkaban, nem a Voldemort.

James caminhou até Sirius e deu um tapa amigável em sua nuca.

— Viu só, Almofadinhas? Você é um herói trágico. Mas não se preocupe, nesta vida vamos garantir que você coma apenas o melhor bife da Euphemia. Nada de ratos.

Euphemia entrou na sala trazendo uma bandeja de prata com bules de chá e pratos de bolinhos escoceses. Ela serviu a todos com uma eficiência maternal que Harry achou hipnotizante.

— Comam — ordenou ela. — Ninguém salva o mundo de estômago vazio. E Harry, querido, depois do chá, quero que você veja o quarto lá em cima.

— O quarto? — Harry perguntou, confuso.

— O seu quarto — disse ela, com um brilho nos olhos. — James já começou a decorá-lo há meses, embora ele dissesse que era "apenas um quarto de hóspedes para quando o Sirius fosse expulso de casa de novo". Mas eu acho que ele sabia, no fundo, que alguém especial o ocuparia.

Harry sentiu uma lágrima escapar. Ele subiu as escadas acompanhado por James. Quando o pai abriu a porta do final do corredor, Harry parou. Não era o berçário destruído que ele vira anos atrás. Era um quarto de adolescente, com paredes pintadas de um azul suave, uma cama larga com colchas de retalhos e uma janela que dava para as colinas de Godric's Hollow.

— Eu não sabia que seria você — disse James, encostado no batente da porta. — Mas eu sempre quis um filho. Eu costumava sentar aqui e imaginar como ele seria. Se ele jogaria no gol ou se seria um apanhador como eu.

— Eu fui o apanhador mais jovem do século em Hogwarts — disse Harry, sentindo um orgulho infantil transbordar.

— Eu sabia! — James comemorou, dando um soco no ar. — Viu só? O sangue não mente!

Os dois riram, um som que parecia curar as feridas de décadas de solidão de Harry. Eles se sentaram no parapeito da janela, observando o sol começar a se pôr sobre a vila.

— Pai — chamou Harry após um tempo. — Sobre a Lily... sobre minha mãe. Como vocês se apaixonaram? No meu tempo, eu só ouvia que você a "perseguiu" até ela ceder.

James soltou uma risada curta e meio envergonhada.

— Bem, não foi exatamente assim. Eu era um idiota, Harry. Eu achava que ser talentoso e popular era tudo o que importava. Mas no nosso sexto ano, minha mãe ficou muito doente. Eu passei o Natal aqui, sozinho e apavorado. Lily me mandou uma carta. Não era uma carta de amor, era apenas... humana. Ela disse que sabia como era se sentir sozinho em um mundo grande. Começamos a conversar. Eu percebi que ela não era apenas uma garota bonita com um gênio difícil; ela era a pessoa mais gentil e corajosa que eu já conhecera. Eu mudei por ela. E ela viu isso.

— Ela me amava muito — disse Harry. — As últimas palavras que ouvi dela, através das memórias dos Dementadores, foram ela implorando pela minha vida.

James apertou o parapeito da janela com força, os nós dos dedos brancos.

— Isso não vai acontecer, Harry. Eu juro pela minha magia e pela minha vida. O Pettigrew vai ser pego amanhã. O Voldemort vai ver que mexer com os Potter e os Black é o erro mais fatal que ele já cometeu. E você... você vai crescer aqui. Você vai ter festas de aniversário, vai ter detenções por fazer pegadinhas com o Sirius, e vai ter uma mãe que vai te dar bronca por não arrumar o quarto.

Harry olhou para o pai, vendo a determinação feroz em seu rosto. Pela primeira vez desde que entrara naquela casa, Harry permitiu-se acreditar. Não era apenas uma viagem no tempo; era uma retribuição do destino.

— Amanhã vamos a Hogwarts — disse Harry. — Mas hoje... hoje eu só quero ser um Potter.

— Você sempre foi um Potter, Harry — disse James, puxando o filho para um abraço desajeitado, mas cheio de um afeto que Harry sentiu vibrar em cada fibra do seu ser. — O melhor de todos nós.

Eles desceram para o jantar, onde o clima era de uma guerra iminente temperada com a alegria de um reencontro impossível. Fleamont contava histórias sobre como a Poção Alisadora de Cabelos Sleekeazy o tornara rico, enquanto Sirius tentava equilibrar três colheres no nariz para fazer as crianças Weasley (que haviam vindo com Molly) rirem.

Enquanto a noite caía sobre Godric's Hollow, Harry Potter sentou-se à mesa, cercado pelos fantasmas que ganharam carne e osso. Ele sabia que a batalha contra Voldemort estava longe de terminar — ainda havia Horcruxes para destruir e um vilão para desmascarar — mas ali, naquela sala iluminada por velas e cheia de risos, ele percebeu que já havia vencido a parte mais importante da guerra.

Ele havia recuperado o seu lar.

Ao final da noite, quando todos se recolheram, Harry deitou-se na cama que James preparara para um filho imaginário. Ele olhou para o teto e, pela primeira vez em sua vida, não sentiu a cicatriz latejar. Sentiu apenas o peso reconfortante de um cobertor e o som da respiração do mundo lá fora, um mundo que ele estava prestes a salvar de uma forma que nenhum livro jamais ousaria escrever.

Amanhã, o rato seria caçado. Amanhã, o Lorde das Trevas começaria a tremer. Mas hoje, no número 12 de Godric's Hollow, Harry Potter estava apenas, finalmente, em casa.