Hellish devotion
O Cálice da Insurreição
O bar onde Lookmhee levou Sonya não constava em nenhum mapa que os fiéis da paróquia ousariam consultar. Era um refúgio subterrâneo, onde as paredes de tijolos expostos suavam com o calor das pessoas e a música não era um hino de louvor, mas um ritmo pulsante que parecia ditar as batidas do coração. A luz era escassa, tingida por tons de vermelho e neon, criando sombras que dançavam de forma pecaminosa nos rostos dos presentes.
Lookmhee caminhava pelo ambiente com a naturalidade de quem era dona do próprio caos. A altura de 1,85m e a aura de perigo que emanava faziam com que a multidão se abrisse como o Mar Vermelho, mas sem a intervenção divina — era puro medo e respeito. Ela conduziu Sonya até um reservado no fundo, onde o couro dos bancos era macio e o isolamento era quase total.
— O que você quer, minha pequena rainha? — perguntou Lookmhee, sentando-se e cruzando as pernas longas. Ela parecia terrivelmente elegante, mesmo naquele antro. A camisa preta de seda estava levemente aberta no colarinho, revelando a pele pálida que contrastava com a escuridão do ambiente.
Sonya olhava ao redor com olhos arregalados, a curiosidade lutando contra o condicionamento de dezoito anos. Suas sardas pareciam mais evidentes sob a luz avermelhada.
— Eu não sei... — admitiu Sonya, a voz trêmula mas firme. — Tudo aqui é tão diferente. O ar parece mais pesado.
Lookmhee sorriu, e a cicatriz no canto de sua boca se repuxou de forma hipnótica. Ela estalou os dedos e, em segundos, um garçom trouxe uma garrafa de cristal e duas taças. O líquido lá dentro era de um rubi profundo, quase negro.
— Vinho? — Sonya arqueou as sobrancelhas. — Eu já tomei vinho na comunhão, Lookmhee.
A tirana soltou uma risada sombria, um som que vibrou no peito de Sonya.
— Aquele suco de uva batizado que seu pai serve não é vinho, Sonya. Aquilo é uma promessa vazia de redenção — Lookmhee serviu a taça da jovem até a borda. — Isso aqui é o sangue da terra. É o vinho da liberdade. Experimente. Sem culpa. Sem orações antes do primeiro gole.
Sonya hesitou, olhando para o líquido. Ela pensou nas mãos do pai erguendo o cálice de ouro, na solenidade do ritual. Então, olhou para Lookmhee, que a observava com uma intensidade predatória, esperando o momento da queda. Sonya levou a taça aos lábios e tomou um gole generoso.
O sabor explodiu em sua boca. Não era doce; era complexo, terroso, com um toque de especiarias e um calor que desceu queimando sua garganta de uma forma deliciosa. Ela sentiu o corpo relaxar instantaneamente, as tensões da igreja desvanecendo-se como fumaça ao vento.
— É... é incrível — sussurrou Sonya, os olhos brilhando.
— É a vida, Sonya. Sem filtros — Lookmhee pegou seu maço de cigarros e acendeu um, a chama do isqueiro refletindo-se em suas pupilas escuras. Ela soltou a fumaça para o lado, observando Sonya com um fascínio que beirava a adoração.
Sonya não conseguia desviar o olhar. Havia algo na forma como Lookmhee segurava o cigarro entre os dedos longos, a maneira como ela inclinava a cabeça e a arrogância relaxada de sua postura que fazia o estômago de Sonya dar voltas. Pela primeira vez, a filha do pastor não viu apenas um demônio ou uma tentação; ela viu uma mulher que exalava um poder cru e uma sensualidade que a bíblia nunca mencionara. Lookmhee era sexy. Mesmo vestida de forma quase formal, ela parecia pronta para destruir o mundo ou possuí-lo inteiramente.
— Eu quero tentar — disse Sonya, apontando para o cigarro.
Lookmhee parou o movimento da mão no meio do caminho. Um brilho de surpresa cruzou seu rosto, seguido por um sorriso de pura satisfação.
— Tem certeza? Seus pulmões são puros, pequena ovelha. Isso vai manchá-los.
— Você já manchou minha alma hoje, Lookmhee. O que é um pouco de fumaça? — rebateu Sonya, a teimosia brilhando em seus olhos castanhos.
Lookmhee não disse nada. Ela apenas se aproximou, invadindo o espaço de Sonya, e colocou o cigarro entre os lábios da jovem. O toque dos dedos frios de Lookmhee contra o rosto de Sonya fez a pele dela formigar.
— Aspire devagar — instruiu a tirana, a voz baixa e rouca. — Sinta o fogo entrar.
Sonya obedeceu. A primeira tragada a fez tossir, o peito ardendo, mas ela se recusou a afastar o cigarro. Lookmhee colocou a mão nas costas de Sonya, sustentando-a, o toque possessivo e protetor ao mesmo tempo. Na segunda tentativa, Sonya conseguiu segurar a fumaça. O mundo pareceu girar um pouco mais rápido. Ela soltou o ar, observando a névoa cinzenta se dissipar entre as duas.
— Você é uma aluna dedicada — elogiou Lookmhee, os olhos fixos nos lábios de Sonya. — O que mais você quer aprender? O que mais este mundo de sombras pode te dar que o seu Deus negou?
Sonya deixou a taça de vinho de lado e encarou a mulher à sua frente. Havia tantas perguntas, tanta confusão em sua mente, mas uma dúvida se sobressaía a todas as outras.
— Por que eu? — perguntou Sonya, a voz carregada de uma vulnerabilidade inteligente. — Você viveu eras, Lookmhee. Você viu rainhas de verdade, viu impérios. Por que se dar ao trabalho de perseguir a filha de um pastor em uma cidadezinha esquecida? Por que me chamar de sua rainha?
Lookmhee apagou o cigarro no cinzeiro de cristal com uma lentidão deliberada. Ela se inclinou para frente, diminuindo a distância até que suas testas quase se tocassem. O cheiro de tabaco, vinho e o perfume amadeirado de Lookmhee envolveram Sonya como um manto.
— Porque você é a única coisa real que eu encontrei em séculos, Sonya — confessou Lookmhee, e pela primeira vez, a arrogância deu lugar a uma sinceridade brutal. — O mundo está cheio de pessoas que pecam por fraqueza ou que rezam por medo. Mas você... você tem uma luz que não vem da fé, vem da sua própria essência. Você me desafia. Você me olha nos olhos e não se curva, mesmo quando está aterrorizada.
Lookmhee levou a mão ao rosto de Sonya, o polegar traçando as sardas sobre o nariz.
— Eu não quero apenas corromper você, Sonya. Eu quero ver você florescer na escuridão. Eu quero dar a você o que ninguém mais pode: a verdade sobre quem você é. Eu não aceitaria viver em um mundo onde você não estivesse ao meu lado. Se o inferno for o único lugar onde posso te ter, então eu queimarei o céu para garantir que você fique.
Sonya sentiu o coração disparar. A possessividade de Lookmhee era assustadora, mas também era a coisa mais inebriante que já sentira. Ninguém jamais olhara para ela daquela forma — como se ela fosse o centro do universo, uma divindade a ser adorada em vez de uma serva a ser moldada.
— Você disse que faria qualquer coisa que eu quisesse — lembrou Sonya, a voz quase um sussurro.
— Qualquer coisa — reafirmou Lookmhee. — Peça, e eu farei. Eu me curvarei perante você se for esse o seu desejo. Minha lealdade é sua, Sonya Pedersen. Para sempre.
Sonya olhou para a cicatriz no canto da boca de Lookmhee e, movida por um impulso que desafiava toda a sua criação, estendeu a mão e tocou a marca com a ponta dos dedos.
— Ensine-me a ser como você — pediu Sonya. — Ensine-me a não ter medo do que eu desejo.
Lookmhee fechou os olhos por um momento, apreciando o toque da jovem. Quando os abriu, havia uma promessa de caos e prazer neles.
— Então prepare-se, minha rainha. O caminho é longo, e não há volta. Mas eu prometo... você nunca mais terá que rezar para um Deus que não te responde. De agora em diante, suas vontades serão a única lei.
Lookmhee puxou Sonya para mais perto, e desta vez, o beijo não foi apenas uma declaração de posse, mas um pacto selado em vinho e pecado. Sonya entregou-se ao toque, sentindo a força dos braços de Lookmhee ao seu redor, e percebeu que, embora o caminho para a salvação estivesse perdido, ela nunca se sentira tão encontrada.
— O que vem a seguir? — perguntou Sonya, recuperando o fôlego contra o pescoço da tirana.
Lookmhee sorriu contra a pele dela, um som vibrante e perigoso.
— A seguir, nós mostramos a este mundo o que acontece quando uma santa decide que o inferno é muito mais interessante.
Naquela noite, sob o olhar atento da tirana do inferno, a filha do pastor deixou de ser uma ovelha. Ela não sabia se Lookmhee era confiável, mas sabia de uma coisa: entre o silêncio do céu e o rugido de Lookmhee, ela escolheria o rugido todas as vezes. E Lookmhee, observando sua nova rainha com olhos devoradores, sabia que o jogo estava apenas começando. Ela daria a Sonya o mundo, e em troca, Sonya daria a Lookmhee a única coisa que importava: a eternidade de uma alma que se recusava a ser domada.