Harry Potter volta no tempo
O Despertar das Estrelas Perdidas
O ar na sala de estar de Grimmauld Place parecia ter se tornado subitamente mais leve, embora a tensão política ainda pairasse como uma nuvem elétrica. Harry observava a cena com uma sensação de surrealismo. Em sua linha do tempo original, Andrômeda Black era uma figura de dignidade solitária, uma viúva que perdera marido, filha e genro para a mesma loucura que agora todos ali tentavam evitar. Mas aqui, nesta noite distorcida pelo tempo, ela estava de pé, jovem e desafiadora, segurando a mão de Ted Tonks como se ele fosse sua única âncora em um mar de tubarões.
— Mãe, pai — a voz de Andrômeda tremeu apenas um pouco antes de se firmar. — Se estamos falando de mudar o futuro, se estamos falando de proteger a linhagem contra a extinção, então vocês precisam ver o que o futuro já criou.
Ela se virou para a porta, onde uma figura pequena e hesitante esperava nas sombras do corredor.
— Dora, querida, venha aqui. Por favor.
Uma menina de cerca de cinco anos entrou na sala. Ela tinha o rosto em formato de coração típico das mulheres Black, mas seus cabelos eram de um rosa chiclete berrante que parecia brilhar contra o papel de parede sombrio da casa. Ela tropeçou levemente no próprio pé ao entrar, fazendo com que seu nariz mudasse instantaneamente para um formato de bico de pato por um segundo de puro susto, antes de voltar ao normal.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Walburga Black parecia ter se transformado em uma estátua de sal. Órion Black apertou o descanso de sua poltrona com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos. Bellatrix soltou um som que era uma mistura de rosnado e soluço de escárnio.
— Uma metamorfomaga — sussurrou Narcisa, seus olhos azuis arregalados de uma forma que Harry nunca vira antes. — Um dom tão raro... e ele se manifestou em uma...
— Em uma Black — interrompeu Andrômeda, sua voz agora como aço. — O sangue dela é tão puro quanto o seu, Narcisa. Mas o coração dela é livre. O nome dela é Ninfadora. E, de acordo com o que Harry nos contou, ela morre lutando contra a própria tia para proteger um mundo que a aceitou por quem ela é.
Walburga deu um passo à frente. Harry sentiu o instinto de proteger a criança, mas Sirius colocou a mão em seu braço, observando a mãe com uma expressão indecifrável. A matriarca da Casa Black parou a poucos centímetros da menina. Ninfadora olhou para cima, seus olhos mudando de castanho para um cinza tempestuoso, idêntico ao de Sirius e Regulus.
— Rosa? — a voz de Walburga saiu num sussurro áspero. — Você escolheu o rosa para o seu cabelo, criança?
— Eu gosto de rosa — disse a pequena Dora, sua voz fina mas decidida. — Mas posso mudar se a senhora não gostar. Quer ver?
Em um piscar de olhos, o cabelo da menina tornou-se de um preto azeviche profundo, liso e pesado, exatamente como o de Walburga em sua juventude. A semelhança era tão perturbadora que Órion soltou um suspiro audível.
— Ela carrega o dom de Phineas Nigellus — disse Órion, levantando-se e caminhando até a esposa. — Um dom que não víamos na família há mais de um século. E nós a apagamos da tapeçaria antes mesmo de ela nascer.
— Nós fomos tolos — disse Walburga, e pela primeira vez, Harry viu uma lágrima solitária escorrer pelo rosto da mulher que ele sempre conheceu como um retrato gritante. — Estávamos tão preocupados com a pureza do vaso que não percebemos a potência do vinho.
Andrômeda soltou o ar que estava prendendo, seus ombros relaxando visivelmente. Ted Tonks, que até então parecia pronto para aparatar na primeira oportunidade, deu um passo à frente e inclinou a cabeça respeitosamente para os sogros.
— Eu sei que não sou o que vocês planejaram para sua filha — disse Ted com uma calma admirável. — Mas eu a amo. E a magia dela... a magia da nossa filha... é a prova de que a união não enfraquece o nosso mundo. Ela o fortalece.
Bellatrix soltou uma risada amarga e se jogou em uma poltrona.
— Então é isso? Vamos todos sentar para tomar chá com os nascidos-trouxas agora? Onde está o orgulho desta família?
— O orgulho está em não ser extinta, Bellatrix! — Walburga virou-se para a sobrinha, seus olhos brilhando com uma chama perigosa. — Você ouviu o que o rapaz disse. Você morre sem herdeiros, louca e servindo a um senhor que a trata como um animal. Andrômeda, por outro lado, nos deu uma metamorfomaga. Se você não consegue ver a superioridade mágica nisso, então talvez seja você a traidora do sangue.
Bellatrix empalideceu, suas mãos apertando a varinha, mas o olhar de Órion a manteve em silêncio. Narcisa, por outro lado, aproximou-se da irmã Andrômeda.
— Ela é linda, Andy — disse Narcisa suavemente. — E ela tem os seus olhos.
As duas irmãs se abraçaram, um gesto que Harry sabia que nunca ocorrera na história original. Era como se o gelo de décadas estivesse derretendo sob o calor de uma nova possibilidade.
— Muito bem — disse James Potter, tentando aliviar o peso emocional da sala. — Agora que a reunião de família está completa, e que descobrimos que o Sirius não é o único Black com cabelo estranho, podemos voltar ao plano de caçar o rato?
Sirius soltou uma gargalhada e pegou a pequena Ninfadora no colo, girando-a no ar enquanto ela ria e mudava a cor do cabelo para um dourado brilhante, imitando a luz das velas.
— Ouviu isso, Dora? — disse Sirius. — Sou seu tio favorito. E nós vamos garantir que você cresça em um mundo onde possa ter o cabelo da cor que quiser, sem ter que lutar contra tias malucas.
Harry sentiu um nó na garganta. Ele olhou para o resumo dos livros sobre a mesa. Aquelas páginas agora pareciam cinzas, uma ficção de um pesadelo que estava sendo reescrito em tempo real.
— Harry — chamou Regulus, aproximando-se dele. O jovem Black parecia mais calmo agora, a perspectiva de não morrer em uma caverna dando-lhe um novo fôlego. — Se vamos pegar o Pettigrew, precisamos de uma isca. Ele é covarde. Se ele sentir que algo mudou, ele vai correr para o mestre dele.
— Ele não vai sentir nada — disse Harry. — Porque ele acha que ainda é o segredo de todos. James, você tem o Mapa do Maroto com você?
James arregalou os olhos e tateou o bolso interno da capa.
— Sempre. Mas como você sabe sobre o Mapa?
— Eu o usei por seis anos, pai — Harry sorriu tristemente. — Ele me salvou mais vezes do que posso contar.
James abriu o pergaminho sobre a mesa de jantar, e todos se inclinaram para ver. Os Weasley, os Potter e os Black observavam as pequenas pegadas se movendo pelos corredores de Hogwarts.
— Ali — Harry apontou para a Torre da Grifinória. — Peter Pettigrew. Está no dormitório dos meninos do sétimo ano.
— O rato desgraçado — sibilou Sirius. — Ele está dormindo no quarto ao lado do nosso, James.
— Não por muito tempo — disse Fleamont Potter, sua voz assumindo um tom de comando que Harry reconheceu em Dumbledore. — Órion, temos autoridade como membros do conselho de governantes de Hogwarts para solicitar uma inspeção imediata em caso de "ameaça à segurança dos alunos".
— Uma inspeção que incluirá a verificação de todos os animais de estimação para detecção de feitiços de Animago — completou Órion com um sorriso astuto. — Vamos usar a burocracia do Ministério contra o próprio caos que ele ignora.
Enquanto os homens planejavam a incursão em Hogwarts, Molly Weasley se aproximou de Andrômeda e Ted.
— Vocês precisam de um lugar seguro — disse Molly com firmeza. — Minha tia Cedrella tem uma propriedade protegida, e A Toca sempre terá espaço para mais alguns. Ninguém vai tocar nessa menina.
Andrômeda olhou para a mãe, Walburga, que apenas assentiu com um curto movimento de cabeça.
— Ela fica em Grimmauld Place — declarou Walburga. — Esta casa é a fortaleza mais impenetrável da Grã-Bretanha. Se o Lorde das Trevas quiser a neta de uma Black, ele terá que passar por mim primeiro. E eu garanto que ele não viverá para se arrepender da tentativa.
Harry sentiu uma estranha paz. Ele viera para o passado esperando encontrar respostas, mas encontrara algo muito mais poderoso: uma família que, apesar de todas as suas falhas profundas e preconceitos, estava disposta a queimar o próprio mundo para proteger os seus.
— Harry — Sirius chamou, entregando a pequena Dora para Andrômeda e caminhando até o afilhado. — Você está bem? Você está muito quieto.
— Eu só... — Harry olhou para a sala cheia de pessoas vivas que deveriam estar mortas. — Eu nunca imaginei que seria assim. Eu pensei que teria que lutar sozinho de novo.
— Você nunca mais estará sozinho, Pontas — disse James, colocando o braço sobre os ombros de Harry. — Eu não sei que tipo de pai eu fui no seu tempo...
— Você foi um herói — interrompeu Harry. — Você morreu para que minha mãe tivesse tempo de me proteger.
James engoliu em seco, seus olhos brilhando por trás dos óculos.
— Bem, desta vez, eu vou viver para garantir que você nunca precise de um sacrifício desses. Nós vamos pegar aquele rato, vamos destruir aquelas coisas de alma, e depois... bem, depois eu vou ter que descobrir como explicar para a Lily que temos um filho de dezoito anos antes mesmo de termos nosso primeiro encontro oficial.
A sala explodiu em risadas, um som que parecia expulsar as últimas sombras de Grimmauld Place. Até mesmo Walburga permitiu-se um sorriso pálido.
— Temos muito trabalho a fazer — disse Órion, recuperando o foco. — Harry, você mencionou um anel em Little Hangleton. Regulus, você conhece o medalhão. Narcisa, você tem acesso ao cofre dos Lestrange através de Bellatrix.
— Eu posso entrar lá — disse Narcisa, olhando para Bellatrix, que parecia estar em um transe de fúria e confusão. — Bella, você vai me dar a chave. Ou eu a pegarei de você. De qualquer forma, aquele objeto sairá de Gringotes.
Bellatrix olhou para a irmã mais nova e, por um momento, a loucura pareceu recuar diante do vínculo de sangue.
— Pegue a maldita chave, Cissa — resmungou Bellatrix. — Se o mestre mentiu sobre a nossa glória, então ele não merece os nossos tesouros.
O plano estava em movimento. Harry Potter, que começara a noite como um órfão de guerra em uma casa em ruínas, agora se encontrava no centro de uma das alianças mais poderosas da história bruxa.
— Vamos para Hogwarts — anunciou Fleamont. — James, Sirius, Harry... preparem-se. É hora de caçar um rato e salvar o futuro.
Enquanto eles se preparavam para aparatar, a pequena Ninfadora correu até Harry e puxou a barra de sua capa. O cabelo dela agora era de um verde brilhante, a cor dos olhos de Harry.
— Você é o menino dos livros? — perguntou ela com curiosidade infantil.
— Sou, Dora — Harry ajoelhou-se para ficar na altura dela.
— Você parece triste — disse ela, tocando a cicatriz em sua testa com um dedo pequeno. — Mas agora o papai e a mamãe estão aqui. E a vovó brava também. Você não precisa mais ficar triste.
Harry fechou os olhos por um momento, sentindo o peso de anos de solidão finalmente se dissipar.
— Você tem razão, Dora. Eu não preciso mais.
Com um estalo sonoro, o grupo partiu para Hogwarts. Grimmauld Place permaneceu em silêncio, mas não era mais o silêncio do mofo e do arrependimento. Era o silêncio de uma fortaleza que guardava a esperança de uma linhagem que se recusara a cair nas trevas. O destino de Harry Potter fora reescrito não por uma profecia, mas pelo simples e avassalador poder de uma família que decidiu, contra todas as probabilidades, que o amor e a sobrevivência eram mais importantes do que a pureza e o poder. E nas sombras da noite, a tapeçaria dos Black brilhava com novos nomes, novas cores e um futuro que ninguém, nem mesmo o Lorde das Trevas, poderia prever.