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Helliam

Sombras entre o Óleo e o Sangue

O silêncio na oficina de Henry era denso, quase palpável, interrompido apenas pelo estalo ocasional do metal esfriando e pelo som rítmico da chuva que agora apenas garoava contra o telhado de zinco. William estava imóvel, o rosto escondido na curva do pescoço de Henry. A pele de Henry era quente, um contraste gritante com a temperatura habitual de William, que sempre parecia carregar o frio das máquinas que construía.

Henry continuava a acariciar o mullet castanho de William, um gesto repetitivo que acalmava a tempestade interna de ambos. Ele sentia a estrutura óssea de William sob suas mãos — o parceiro era magro, quase frágil em aparência, mas Henry sabia que aquela carcaça escondia uma força de vontade férrea e uma mente capaz de atrocidades que fariam qualquer homem são tremer. E, no entanto, ali estava ele, rendido.

— No que você está pensando? — a voz de William surgiu abafada, vibrando contra o peito de Henry.

Henry suspirou, o peito largo subindo e descendo.

— No quanto tudo isso é frágil, Will. A Fazbear, os projetos... nós. Às vezes sinto que estamos construindo um castelo de cartas sobre um abismo.

William se afastou levemente, apoiando-se no cotovelo para olhar Henry nos olhos. Seus olhos cinzentos estavam dilatados, ainda carregando o brilho residual da intensidade que haviam compartilhado momentos antes.

— Castelos de cartas são divertidos, Henry. O desafio é ver quanto tempo eles aguentam antes que o vento os derrube — William deu um sorriso de canto, aquele brilho predatório voltando momentaneamente às suas pupilas. — Mas você é a fundação. Você é sólido demais para cair.

— E você é o vento, não é? — Henry retrucou com uma ponta de melancolia, embora sua mão ainda repousasse com posse no quadril de William.

William não respondeu. Ele se sentou no sofá, a pele pálida contrastando com o couro escuro. Ele buscou sua camisa social no chão, mas antes que pudesse vesti-la, sentiu as mãos grandes de Henry envolverem sua cintura por trás. Henry, mesmo sentado, era uma presença massiva. Ele encostou a testa nas costas de William, sentindo a espinha dorsal do outro.

— Não vá ainda — pediu Henry. A voz dele, geralmente tão controlada e gentil, tinha um tom de súplica que ele raramente mostrava.

William parou, a camisa pendurada em uma das mãos. Ele fechou os olhos, lutando contra o impulso de se afastar. O afeto era uma fraqueza que ele evitava a todo custo, mas Henry Emily era sua única exceção, sua única falha no sistema.

— Henry, eu tenho responsabilidades. Se eu sumir por muito tempo, as pessoas começam a fazer perguntas. E nós dois sabemos que perguntas levam a respostas que ninguém quer ouvir.

— Só mais uma hora — insistiu Henry, virando William para frente. — O mundo pode esperar uma hora.

Henry puxou William para o seu colo. A diferença de tamanho era quase cômica; William parecia pequeno e protegido nos braços do gigante ruivo. Henry enterrou o rosto no ombro de William, aspirando o cheiro de cigarro, menta e o odor metálico que nunca abandonava a pele do sócio.

— Você me odeia hoje, Henry? — perguntou William de repente, sua voz fria voltando a um tom mais neutro, quase clínico.

Henry hesitou. Ele pensou nas crianças desaparecidas, nos sussurros nos corredores da pizzaria, na frieza com que William descartava qualquer empatia pelo próximo. A raiva que ele sentira por anos ainda estava lá, enterrada sob camadas de desejo e uma necessidade desesperada de conexão.

— Eu odeio o que você faz — disse Henry, sendo honesto. — Eu odeio a parte de você que não consigo alcançar. Mas eu não consigo odiar você. Não mais.

William soltou uma risada curta e seca, mas seus dedos se entrelaçaram nos cabelos ruivos de Henry.

— Você é um homem bom demais para o seu próprio bem, Henry. É por isso que você precisa de mim. Para equilibrar a balança.

— Ou para quebrá-la de vez — murmurou Henry.

Ele começou a beijar o ombro de William novamente, subindo para a linha da mandíbula. O toque de Henry era firme, mas carregado de uma adoração que confundia William. Para Afton, o mundo era um lugar de causa e efeito, de engrenagens e resultados. O amor de Henry era uma variável que ele não conseguia calcular com precisão.

— Você é tão quente — sussurrou William, rendendo-se novamente ao contato. — Às vezes eu esqueço que seres humanos podem ter esse calor.

— É porque você passa tempo demais no porão com aquelas coisas de metal — Henry brincou, embora houvesse um fundo de verdade dolorosa em suas palavras.

Ele levantou William com facilidade, como se o outro não pesasse nada, e o carregou até a mesa de projetos no centro da oficina. Henry afastou alguns papéis de plantas e ferramentas com um movimento brusco da mão, limpando o espaço. Ele sentou William na borda da mesa.

— Henry... aqui? — William arqueou uma sobrancelha, um brilho de diversão surgindo em seu rosto.

— Quero que você lembre deste lugar não apenas como o lugar onde trabalhamos, mas como o lugar onde você pertence a mim — Henry disse, sua voz tornando-se mais profunda, o comando voltando ao seu tom.

William sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele gostava quando Henry deixava a gentileza de lado e assumia o controle. Era a única forma de William realmente se sentir "desligado" de suas próprias obsessões.

— Então me mostre — desafiou William, abrindo as pernas para dar espaço ao gigante.

Henry não precisou de um segundo convite. Ele se encaixou entre as coxas de William, suas mãos grandes segurando as coxas pálidas do outro com firmeza, quase deixando marcas. O beijo que se seguiu foi faminto, uma colisão de dentes e línguas que falava de anos de frustração reprimida.

— Você é tão... perfeito na sua loucura — arfou Henry entre os beijos, suas mãos explorando o corpo de William com uma urgência renovada.

William jogou a cabeça para trás, expondo a garganta.

— E você é um hipócrita, Henry. Você adora a minha escuridão tanto quanto eu adoro a sua luz.

Henry soltou um rosnado baixo, um som animal que raramente saía de sua garganta. Ele não negou. Em vez disso, focou em fazer William sentir cada centímetro daquela conexão física. A mesa de metal era fria contra as costas de William, mas o corpo de Henry era um incêndio.

Enquanto se moviam juntos, o som das ferramentas tilintando na mesa e o ranger do metal criavam uma sinfonia industrial para o ato. Não era algo delicado; era uma luta por domínio e entrega. Henry era o mestre da criação, e ali, ele estava moldando William, arrancando dele sons que o homem frio nunca emitiria em qualquer outro lugar.

— Henry! — o nome escapou dos lábios de William como um tiro, agudo e carregado de prazer, enquanto ele cravava as unhas nos ombros largos do ruivo.

Henry não parou até que ambos estivessem exaustos, ofegantes, os corpos brilhando de suor sob a luz fluorescente da oficina. Ele manteve William pressionado contra a mesa por um longo tempo, recuperando o fôlego, o rosto enterrado na curvatura do pescoço do sócio.

— Diga — ordenou Henry, a voz rouca.

— Dizer o quê? — William perguntou, a voz fraca, os olhos semicerrados.

— Que você não vai embora. Que você faz parte disso aqui tanto quanto eu.

William soltou um suspiro longo, o peito subindo e descendo com dificuldade. Ele olhou para o teto da oficina, para as vigas de aço e os cabos pendurados.

— Eu não posso prometer o futuro, Henry. Você sabe quem eu sou. Você sabe o que eu fiz... e o que eu ainda posso fazer.

Henry se afastou o suficiente para olhar no rosto de William. Ele limpou uma mecha de cabelo suado da testa do moreno.

— Eu sei. E é por isso que eu te chamei. Porque se o mundo for queimar, Will, eu quero estar segurando a sua mão quando o fogo começar.

William ficou em silêncio. Aquela era a declaração mais aterrorizante que ele já ouvira, vinda do homem que deveria ser a bússola moral de ambos. Ele percebeu, com uma clareza cortante, que havia corrompido Henry Emily muito mais do que imaginava. E, para sua própria surpresa, ele não sentiu culpa. Sentiu triunfo.

— Você é um monstro pior do que eu, Henry — William sussurrou, puxando o rosto de Henry para um beijo casto e suave. — Porque você sabe o que é certo, e escolhe a mim mesmo assim.

— Talvez — admitiu Henry. — Mas você é o meu monstro.

Eles ficaram ali por mais algum tempo, a adrenalina baixando e o cansaço finalmente se instalando. Henry ajudou William a descer da mesa e, com uma ternura que contrastava com a agressividade de minutos antes, ajudou-o a se vestir. Ele abotoou a camisa de William, um botão de cada vez, como se estivesse fechando uma ferida.

William observava as mãos de Henry. Mãos de um artesão. Mãos que poderiam esmagar seu pescoço com a mesma facilidade com que o acariciavam.

— Preciso ir — disse William finalmente, quando o primeiro vestígio de luz cinzenta começou a aparecer no horizonte, sinalizando o fim da madrugada.

— Eu sei — Henry respondeu, entregando-lhe o casaco que agora estava apenas levemente úmido.

Eles caminharam até a porta da oficina. A chuva parara completamente, deixando o cheiro de terra molhada e asfalto frio no ar. William parou na soleira, olhando para o seu carro estacionado na rua deserta.

— Amanhã na pizzaria? — perguntou William, sem olhar para trás.

— Amanhã na pizzaria — confirmou Henry. — Temos que revisar o sistema de reconhecimento facial dos novos modelos.

William deu um meio sorriso, aquele seu jeito enigmático de concordar. Ele deu um passo para fora, mas parou e voltou-se para Henry uma última vez.

— Henry?

— Sim?

— Não se torne como eu — disse William, sua voz subitamente séria, quase desprovida de sua ironia habitual. — O abismo é um lugar solitário demais, mesmo para dois.

Antes que Henry pudesse responder, William se virou e caminhou em direção ao carro. Henry ficou na porta, observando as luzes traseiras do veículo desaparecerem na neblina matinal.

Ele voltou para dentro e trancou a porta. A oficina parecia vazia agora, maior do que realmente era. O cheiro de William ainda pairava no ar, misturado ao óleo e ao metal. Henry caminhou até a mesa de projetos e viu um pequeno parafuso que William deixara cair. Ele o pegou e o guardou no bolso.

Ele sabia que o que tinham era doentio. Sabia que estava alimentando a fera que acabaria por devorá-los. Mas, enquanto caminhava para a pia para lavar o óleo e o suor das mãos, Henry Emily sorriu para o próprio reflexo no espelho manchado.

— Pelo menos — sussurrou ele para as sombras — nós não estamos sozinhos.

Ele apagou a luz da oficina, deixando os animatrônicos incompletos vigiando a escuridão. O dia estava começando, e com ele, a máscara de normalidade teria que ser colocada novamente. Mas as marcas nos ombros de Henry e o segredo guardado entre as engrenagens daquela noite permaneceriam, uma promessa silenciosa de que, no final, eles cairiam juntos.

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