Herdeiros do Império
O Batismo de Sangue e a Promessa de Ferro
A neve que caía sobre a propriedade de Nikolai no norte não era mais branca; para Belle, ela parecia manchada pelas sombras dos segredos que agora a cercavam. O silêncio que se seguiu ao ataque da noite anterior era pesado, um vácuo preenchido apenas pelo som rítmico da respiração de Theodore em seu berço. Belle observava o filho, sentindo uma mistura corrosiva de amor e terror. Ela sabia que cada grama de poder que os Morningstar possuíam era uma sentença de morte potencial para aquela criança inocente.
No andar de baixo, o escritório de Nikolai exalava o cheiro de tabaco caro e pólvora residual. Azazel estava de pé junto à janela, observando seus homens limparem os vestígios da incursão de Anastasia. Seus olhos, antes focados apenas em estratégia, agora carregavam uma centelha de algo muito mais perigoso: ódio puro e destilado.
— Amélia Petrov não é apenas uma amiga, Azazel — disse Belle, entrando no recinto com passos silenciosos. — Ela é o último fragmento de uma vida normal que eu ainda possuo. Se eu a trouxer para o centro deste conflito, eu a estarei condenando.
Azazel se virou, a expressão suavizando apenas um milímetro ao ver a esposa.
— O mundo normal morreu no momento em que os Volkov enviaram aquele sapatinho, Belle. — Ele caminhou até ela, segurando suas mãos com firmeza. — Amélia já está marcada. Se Anastasia souber que ela é sua única confidente, ela se tornará um alvo fácil para nos atingir. Trazê-la para o nosso lado, sob a proteção dos Morningstar e com a autoridade do nome Petrov, é a única forma de garantir que ela continue respirando.
Belle desviou o olhar para o pingente dos Volkov sobre a mesa. O brasão parecia zombar dela.
— Nikolai disse que a história se repete. Eu não quero ser a mulher triste daquele quadro, Azazel. Eu não quero ser um motivo para guerras.
— Você não é o motivo, Belle. Você é a recompensa — afirmou Azazel, sua voz baixando para um tom perigosamente possessivo. — E Theodore é o futuro. Se Amélia puder nos dar a aliança com a velha guarda russa, Anastasia perderá o apoio logístico que a mantém escondida. Nós a forçaremos a sair das sombras.
A porta do escritório se abriu e Damian Cross entrou, seguido por Adrian Hayes. Ambos pareciam exaustos, mas em alerta máximo.
— Senhor — disse Damian —, interceptamos uma comunicação de rádio de curto alcance vinda das colinas. Eles não recuaram totalmente. Estão esperando reforços.
Azazel soltou as mãos de Belle, sua postura voltando a ser a de um general.
— Eles acham que estamos encurralados. Ótimo. Adrian, prepare o jato privado. Belle irá encontrar Amélia na cidade. Quero uma escolta invisível, mas impenetrável. Ethan irá com ela.
— Azazel, eu posso fazer isso sozinha — interveio Belle. — Se eu aparecer cercada de soldados, Amélia vai se assustar e se fechar. Ela precisa ver a amiga dela, não a esposa de um mafioso.
— Você é as duas coisas agora — retrucou Nikolai, surgindo das sombras de sua poltrona. — E se esquecer disso, estará morta antes do meio-dia. Vá, fale com a Petrov. Use o que for necessário: lealdade, medo ou a memória da amizade de vocês. Mas não volte sem o apoio dela.
O trajeto de volta à cidade foi tenso. Belle viajava em um SUV blindado, com Atlas deitado aos seus pés. O cão parecia sentir a ansiedade dela, cutucando sua mão com o focinho úmido ocasionalmente. Ethan Brooks, no banco do motorista, mantinha os olhos fixos nos retrovisores, mudando de rota constantemente para evitar qualquer perseguição.
O encontro foi marcado em uma galeria de arte isolada, um lugar que Amélia costumava frequentar para escapar de seus próprios demônios familiares. Quando Belle entrou, o ambiente estava frio e silencioso, preenchido apenas por esculturas abstratas que pareciam gritar em silêncio.
Amélia estava parada diante de uma tela em branco, os braços cruzados. Ela não se virou quando ouviu os passos.
— Eu sabia que você viria — disse Amélia, sua voz ecoando nas paredes de mármore. — Mas esperava que demorasse mais alguns meses até que o mundo dos Morningstar te engolisse por completo.
— Amélia, eu preciso de ajuda — começou Belle, aproximando-se com cautela.
Amélia se virou, e Belle notou as olheiras profundas sob os olhos da amiga.
— Ajuda? Belle, meu pai me deserdou há três anos porque eu me recusei a casar com um dos tenentes dele. Minha família é um ninho de cobras que faz os Morningstar parecerem amadores em termos de crueldade. O que você quer de mim?
— Quero que você use o seu nome. O Conselho das Sombras está se movendo contra o Theodore. Anastasia Volkov está manipulando as antigas alianças russas para declarar meu filho ilegítimo perante a máfia. Se os Petrov — a sua linhagem — declararem que Theodore Morningstar é um herdeiro legítimo e sob sua proteção, o Conselho recuará.
Amélia soltou uma risada amarga.
— Você quer que eu volte para o inferno de onde escapei. Você quer que eu me sente à mesa com o meu pai e peça um favor em nome de um bebê que ele nem conhece.
— Eu quero que você salve a vida do meu filho — disse Belle, sua voz subindo de tom, carregada de uma desesperança real. — Eles atacaram a mansão ontem à noite, Amélia. Houve mortes. Eles deixaram um sapatinho de bebê manchado de sangue na minha mesa de jantar. Eu não tenho mais escolha. Se você não me ajudar, eu vou perder tudo.
Amélia hesitou. O olhar de Belle não era mais o da jovem humilde e gentil que ela conhecera anos atrás. Havia um aço novo ali, uma dureza forjada pelo medo.
— E o que eu ganho com isso, Belle? Além de um alvo nas minhas costas?
— A proteção total de Azazel. E a minha lealdade eterna. Se você fizer isso, os Morningstar serão seus devedores. Ninguém nunca mais ousará tocar em um Petrov enquanto você estiver sob a nossa sombra.
Amélia caminhou até a janela, observando a rua lá fora. Ela viu Ethan Brooks encostado no carro, a mão sob o paletó. Viu a precisão milimétrica da segurança.
— Azazel Morningstar não faz alianças, Belle. Ele faz aquisições.
— Desta vez é diferente — afirmou Belle. — Desta vez, sou eu quem está pedindo. Pela nossa amizade. Por favor.
Amélia suspirou, fechando os olhos.
— Eu vou falar com meu pai. Mas você não tem ideia do que está pedindo, Belle. Para os Petrov, nada é de graça. Eles vão exigir algo em troca que Azazel pode não estar disposto a dar.
— Ele dará qualquer coisa — garantiu Belle, embora uma pequena parte de sua mente se perguntasse se ela estava prometendo mais do que podia cumprir.
Enquanto isso, de volta à fortaleza, Azazel e Damian interrogavam o único sobrevivente do ataque, o homem que Atlas havia derrubado. Ele estava amarrado a uma cadeira de metal em uma sala sem janelas nos porões da propriedade.
— Quem te enviou? — perguntou Azazel, sua voz calma, o que era infinitamente mais assustador do que se estivesse gritando.
O homem cuspiu sangue no chão, rindo entre dentes quebrados.
— Você está perdendo seu tempo, Morningstar. Anastasia já ganhou. Ela não precisa te matar. Ela só precisa te ver quebrar. O Conselho já deu o veredito. O bastardo não viverá para ver o primeiro aniversário.
Azazel deu um passo à frente, segurando o queixo do homem com uma força brutal.
— O nome dele é Theodore Morningstar. E ele será o último rosto que a sua linhagem verá antes de eu extinguir cada um de vocês. Onde ela está?
— Ela está em todos os lugares — sibilou o homem. — Ela está nas suas contas bancárias, nos seus segredos de família... ela está até nos olhos da sua esposa. Você acha que conhece a Belle? Você não sabe nada sobre o que o pai dela, Jeremyah, fez para protegê-la no passado.
Azazel congelou.
— Do que você está falando?
— Pergunte ao velho Nikolai — disse o homem, o sorriso se alargando. — Pergunte por que Jeremyah Miller, um simples trabalhador, foi escolhido para ser o pai da mulher de um Morningstar. Não foi coincidência, Azazel. Foi uma dívida de sangue paga com a vida de uma filha.
Azazel desferiu um soco que silenciou o prisioneiro instantaneamente. Ele se virou para Damian, que observava tudo com uma expressão de choque controlado.
— Traga meu pai aqui. Agora.
Minutos depois, Nikolai entrou na sala de interrogatório, sua bengala batendo ritmicamente no concreto. Ele olhou para o prisioneiro desacordado e depois para o filho.
— O que esse lixo disse para te deixar nesse estado? — perguntou Nikolai.
— Ele mencionou Jeremyah Miller. Disse que o casamento de Belle comigo não foi um acaso. Disse que houve uma dívida.
Nikolai suspirou, parecendo subitamente muito mais velho. Ele caminhou até um canto da sala, evitando o olhar de Azazel.
— Jeremyah era um homem bom, Azazel. Mas ele trabalhava para os Volkov antes de você nascer. Ele era o motorista de Mikhail. Na noite em que Mikhail morreu, Jeremyah foi quem o traiu. Ele salvou a minha vida naquele dia, e em troca, eu prometi que cuidaria dele e da família que ele formasse.
— Você planejou isso? — a voz de Azazel era um trovão contido. — Você escolheu a Belle para mim anos atrás como parte de um acerto de contas?
— Eu escolhi uma mulher que pudesse te dar o que nenhuma mulher da máfia daria: humanidade — respondeu Nikolai, virando-se com fogo nos olhos. — Mas eu não sabia que você se apaixonaria por ela dessa forma. Eu não sabia que ela se tornaria sua maior força e sua maior fraqueza. Anastasia sabe dessa ligação. Ela sabe que, se revelar a Belle que o pai dela foi um traidor e um assassino a mando dos Morningstar, a confiança dela em você morrerá.
Azazel sentiu o chão sumir sob seus pés. Toda a base de seu relacionamento com Belle — a pureza, a ideia de que ela era o seu refúgio do mundo sombrio — era construída sobre uma mentira arquitetada por seu próprio pai.
— Se você contar a ela, Nikolai, eu juro que...
— Eu não contarei — interrompeu o patriarca. — Mas Anastasia contará. É por isso que ela está esperando. Ela quer que Belle te odeie. Ela quer que Belle pegue Theodore e fuja de você, deixando-o vulnerável.
Nesse momento, o celular de Azazel vibrou. Era uma mensagem de Belle: "Amélia aceitou. Estamos voltando. Ela quer encontrar você e Nikolai amanhã. Esteja preparado."
Azazel guardou o telefone, sentindo o peso do segredo esmagar seu peito. Ele olhou para o pai, uma fúria fria emanando de cada poro.
— Saia da minha frente antes que eu esqueça que somos do mesmo sangue.
Nikolai saiu sem dizer mais nada. Azazel ficou sozinho na sala fria, cercado pelos fantasmas de traições passadas. Ele sabia que a aliança com os Petrov era necessária, mas o preço estava ficando alto demais. Ele estava protegendo o filho de inimigos externos, enquanto os segredos internos ameaçavam destruir o único porto seguro que ele já conhecera.
Ao anoitecer, Belle retornou à mansão. Ela estava exausta, mas havia uma luz de triunfo em seus olhos. Ela encontrou Azazel no quarto de Theodore, observando o bebê dormir. Atlas estava deitado ao lado do berço, como sempre.
— Conseguimos, Azazel — sussurrou ela, aproximando-se e abraçando-o por trás. — Amélia vai nos ajudar. Ela vai falar com o pai dela. O Conselho não terá escolha.
Azazel se virou e a envolveu em um abraço tão apertado que Belle quase perdeu o fôlego. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, inalando o perfume de baunilha que sempre o acalmava.
— Eu te amo, Belle — disse ele, sua voz carregada de uma emoção que ela nunca tinha ouvido antes. — Mais do que a minha própria vida. Mais do que este império.
Belle recuou um pouco, estranhando a intensidade do tom dele.
— Eu também te amo, Azazel. O que aconteceu? Você parece... diferente.
— É apenas o cansaço — mentiu ele, a primeira de muitas mentiras que ele teria que manter para protegê-la da verdade sobre seu pai. — Estou feliz que você esteja segura.
Longe dali, em uma cobertura luxuosa, Anastasia Volkov observava a cidade através de uma parede de vidro. Em sua mão, ela segurava um arquivo antigo com o nome de Jeremyah Miller gravado na capa.
— Deixe que eles façam suas alianças — murmurou ela para si mesma, um sorriso cruel iluminando seu rosto. — Deixe que Amélia Petrov tente salvá-los. Quando Belle descobrir que o sangue de Mikhail Volkov está nas mãos do pai dela e que Azazel sempre soube disso, não haverá exército no mundo capaz de impedir a destruição dos Morningstar.
Ela pegou um isqueiro de ouro e queimou uma ponta do arquivo, observando a chama consumir o papel.
— O batismo de Theodore não será com água benta, Azazel. Será com as lágrimas da mulher que você ama e o sangue da verdade que você tentou esconder.
A noite caiu sobre as montanhas, trazendo consigo uma tempestade ainda maior do que a anterior. Dentro da fortaleza, Belle adormeceu nos braços de Azazel, sentindo-se, pela primeira vez em dias, esperançosa. Ela não sabia que o verdadeiro inimigo não estava apenas batendo no portão, mas já vivia dentro de seu coração, alimentado por um silêncio que, quando quebrado, mudaria o destino dos Morningstar para sempre.
No berço, Theodore se mexeu em sonhos, alheio ao fato de que ele era o centro de um furacão que estava apenas começando a ganhar força. O herdeiro estava seguro por enquanto, mas o custo dessa segurança era uma dívida que seria cobrada com juros de alma e sangue.