Voltar ao resumo

Harry Slayer

O Eclipse de Londres e a Coroa de Vidro Negro

A aurora que despontava no horizonte não trazia o calor da esperança, mas a palidez de um cadáver. Sob o céu de um rosa doentio, Hogwarts não era mais uma escola; era uma colmeia. Harry Potter, o Rei dos Onis, estava parado no parapeito da Torre de Astronomia, observando as carruagens sem cavalos serem preparadas, não por testrálios, mas por alunos cujas costas agora ostentavam protuberâncias ósseas e cujos movimentos eram rápidos demais para a vista cansada de Alvo Dumbledore, que observava de sua cela mágica logo abaixo.

Harry sentia cada batida de coração dentro do castelo. Ele sentia a fome de Rony, a curiosidade analítica de Hermione e a devoção febril de Draco. Mas, acima de tudo, ele sentia o medo que emanava da Floresta Proibida, onde as criaturas mágicas se escondiam de um predador que não respeitava as leis da natureza.

— O mundo bruxo é uma estrutura frágil, não é, Hermione? — Harry perguntou, sem se virar.

Hermione aproximou-se, seus passos silenciosos sobre a pedra fria. Seus olhos violetas brilhavam com uma inteligência que transcendia o humano. Ela segurava um mapa do Ministério da Magia, mas não era um mapa comum; era uma projeção de sangue que pulsava conforme as pessoas se moviam dentro do edifício em Londres.

— É um castelo de cartas, meu Rei — respondeu ela, sua voz soando como seda arrastada sobre mármore. — Eles confiam em proteções que datam de séculos atrás. Eles acreditam que o segredo é sua maior arma. Eles não contam com alguém que pode simplesmente... sentir a vida através das paredes.

Harry virou-se, sua beleza andrógina acentuada pela luz fraca da manhã. Ele usava agora uma túnica de seda negra com fios de prata que pareciam se mover como serpentes. Seus olhos fúcsia fixaram-se nos de Hermione.

— O Ministério será o nosso palco. Quero que a transição seja... artística. Não quero apenas o sangue deles; quero a esperança deles. Quero que, no momento em que a transformação começar, eles percebam que tudo o que lutaram para proteger era apenas uma ilusão de segurança.

— Os Aurores que você infectou no pátio já estão começando a mudar — disse Draco, surgindo das sombras com um sorriso predatório. — Kingsley Shacklebolt está lutando contra a própria natureza, mas é inútil. O sangue de um Rei não aceita recusas.

Harry sorriu, e o gesto foi de uma crueldade tão pura que até Draco sentiu um arrepio de prazer e pavor.

— Leve-os para a frente, Draco. Eles serão nossos cavalos de Troia. Quando entrarmos no Átrio, quero que o mundo veja seus heróis se ajoelharem diante de mim.

...

Londres acordou para um dia estranho. O nevoeiro que subia do Tâmisa era espesso e tinha um matiz avermelhado. No coração de Whitehall, a entrada para o Ministério da Magia estava mais movimentada do que o normal. Funcionários entravam e saiam, alheios ao fato de que as sombras sob seus pés estavam ficando mais longas e famintas.

Harry Potter caminhava pela calçada de Londres como um deus entre mortais. Ele não usava feitiços de desilusão. Ele não precisava. As pessoas que cruzavam seu caminho simplesmente desviavam o olhar, um instinto primordial dizendo-lhes que olhar diretamente para aquela beleza letal significava a morte. Ele parou diante da cabine telefônica vermelha, seguido por Hermione, Draco e uma Luna Lovegood que parecia flutuar sobre o asfalto.

— A cabine é tão pequena para tanta glória — comentou Luna, inclinando a cabeça para o lado. — Os Narguilés de Londres têm cheiro de fumaça e mentiras.

— Eles logo terão cheiro de incenso e oferendas, Luna — disse Harry, entrando na cabine.

Ao chegarem ao Átrio, o caos planejado começou. O teto encantado do Ministério, que geralmente mostrava um céu azul, escureceu instantaneamente para um tom de eclipse. As chamas verdes das lareiras de Flu tornaram-se púrpuras.

— Quem está aí? — gritou um guarda de segurança, sacando a varinha. — O acesso ao Átrio está restrito!

Harry caminhou calmamente pelo corredor de azulejos negros. A cada passo, o chão sob seus pés rachava, e roseiras de sangue começavam a brotar das fendas.

— Eu sou aquele que vocês esperavam — disse Harry, sua voz amplificada pela magia demoníaca, ecoando por todos os andares do Ministério. — Eu sou o Menino Que Sobreviveu... e eu vim reclamar o que é meu por direito de conquista.

O guarda tentou lançar um feitiço, mas antes que pudesse pronunciar a primeira sílaba, Draco Malfoy estava sobre ele. Com um movimento que o olho humano não conseguia acompanhar, Draco cravou as unhas no pescoço do homem, não para matar, mas para injetar a essência do Rei.

— Não resista — sussurrou Draco no ouvido do guarda, enquanto o homem caía de joelhos, seus olhos começando a mudar. — É o início da sua eternidade.

As portas dos elevadores se abriram e dezenas de Aurores, liderados por um atordoado Rufo Scrimgeour, saíram com as varinhas em punho. Ao verem Harry, houve um momento de hesitação coletiva. Ele não parecia o Harry Potter dos jornais. Ele parecia uma divindade caída, uma estátua de porcelana viva envolta em uma aura de poder absoluto.

— Potter? — Scrimgeour rugiu, o rosto marcado pela descrença. — O que é isso? O que você fez em Hogwarts? Recebemos relatos de...

— Relatos de uma nova era, Rufo — interrompeu Harry, sua voz carregada de um escárnio venenoso. — Dumbledore está em uma cela, Snape está quebrado e Hogwarts é o meu jardim. Agora, eu vim buscar a coroa que vocês guardam neste edifício de papel.

— Você está sob prisão! — gritou Scrimgeour. — Ataquem!

O Átrio explodiu em luz. Feitiços de todas as cores voaram em direção ao grupo de Harry. Hermione deu um passo à frente, levantando as mãos. Um escudo de geometria rúnica violeta materializou-se, absorvendo os impactos como se fossem gotas de chuva.

— A magia de vocês é tão... finita — disse Hermione, com um sorriso triste e cruel. — Deixem-me mostrar a vocês a matemática do infinito.

Ela lançou um feitiço não-verbal. Os fios de sangue que Harry havia plantado no chão subiram como chicotes, enrolando-se nos tornozelos dos Aurores e puxando-os para baixo. Enquanto eles lutavam, Harry caminhava entre eles, intocado, sua presença fazendo com que as luzes do Ministério piscassem e explodissem.

Scrimgeour tentou um duelo direto, mas Harry simplesmente pegou a varinha do Ministro com a mão nua e a quebrou ao meio, o estalo da madeira soando como um tiro no salão silencioso.

— Você governa através do medo e da burocracia, Rufo — disse Harry, segurando o Ministro pelo colarinho de suas vestes caras. — Eu governo através da essência.

Harry inclinou-se e sussurrou algo no ouvido de Scrimgeour que fez o homem empalidecer até ficar da cor de cinzas. Com um movimento rápido, Harry cravou as unhas no pulso do Ministro.

— Levem-no para o Departamento de Mistérios — ordenou Harry. — Quero ver o que o Véu da Morte tem a dizer sobre a minha natureza.

Enquanto seus generais lidavam com os sobreviventes, Harry caminhou até a Fonte dos Irmãos Mágicos. Ele olhou para a estátua do bruxo, do elfo doméstico e do centauro. Com um gesto de mão, a estátua de ouro derreteu, transformando-se em uma massa informe de metal precioso. Harry moldou o ouro com sua vontade, transformando-o em um trono de linhas elegantes e espinhos afiados.

Ele sentou-se, observando o Átrio ser transformado em um templo de sangue.

— Harry? — a voz de Luna veio de trás dele. Ela segurava uma esfera de cristal que brilhava com uma luz pálida. — As profecias estão gritando. Elas dizem que o futuro não existe mais, apenas o agora.

— O futuro é o que eu decido, Luna — disse Harry, recostando-se no trono. — Diga-me, onde está o nosso querido amigo, Arthur Weasley?

— Ele está no nível dois, Harry — respondeu Hermione, aproximando-se com o mapa de sangue. — Ele está tentando organizar uma evacuação. Ele... ele está chorando por Rony.

Harry soltou um riso melodioso que não continha nenhuma gota de humanidade.

— Traga-o aqui. Quero que ele veja o que o filho dele se tornou. Quero que ele veja a beleza da nossa nova família.

Momentos depois, Arthur Weasley foi arrastado para o Átrio por dois novos Onis que um dia foram alunos da Lufa-Lufa. Arthur estava em estado de choque, mas ao ver Harry no trono, seus olhos se encheram de uma fúria desesperada.

— Harry! O que você fez? Onde está o meu filho? — gritou Arthur, tentando se soltar.

Harry fez um sinal e Rony Weasley saiu das sombras. Rony estava sem camisa, sua pele agora pálida e coberta de marcas tribais negras que pulsavam com o sangue de Harry. Ele parecia mais forte, mais alto, mas seus olhos eram fendas de fome pura.

— Rony... — Arthur sussurrou, o horror paralisando seus pulmões.

— Olhe para ele, Arthur — disse Harry, sua voz suave e perigosa. — Ele não é mais o eterno segundo lugar. Ele não é mais o garoto com vestes de segunda mão. Ele é um senhor da noite. Ele é eterno.

— Você o matou! — gritou Arthur. — Você matou o meu filho!

— Eu o salvei da mediocridade! — Harry rugiu, levantando-se do trono com uma energia que fez o Átrio tremer. — Eu salvei todos eles! Este mundo estava morrendo, Arthur! Estava sufocado por tradições inúteis e por um Lorde das Trevas que temia a própria sombra. Eu não temo nada.

Harry caminhou até Arthur e, com uma delicadeza sádica, tocou o rosto do homem mais velho.

— Você sempre foi gentil comigo, Arthur. Por isso, darei a você uma escolha. Junte-se a nós. Deixe-me transformar você e Molly. Vocês serão os patriarcas da minha nova nobreza.

— Eu prefiro morrer — disse Arthur, cuspindo no chão aos pés de Harry.

Harry fechou os olhos por um momento, um sorriso triste brincando em seus lábios.

— Eu sabia que você diria isso. É uma pena. A lealdade humana é tão... teimosa. Rony?

Rony deu um passo à frente, suas garras se alongando.

— Sim, meu Rei?

— Seu pai se recusa a ver a luz. Mostre a ele a escuridão. Mas não o mate ainda. Quero que ele veja o Ministério queimar primeiro.

Rony avançou sobre o próprio pai com uma velocidade desumana. Os gritos de Arthur Weasley ecoaram pelo Átrio, misturando-se à sinfonia de destruição que Harry havia orquestrado.

Harry voltou ao seu trono. Ele sentia o poder do Ministério sendo absorvido por sua própria aura. O Departamento de Mistérios, com todos os seus segredos sobre o tempo, a morte e o amor, estava agora sob seu controle.

— Hermione — chamou Harry. — Comece o ritual. Quero que o eclipse sobre Londres se torne permanente. Quero que o sol nunca mais toque esta cidade a menos que eu permita.

— E quanto aos trouxas, Harry? — perguntou ela, seus dedos já traçando símbolos de sangue no ar.

Harry olhou para o teto, como se pudesse ver através dos quilômetros de terra até a superfície de Londres.

— Os trouxas serão o nosso gado, Hermione. Mas primeiro, devemos limpar a casa. Envie uma mensagem para o que resta da Ordem da Fênix. Diga a eles que o Rei está no trono e que o banquete de coroação será realizado no dia de Natal.

— Eles virão para lutar — disse Draco, limpando o sangue das unhas.

— Eu conto com isso — disse Harry, seus olhos fúcsia brilhando com uma antecipação doentia. — Eu quero ver o olhar de Dumbledore quando ele perceber que cada um de seus preciosos soldados foi transformado em um dos meus servos.

Harry recostou-se, fechando os olhos. Ele podia ouvir a cidade de Londres acima dele, o som dos carros, o murmúrio das pessoas, tudo prestes a ser silenciado por sua vontade. Ele era o Rei dos Onis, o senhor da magia e do sangue, e o mundo bruxo era apenas o primeiro prato de um banquete que duraria para sempre.

— A era das varinhas acabou — sussurrou Harry para a escuridão do Átrio. — A era do Rei começou.

E nas sombras do Ministério, mil vozes responderam em um sussurro que era ao mesmo tempo uma oração e um lamento:

— Vida longa ao Rei.