Herdeiros do Império
O Batismo de Fogo e Gelo
A neve caía lá fora, transformando a vasta floresta que cercava a fortaleza de Nikolai em um deserto branco e silencioso. Dentro das paredes de pedra e aço, a atmosfera era de um velório iminente, embora todos estivessem vivos. O sapatinho manchado de vermelho sobre a mesa de mogno parecia pulsar, um lembrete grotesco de que a segurança era uma ilusão que os Morningstar não podiam mais pagar.
Azazel estava parado diante da lareira, as chamas refletindo-se em seus olhos escuros, transformando-os em poços de obsidiana ardente. Ele não falava nada há dez minutos, e o silêncio dele era mais aterrorizante do que qualquer grito.
— Azazel, respire — pediu Belle, sua voz saindo como um sussurro quebrado. Ela estava sentada no sofá, com as mãos entrelaçadas para esconder o tremor que não cessava.
Ele se virou devagar. A expressão em seu rosto não era de um marido ou de um pai, mas do monstro que Nikolai criara para herdar um império de sombras.
— Eles entraram no perímetro, Belle. — A voz de Azazel era um fio de navalha. — Alguém dentro da nossa rede de transporte, ou pior, dentro desta casa, permitiu que aquele envelope chegasse à mesa de jantar. Isso não é apenas uma ameaça. É uma demonstração de que eles podem tocar em nós quando quiserem.
— O sapatinho... — Belle engoliu em seco, a imagem da mancha vermelha queimando sua retina. — É de Theodore?
— Não — interveio Damian Cross, aproximando-se com um tablet em mãos. — Verificamos o estoque de roupas do bebê. Estão todos lá. Aquele foi comprado especificamente para a mensagem. A substância é tinta acrílica misturada com essência de ferro para simular o cheiro de sangue. Anastasia quer que entremos em pânico. Ela quer que cometamos erros.
— Ela já conseguiu — murmurou Belle, olhando para o teto, onde o choro de Theodore finalmente havia cessado sob os cuidados de Evelyn.
Nikolai, que permanecia sentado em sua poltrona de couro como um rei antigo em um trono esquecido, bateu a bengala no chão. O som ecoou como um tiro.
— Chega de sentimentalismo! — trovejou o velho patriarca. — Azazel, você sabe o que isso significa. O pingente dos Volkov... aquele brasão não é usado desde que Mikhail morreu. Se Anastasia o desenterrou, ela não está agindo sozinha. Ela convocou o Conselho das Sombras.
Azazel tensionou os ombros.
— O Conselho? Eles não se envolvem em disputas domésticas, pai.
— Isso deixou de ser doméstico no momento em que um herdeiro Morningstar nasceu de uma mulher que não pertence ao nosso mundo — disse Nikolai, lançando um olhar gélido para Belle. — Para eles, Theodore é uma fraqueza genética. Para Anastasia, ele é o obstáculo entre ela e o trono que ela acredita ser dela por direito de linhagem.
Belle levantou-se, a indignação superando o medo por um breve momento.
— Eu não sou uma fraqueza. E meu filho não é um erro genético. Ele é um Morningstar, quer vocês queiram ou não.
Nikolai soltou uma risada seca, desprovida de humor.
— Gosto do seu espírito, menina. Mas espírito não para balas de precisão. Damian, quero um bloqueio total. Ninguém entra, ninguém sai. E chame Adrian Hayes. Quero que ele comece a "limpeza" nos setores periféricos. Se houve um traidor, eu quero a cabeça dele em uma bandeja antes do amanhecer.
— Sim, senhor — respondeu Damian, retirando-se imediatamente.
Azazel caminhou até Belle e envolveu-a em seus braços. O calor dele era a única coisa que a impedia de congelar por dentro.
— Eu vou subir para ver o Theo — sussurrou ele contra o cabelo dela. — Fique aqui com minha mãe. Não saia da vista de Ethan.
— Azazel, prometa-me uma coisa — disse Belle, segurando o rosto dele. — Não se torne o homem que eles querem que você seja. Não deixe que o ódio pela Anastasia apague o pai que eu vi hoje cedo.
Azazel não prometeu. Ele apenas a beijou na testa, um gesto que carregava o peso de uma despedida silenciosa, e saiu da sala com passos pesados.
No andar de cima, o quarto de Theodore era uma fortaleza dentro da fortaleza. Ethan Brooks estava postado do lado de fora da porta, a mão sempre próxima à arma no coldre. Dentro, a penumbra era cortada apenas por um abajur de luz quente. Evelyn Hart estava sentada em uma cadeira de balanço, observando o berço com uma expressão de vigilância serena. Atlas estava deitado aos pés do berço, as orelhas em pé, atento a cada estalo da madeira da casa antiga.
Quando Azazel entrou, o cão apenas abanou a cauda levemente, reconhecendo o dono. Evelyn levantou-se e fez um sinal para que ele se aproximasse.
— Ele é forte, Azazel — sussurrou a babá. — Dormiu logo após o alvoroço. O instinto dele é de sobrevivência, assim como o seu.
Azazel inclinou-se sobre o berço de carvalho. Theodore dormia com os punhos cerrados, uma pequena miniatura de determinação. O coração de Azazel, que ele passara anos tentando transformar em pedra, doía com uma intensidade que o assustava.
— Ele não deveria ter que crescer assim, Evelyn — disse Azazel, a voz rouca. — Eu queria que ele tivesse a vida que a Belle teve. Simples. Sem sombras.
— O destino dele foi selado pelo sobrenome, meu senhor — respondeu Evelyn com sabedoria. — Mas o caráter dele será moldado pelo amor que ele vir em vocês. Proteja a luz da Belle, e o Theodore nunca se perderá na escuridão.
De repente, um ruído baixo veio do rádio no cinto de Azazel. Era a voz de Adrian Hayes, urgente.
— Senhor, temos um problema no perímetro oeste. O sensor térmico captou movimento. Não é um drone desta vez. Temos intrusos.
Azazel olhou para o filho uma última vez. A ternura desapareceu, substituída pela máscara de gelo.
— Ethan! — chamou Azazel, saindo para o corredor. — Tranque esta porta por fora. Ninguém entra, exceto eu ou Damian. Se alguém tentar, você tem autorização para usar força letal.
— Entendido, senhor — respondeu Ethan, sua voz firme como o aço.
Azazel desceu as escadas correndo, encontrando Damian no hall de entrada. O chefe de segurança estava vestindo um colete tático e segurando um fuzil de assalto.
— Eles são rápidos — disse Damian. — Cortaram a energia da cerca externa. Estão usando a tempestade como cobertura.
— Quantos? — perguntou Azazel, pegando sua própria arma de um compartimento oculto na parede.
— Pelo menos seis identificados. Profissionais. Estão usando silenciadores.
— Eles querem o bebê? — A pergunta de Azazel foi curta.
— Ou a cabeça do patriarca. Ou a sua.
Nesse momento, as luzes da mansão piscaram e se apagaram. O gerador de emergência levou cinco segundos para ser ativado, mas esses cinco segundos de escuridão total foram o suficiente para que o caos se instalasse. O som de vidro quebrando ecoou vindo da ala leste, seguido pelo estalo seco de disparos abafados.
Lá embaixo, na sala, Phoebe e Belle se encolheram quando a escuridão os atingiu.
— Belle, venha comigo — ordenou Phoebe, pegando a mão da nora. — Há um abrigo sob a adega. Nikolai preparou isso para uma situação de cerco.
— E o Theodore? Eu não posso deixá-lo lá em cima! — gritou Belle, tentando se soltar.
— O Azazel está lá, Belle! E o Ethan! — Phoebe a segurou com uma força surpreendente. — Se você for para lá, será apenas mais um alvo para proteger. O lugar mais seguro para o bebê é onde o Azazel estiver, mas você precisa estar em segurança para que ele não se distraia!
Belle hesitou, o coração dividido entre o instinto materno de correr para o filho e a lógica cruel da guerra em que viviam. Antes que pudesse decidir, a porta da sala foi arrombada.
Dois homens vestidos de preto, com máscaras balaclava, entraram no recinto. Phoebe empurrou Belle para trás de uma mesa maciça.
— Fique embaixo! — gritou a sogra.
Phoebe Morningstar, a mulher que Belle sempre vira como uma figura de elegância e chá, puxou um pequeno revólver de prata de dentro de sua estola de pele. Ela disparou duas vezes. Um dos homens caiu, atingido no ombro, mas o outro avançou, disparando uma rajada que estilhaçou os cristais da cristaleira acima de Belle.
— Rendam-se e entreguem a mulher! — gritou o invasor em um sotaque russo carregado.
— Nunca! — respondeu Phoebe, preparando-se para atirar novamente.
Nesse instante, um vulto dourado saltou da escuridão do corredor lateral. Atlas, que de alguma forma conseguira escapar do quarto ou sentira o perigo lá embaixo, lançou-se sobre o homem mascarado. O rosnado do cão era um som primitivo, cheio de fúria protetora. Ele cravou os dentes no braço do invasor, derrubando-o no chão.
— Atlas! — Belle gritou, saindo de seu esconderijo.
O homem lutava com o cachorro, tentando apontar a arma para a cabeça do animal. Belle, agindo puramente por adrenalina, pegou um pesado decanter de cristal da mesa e, com toda a sua força, golpeou a cabeça do agressor. O homem desmaiou instantaneamente.
Atlas soltou o braço do homem, ofegante, e imediatamente se colocou na frente de Belle, rosnando para a porta onde mais passos podiam ser ouvidos.
— Belle! — A voz de Adrian Hayes surgiu do corredor. Ele entrou na sala, arma em punho, e relaxou visivelmente ao ver as duas mulheres vivas. — Graças a Deus. Damian limpou o corredor norte. Temos que levar vocês para o abrigo agora.
— Onde está o Azazel? — Belle perguntou, sua respiração saindo em espasmos.
— Ele está no andar de cima, garantindo que ninguém chegue ao berçário — explicou Adrian, enquanto ajudava Phoebe a se levantar. — A propriedade foi cercada, mas estamos retomando o controle. Anastasia enviou uma equipe de extração, não um exército. Ela foi arrogante.
Enquanto Adrian as escoltava para a passagem secreta na adega, Belle olhou para trás. Atlas a seguia de perto, o pelo dourado manchado com o sangue do invasor, mas os olhos brilhando com uma lealdade inabalável.
No andar de cima, Azazel estava no topo da escada. Três corpos jaziam no tapete persa. Suas mãos estavam sujas, e sua camisa branca estava rasgada, mas ele permanecia imóvel, como um sentinela do inferno. Damian aproximou-se, limpando o sangue de uma faca tática.
— Acabou, senhor. Os que sobreviveram recuaram para a floresta. Adrian está levando a senhora Morningstar e Belle para o abrigo.
Azazel guardou a arma. O silêncio voltou a reinar na casa, quebrado apenas pelo som do vento uivando nas frestas das janelas quebradas.
— Anastasia não esperava que reagíssemos tão rápido — comentou Damian.
— Ela não queria nos matar hoje, Damian — disse Azazel, olhando para a porta do quarto do filho. — Ela queria nos mostrar que pode entrar. Ela queria que eu sentisse o cheiro do medo da minha esposa.
Ele caminhou até o quarto. Ethan abriu a porta, e Azazel entrou. Theodore ainda dormia, milagrosamente alheio ao fato de que homens haviam morrido a poucos metros de seu berço. Evelyn estava pálida, mas firme.
Azazel sentou-se no chão, encostado na parede ao lado do berço, e cobriu o rosto com as mãos. A adrenalina estava baixando, deixando em seu lugar um vazio frio.
Horas depois, quando o sol começou a nascer sobre a neve, Belle e Phoebe foram autorizadas a sair do abrigo. A mansão cheirava a pólvora e produtos de limpeza, enquanto a equipe de Damian trabalhava para remover os vestígios do combate.
Belle encontrou Azazel no escritório de Nikolai. Ele estava sentado à mesa, com o pingente dos Volkov diante dele. Nikolai estava na janela, observando a floresta.
— Eles deixaram um rastreador no sapatinho — disse Azazel, sem olhar para Belle quando ela entrou. — Foi assim que nos acharam. Foi um erro meu não ter verificado o objeto antes de trazê-lo para dentro.
— Não foi um erro seu, Azazel — disse Belle, caminhando até ele e colocando as mãos em seus ombros. — Foi uma armadilha psicológica. E nós sobrevivemos.
— Por quanto tempo, Belle? — Ele se virou, e ela viu a dor em seus olhos. — Anastasia não vai parar. E o Conselho... meu pai tem razão. Eles vão exigir uma prova de que Theodore é digno do nome.
Nikolai virou-se, sua expressão mais séria do que Belle jamais vira.
— Há uma maneira de acabar com isso antes que se torne uma guerra de atrito. Uma aliança inesperada.
— Do que você está falando, pai? — perguntou Azazel.
— Amélia Petrov — disse Nikolai. — A família dela tem conexões com a antiga guarda russa que até os Volkov respeitam. Se conseguirmos que os Petrov declarem apoio formal ao herdeiro Morningstar, o Conselho não terá escolha a não ser recuar.
Belle franziu a testa.
— Amélia odeia a política da família dela. Ela se afastou de tudo isso.
— Então você terá que convencê-la, Belle — disse Nikolai friamente. — Porque a outra opção é continuarmos enterrando homens no nosso jardim até que não reste mais ninguém para cavar as covas.
Belle olhou para o pingente sobre a mesa. A peça de joalheria, que simbolizava décadas de ódio, parecia uma promessa de mais sangue. Ela pensou em Theodore, em sua pele macia e em seu cheiro de leite e vida.
— Eu falo com ela — decidiu Belle. — Mas se eu fizer isso, se eu trouxer Amélia para dentro dessa sujeira, eu quero a garantia de que Anastasia será eliminada. Não exilada, não contida. Eliminada.
Azazel olhou para a esposa com surpresa. A doçura melancólica de Belle estava sendo temperada pelo fogo da sobrevivência. Ele levantou-se e pegou a mão dela, beijando os nós dos dedos.
— Você tem a minha palavra, Rosabelle. Eu vou queimar o mundo dela até que não sobre cinzas.
Naquela manhã, enquanto Atlas brincava com um pedaço de corda no jardim, ignorando as marcas de pneus e as manchas na neve, Belle escreveu uma mensagem curta para Amélia. O jogo havia mudado de fase. A defesa não era mais suficiente; os Morningstar estavam prestes a atacar.
E em algum lugar, escondida na segurança de suas próprias sombras, Anastasia Volkov sorria ao receber a notícia de que o ataque havia falhado. Para ela, a falha era apenas o prelúdio do colapso. Ela sabia que a pressão transformaria Belle em algo diferente, e era essa transformação que ela mais desejava ver: a destruição da pureza que Azazel tanto amava.
A guerra dos Morningstar estava apenas começando, e o preço da vitória seria a própria alma da família.