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Helliam

Sinfonia de Sombras e Veludo

A casa dos Afton era um mausoléu de silêncio e segredos, uma estrutura que, vista de fora, exalava a perfeição suburbana, mas que por dentro guardava o eco de uma família fragmentada. Naquela noite, porém, o silêncio era diferente. Não havia o som das discussões de Michael com o pai, nem as risadas estridentes de Elizabeth ou o choro contido do mais novo. William havia garantido que a casa estivesse vazia. Um raro alinhamento de astros — ou talvez apenas um planejamento meticuloso de um homem que gostava de controlar cada variável.

Henry Emily estacionou seu carro na entrada, sentindo-se estranhamente exposto sob a luz do poste de rua. Ele estava acostumado ao ambiente estéril e industrial da oficina, onde o cheiro de graxa mascarava qualquer tensão emocional. Ali, no território pessoal de William, tudo parecia mais íntimo e, por extensão, mais perigoso.

Ele caminhou até a porta e, antes mesmo que pudesse tocar a campainha, a madeira rangeu. William estava lá, encostado no batente, segurando um copo de cristal com um líquido âmbar. O mullet castanho estava ligeiramente bagunçado, e ele não usava o terno habitual, apenas uma camisa social roxa com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas até os cotovelos.

— Você é pontual, Henry. Quase irritante — disse William, dando um passo para trás para dar passagem ao gigante.

Henry entrou, sua altura de dois metros e dezessete fazendo o hall de entrada parecer subitamente claustrofóbico. Ele olhou ao redor, notando a ordem impecável da sala.

— Onde estão as crianças, Will? — perguntou Henry, sua voz profunda ressoando nas paredes decoradas com fotos de família que pareciam encenadas demais.

— Michael levou os irmãos para passar o fim de semana na casa da tia. Eu disse que precisava de "paz para trabalhar" — William sorriu, um brilho cínico cruzando seus olhos cinzentos. — Eles não questionam quando eu uso o trabalho como desculpa. É a única coisa que respeitam em mim.

Henry sentiu uma pontada de tristeza pelo amigo, ou pelo que restava da humanidade dele. Ele se aproximou de William, a presença física de Henry sempre agindo como uma âncora para a mente errante de Afton.

— Você me chamou para trabalhar, então? — Henry perguntou, arqueando uma sobrancelha ruiva.

William deixou o copo sobre uma mesa lateral e aproximou-se de Henry, reduzindo a distância até que seus peitos quase se tocassem. Ele teve que inclinar a cabeça consideravelmente para encarar os olhos gentis, porém intensos, do sócio.

— Você sabe que não, Henry. Eu queria você aqui. Sem o cheiro de óleo queimado, sem o ruído das engrenagens. Apenas... você.

William estendeu a mão pálida e tocou o rosto de Henry, os dedos traçando a linha da mandíbula perfeitamente feita. Henry fechou os olhos, soltando um suspiro pesado. O conflito interno que o assombrava — o amor por um homem que ele sabia ser capaz de horrores — parecia diminuir sempre que William o tocava daquela forma carinhosa, uma faceta que o psicopata reservava apenas para ele e para os filhos.

— Esta casa é tão silenciosa, Will — sussurrou Henry, envolvendo a cintura fina de William com suas mãos imensas. — É quase assustador.

— O silêncio só é assustador para quem tem medo dos próprios pensamentos — rebateu William, puxando Henry pela gola da camisa. — Eu aprendi a gostar dele. Mas hoje, eu prefiro o som da sua voz.

Sem mais delongas, William eliminou o espaço restante e beijou Henry. Diferente dos beijos urgentes na oficina, este era carregado de uma luxúria lenta, quase exploratória. Henry respondeu com uma intensidade que sempre surpreendia William; o gigante gentil possuía uma paixão avassaladora guardada sob sua fachada calma.

Henry ergueu William, fazendo o homem menor soltar um arquejo de surpresa que logo se transformou em um gemido de satisfação. As pernas de William envolveram a cintura de Henry enquanto eles se moviam em direção à escada, os beijos nunca cessando, uma dança de sombras contra as paredes da casa silenciosa.

Ao chegarem ao quarto principal, a atmosfera mudou. A luz da lua filtrava-se pelas cortinas entreabertas, banhando o ambiente em tons de prata e azul. Henry depositou William na cama de casal com uma delicadeza que beirava a adoração.

— Você tem certeza disso aqui? — Henry perguntou, as mãos apoiadas no colchão, cercando o corpo de William. — Na sua casa? Onde suas memórias vivem?

William esticou o braço, puxando Henry para baixo pela nuca, forçando-o a olhar em seus olhos desprovidos de qualquer hesitação.

— Minhas memórias são feitas de metal e arrependimento, Henry. Quero algo real para ocupar este espaço hoje à noite. Quero que você apague todo o resto.

Henry não precisou de mais nada. Ele começou a despir William com mãos trêmulas pela antecipação, mas precisas. Cada centímetro de pele pálida revelado parecia um tesouro proibido. William, por sua vez, ajudava Henry a se livrar das roupas, maravilhado pela musculatura vasta e sólida do ruivo. A diferença de tamanho entre eles sempre fora uma fonte de fascínio para William; no mundo exterior, ele era o predador, mas nos braços de Henry, ele encontrava o prazer de ser vulnerável.

— Você é magnífico, Henry — murmurou William, enquanto Henry se posicionava sobre ele, a pele quente contra a frieza habitual de Afton.

— E você é um mistério que eu nunca vou terminar de resolver — respondeu Henry, descendo os beijos pelo pescoço de William, encontrando os pontos sensíveis que faziam o outro arquear as costas.

O ato em si foi uma sinfonia de contrastes. Henry era a força, o movimento constante e protetor, enquanto William era a entrega, os gemidos baixos e a pele pálida marcada pelo contraste das mãos grandes do sócio. Naquele momento, não havia Freddy, nem Bonnie, nem os segredos enterrados sob o solo da pizzaria. Havia apenas a respiração pesada de dois homens que se encontravam no limite entre a sanidade e a obsessão.

William cravou as unhas nos ombros de Henry, sentindo a solidez do homem acima dele. Para alguém que passava a vida tentando controlar o destino e a morte, entregar o controle total a Henry era uma forma perversa de libertação.

— Henry... por favor — suplicou William, sua voz falhando enquanto o prazer o atingia em ondas avassaladoras.

Henry, mantendo o contato visual, acelerou o ritmo, sua expressão uma mistura de dor e devoção. Ele amava aquele homem com uma ferocidade que o assustava, e cada movimento era uma tentativa de alcançar a alma que William insistia em dizer que não possuía.

Quando o ápice finalmente os alcançou, o silêncio da casa foi quebrado por seus nomes sussurrados como preces desesperadas. Eles desabaram um sobre o outro, os corações batendo em um ritmo frenético e desencontrado que, aos poucos, foi se harmonizando.

Minutos depois, ou talvez horas, Henry estava deitado de lado, observando William. O moreno parecia mais jovem na penumbra, as linhas de tensão em seu rosto suavizadas pelo cansaço pós-coital. William brincava com os dedos de Henry, comparando o tamanho de suas mãos.

— Você vai embora antes deles voltarem? — perguntou William, sem olhar para cima.

— Eu deveria — respondeu Henry, embora não fizesse menção de se mover. — Mas parte de mim quer ficar aqui e garantir que você não desapareça nas sombras assim que o sol nascer.

William soltou uma risada curta, sentando-se e encostando a cabeça na cabeceira da cama. Ele pegou um maço de cigarros na mesa de cabeceira, acendendo um e soprando a fumaça para o teto.

— Eu nunca desapareço, Henry. Eu sou o arquiteto desta desordem. Mas... — ele hesitou, olhando para o sócio com uma vulnerabilidade rara — ...ter você aqui, nesta casa, faz com que ela pareça menos um túmulo.

Henry sentou-se também, passando o braço pelos ombros de William e puxando-o para perto. O cheiro do tabaco misturava-se ao suor e ao perfume amadeirado de Henry.

— Will, você sabe que isso não muda o que está acontecendo na Fazbear. As coisas que você faz... os riscos que você corre...

William colocou um dedo sobre os lábios de Henry, silenciando-o.

— Não estrague a noite com a realidade, Henry. A realidade é para amanhã. Hoje, somos apenas dois sócios que se perderam no caminho de casa.

— Você sempre tem uma resposta cínica para tudo — disse Henry, suspirando, mas beijando o topo da cabeça de William.

— É o meu mecanismo de defesa favorito.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, observando a fumaça do cigarro dançar sob a luz da lua. Henry sentia uma paz melancólica. Ele sabia que, ao sair daquela casa, voltaria a ser o homem que tentava consertar o que William quebrava, o homem que sentia raiva e repulsa pelas ações do sócio. Mas ali, entre aqueles lençóis, a raiva era apenas uma lembrança distante, substituída por uma necessidade física e emocional que ele não conseguia explicar.

— Você acha que somos amaldiçoados? — perguntou William de repente, apagando o cigarro no cinzeiro.

Henry olhou para as próprias mãos, as mesmas mãos que construíam sonhos para crianças e que, agora, protegiam um monstro.

— Eu acho que nós fizemos nossas próprias escolhas, Will. A maldição é ter que viver com elas.

William deitou-se novamente, puxando o lençol sobre eles.

— Então durma, Henry. Se formos amaldiçoados, que pelo menos possamos descansar antes do inferno começar.

Henry acomodou-se atrás de William, colando seu corpo ao dele, protegendo-o do frio da noite e, talvez, de si mesmo. Ele sabia que aquela noite na casa dos Afton seria uma lembrança que o assombraria tanto quanto as outras, mas, por enquanto, o calor de William era a única coisa que importava.

Lá fora, o mundo continuava a girar, indiferente ao drama sombrio que se desenrolava naquela residência suburbana. Mas dentro daquelas paredes, as engrenagens de dois destinos estavam irrevogavelmente presas, girando juntas em direção a um fim que nenhum dos dois podia prever, mas que ambos, em algum nível profundo e sombrio, já haviam aceitado.

— Boa noite, Will — sussurrou Henry, já sentindo o peso do sono.

— Boa noite, Henry — respondeu William, fechando os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, permitindo-se não pensar em nada além do toque do homem que, contra todas as probabilidades, ainda o amava.

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