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Hellish devotion

O Canto do Cisne da Inocência

O relógio de parede na sala da casa paroquial marcava três da manhã quando a fechadura da porta da frente girou silenciosamente. O ar da noite, carregado com o cheiro de asfalto molhado e a adrenalina da fuga, seguiu as duas mulheres para dentro da residência silenciosa. Sonya caminhava com passos incertos, a cabeça leve devido ao vinho e à experiência avassaladora de estar nos braços de uma entidade que desafiava a própria lógica da criação.

Lookmhee, no entanto, não possuía nada de incerto. Seus passos eram pesados, possessivos, marcando o território que ela já considerava seu. Ela não se escondeu nas sombras; pelo contrário, parecia desafiá-las a revelar sua presença.

— Você está tonta, pequena ovelha — comentou Lookmhee, a voz um sussurro grave que vibrou no corredor estreito.

— Um pouco — admitiu Sonya, encostando-se na parede. — Meu pai... ele tem o sono leve. Você precisa ir, Lookmhee. Se ele te vir aqui...

— Deixe que veja — interrompeu a tirana, aproximando-se e envolvendo a cintura de Sonya com um braço firme, puxando-a para si. — Eu não me escondo de mortais, muito menos de um que usa um colarinho branco para esconder a própria insignificância.

Com uma facilidade assustadora, Lookmhee guiou Sonya escada acima. Ao chegarem ao quarto da jovem, um santuário de paredes brancas, crucifixos de madeira e cheiro de lavanda, o contraste com a figura de Lookmhee tornou-se quase insuportável. A mulher de 1,85m, vestida de preto e exalando o aroma proibido de tabaco e poder, parecia uma mancha de tinta em uma tela virgem.

Com uma gentileza inesperada que desarmou Sonya, Lookmhee ajudou a garota a se sentar na cama. Ela não agiu com a violência que sua reputação sugeria; em vez disso, retirou os sapatos de Sonya e a cobriu com o edredom com um cuidado quase sagrado. Sonya era seu tesouro, sua soberana em formação, e Lookmhee a tratava com uma devoção que beirava o fanatismo.

— Durma, Sonya — ordenou Lookmhee, sentando-se na beirada da cama e acariciando as sardas no rosto da jovem com o polegar. — Eu estarei aqui. Nada vai tocar em você. Nem Deus, nem os pesadelos.

Sonya, vencida pelo cansaço e pelo efeito do álcool, fechou os olhos, sentindo a mão fria de Lookmhee em seu rosto como a única âncora em um mar revolto.

A manhã chegou com a sutileza de um trovão.

O Pastor Pedersen, um homem cujos dias eram regidos pela disciplina e pelo temor ao Senhor, abriu a porta do quarto da filha para chamá-la para a oração matinal. O que ele encontrou, no entanto, foi uma visão saída das profundezas do que ele mais temia.

Sua filha, a joia da paróquia, dormia profundamente. E ao lado dela, deitada sobre os lençóis, estava a figura imponente de Lookmhee Punyapat. A tirana estava acordada, apoiada em um cotovelo, observando Sonya com uma expressão de adoração possessiva. Ela nem sequer se deu ao trabalho de se levantar quando o pastor entrou.

— O QUE É ISSO? — O grito do pastor ecoou pela casa, fazendo Sonya despertar sobressaltada. — Sonya! Saia de perto dessa... dessa abominação!

Sonya sentou-se rapidamente, o coração martelando.

— Pai! Eu...

— Silêncio! — O homem estava lívido, a veia em sua testa pulsando. — Você está na cama com uma mulher? Com essa criatura que todos sabem ser o próprio pecado encarnado? Você vai para o inferno, Sonya! Você está condenando sua alma ao fogo eterno!

Lookmhee levantou-se lentamente. A diferença de altura entre ela e o pastor era cômica, se não fosse aterrorizante. Ela caminhou em direção a ele, cada passo fazendo o chão de madeira ranger sob o peso de sua autoridade milenar.

— Você fala muito de um lugar que não conhece, pastor — disse Lookmhee, a voz carregada de um sarcasmo cortante. — O inferno não é um lugar para ela. O inferno é onde eu reino, e ela será a rainha. Mas você... você é apenas um ruído irritante.

Em um movimento rápido demais para os olhos humanos, Lookmhee agarrou o colarinho do pastor e o forçou a cair de joelhos. A pressão que ela exercia era descomunal.

— Lookmhee, não! — gritou Sonya, pulando da cama e segurando o braço da tirana. — Por favor, não o machuque!

Lookmhee olhou para Sonya, e por um breve segundo, a fúria em seus olhos escuros vacilou diante da súplica da jovem. Ela apertou a mandíbula, a cicatriz no canto da boca brilhando.

— Ele te insultou, Sonya. Ele te chamou de condenada — rosnou Lookmhee. — Eu deveria arrancar a língua dele e oferecê-la a você como um presente.

— Eu vou te exorcizar! — berrava o pastor, mesmo de joelhos, tentando alcançar o pequeno crucifixo em seu bolso. — Saia desta casa, demônio! Em nome de...

Lookmhee soltou uma gargalhada sombria e, com um gesto negligente da mão livre, sussurrou uma palavra em uma língua antiga e gutural. Instantaneamente, o pastor tentou gritar, mas nenhum som saiu. Sua boca se movia freneticamente, mas ele estava mudo, selado por um feitiço de silêncio.

— Pronto — disse Lookmhee, soltando o homem como se ele fosse lixo. — Ele é chato para caralho. Agora podemos conversar em paz.

Sonya estava pálida, olhando do pai humilhado no chão para a mulher arrogante à sua frente.

— Ele é meu pai, Lookmhee. Você não pode simplesmente... calá-lo assim.

— Eu posso fazer o que eu quiser — rebateu Lookmhee, aproximando-se de Sonya e envolvendo sua cintura com uma possessividade que não admitia resistência. — Ele não merece ouvir a sua voz. Ele não merece a sua explicação.

— Pai, por favor, tente entender — Sonya começou, aproximando-se do homem que ainda tentava, em vão, proferir maldições. — Ela... ela me mostrou coisas que eu nunca soube que existiam. Eu não sei se é certo, eu não sei se é sagrado, mas eu me sinto viva pela primeira vez!

O pastor apenas balançava a cabeça, os olhos cheios de lágrimas de raiva e decepção, apontando para Lookmhee como se apontasse para a própria morte.

Lookmhee, farta daquela cena de moralismo barato, segurou o queixo de Sonya e a forçou a olhar para ela.

— Olhe para mim, Sonya. Esqueça ele. Esqueça as regras dele.

— Eu não sei o que escolher, Lookmhee — sussurrou Sonya, as lágrimas começando a cair. — O caminho dele é o que eu conheço, é o que é seguro... mas você...

— Eu sou o destino — interrompeu Lookmhee.

Para selar o destino da jovem e humilhar definitivamente o homem aos seus pés, Lookmhee inclinou-se e beijou Sonya. Foi um beijo profundo, lento e carregado de uma luxúria que profanava cada centímetro daquele quarto "sagrado". Ela fez questão de que o pastor visse cada detalhe, a forma como Sonya, apesar da dúvida, correspondia ao toque, a forma como as mãos da filha do pastor se perdiam nos cabelos pretos da tirana.

Quando se afastaram, o silêncio no quarto era absoluto, quebrado apenas pela respiração pesada de Sonya.

Lookmhee virou-se para o pastor, que ainda estava de joelhos, e ergueu o queixo dele com a ponta da bota, obrigando-o a olhar para a filha corrompida.

— Ouça bem, insolente — disse Lookmhee, a voz fria como o gelo profundo. — Ela não é mais sua filha. Ela não pertence a este altar de hipocrisia. Ela é minha futura soberana, e eu cuidarei dela com uma devoção que seu Deus jamais sonhou em ter. Se você tentar interferir, se você ousar dirigir a ela uma palavra de julgamento quando o feitiço passar... eu farei com que sua eternidade seja um ciclo sem fim de agonia. Fui clara?

O pastor apenas fechou os olhos, derrotado.

Lookmhee voltou sua atenção para Sonya. Sua expressão suavizou-se instantaneamente, tornando-se rendida e devota.

— Vamos sair daqui, minha rainha. Este lugar cheira a mofo e medo. Eu vou te mostrar o que é ser cuidada de verdade.

— Lookmhee... — Sonya olhou para o pai uma última vez. — Ele nunca vai me perdoar.

— O perdão é para os fracos, Sonya — disse Lookmhee, pegando a mão dela e entrelaçando seus dedos. — Nós não precisamos de perdão. Nós temos o mundo. E eu juro, pela minha própria existência, que nada nem ninguém vai impedir você de subir ao trono que eu preparei.

Sonya sentiu o peso da escolha. De um lado, o caminho estreito e silencioso da igreja. Do outro, a estrada vasta, violenta e fascinante que Lookmhee oferecia. Ela olhou para a mão da tirana, para a cicatriz no canto da boca que agora parecia um convite, e apertou os dedos de Lookmhee.

— Leve-me embora — pediu Sonya.

Lookmhee sorriu, um sorriso de triunfo absoluto que poderia ter feito os anjos chorarem.

— Com prazer, minha soberana.

Elas saíram do quarto, deixando para trás um homem mudo e uma vida de orações, caminhando em direção a um horizonte onde o profano era a única luz que importava. Sonya Pedersen não sabia se estava se salvando ou se perdendo, mas sob o olhar obsessivo e protetor de Lookmhee Punyapat, ela finalmente entendeu que preferia queimar no fogo daquela paixão do que congelar na pureza de sua antiga vida.

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