Hellish devotion
O Altar da Profanação
O cheiro de incenso e cera de vela derretida sempre foi o perfume que definiu a vida de Sonya Pedersen. Para a filha do pastor, a santidade não era apenas uma escolha, era o ar que ela respirava. Sentada no banco de carvalho da igreja vazia, com os dedos entrelaçados e a cabeça baixa, ela buscava o conforto do silêncio. As sardas em seu rosto, pequenas constelações de inocência, pareciam brilhar sob a luz filtrada pelos vitrais coloridos.
— "Livrai-nos do mal, amém" — sussurrou Sonya, fechando os olhos com força.
— Você repete isso tantas vezes... Já parou para pensar que o mal pode ser muito mais interessante do que esse silêncio ensurdecedor?
A voz era como veludo raspando em vidro quebrado. Fria, profunda e carregada de um sarcasmo que fez os pelos da nuca de Sonya se arrepiarem.
Sonya não precisou abrir os olhos para saber quem era. Lookmhee Punyapat. A mulher que parecia ter emergido das sombras mais profundas do vilarejo para assombrar seus dias. Quando Sonya finalmente levantou o olhar, encontrou a figura imponente de 1,85m encostada em uma das colunas de mármore.
Lookmhee era o oposto de tudo o que a igreja pregava. Trajava roupas escuras que pareciam absorver a pouca luz do ambiente. Seu cabelo preto caía como uma cascata noturna sobre os ombros largos. E havia aquele corte no canto da boca — uma cicatriz perfeita, quase divina em sua imperfeição — que conferia ao seu sorriso cínico um ar de perigo constante.
— Você não deveria estar aqui, Lookmhee — disse Sonya, a voz firme apesar do coração martelando contra as costelas. — É solo sagrado.
Lookmhee soltou uma risada curta, desprovida de qualquer humor genuíno. Ela caminhou lentamente em direção ao altar, cada passo ecoando como uma sentença de morte para a paz de Sonya. Ela tirou um maço de cigarros do bolso da jaqueta e, com uma audácia que beirava a heresia, acendeu um.
— Sagrado para quem, pequena ovelha? — Lookmhee soltou a fumaça lentamente, observando-a subir em direção ao teto pintado com anjos. — Para o seu pai, que usa o medo como coleira? Ou para você, que treme toda vez que eu entro em uma sala?
— Eu não tremo por medo — mentiu Sonya, levantando-se.
Lookmhee parou a poucos centímetros dela. A diferença de altura era intimidadora. A Punyapat inclinou-se para frente, invadindo o espaço pessoal de Sonya com uma possessividade que a jovem não sabia como classificar. O cheiro de tabaco e de algo metálico, quase como sangue antigo, envolveu Sonya.
— Mente tão bem para uma devota — provocou Lookmhee, estendendo a mão para tocar uma mecha do cabelo ruivo-acastanhado de Sonya. — Seus olhos dizem que você quer fugir, mas seus pés não se movem. Você está fascinada pelo abismo, Sonya. E eu sou o abismo.
Sonya recuou um passo, as costas batendo no banco de madeira.
— Por que você insiste em me perseguir? Eu não tenho nada que você queira.
Lookmhee sorriu, e a cicatriz em sua boca pareceu brilhar sob a luz das velas. No início, era apenas tédio. Lookmhee vivera eras, vira impérios caírem e o sangue correr como rios. A pureza de Sonya era uma anomalia irritante, um desafio que ela queria quebrar apenas para ver os pedaços. Mas o tédio se transformara em algo muito mais sombrio e denso: obsessão.
— Você tem tudo o que eu quero — afirmou Lookmhee, a voz agora um sussurro perigoso. — Você tem essa alma intocada que clama para ser corrompida. Eu vejo como você olha para o mundo lá fora, além dessas janelas de vidro colorido. Você tem sede, Sonya. Sede de vida, de pecado, de sentir algo que não esteja em um livro de orações.
— O que você chama de vida, eu chamo de perdição — rebateu Sonya, embora sua determinação estivesse fraquejando.
— Então perca-se comigo — Lookmhee deu um passo à frente, encurralando a garota. — Deixe-me mostrar o que acontece quando você para de pedir perdão por existir. Eu posso lhe dar o mundo, Sonya. Não o paraíso prometido após a morte, mas o trono que você merece agora.
Lookmhee levou o cigarro aos lábios mais uma vez, os olhos escuros e observadores fixos nos de Sonya, analisando cada reação, cada hesitação. Ela era uma manipuladora nata, uma tirana que não aceitava "não" como resposta. E ela queria Sonya. Não apenas como uma diversão passageira, mas como sua rainha, a única criatura digna de estar ao seu lado nas sombras.
— Meu pai diz que você é o próprio demônio — sussurrou Sonya, a curiosidade vencendo o medo por um breve momento.
— Seu pai é um homem limitado — Lookmhee deu de ombros, desdenhosa. — Ele teme o que não pode controlar. E ele sabe que não pode me controlar. Assim como ele sabe que, eventualmente, não poderá controlar você.
Lookmhee esticou o braço e tocou o rosto de Sonya com as costas dos dedos. A pele da Punyapat era fria, mas o toque queimava.
— Venha comigo esta noite — propôs Lookmhee. — Sem bíblias, sem sermões. Apenas a noite e o que ela tem a oferecer. Se você não gostar do que vir, eu a trarei de volta para o seu altar e nunca mais pisarei aqui.
Sonya olhou para o crucifixo acima do altar e depois para a mulher à sua frente. O pecado nunca parecera tão tangível, tão... magnético.
— E se eu gostar? — perguntou Sonya, a voz quase inaudível.
Lookmhee sorriu de verdade dessa vez, um sorriso predatório e vitorioso.
— Se você gostar, pequena ovelha... então o céu terá que aprender a viver sem você. Pois eu nunca a deixarei voltar.
A tirana apagou o cigarro na palma da própria mão, sem sequer piscar, demonstrando uma indiferença à dor que gelou o sangue de Sonya. Ela estendeu a mão aberta para a jovem.
— Então, Sonya Pedersen? O que pesa mais? O medo do inferno ou a curiosidade de saber por que todos os anjos caídos parecem tão mais felizes do que os que ficaram?
Sonya olhou para a mão de Lookmhee. Ela sabia que, se a segurasse, o caminho de volta seria obscurecido para sempre. Ela pensou nas orações matinais, na vida regrada, na calmaria que agora parecia uma prisão sufocante. A teimosia, uma característica que ambas compartilhavam, brilhou nos olhos de Sonya.
— Eu não vou rezar por você hoje, Lookmhee — disse Sonya, dando um passo à frente.
— Ótimo — respondeu Lookmhee, fechando os dedos sobre a mão menor de Sonya com uma força possessiva. — Eu prefiro que você grite meu nome por motivos muito mais profanos.
Elas saíram da igreja sob o manto da escuridão. O ar da noite estava fresco, mas para Sonya, parecia o início de um incêndio. Lookmhee a conduziu até uma motocicleta preta estacionada nas sombras das árvores.
— Suba — ordenou Lookmhee, entregando-lhe um capacete que Sonya recusou com um gesto de cabeça.
— Se eu vou pecar, quero sentir o vento no rosto — disse a filha do pastor, surpreendendo a si mesma.
Lookmhee soltou uma gargalhada genuína, um som que raramente escapava de sua garganta.
— Você aprende rápido. Talvez eu não precise ensinar tanto assim.
A viagem foi um borrão de luzes e sombras. Sonya apertou a cintura de Lookmhee, sentindo a musculatura firme da mulher sob a jaqueta de couro. Era a primeira vez que ela tocava alguém daquela forma, com tanta urgência. Lookmhee dirigia com uma imprudência calculada, como se desafiasse a própria morte a tentar pará-las.
Elas pararam no topo de uma colina que dominava a cidade. Lá embaixo, as luzes pareciam estrelas caídas. Lookmhee desceu e caminhou até a beirada, o vento agitando seu cabelo preto.
— Olhe para isso — disse Lookmhee, apontando para a cidade. — Todos eles dormindo em suas camas, seguindo as regras, temendo o julgamento. Eles acham que a vida é essa linha reta entre o nascimento e o cemitério.
Sonya aproximou-se, ficando ao lado dela. O contraste entre as duas era gritante: a pureza ruiva e a escuridão absoluta.
— E o que é a vida para você? — perguntou Sonya.
— A vida é o que você toma para si — respondeu Lookmhee, virando-se para ela. — É o prazer que você sente quando quebra uma corrente. É a violência de um desejo que não pode ser contido. Eu vivi eras, Sonya. Vi o melhor e o pior da humanidade. E posso te garantir: não há nada mais sagrado do que a sua própria vontade.
Lookmhee deu um passo para mais perto, sua altura forçando Sonya a olhar para cima. A possessividade nos olhos da Punyapat era quase física, uma corrente invisível que envolvia o pescoço de Sonya.
— Você é inteligente, Sonya. Educada, gentil... mas há algo em você que é igual a mim. Uma teimosia que não pertence a este mundo de ovelhas. Você não nasceu para servir a um Deus que exige silêncio. Você nasceu para ser adorada.
— Você está tentando me tentar, como a serpente no jardim — disse Sonya, embora não houvesse acusação em sua voz, apenas uma observação calma.
— A serpente foi a única que disse a verdade a Eva — Lookmhee inclinou a cabeça, o polegar traçando a linha da mandíbula de Sonya. — O conhecimento tem um preço. A liberdade tem um preço. Você está disposta a pagar?
— Qual é o preço? — Sonya sentiu a respiração falhar quando o rosto de Lookmhee se aproximou do seu.
— Sua alma. Sua lealdade. O direito de eu te chamar de minha — Lookmhee sussurrou contra os lábios de Sonya. — Eu não divido o que é meu. Nem com Deus, nem com o seu pai, nem com ninguém. Se você vier comigo, você será minha rainha, mas também será minha prisioneira nesse mundo que eu criei.
Sonya observou o corte no canto da boca de Lookmhee. Ela se perguntou se Deus realmente havia feito aquilo, ou se era apenas a marca de uma vida que se recusava a ser domada.
— Eu ainda não sei se confio em você — admitiu Sonya.
— Ótimo. A confiança é chata. O medo e o desejo são muito mais vibrantes — Lookmhee sorriu de forma provocadora. — Você quer voltar para casa agora? Para o seu quarto com paredes brancas e seus livros de salmos?
Sonya olhou para a escuridão à frente, e depois para a mulher arrogante e orgulhosa que a desafiava. O mundo profano que Lookmhee oferecia era violento, incerto e perigoso. Mas, pela primeira vez em dezoito anos, Sonya sentia que estava realmente acordada.
— Não — disse Sonya com firmeza. — Eu quero ver o resto.
Lookmhee sentiu uma onda de triunfo percorrer seu corpo. Ela sabia que tinha capturado seu prêmio. A obsessão que sentia por Sonya não era algo que passaria com o tempo; era uma fome que só cresceria. Ela ensinaria a Sonya cada pecado, cada prazer proibido. Ela a transformaria em algo que o pastor jamais reconheceria.
— Então venha, minha pequena rainha — Lookmhee a puxou para um beijo que tinha gosto de fumaça, perigo e uma promessa eterna de perdição.
Era um beijo que não pedia permissão. Era uma declaração de posse. Sonya, em sua sensibilidade e inteligência, soube naquele momento que o caminho para o céu estava fechado para ela. Mas, enquanto as mãos de Lookmhee a seguravam com uma força ciumenta e protetora, ela percebeu que, talvez, o inferno não fosse um lugar de chamas, mas sim o abraço daquela tirana que se recusava a deixá-la partir.
Lookmhee afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos de Sonya, um brilho de crueldade e adoração misturados em seu olhar.
— Amanhã, eles vão sentir sua falta na missa — disse Lookmhee, sarcástica.
— Deixe que sintam — respondeu Sonya, limpando um traço de batom escuro do canto da boca, exatamente onde ficava a cicatriz de Lookmhee. — Eu encontrei um novo altar para rezar.
Lookmhee riu, um som sombrio que ecoou pela colina. Ela acendeu outro cigarro, a luz da chama iluminando seu rosto por um segundo. Ela não era apenas um pecado na vida de Sonya; ela era o destino. E Lookmhee Punyapat sempre conseguia o que queria.
— Vamos — disse Lookmhee, montando na moto. — A noite está apenas começando, e temos uma eternidade de desgraças e maravilhas para explorar.
Sonya subiu atrás dela, abraçando sua cintura com mais força desta vez. Ela não sabia se estava se afogando ou aprendendo a nadar em águas profundas, mas, pela primeira vez, ela não se importava com a correnteza. O profano tinha um rosto, uma voz e um cheiro. E Sonya Pedersen estava pronta para ser devorada por ele.